{"id":37550,"date":"2015-10-14T07:03:01","date_gmt":"2015-10-14T10:03:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=37550"},"modified":"2015-10-13T14:35:15","modified_gmt":"2015-10-13T17:35:15","slug":"africas-e-sambas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/10\/africas-e-sambas\/","title":{"rendered":"\u00c1fricas e Sambas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Os terreiros das escolas de samba cariocas (e n\u00e3o \u201cquadras\u201d, como se denominam hoje) obedeceram durante muito tempo a um regimento t\u00e1cito semelhante ao dos barrac\u00f5es de candombl\u00e9. O acesso \u00e0 roda, por exemplo, era permitido somente \u00e0s mulheres, que cantavam os sambas girando no sentido anti-hor\u00e1rio, conforme giram as rodas de ya\u00f4s nas casas de culto. Os fundamentos religiosos das agremia\u00e7\u00f5es, em larga medida, se perderam ou est\u00e3o dilu\u00eddos a ponto de n\u00e3o serem mais reconhecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar dessa \u201cdesafricaniza\u00e7\u00e3o\u201d dos fundamentos, as agremia\u00e7\u00f5es s\u00e3o, at\u00e9 os dias de hoje, ve\u00edculos em que a tem\u00e1tica africana \u00e9 recorrente; ainda que seus enredos e sambas enfoquem, salvo exce\u00e7\u00f5es, a \u00c1frica por uma perspectiva predominantemente folclorizante e, curiosamente, distante (a \u201c\u00c1frica misteriosa\u201d; a \u201c\u00c1frica de mist\u00e9rios e magias\u201d; e outros clich\u00eas constantemente repetidos nas letras dos sambas exemplificam isso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O samba-enredo \u00e9 uma modalidade de samba que consiste em letra e melodia criadas a partir do resumo do tema elaborado como enredo de uma agremia\u00e7\u00e3o. Os primeiros sambas-enredo, de livre cria\u00e7\u00e3o, abordavam normalmente a natureza, o pr\u00f3prio samba e o cotidiano dos sambistas. Com a oficializa\u00e7\u00e3o dos concursos, na d\u00e9cada de 1930, passou a predominar a exalta\u00e7\u00e3o dirigida aos personagens e efem\u00e9rides da Hist\u00f3ria oficial, em um processo de negocia\u00e7\u00e3o entre os sambistas e o poder institu\u00eddo que inclu\u00eda a disputa pelas subven\u00e7\u00f5es. Os enredos se limitavam a contar a hist\u00f3ria do ponto de vista da classe dominante, abordando os acontecimentos de forma invariavelmente ufanista.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Salgueiro 1959 - \u00e1udio\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EBRSZ9k5mbg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revers\u00e3o desse quadro come\u00e7ou a ganhar contornos mais efetivos \u2013 ainda que viesse se insinuando antes &#8211; em 1959. Naquele ano o Salgueiro apresentou uma homenagem ao pintor franc\u00eas Debret, retratando o cotidiano dos negros no Brasil \u00e0 \u00e9poca da col\u00f4nia e do Imp\u00e9rio; o que motivou uma sequencia de enredos da escola, ao longo da d\u00e9cada de 1960, sobre o <em>Quilombo dos<\/em> <em>Palmares, Chica da<\/em> <em>Silva e Chico Rei<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, no universo dos enredos apresentados pelas escolas de samba cariocas e fluminenses das v\u00e1rias divis\u00f5es, as refer\u00eancias mais diretas \u00e0 \u00c1frica se fazem constantes. Podemos listar, apenas a t\u00edtulo de exemplo e sem a pretens\u00e3o da totalidade, os seguintes enredos: \u201cNavio negreiro\u201d (Vila Isabel, 1948, e Salgueiro, 1957), \u201cQuilombo dos Palmares\u201d (Salgueiro, 1960, Viradouro, 1970, e Unidos de Padre Miguel, 1984), \u201cChico Rei\u201d (Uni\u00e3o de Vaz Lobo, 1960, Salgueiro, 1964, e Viradouro, 1967), \u201cGanga Zumba\u201d (Unidos da Tijuca, 1972), \u201cValongo\u201d (Salgueiro, 1976, e Unidos de Padre Miguel, 1988), \u201cGalanga, o Chico Rei\u201d (Unidos de Nil\u00f3polis, 1982), \u201cGanga Zumba, raiz da liberdade\u201d (Engenho da Rainha, 1986), \u201cPorque Oxal\u00e1 usa ekodid\u00e9\u201d (Acad\u00eamicos do Cubango, 1984), \u201cLogun, pr\u00edncipe de Efan\u201d (Arranco do Engenho de Dentro, 1977), \u201cAs tr\u00eas mulheres do rei\u201d (Imp\u00e9rio da Tijuca, 1979), \u201cA visita do Oni de If\u00e9 ao Ob\u00e1 de Oy\u00f3\u201d (Unidos do Cabu\u00e7u, 1983), \u201cO sonho de Il\u00ea If\u00e9\u201d (Viradouro, 1984), \u201cOxumar\u00e9, a lenda do arco-\u00edris\u201d (Imperatriz Leopoldinense, 1979), \u201cDe Daom\u00e9 a S\u00e3o Luiz, a pureza mina-jeje\u201d (Unidos do Cabu\u00e7u, 1981), \u201cKizomba, festa da ra\u00e7a\u201d (Unidos de Vila Isabel, 1988), \u201cPleito de vassalagem a Olorum\u201d (Unidos do Viradouro, 1974), \u201cOlubaj\u00e9, a festa da liberta\u00e7\u00e3o\u201d (Dif\u00edcil \u00e9 o Nome, 1994, reeditado em 2006), \u201cOrum-Ay\u00ea\u201d (Boi da Ilha, 2001), \u201cGeled\u00e9s, o retrato da alma\u201d (Arranco do Engenho de Dentro, 2006), \u201c\u00c1fricas, do ber\u00e7o real \u00e0 corte brasileira\u201d, (Beija-Flor, 2007), \u201cSuprema Jinga\u201d (Imp\u00e9rio da Tijuca, 2010), \u201cO reencontro entre o c\u00e9u e a terra no reino do Alafin de Oy\u00f3\u201d (Unidos de Padre Miguel, 2013), Candaces (Salgueiro, 2007), Negra P\u00e9rola Mulher (Imp\u00e9rio da Tijuca, 2013), O Imp\u00e9rio nas \u00e1guas de Oxum (Imp\u00e9rio da Tijuca, 2015), Um Gri\u00f4 conta a Hist\u00f3ria (Beija-Flor, 2015), etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso notar a predomin\u00e2ncia, nestes sambas, de temas ligados ao universo iorubano, fato que certamente se explica pela maior visibilidade que esta matriz, notadamente atrav\u00e9s da Bahia, tem no Brasil. Segundo algumas interpreta\u00e7\u00f5es, a visibilidade desse acervo cultural teria ocorrido pela presen\u00e7a hist\u00f3rica, em Salvador e no Rec\u00f4ncavo Baiano, de diversas \u201cna\u00e7\u00f5es\u201d africanas organizadas e, muitas vezes, advers\u00e1rias; cada uma ciosa de sua identidade \u00e9tnica. Isto teria feito com que, no combate ao racismo, os afrodescendentes baianos se destacassem mais fortemente atrav\u00e9s da afirma\u00e7\u00e3o de suas express\u00f5es culturais espec\u00edficas do que atrav\u00e9s da luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Unidos do Cabu\u00e7u 1983\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dh2RBQBy9WQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe destacar, todavia, que personagens como Chico Rei, Ganga Zumba, Zumbi e Rainha Jinga, pertencentes ao universo banto, s\u00e3o tamb\u00e9m bastante frequentes nos enredos que relacionamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O curioso \u00e9 que em 2016, ao menos aparentemente, a \u00c1frica passar\u00e1 distante dos enredos do grupo especial. Ser\u00e1 mesmo? Acho que n\u00e3o. A \u00c1frica se apresentar\u00e1, na verdade, mais pr\u00f3xima, em algumas refer\u00eancias a Ogum na Est\u00e1cio de S\u00e1 e ao candombl\u00e9 de ketu na Mangueira de Bethania. O Salgueiro (com um enredo sobre Z\u00e9 Pelintra malandramente disfar\u00e7ado na \u201c\u00d3pera dos Malandros\u201d) falar\u00e1 da linha do povo de rua, mais afeita aos catimb\u00f3s, umbandas e encantarias afro-amer\u00edndias. Mas a \u00c1frica se far\u00e1 presente tamb\u00e9m na verbaliza\u00e7\u00e3o do Laroi\u00ea de Exu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confesso que me agrada mais essa linha de enredos que rompe com os \u201cmist\u00e9rios da \u00c1frica distante\u201d. As \u00e1fricas, afinal, est\u00e3o aqui: potentes, desafiadoras, pr\u00f3ximas e brasileiras. O tratamento distante pode, afinal, trazer embutida uma sutil, e muitas vezes n\u00e3o intencional, nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os terreiros das escolas de samba cariocas (e n\u00e3o \u201cquadras\u201d, como se denominam hoje) obedeceram durante muito tempo a um regimento t\u00e1cito semelhante ao dosTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[18,837,19,9],"class_list":["post-37550","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-carnaval","tag-carnaval-2016","tag-escolas-de-samba","tag-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37550"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37550\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}