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Juro que odeio relatos de viagens e que o que segue abaixo não deve ser tomado como tal. É apenas a crônica de um episódio prosaico.

Estive no Chile nesta virada de ano e me obriguei a percorrer o circuito turístico tradicional. Primeira parada, Palácio de la Moneda, sede do governo chileno e palco principal do Golpe de Estado de 1973. As visitas ao palácio são guiadas, em grupos de cerca de vinte pessoas, e precisam ser agendadas com antecedência.

Caí em um grupo com outros quinze brasileiros, além de quatro guatemaltecos desavisados, de modo que o guia achou oportuno pontuar a apresentação com algumas referências ao Brasil.

Por sorte, enquanto fazíamos o tour estava havendo, no Patio de los Cañones, uma cerimônia periódica em homenagem aos estudantes recém-aprovados na Prueba de Selección Universitária, o ENEM deles. O guia explica a situação e resolve fazer uma pergunta aos turistas:

– En esta cerimonia la Presidenta Bachelet recibe los nuevos universitários. En Brasil hay una cerimonia como esta, con la presencia de la Presidenta Dilma?

Um brasileiro espirituoso exclama:

– Não! Nem nós queremos!

Seguem-se gargalhadas do grupo. O guia espera a algazarra terminar e passa a falar sobre o Salón Azul, o mais importante do palácio:

– En esto salón la Presidenta Bachelet recibe los Jefes de Estado. Puede recibir la Presidenta Dilma, por ejemplo…

Uma turista brasileira balança a cabeça e se dirige ao grupo para obter aplausos para a sua tirada:

– Coitada…

Risadinhas gerais. O guia, impassível, se permite interromper, enquanto os guatemaltecos se entreolham, intrigados.

O guia ainda toca no nome da Presidenta Kirchner. Novamente é interrompido por gracejos com a Argentina.

O guia retoma para contar que o Presidente do Chile tem 23 Ministros, e pergunta quantos há no Brasil. Um brasileiro berra:

– Quarenta! Mas ela está tentando reduzir para trinta e nove!

Novas gargalhadas. A partir de então o guia desiste de fazer perguntas ao grupo, que continua alvoroçado. O turista que gritou tenta justificar a subida de tom, e os demais respondem com sorrisos de condescendência:

– Eu estou com raiva…

– Só você… hehehe

Passamos para uma grande sala de reuniões, onde estão dispostos diversos estandartes presidenciais (a bandeira chilena com o escudo nacional). O guia chama atenção para o lema inscrito, “Por la razón o la fuerza”, e observa que é menos cândido que o brasileiro “Ordem e Progresso”. Um brasileiro fala em tom de deboche pueril:

– É, lá no Brasil tem mesmo muita ordem e progresso…

SalonazulMais gargalhadas. Os guatemaltecos começam a ficar impacientes com as seguidas interrupções engraçadinhas dos brazucas.

Somos conduzidos a uma sala que contém uma coleção de medalhas, uma para cada presidente da história do Chile. O guia vai mostrando os medalhões um por um, em ordem cronológica, para contar parte da história do Chile, detendo-se em um ou outro presidente mais notável. Fala de Bernardo O`Higgins como “El Libertador”, maior líder da Guerra de Independência, e o compara a D. Pedro I.

Os brasileiros fazem ironias com D. Pedro, mais risadas. O guia também já dá mostras de irritação. Quando chega a Jorge Alessandri, menciona a reforma agrária por ele iniciada. Um brasileiro adverte:

– Ih, olha o MST aqui também!

Novos risos. O grupo agora parece uma classe escolar de quinta série sobre a qual a professora perdeu o controle. Como já estamos quase no fim da visita, o guia se contém e mostra que, na série de medalhas, falta a de Augusto Pinochet.

– Por quê? – pergunta um brasileiro que, desde o início do percurso, se destacara por fazer as perguntas mais idiotas.

– Porque no fue democraticamente elegido.

Outro brasileiro, este um sabichão, toma a palavra:

– Mas ele fez uma reforma econômica que desenvolveu o Chile!

O guia ouve com a devida atenção a aula do turista, nos conduz de volta ao pátio e se despede. Boa viagem de volta ao Brasil.