{"id":10914,"date":"2012-09-14T07:16:00","date_gmt":"2012-09-14T09:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/09\/cinecasulofilia-rosetta\/"},"modified":"2012-09-14T07:16:00","modified_gmt":"2012-09-14T09:16:00","slug":"cinecasulofilia-rosetta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/09\/cinecasulofilia-rosetta\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;Rosetta&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-EXWLICxU-hc\/UFHpoBT4SuI\/AAAAAAAAGFQ\/_YWD9U5X_Ww\/s1600\/32156.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" hea=\"true\" height=\"426\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/32156.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div>Nesta sexta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o <strong>da nossa coluna sobre cinema, a Cinecasulofilia, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda<\/strong>. Como habitualmente, <a href=\"http:\/\/www.cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">publicada em parceria com o blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<p><strong><em>Rosetta<\/em><\/strong><\/p>\n<div>Dois filmes do \u201ccinema contempor\u00e2neo\u201d pelos quais tenho enorme apre\u00e7o s\u00e3o Caf\u00e9 Lumi\u00e8re e Rosetta. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tenho profunda admira\u00e7\u00e3o por esse filme dos Dardennes. Creio que Rosetta atualiza essa enorme linhagem que \u00e9 o neorrealismo italiano zavattiniano, cuja maior expres\u00e3o \u00e9 Ladr\u00f5es de Bicicletas. \u00c9 curioso pensarmos que, se de um lado, esse filme de De Sica envelheceu, parecendo, \u00e0s vezes, um melodrama lacrimoso, de outro lado, me parece ser um filme extremamente refinado, a ponto de ainda hoje ser uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia que n\u00e3o se pode ignorar, ainda que se busque avan\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o a suas poss\u00edveis limita\u00e7\u00f5es. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vejo Rosetta como um grande herdeiro dessa linhagem, que \u00e9 essa \u00e9tica humana, em como encenar esse drama humano. Mais do que esses cacoetes (atores n\u00e3o profissionais, cen\u00e1rios em loca\u00e7\u00f5es, etc.) enxergo a grande contribui\u00e7\u00e3o do neorrealismo italiano\u00e0 sua \u00e9tica da encena\u00e7\u00e3o. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 poss\u00edvel pensar num cinema humanista do pr\u00e9-guerra: o cinema silencioso n\u00f3rdico (Dreyer mas tamb\u00e9m Sjostrom), a \u201cnova objetividade\u201d alem\u00e3 e at\u00e9 mesmo um certo cinema americano, como o cinema de King Vidor ou p\u00e9rolas perdidas como um Aurora ou Lonesome. Mas a contribui\u00e7\u00e3o do neorrealismo \u00e9 na forma \u00e9tica em como se encena esse drama moral.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Rosetta, de alguma forma, \u00e9 herdeiro dessa tradi\u00e7\u00e3o neorrealista zavattianiana, passando tamb\u00e9m pelo cinema de Bresson. \u00c9 mais dif\u00edcil argumentar que Bresson \u00e9 herdeiro do neorrealismo, mas, de alguma forma, \u00e9 poss\u00edvel pensar alguns pontos em comum. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto, em rela\u00e7\u00e3o a Ladr\u00f5es de Bicicletas, um filme como Mouchette, guarda alguns pontos em comum e muitas diferen\u00e7as. Mouchette me parece mais brechtiano que Ladr\u00f5es de Bicicletas, seja pela aus\u00eancia de di\u00e1logos, seja pela aus\u00eancia de m\u00fasica. Ou especialmente pela forma como a encena\u00e7\u00e3o olha para o corpo e para o olhar desse \u201cn\u00e3o-ator\u201d. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>De outro lado, ambos os filmes se centram no drama de uma pessoa, ou ainda, pela perambula\u00e7\u00e3o de uma pessoa pelo espa\u00e7o de uma cidade, e, enquanto caminham, percorrem as institui\u00e7\u00f5es. S\u00e3o ambos filmes sobre o espa\u00e7o cinematogr\u00e1fico e ambos s\u00e3o filmes sobre a rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com as institui\u00e7\u00f5es. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ou, se acharem melhor, s\u00e3o dois filmes sobre a luta entre o livre arb\u00edtrio e a liberdade. S\u00e3o filmes sobre a liberdade. Ou ainda, s\u00e3o filmes sobre a solid\u00e3o. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bresson \u00e9 mais seco, menos dramaticamente dirigido, Mouchette n\u00e3o procura algo em particular, ela \u00e9 levada pelas circunst\u00e2ncias. Sua luta \u00e9 em sobreviver, s\u00f3 que ela est\u00e1 condenada por \u201colhar demais\u201d. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ela consegue ver o que h\u00e1 al\u00e9m dos olhos das pessoas \u2013 e isso \u00e9 que faz o filme t\u00e3o duro, a forma frontal como Bresson encena isso (exemplo: a velha que d\u00e1 roupas novas s\u00f3 quando a m\u00e3e de Mouchette morre, isto \u00e9, morta ela deve estar bem vestida, enquanto em vida n\u00e3o tinha o que vestir. Mouchette reage a isso raspando os p\u00e9s de lama no tapete da sala da velha \u2013 \u00e9 esse magistral plano dos p\u00e9s de Mouchette que mostra o cinema pol\u00edtico de Bresson). <\/div>\n<div><\/div>\n<div>De alguma forma, Mouchette avan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao humanismo de Ladr\u00f5es de Bicicletas, mas enquanto este parece um pouco frouxo, Bresson busca \u201cum olhar menos populista\u201d, \u201caposta menos nas f\u00f3rmulas do melodrama\u201d, \u201ctranscende criticamente o que poderia ser um filme de g\u00eanero\u201d. Mas ambos os filmes buscam uma forma \u00e9tica de encenar um drama humano, que envolvem personagens que lutam pela sua dignidade diante de um meio in\u00f3spito.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acredito que Rosetta, de alguma forma, seja uma esp\u00e9cie de s\u00edntese entre o humanismo frouxo (o melodrama) de Ladr\u00f5es de Bicicletas e o humanismo brechtiano de Mouchette. Como em Mouchette, uma menina que precisa sobreviver sozinha. Como em Ladr\u00f5es de Bicicletas, uma pessoa que tenta reconstruir uma fam\u00edlia e que procura um emprego. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas enquanto Mouchette tinha enorme consci\u00eancia de sua posi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, em Rosetta, a personagem (foto) n\u00e3o percebe a si mesma. Na sua luta desesperada por ter \u201cuma vida normal\u201d, \u201ccuste o que custar\u201d, Rosetta acha que a luta pela sobreviv\u00eancia \u2013 litaralmente um processo darwiniano, de sele\u00e7\u00e3o natural, da vit\u00f3ria \u201cdos mais fortes sobre os mais fracos\u201d \u2013 acontece pela for\u00e7a, por sua desumaniza\u00e7\u00e3o. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ela \u00e9 levada a acreditar assim pelas circunst\u00e2ncias do meio em que se insere. A rela\u00e7\u00e3o do meio com a personagem \u00e9 mais sutil: ela \u00e9 levada a crer, pelas circunst\u00e2ncias, que s\u00f3 ser\u00e1 bem sucedida se agir assim. Ela \u00e9 cega; n\u00e3o consegue ver. Assim como em Ladr\u00f5es de Bicicletas, a sa\u00edda \u00e9 o trabalho: ela precisa ter um emprego. Ao longo do filme ela vai aprofundando sua l\u00f3gica autodestrutiva, tipicamente moldada pelo mundo c\u00e3o capitalista, e ao mesmo tempo vai, sem se dar conta, se \u201capercebendo\u201d de sua cegueira. Ela vai tomando consci\u00eancia do absurdo de sua condi\u00e7\u00e3o a partir de sua fadiga.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De qualquer forma ao final do filme h\u00e1 uma mudan\u00e7a (razoavelmente) abrupta (no fundo nem t\u00e3o abrupta assim). De um lado, \u00e9 um final bem pr\u00f3ximo ao de Ladr\u00f5es de Bicicletas. O protagonista se d\u00e1 conta de seu crime moral, arrepende-se, percebe que o aprofundamento de seu processo em espiral s\u00f3 vai levar ao desespero e ao autoaniquilamento (\u201ccrime e castigo\u201d). <\/div>\n<div><\/div>\n<div>No filme de De Sica, o filho d\u00e1 a m\u00e3o ao pai, no auge de sua decad\u00eancia moral. O filho perdoa o pai: a fam\u00edlia unida \u00e9 a chave para o processo de resist\u00eancia do dia-a-dia (\u00e9 como se durante todos os dias de sua vida Antonio Ricci lutasse contra a explora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, que rouba de si seu meio de produ\u00e7\u00e3o, mas ele deve continuar lutando sem desespero, com dignidade). Um dos mais bonitos planos do cinema: o filho pega a m\u00e3o do pai, e pela primeira vez, o homem chora, mas segue em frente. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>No filme dos Dardennes, Rosetta tamb\u00e9m cai. Ela tentara suic\u00eddio, assim como a personagem do filme de Bresson, mas quis o destino (ou melhor, claro, os diretores, deuses ex machina) que sua tentativa n\u00e3o tenha sido bem sucedida (ela n\u00e3o \u00e9 persistente como Mouchette, que tenta uma, duas, tr\u00eas vezes, at\u00e9 conseguir o seu intento). O \u201cdestino\u201d lhe d\u00e1 mais uma oportunidade. A\u00ed acontece essa virada. Uma epifania. Ela aceita ser ajudada. Uma m\u00e3o a ajuda a levantar-se do ch\u00e3o. Poderia haver um off \u201cque longo e sinuoso caminho tive que percorrer para chegar at\u00e9 a ti\u201d. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 o Bresson, mas n\u00e3o o de Mouchette, e sim o de Pickpocket. Ao mesmo tempo, assim como em Ladr\u00f5es de Bicicletas, algu\u00e9m lhe d\u00e1 a m\u00e3o. Rosetta talvez perceba \u2013 percebemos isso porque algo nos seus olhos brilha diferente, embora saibamos que nada brilha, \u00e9 apenas o efeito Kuleshov \u2013 que sozinha ela n\u00e3o vai chegar a lugar algum. Ela precisa perceber que precisa ser ajudada. Ela precisa aprender a receber afeto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Antes de aprender a amar, Rosetta precisa aprender a ser amada. A saber receber amor. Parece ser essa a contra resposta dos Dardennes ao pessimismo de Bresson. Mesmo no mundo materialista e violento contempor\u00e2neo, \u00e9 preciso reaprender a ser amado. \u00c9 isso o que faz Rosetta um pouco mais pr\u00f3ximo do neorrealismo de De Sica.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bresson pensava assim at\u00e9 um bom ponto de sua vida, at\u00e9 um momento em que desistiu de ter f\u00e9. <\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o da nossa coluna sobre cinema, a Cinecasulofilia, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda. 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