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“Os índios insistem em continuar existindo e impõem aos historiadores e antropólogos a tarefa de rever conceitos e teorias, reinterpretar documentos e contar uma outra história sobre sua presença e atuação na América portuguesa. Afinal, a História do Brasil nos ensina que os índios perderam suas culturas, identidades étnicas e quaisquer possibilidades de resistir e atuar na colônia, diluídos entre os escravos e a população pobre.” (ALMEIDA, 2008)

Neste ano em que se completam os 450 anos da nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, é de fundamental importância a compreensão em torno dos primeiros habitantes de nossas terras, em especial, na Ilha do Governador. Geralmente a literatura histórica tem dado pouca – ou quase nenhuma – atenção à presença indígena. Na verdade, faz parte de um ponto de vista eurocêntrico, que via os índios como selvagens e incivilizados, se comparados ao modus vivendi dos europeus – estes sim, mais desenvolvidos e dotados de uma missão civilizadora nos trópicos. As efemérides em torno dos 450 anos do Rio de Janeiro representam, portanto, mais do que o entendimento da identidade das diversas tribos que compunham inicialmente toda a costa e interior da Terra Brasilis, mas também a oportunidade para dimensionarmos a importância que os indígenas tiveram durante o processo de ocupação e colonização feito pelos portugueses.

Para os tupis, “Paranapuã” (“Mar redondo”) e outras distintas variações linguísticas: “Pernapuã”, “Paranapecu”, “Parnapocu”, “Pernapuquu” ou simplesmente Ilha do Governador, merece uma especial atenção nesse processo de compreensão das atividades indígenas, por ser a maior das ilhas da Baía de Guanabara.

Os primeiros habitantes de “La Grande Isle” e “Isle Belle” – como os franceses a chamavam – foram os índios temiminós, pertencentes à família linguística tupi-guarani. A família tupi-guarani abarcava uma grande quantidade de tribos localizadas ao longo de todo o litoral brasileiro. Eram tribos que participavam de uma intensa corrente migratória – Sul-Norte-Sul e também rumo ao interior, ocupando diferentes regiões do território.

É necessário ressaltar a grande importância que os estudos antropológicos tiveram para a identificação dessas tribos. A primeira geração de indígenas, justamente a que já existia num momento anterior à chegada dos portugueses, foram os tupis.

Seus inimigos eram os índios tamoios e tupinambás, responsáveis pela também denominação dos temiminós de “Maracajá” (“gatos bravos”, “gatos do mato”). Os temiminós eram considerados pacíficos aos invasores portugueses. Diversos relatos confirmam essa idéia, como o jesuíta José de Anchieta e o padre Manuel da Nóbrega – segundo este, “os temiminós chegavam a ceder aos Cristãos da capitania de São Vicente, suas mulheres, em troca do resgate de seus pais, transformando elas em escravas para sempre”.

Durante muitos anos o Brasil ficara relegado a segundo plano pelos portugueses, entusiasmados com o comércio das especiarias das Índias. Somente a partir da terceira década do século XVI que a Coroa portuguesa voltou-se para o iminente perigo de invasão que os corsários franceses ofereciam. Em razão disso, Portugal enviou Tomé de Sousa, primeiro governador do Brasil, que desembarcou na Bahia em março de 1549, acompanhado de quatro padres jesuítas, entre eles Manuel da Nóbrega.

Os tamoios contavam 70 mil índios, entre as regiões de Bertioga, no litoral paulista, e a Guanabara, e eram mais poderosos que os temiminós, que reuniam apenas oito mil indígenas. Em 1554, quando ocorreu a Confederação dos Tamoios, se uniram, fazendo com que estes, ajudados pelos portugueses, abandonassem a ilha, migrando para a atual região do Espírito Santo, onde encontraram outros temiminós que já habitavam o local. Lá, com o auxílio de jesuítas, fundaram uma aldeia, onde hoje está localizada a cidade de Serra. Seu líder era o Maracajaguaçu – que tivera dois filhos: Mamenoaçu e Araribóia – este seu segundo filho.

Após a transferência dos temiminós para o Espírito Santo, os jesuítas iniciaram um trabalho de catequização dos índios, com o objetivo de torná-los bons cristãos.

Rio_1555_França_AntárticaA parceria entre os temiminós podia ser considerada, de certo modo, estratégica. Além da segurança, podiam ganhar terras e o direito de não serem escravizados. O Rio de Janeiro era considerado ponto estratégico ao sul do Brasil. A presença francesa e os ataques dos tamoios geravam instabilidades e incertezas para os portugueses. Para a pacificação dos tamoios, a aliança com os temiminós era vista, portanto, como conveniente. Além de numericamente estarem em desvantagem com relação aos tamoios, o poderio bélico dos portugueses ficava a desejar. “…a ação da flecha, pela sua maior cadência de tiro e seu bom alcance, tinha, no combate campal, uma eficácia superior ao arcabuz e mesmo ao mosquete”. E pelo lados dos portugueses, os temiminós representavam a possibilidade de um futuro povoamento na região, após a expulsão dos franceses.

Liderados por Cunhambebe, os tamoios expulsaram os temiminós da Ilha, se aliando aos franceses, que estabeleceram a França Antártica. O cenário, entretanto, começaria a mudar a partir da queda do Forte Coligny, na atual ilha de Villegagnon, na Baía de Guanabara, em março de 1560, ante as tropas portuguesas comandadas por Mem de Sá. Era lá que se estabelecia a França Antártica. Muitos tombaram, mas um grupo de franceses fugiu para o interior das matas. Diante dos poucos recursos dos navios de Mem de Sá, os portugueses desistiriam de continuar a expulsão dos franceses, indo até Salvador.

Contaram, nesse caso, a mobilidade e força dos tamoios, com as suas canoas guerreiras. E a tática da emboscada prevalecia na estratégia de guerra adotada, fator que proporcionou severa humilhação aos temiminós, desalojados da ilha de Paranapecu, vítimas de um feroz ataque:

“Para lá se dirigiam à noite, apanhando a pobre gente desprevenida, e tal carnificina fizeram que causava dó ouvir clamarem as vítimas. Avisados, já quase à meia-noite, alguns franceses bem armados embarcaram às pressas para a dita aldeia que distava quatro ou cinco léguas do nosso fortim. Antes de chegarem, porém já tudo se consumara. Enfurecidos e encarniçados os nossos selvagens já haviam incendiado as chocas para desalojar os moradores e a muitos já haviam morto. Segundo me foi dito só se viam homens e mulheres espostejados nos moquéns e até crianças de peito assadas inteiras.” (LERY, 1961)

Somente em 1565, com as expedições comandadas por Estácio de Sá, é que os franceses seriam definitivamente expulsos da região. Estácio de Sá fundaria a cidade do Rio de Janeiro em primeiro de março de 1565.