Em 1978, Beth Carvalho lançou o disco “De Pé No Chão”. Logo depois da faixa de abertura, a já clássica “Vou festejar”, o disco segue com uma música de Neném e Pintado chamada “Visual”. Nesta, o primeiro verso já é contundente na crítica “Depois que o visual virou quesito (…) o samba perdeu sua pujança ao curvar-se à circunstância imposta pelo dinheiro”.

No ano em que o LP foi lançado, a Beija Flor havia vencido seu terceiro campeonato e diferenciava-se das demais agremiações pela grandiosidade e pelo luxo. Devido àquela revolução estética, a suntuosidade passou a ditar regra. Curiosamente, após o aporte financeiro dos mecenas nas escolas de samba, e, junto ao luxo que elas passaram a ostentar, vieram os materiais altamente caros e específicos. Espelhos, tecidos, plumária e elementos decorativos caríssimos passaram a ter certa recorrência nos desfiles.

Porém, conforme o tempo foi passando, o carnaval, festa dinâmica que é, foi mudando um pouco o comportamento com relação à ostentação. Algumas escolas perderam os mecenas, o que forçou a utilização de recursos mais simples, ou de reaproveitar ainda mais os materiais, ou ainda a lançar mão de uma versatilidade maior de elementos para traduzir as sofisticações plásticas do profissional carnavalesco.

Além disso, o Brasil, país que já passou por trocentas crises econômicas e a recente redução – e a conseguinte extinção – das verbas oriundas da Prefeitura do Rio e de patrocinadores, forçosamente os artistas tiveram de lançar mão de alternativas plásticas que mantivessem o luxo, quando necessário, ou a materiais mais baratos que emulassem esse luxo, e, assim, pudessem alcançar os seus objetivos conceituais.

Ao folião mais incauto, pode parecer que são recentes esses mecanismos trucados, como se costuma dizer. Em 1994, a Imperatriz, escola que andava com um bom aporte financeiro àquela época, lançou mão de telas de galinheiro impermeabilizadas e de papel chumbo – o mesmo utilizado para enrolar bombons – para compor a luxuosa ala de baianas.

Desfile da Imperatriz em 1994. Baianas, aos 8min

Ou seja, o uso de materiais alternativos remonta a carnavais bem antigos. Em outras situações, não havia o truque. O uso de materiais alternativos fazia parte da própria conceituação plástica do desfile. No antológico “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia” (Beija Flor, 1989), o lixo suplantava os luxuosos elementos de decoração e explorava o dualismo “O Luxo do Lixo” e “O Lixo do Luxo”, de modo que o lixo propriamente dito foi usado como decoração e como elemento de tradução imagética de seu conceito narrativo.

A alegoria abre-alas, cenografada com restos de elementos e parcialmente incendiada ornava com brincantes fantasiados com roupas maltrapilhas e sujas, de modo que houve a sugestão de que mendigos reais estavam compondo o desfile. Há quem garanta ter havido.

Além de Joãosinho, alguns carnavalescos lançaram mão do lixo propriamente dito como elemento decorativo de fantasias e/ou alegorias. Em alguns casos como tradução em signo da própria narrativa do enredo, como exemplificado no desfile da Beija, de 89. Em outros, o lixo foi usado com conceito sustentável e/ou ecológico. Há ainda, ocasiões em que a ausência de capital financeiro determinou que o profissional lançasse mão de materiais alternativos a fim de traduzir plasticamente a sua intenção artística.

Importante destacar que chamamos de alternativo qualquer material que não é tradicionalmente usado pelas escolas de samba na produção dos desfiles, sejam eles reciclados ou não. Em 2003, Paulo Barros, carnavalesco da Paraíso do Tuiuti na ocasião, usou milhares de latas de tinta que seriam descartadas por sua fabricante e com elas compôs toda a alegoria Abre-Alas da agremiação (acima).

Algo semelhante ocorreu em 2019, quando Marcus Ferreira, carnavalesco da Inocentes de Belford Roxo na ocasião, decorou o carro abre-alas inteiramente com garrafas pet (capa do post) e a terceira alegoria da escola com o lixo encontrado na Cidade do Samba.

Na Portela em 2010 – ano em que a agremiação vivia uma violenta crise financeira – para dar o acabamento no tradicional figurino da ala das baianas, os carnavalescos Alex de Oliveira e Amauri Santos privilegiaram o uso de garrafas pet como simulacro de espelho, alcançando um satisfatório resultado.

No desenvolvimento do enredo “De Roliúde ao Sertão – Luz, câmera, ação!”, Leo Jesus, carnavalesco do Acadêmicos do Engenho da Rainha e Doutorando em Artes Visuais, Imagem e Cultura pela EBA/UFRJ, lançou mão de elemento bem unusual numa das alas da agremiação suburbana:

“Na ala Autos de Fé, que representava os filmes que abordam a religiosidade nordestina, um grande estandarte destacava-se no figurino, o qual deveria receber uma pintura de arte que transmitisse a religiosidade popular. Na falta de dinheiro para esse trabalho, pedi ao Presidente e a toda a diretoria que percorressem as Igrejas da região recolhendo aqueles “santinhos” que são impressos e distribuídos como agradecimento por devotos católicos. (…) A escola providenciou o material solicitado, e a cada domingo de missas, recebíamos o material até atingir a quantidade e a variedade necessárias para todas as fantasias da ala. Cada estandarte foi decorado com diversos santinhos, e graças a esse material conseguimos transmitir o conceito pretendido.”

Os estandartes e os santinhos, no detalhe.

 Aliás, as palavras reciclagem, reaproveitamento, ressignificação, uso de materiais alternativos, dentre outras, são empregadas indistintamente quando se faz referência a práticas que permitem um carnaval sustentável. Leo Jesus categoriza desta maneira a reciclagem de Material:

“Por reciclagem em sentido amplo, podemos entender toda reutilização de material. Portanto, lato sensu, o reaproveitamento e a ressignificação também são uma forma de reciclagem. Em sentido mais estrito, reciclagem é o processo pelo qual determinado produto já descartado será modificado para que possa ser reutilizado. E compreende-se por reaproveitamento a reutilização de um material sem modificar as suas características. É o que ocorre, por exemplo, quando se retira plumas de uma fantasia para reutilizá-las em outra. Galões, pedrarias, aljofre, tecidos… Nos dias de hoje, o reaproveitamento é praticado em todas as escolas de samba, como provam as solicitações aos componentes para que devolvam as fantasias após o desfile. Por fim, a ressignificação está relacionada ao conceito que justificará o uso da peça, pois importa atribuir-lhe um novo significado. Desta forma, não é possível ressignificar os materiais utilizados em uma fantasia, como galões e pedrarias, mas é possível ressignificar o figurino por inteiro, ou apenas partes que o compõem, como a cabeça, o costeiro, etc… Neste processo, a peça é reutilizada praticamente como foi descartada, sem grandes mudanças estruturais ou decorativas.”

Na agremiação suburbana, Jesus cumpriu a máxima de Fernando Pamplona – tirar da cabeça o que não há no bolso. Aqui destacaremos duas situações: Numa delas, a reciclagem de duas esculturas que foram utilizadas no desfile da Paraíso do Tuiuti, no ano anterior. Nesta ocasião, a criativa equipe da arte da escola do Engenho da Rainha viu-se num dilema. Num enredo que tratava sobre o cinema, as esculturas deveriam retratar o prêmio mais famoso de Hollywood, o Oscar. Porém as esculturas doadas pela agremiação de São Cristóvão eram femininas. Jesus explica: “Propusemos a entrega da Oscarina, filha do gringo Oscar com a sertaneja Severina. E após o trabalho da equipe de arte, a escultura transformou-se nas estatuetas douradas que encerraram o desfile.”

Abaixo à direita, a Oscarina no desfile do Engenho da Rainha

Além da ressignificação da escultura, Jesus lançou mão de materiais pouco convencionais para conferir acabamento a uma das alegorias:

“Propus, para a primeira alegoria da Acadêmicos do Engenho da Rainha, uma saia que representasse a película dos filmes, tradicionalmente representada imageticamente por uma tira em preto, ao longo da qual se dispõe retângulos brancos, e em cujas laterais há (…) os perfuradores (…), que foram representados por (…) cápsulas de café (…) pintadas de dourado e aplicadas ao longo da saia do carro. Galões dourados foram aplicados, à guisa de acabamento, a fim de que a borda da cápsula não ficasse visível.”

No detalhe da fotografia, abaixo do cangaceiro, o recurso plástico citado acima

No detalhe, abaixo do cangaceiro, a película de cinema e as cápsulas de caféJá quanto ao reaproveitamento, é bem recorrente o uso de elementos, fantasias, e alegorias inteiras que foram apenas ressignificados – e às vezes nem isso acontece. Em alguns casos por conveniência, e em outros por falta de verba. Na segunda condição, Léo Jesus destaca a forma como dispôs a Comissão de Frente da Engenho para o Carnaval 2020:

“Dos 12 componentes, 8 usavam figurinos que desfilaram anteriormente no Grupo Especial e que foram confeccionados por alunos da Pós-graduação em Figurino e Carnaval da Universidade Veiga de Almeida. Os alunos concordaram em emprestá-los, desde que fossem devolvidos intactos, ou seja, não podíamos cortar os figurinos ou propor um adereçamento diferente do original. A única possibilidade de utilizá-los era ressignificando-os”.

O carnaval sempre sobreviveu mais da criatividade de seus profissionais que dos recursos financeiros. Uns resolvem imprimir sua marca mais que outros, intensificando mais ou menos o disfarce no truque. Outros reciclam. Há os que reinventam, e é aí onde reside a magia do carnaval: Na reinvenção do sonho, na reconstrução da fantasia.

(Leo Jesus e Vítor Antunes)

Imagens: Ouro de Tolo, Leo Jesus e Luiz Fernando Reis

Agradecimento: Leo Jesus

Leo Jesus – Doutorando em Artes Visuais – Imagem e Cultura pelo PPGAV/EBA/UFRJ. Mestre em História do Teatro – Universidad de Alcalá. Graduado em Artes Cênicas – Cenografia pela EBA/UFRJ (2010). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Teatro (Cenografia e Figurino) e Carnaval. No carnaval, atuou profissionalmente em diversas etapas da produção dos desfiles: projeto e decoração de alegorias, confecção de fantasias de alas e composições e como componente de comissões de frente. Carnavalesco do G.R.E.S. Acadêmicos do Engenho da Rainha desde 2018. Professor da Pós-Graduação em Figurino e Carnaval da Universidade Veiga de Almeida desde 2016.

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