{"id":10824,"date":"2012-11-30T07:24:00","date_gmt":"2012-11-30T09:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/11\/cinecasulofilia-o-som-ao-redor\/"},"modified":"2012-11-30T07:24:00","modified_gmt":"2012-11-30T09:24:00","slug":"cinecasulofilia-o-som-ao-redor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2012\/11\/cinecasulofilia-o-som-ao-redor\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &quot;O Som ao Redor&quot;"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-K64yURtobp0\/ULeZhoo-NBI\/AAAAAAAAHCg\/rZf4Y723Ujc\/s1600\/o+som+ao+redor+ii.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"350\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/o+som+ao+redor+ii.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div><!--[if gte mso 9]><xml> <w:WordDocument>  <w:View>Normal<\/w:View>  <w:Zoom>0<\/w:Zoom>  <w:HyphenationZone>21<\/w:HyphenationZone>  <w:PunctuationKerning\/>  <w:ValidateAgainstSchemas\/>  <w:SaveIfXMLInvalid>false<\/w:SaveIfXMLInvalid>  <w:IgnoreMixedContent>false<\/w:IgnoreMixedContent>  <w:AlwaysShowPlaceholderText>false<\/w:AlwaysShowPlaceholderText>  <w:Compatibility>   <w:BreakWrappedTables\/>   <w:SnapToGridInCell\/>   <w:WrapTextWithPunct\/>   <w:UseAsianBreakRules\/>   <w:DontGrowAutofit\/>  <\/w:Compatibility>  <w:BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w:BrowserLevel> <\/w:WordDocument><\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml> <w:LatentStyles DefLockedState=\"false\" LatentStyleCount=\"156\"> <\/w:LatentStyles><\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 10]>\n\n<style> \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:\"Tabela normal\";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:\"\";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:\"Times New Roman\";  mso-ansi-language:#0400;  mso-fareast-language:#0400;  mso-bidi-language:#0400;} <\/style>\n\n<![endif-->Nesta sexta feira, ap\u00f3s interregno temos a volta da <b>coluna Cinecasulofilia<\/b>, assinada pelo cr\u00edtico, cineasta e professor <b>Marcelo Ikeda<\/b>. Como sempre, coluna publicada em conjunto com o <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">blog de mesmo nome<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><u><i><b>O Som ao Redor<\/b><\/i><\/u><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Gostaria de escrever com mais cuidado sobre O SOM AO REDOR, mas o tempo foi passando, as urg\u00eancias foram me corroendo, e s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel fazer alguns apontamentos para tocar em alguns pontos sobre a import\u00e2ncia desse filme para o cen\u00e1rio do cinema brasileiro contempor\u00e2neo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A principal contribui\u00e7\u00e3o de O SOM AO REDOR \u00e9 ser um filme brasileiro, buscar dialogar com quest\u00f5es caras ao Brasil e ao cinema brasileiro, fazer um painel social\/pol\u00edtico amplo de sua cidade, ser uma radiografia do atual estado de coisas, n\u00e3o querer dar as costas ao mundo para fazer cinema. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ainda assim, O SOM AO REDOR tem feito ampla carreira internacional, mostrando que n\u00e3o \u00e9 preciso se trancafiar em refer\u00eancias a cineastas da grife do cinema de arte para ter seu filme inclu\u00eddo no \u201cpante\u00e3o dos novos talentos do world cinema\u201d. O tratamento est\u00e9tico dado ao filme n\u00e3o vem ex ante do que se quer falar, mas se articula de forma org\u00e2nica. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Me parece que o objetivo primeiro do filme \u00e9 falar sobre o que est\u00e1 acontecendo HOJE no BRASIL, e enquanto se desenvolve isso, faz-se cinema. E n\u00e3o o contr\u00e1rio: \u201cquero fazer cinema que dialogue com xpto, vou procurar algo que se encaixe a isso\u201d. O filme n\u00e3o adere imediatamente aos cacoetes do cinema de arte t\u00e3o em voga nos grandes festivais, e que parece ser o principal fetiche (objeto de desejo) dos cineastas estreantes do pa\u00eds. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sua preocupa\u00e7\u00e3o parece ser, acima de tudo, um filme brasileiro, feito por brasileiros, que dialoga com quest\u00f5es brasileiras, feito para ser visto primeiramente por uma plateia brasileira, inteiramente tomado pelas quest\u00f5es de sua cidade, mais do que dialogar com influ\u00eancias ou refer\u00eancias de uma gram\u00e1tica cinematogr\u00e1fica ou de certos trejeitos dos principais autores em moda no cinema mundial no momento. N\u00e3o \u00e9 que ele n\u00e3o o fa\u00e7a, mas n\u00e3o parece ser a sua ambi\u00e7\u00e3o primeira, o seu ponto de partida. Claro, \u00e9 isso, n\u00e3o deixando de pretender fazer um cinema sofisticado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O SOM AO REDOR \u00e9 um painel ambicioso das rela\u00e7\u00f5es sociais\/pol\u00edticas em Recife, mas podemos, sem muitas distor\u00e7\u00f5es, extrapolar para o Brasil de hoje. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O filme se passa numa rua, \u201cnessa avenida chamada Brasil\u201d (aqui sim cabe a express\u00e3o \u201cAvenida Brasil\u201d&#8230;). Ali h\u00e1 um microcosmos de situa\u00e7\u00f5es, personagens e contextos que, para al\u00e9m de seu tom inusitado, suas tiradas de humor, s\u00e3o uma an\u00e1lise complexa do que vivemos. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Me parece que o ponto central do filme \u00e9 falar que essa \u201cpol\u00edtica da concilia\u00e7\u00e3o\u201d, esse \u201cjeitinho brasileiro\u201d de ir empurrando as tens\u00f5es e as contradi\u00e7\u00f5es do nosso estado de ser para debaixo do tapete, algum dia vai explodir. O filme tamb\u00e9m mostra que continuamos comprometidos at\u00e9 a medula, ainda que indiretamente, com as heran\u00e7as do coronelismo. Um dos resultados disso \u00e9 a \u201cpol\u00edtica do medo\u201d. <\/div>\n<p><\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-vPH7ak2aKiQ\/ULeZix5_0yI\/AAAAAAAAHCo\/E1BSsfkv9Bc\/s1600\/o-som-ao-redor.jpg\" imageanchor=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" height=\"280\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/o-som-ao-redor.jpg\" width=\"640\"><\/a><\/div>\n<p><\/p>\n<div><!--[if gte mso 9]><xml> <w:WordDocument>  <w:View>Normal<\/w:View>  <w:Zoom>0<\/w:Zoom>  <w:HyphenationZone>21<\/w:HyphenationZone>  <w:PunctuationKerning\/>  <w:ValidateAgainstSchemas\/>  <w:SaveIfXMLInvalid>false<\/w:SaveIfXMLInvalid>  <w:IgnoreMixedContent>false<\/w:IgnoreMixedContent>  <w:AlwaysShowPlaceholderText>false<\/w:AlwaysShowPlaceholderText>  <w:Compatibility>   <w:BreakWrappedTables\/>   <w:SnapToGridInCell\/>   <w:WrapTextWithPunct\/>   <w:UseAsianBreakRules\/>   <w:DontGrowAutofit\/>  <\/w:Compatibility>  <w:BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w:BrowserLevel> <\/w:WordDocument><\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml> <w:LatentStyles DefLockedState=\"false\" LatentStyleCount=\"156\"> <\/w:LatentStyles><\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 10]>\n\n<style> \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:\"Tabela normal\";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:\"\";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:\"Times New Roman\";  mso-ansi-language:#0400;  mso-fareast-language:#0400;  mso-bidi-language:#0400;} <\/style>\n\n<![en-->\u00c9 um filme ambicioso, pela sua dura\u00e7\u00e3o, pela sua ambi\u00e7\u00e3o de ser um painel amplo de um estado de coisas. Por sua narrativa epis\u00f3dica, por seu desejo de falar de forma sutil do que est\u00e1 acontecendo, pelo papel d\u00fabio de seu protagonista, O SOM AO REDOR \u00e9 o A DOCE VIDA do cinema brasileiro do s\u00e9culo XXI.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas como Kleber faz isso? Atrav\u00e9s de uma narrativa fragmentada, com um mosaico de personagens, com um filme essencialmente narrativo mas que ao mesmo tempo \u00e9 composto de fragmentos que n\u00e3o se encaixam perfeitamente. Ou seja, uma narrativa moderna. Vejo que algumas pessoas comentam que o roteiro \u00e9 composto por algumas \u201cpe\u00e7as desnecess\u00e1rias\u201d, j\u00e1 que, caso tiremos algumas de suas partes, n\u00e3o se altera a ess\u00eancia do todo. Fal\u00e1cia! <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esse \u00e9 o jogo d\u00fabio dessas narrativas fragmentadas. \u00c9 exatamente disso \u00e9 que \u00e9 feito o filme. De pe\u00e7as que n\u00e3o necessariamente se encaixam. H\u00e1 algo fora de lugar. Por outro lado, Kleber n\u00e3o faz \u201cmultiplot\u201d ou coisa do tipo. Por isso, \u00e9 muito saud\u00e1vel que as coisas n\u00e3o se encaixem perfeitamente, mas ao mesmo tempo esses \u201cepis\u00f3dios aparentemente soltos\u201d nos revelam muito da natureza daquele lugar e daquelas pessoas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>H\u00e1 ao mesmo tempo profundo tom de observa\u00e7\u00e3o sobre as contradi\u00e7\u00f5es de uma classe m\u00e9dia. Mas Kleber faz com generosidade. Uma das grandes li\u00e7\u00f5es de O SOM AO REDOR \u00e9 procurar fazer uma radiografia profunda de um estado de coisas mas sem ao mesmo tempo querer julgar os personagens, ou trat\u00e1-los como meras caricaturas. H\u00e1 vida ali. O coronel n\u00e3o \u00e9 totalmente mau; o vigilante n\u00e3o \u00e9 um brutamontes. Os personagens t\u00eam vida para al\u00e9m de ser meros estere\u00f3tipos, ou \u201crepresentantes de tipos\u201d. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O maior trunfo do filme \u00e9 seu profundo humanismo para com seus personagens um tanto pat\u00e9ticos, um tanto desesperados, um tanto oportunistas. Tenta observar suas limita\u00e7\u00f5es, entendendo o estado de coisas, mas ao mesmo tempo n\u00e3o \u00e9 um humanismo frouxo. Tudo ali vai acumulando uma tens\u00e3o que a qualquer momento vai explodir!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Talvez a posi\u00e7\u00e3o do realizador seja o ponto de vista daquele que no fundo \u00e9 seu personagem principal: Jo\u00e3o, representado por Gustavo Jahn, tamb\u00e9m realizador. (Se n\u00e3o \u00e9 a do realizador, pelo menos \u00e9 de boa parte do p\u00fablico de classe m\u00e9dia brasileiro que ir\u00e1 assistir ao filme, tipicamente representado pelos jovens eleitores de Freixo\/Roseno). Jo\u00e3o \u00e9 o boa-pra\u00e7a, o bem-intencionado que consegue vislumbrar a situa\u00e7\u00e3o mas que pouco consegue agir para modific\u00e1-la. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 um corretor de im\u00f3veis, neto do \u201ccoronel\u201d da \u201cAvenida Brasil\u201d. Exemplo t\u00edpico \u00e9 de uma reuni\u00e3o de condom\u00ednio, onde ele reclama, mas no fundo n\u00e3o impede a demiss\u00e3o do porteiro. O coitado do Jo\u00e3o no fundo \u00e9 um fraco, mal consegue uma mulher para si! Ele v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 bem intencionado mas \u00e9 impotente para modific\u00e1-la. Na verdade, n\u00e3o sabemos at\u00e9 que ponto ele quer transform\u00e1-la, j\u00e1 que tamb\u00e9m est\u00e1 comprometido com ela. E por a\u00ed vai.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 impressionante a maturidade da dire\u00e7\u00e3o de Kleber Mendon\u00e7a Filho, tendo em vista ser o seu primeiro longa metragem. Um filme de dire\u00e7\u00e3o: al\u00e9m de um olhar indiscut\u00edvel, \u00e9 um filme que conjuga roteiro, fotografia, montagem (excelente o \u00e1rduo trabalho de montagem de Jo\u00e3o Maria&#8230;), dire\u00e7\u00e3o de atores (uma lacuna do atual cinema brasileiro que \u00e9 dominado no filme, e com atores pouco conhecidos do p\u00fablico, que n\u00e3o est\u00e3o na grande m\u00eddia \u2013 com exce\u00e7\u00e3o de Irandhir), etc, etc. \u00c9 curioso tamb\u00e9m como \u00e9 poss\u00edvel identificar algumas pe\u00e7as de seus curtas-metragens ali, como um certo tributo ao caminho que o levou ao seu primeiro longa, mas sem que isso seja meramente uma dilui\u00e7\u00e3o ou afogue o filme no passado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 dif\u00edcil pensar para onde se vai depois desse primeiro longa. \u00c9 um trabalho que se prop\u00f5e grande e que consegue realizar suas ambi\u00e7\u00f5es, seja como proposta de cinema seja como realiza\u00e7\u00e3o em si. Se quisermos entender o que \u00e9 o Brasil de hoje a partir do cinema, talvez esse seja o filme pelo qual devemos come\u00e7ar!<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira, ap\u00f3s interregno temos a volta da coluna Cinecasulofilia, assinada pelo cr\u00edtico, cineasta e professor Marcelo Ikeda. 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