Ontem, terça, aproveitei o período de férias para fazer minha visita à Cidade do Samba, local onde ficam os barracões das escolas de samba do Grupo Especial. Paga-se R$ 5 – ou R$ 2, com um comprovante de residência do Rio de Janeiro – e pode-se passear por uma passarela que dá acesso a todos os barracões e a seus carros alegóricos.
Nesta época, a um mês e meio do carnaval, muitos barracões ainda estão com seus portões abertos e pode-se ver mais coisas ainda.
O lado chato é que cada vez mais há restrições para a obtenção de fotografias. A ponto de termos seguranças nas varandas de Mocidade e Mangueira – nesta última, aparentemente armado. Foram as duas escolas que não consegui fotografar para os leitores.
Em termos gerais, diria que será um carnaval fraco em termos de alegorias, mesmo se ressalvando que ainda há muito o que ser feito em termos de decoração. Ainda assim, me arriscaria a dizer que não teremos nada arrasador como foram o Salgueiro em 2009 ou ainda carros da Tijuca do ano passado. Temos boas coisas, mas à exceção do trem fantasma da Unidos da Tijuca nada que eu diria ao leitor que possa ser lembrado após o Sábado das Campeãs.
Por outro lado, não há atrasos preocupantes que comprometam a execução dos projetos originais das agremiações.
Vamos ao comentário por escola, seguindo a ordem de desfile.
1 – São Clemente
Infelizmente só temos esta foto, que não está boa, mas foi outro onde tive dificuldades. Os carros parecem mais de Grupo de Acesso A que de Grupo Especial, pequenos e bastante cartesianos. Tem bastante coisa na madeira, mas nenhum no ferro.
É um dos únicos barracões onde consegue se ver o chão entre os carros. Mas, sem dúvida, se depender das alegorias a escola terá sérios problemas para se manter no grupo, ainda mais abrindo os desfiles – onde a mão do jurado é sempre mais pesada.
2 – Imperatriz Leopoldinense
Confesso que não gostei nem um pouco. Tem dois carros ainda no chassis, sem sequer trabalho de ferragens, e dois carros prontos, mas sem grande brilho. Como se vê nas fotos, o que toma forma são “caixotes” sem muita criatividade
Com fantasias muito criticadas e alegorias onde o que toma forma é bem fraco, fica claro como o trabalho do carnavalesco Max Lopes decaiu após o término da parceria com Fábio Ricardo, hoje na São Clemente. Confesso que achei preocupante o que vi.
3 – Mocidade
Como disse antes, não tirei fotos, mas tem vários carros já embalados. Pelo que se consegue ver, tem muita coisa entulhada nos carros, além de muitos “porta queijos” em dois dos carros.
Não achei nada que me chamasse a atenção, é o estilo de sempre do carnavalesco Cid Carvalho, muita informação em pouco espaço.
4 – Unidos da Tijuca
Um dos barracões que mais gostei. Ao contrário de outros anos, o barracão do carnavalesco Paulo Barros não se resume a chassis com apoios para pessoas. Pode-se ver carros muito bem trabalhados como o do trem fantasma – acima – e um outro com plantas – infelizmente a foto não ficou boa.
Também tem coisa no chassis, sem ferragens, mas em se tratando de Paulo Barros, nunca se sabe se ainda trabalharão nos carros ou se será assim mesmo. Uma coisa é certa: a escola do Borel vem forte de novo.
5 – Vila Isabel
Mais uma onde a foto não ajuda, mas é um dos mais desiguais. Tem coisa legal como os elefantes e um carro  com castelinhos – típico da carnavalesca Rosa Magalhães – mas outros não estão tão bons. A coroa, símbolo da escola, está bem tímida, para se dizer o menos.
A impressão que dá é que falta grana à escola, talvez reflexo do fato de seu presidente estar preso há nove meses.
6 – Mangueira
Acho que a proibição das fotos tem a ver com o que se encontra dentro de sua fábrica de desfiles. Um carro ainda no chassis, um praticamente pronto, os demais entre ferragens e madeira.
O carro que está pronto abusa das cores fortes, talvez devido à previsão de desfile durante o dia – a escola encerra o domingo já com o dia claro. Aquele verde e rosa dos tempos de Júlio Matos estará de volta.
Tem um carro que é uma espécie de escadaria em formato de “bolo de noiva”, bem semelhante a um trazido pela Viradouro em 2010 em seu formato. Infelizmente terei de usar uma palavra forte para descrever minhas impessões das alegorias: tosco.
7 – União da Ilha
Já estivera no barracão da escola insulana semana passada para tirar as medidas de minha roupa, e pode-se se dizer que ao lado da Mocidade é o barracão mais adiantado. Na foto acima pode-se ver uma aranha – rubro-negra – que certamente virá “andando” na avenida, tendo tudo para causar muito impacto.
O enredo sobre Darwin ganhou foco nos setores de animais e sua evolução, pelo que se lê nos carros. O trabalho do carnavalesco Alex de Souza está muito caprichado, com carros bem maiores que os de 2010. Há apenas um carro na madeira e nenhum no ferro.
Foi um dos conjuntos alegóricos de que mais gostei. A preocupação, apenas, é como a Harmonia da escola lidará com o tamanho dos carros.
8 – Salgueiro
Se me perguntarem qual escola mais me decepcionou, diria sem medo de errar que é o Salgueiro. As alegorias não estão feias, longe disso, mas estão abaixo do que estamos acostumados a ver no trabalho do carnavalesco Renato Lage. Até caixotes temos, algo abolido na vermelho e branco há tempos.
Os cavalos marinhos que podemos ver à esquerda e à direita nas fotos já passaram na avenida anteriormente.  A escola ainda tem carros no chassis, mas nada que preocupe. A impressão que dá é que o carnavalesco não está muito à vontade no enredo da escola.
9 – Portela
É o único barracão onde a “varanda” está trancada, mas como todo ano fiz valer minha condição de sócio para dar uma “carteirada” e ver o barracão por dentro. Foi a visita mais detalhada.
De todos os anos da “Era Nilo”, é disparado o mais adiantado. Ano passado a quarenta dias do carnaval nem os carros de 2009 haviam sido desmontados ainda; hoje, temos três carros já em decoração, dois com o madeiramento praticamente pronto e três na ferragem – sendo que o carro onde provavelmente estará a Águia estava sendo retirado para ser confeccionado em outro lugar.
Além disso, o trabalho de escultura em isopor está a todo vapor. Se o leitor observar o vídeo que abre este post verá grandes blocos à esquerda, prontos para se transformarem em esculturas. Foi o barracão onde vi mais gente trabalhando.
O carro que será uma espécie de navio – a segunda foto – promete ficar bem interessante. O barracão da Portela não deverá ser o melhor deste ano, mas tem tudo para ser o melhor dos últimos anos, e pode credenciá-la a um bom papel no resultado final do carnaval.
10 – Grande Rio
A impressão que deu – a única foto não ajuda – é que os monstros que habitualmente povoam a fábrica de carnaval da Beija Flor se mudaram de armas e bagagens para a agremiação de Caxias. Tudo muito grande e em cores escuras.
Há um boi em tons de preto que me agradou bastante. A escola tem cinco carros em decoração, dois na madeira e um no ferro – é uma das mais adiantadas.
Mas não se vê claramente Florianópolis nos carros.
11 – Porto da Pedra
Os carros não são muito grandes e ainda há bastante coisa para se fazer, mas possuem a delicadeza pedida pelo enredo – a teatróloga Maria Clara Machado. São alegorias delicadas e de fácil leitura.
Uma delas trará cadeiras de verdade em cima, provavelmente representando o Teatro Tablado. Estavam sendo colocadas no momento em que estive no barracão.
Fica evidente o talento do carnavalesco Paulo Menezes.
12 – Beija Flor
Foto tirada de longe – vigilância intensa, inoportuna até – mas pode-se dizer que a escola de Nilópolis dará uma grande “virada” neste carnaval. Carros pequenos, em cores claras, abusando do azul e branco da agremiação e buscando aproveitar a luz do dia.
Ainda tem carros na madeira, mas nada que comprometa o cronograma. Gostei do calhambeque e do carro da Jovem Guarda, mas sinceramente não sei como os jurados receberão as alegorias da escola.
Dividiria as escolas em quatro grandes grupos não-homogêneos, levando-se em conta que ainda faltam quarenta dias para o carnaval e muita coisa ainda mudará:
Bons: Tijuca, Salgueiro, Grande Rio, Ilha
Razoáveis: Portela, Beija Flor, Mocidade, Porto da Pedra
Fracos: São Clemente, Vila Isabel
Preocupantes: Mangueira e Imperatriz

11 Replies to “Direto da Cidade do Samba”

  1. Olá Pedro Migão.

    Não entendi uma coisa no teu texto: Quando vc classificou as escolas em 4 grupos, isso foi em termos de que critério ?
    Voce colocou, primeiramente, que o Salgueiro foi a tua “maior decepção”, em termos de barracão.
    E depois vc o colocou no grupo dos “Bons” (grupo top).

    Abraços.
    WF

  2. Pedro,

    realmente a Vila Isabel vem desfilando com carros simples demais para uma escola do grupo especial. Ano passado, o desfile em homenagem ao Noel Rosa, merecia mais. Imagino que esse ano os carros também estejam simples, provavelmente pela falta de recursos mesmo.
    Mas é muito importante lembrar que a Vila Isabel não vende fantasia. É a única escola do Grupo Especial que não vende fantasia. Enquanto outras vendem fantasias por até mil Reais, na Vila só desfilam a comunidade e os devotos da escola. Para desfilar na Vila tem que ter paixão e compromisso com o Carnaval da Escola. Acho que ela merece ser destacada por isso.

    Um abraço,

    Renata
    http://www.tresmeninasdobrasil.blogspot.com

  3. Cara Renata, seja bem vinda.

    Esse negócio de não vender fantasia é muito relativo. E o cara que como eu que não pode ensaiar toda semana ? Não pode desfilar memso que seja “cascudo” de avenida?

    Além disso, a coisa mais fácil que há é comprar uma fantasia de “comunidade” da Vila…

    abraços

  4. Uma coisa a se destacar:

    Segurança “ARMADO” numa varanda, eu li isso ?

    Quem frequenta varandas para chegar a ponto de segurança estar “armado”?
    Bandidos frquentam as varandas ?
    Não.

    Ou seja, armado PARA QUEM ? Para os visitantes ?

    Isso é cabível de ir até dar parte à Polícia. Se na proxima vez que eu for à CDS, eu me deparar com isso, vou direto à administração da CDS reclamar.
    Se ignorarem a minha reclamação, darei parte à Polícia.

    Milícia na Cidade do samba ? Pode ?

  5. Acrescento ainda,

    A Cidade do samba foi construída e é mantida com dinheiro público do contribuinte. E os visitantes ainda pagam uma entrada (mesmo que barata) para visitação.

    Seguranças armados poderiam existir lá para garantir a segurança dos visitantes, e NÃO para intimidá-los.

    É praticamente crime. A Querida Manga que me perdoe, mas merecia uma punição pela atitude.

  6. é o tipo de coisa que não adianta reclamar, porque é aquela coisa do “palavra contra palavra”.

    ainda mais na Manga, se é que me entendem.

    Mas que o volume dentro da camisa era visível, era.

    Melhor falarmos dos carros, acho.

    abraços

  7. Oi Pedro, Só para encerrar este assunto: ontem (quarta) na parte da tarde estive com um amigo na CDS. Na hora em que passamos pela varanda da Manga, tinha obviamente, um segurança lá. Esse meu amigo, como quem não quer nada, puxou papo e pergutou ao segurança se eles trabalhavam armados.
    O segurança, IMEDIATAMENTE, falou: “Não ! Isso é experessamente proibido aqui dentro, de jeito nenhum !”..
    Ou seja, que é proibido, é…
    Se o volume no tal cara que vc viu tiver sido realmente uma arma, ele estava fazendo uma coisa não permitida.

    Abços.

  8. Oi Pedro,

    acho que discordamos nesse ponto. Não há a menor necessidade de vc comprar uma fantasia da Vila. Quem quiser desfilar, pode ir na quadra da escola no meio do ano e se inscrever. O único compromisso é participar dos ensaios. Acho muito justo. A fantasia é de graça, a pessoa tem que demonstrar o compromisso com a Escola.
    Se vc, ou alguns, tem algum esquema de comprar fantasia e não ir aos ensaios, com certeza é excessão e não a prática corrente, como é institucionalizado nas outras escolas. Além disso, se fosse tão fácil e aberto assim, metade do Rio da Janeira estaria lá comprando fantasia da Vila, ao invés de pagar os preços absurdos de outras escolas.
    Se vc coloca a questão de que na Vila vc não poderia desfilar porque não pode ir aos ensaios, mas poderia pagar o preço extorsivo de uma fantasia que chega a mil reais, eu te respondo: vc pode desfilar nas escolas que vendem a vaga pra quem pdoe pagar e não quer ou não pode ir aos ensaios. Mas, a questão é e quem não pode pagar? Eu sou mangueirense e nunca pude desfilar na Mangueira porque não tem a menor condição de pagar o preço daquela fantasia. POderia ir a todos os ensaios, mas não posso pagar a fantasia e não sou da comunidade. Portanto, nunca vou desfilar na minha escola.
    Acho que a discussão importante sobre o Carnaval e o desfile não é quem desfila onde, mas a mercantilização do Carnaval, onde o dinheiro fala muito mais alto do que a festa popular, os enredos patrocinados etc.
    Falta essa discussão sobre o Carnaval carioca.
    Abraços,
    Renata

  9. Cara Renata, duas coisas:

    1) Eu não desfilo na Vila Isabel. Desfilo na Portela, que é minha escola, e na União da Ilha, do bairro onde moro atualmente.

    2) Sei de casos onde pessoas compraram sim fantasias da Vila. E um componente de ala comercial pode sim ser mais comprometido memso que não vá ensaiar sempre.

    Como você mesma fala da Mangueira, o ideal é um modelo híbrido – como o adotado pela Portela: maioria de alas de comunidade com algumas alas comerciais, para aquele que não quer, ou não pode, pagar a fantasia.

    Um outro ponto é que para mim sai mais barato pagar a minha roupa da Portela que ensaiar toda semana na quadra, por incrível quanto pareça.

    Sobre a discussão que propõe, escrevi sobre isto este mês: http://pedromigao.blogspot.com/2011/01/o-profissionalismo-pela-metade-nas.html

    abraços

    Sobre o debate que

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