{"id":36082,"date":"2015-07-27T06:17:56","date_gmt":"2015-07-27T09:17:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=36082"},"modified":"2015-07-27T03:38:35","modified_gmt":"2015-07-27T06:38:35","slug":"fala-galvao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/07\/fala-galvao\/","title":{"rendered":"Fala, Galv\u00e3o!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Eu comecei a acompanhar futebol para valer no fim de 2002, mais especificamente a partir das semifinais do Campeonato Brasileiro daquele ano. Evidentemente, sem saber absolutamente nada &#8211; mas j\u00e1 torcendo e me interessando bastante pelo neg\u00f3cio. As primeiras lembran\u00e7as que tenho s\u00e3o contempor\u00e2neas do primeiro jogo de futebol que lembro de ter visto. Quase todas elas, de uma maneira ou de outra, est\u00e3o ligadas ao futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por isso, posso dizer que, desde que me entendo por gente, tenho no futebol uma das minhas grandes paix\u00f5es. Depois, viriam muitas outras, mas o futebol sempre esteve comigo. S\u00f3 que, curiosamente, eu nunca tive (e penso eu que nunca terei) um \u00eddolo dentro de campo. Jamais idolatrei um jogador, tenha ele jogado &#8220;ao vivo&#8221; ou nas muitas fitas antigas que assistia. Sempre tive um olhar muito mais especial para as institui\u00e7\u00f5es do que para os atletas. Talvez por isso, os \u00fanicos tr\u00eas esportistas que idolatrei at\u00e9 hoje foram de esportes individuais: Roger Federer e Rafael Nadal, que dominaram o circuito e fizeram disputas incr\u00edveis nos dois ou tr\u00eas anos em que assisti t\u00eanis com grande interesse, e Felipe Massa, respons\u00e1vel pela ent\u00e3o quase imposs\u00edvel miss\u00e3o de me tirar da cama em um domingo de manh\u00e3 entre 2007 e 2008 (confesso que desde 2009 isso acontece com bem menos frequ\u00eancia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-medium wp-image-36117 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao3-300x300.jpg\" alt=\"galvao3\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao3-300x300.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao3-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao3-340x340.jpg 340w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao3.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Durante boa parte da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, nunca consegui responder \u00e0quela pergunta de apostila de ensino fundamental: quem \u00e9 seu \u00eddolo? Tinha, quando muito pequeno, uma simpatia quase doentia pelo Silvio Santos (que voltaria a ser um \u00eddolo anos depois), mas j\u00e1 n\u00e3o era mais uma coisa t\u00e3o forte. Ficou, por muito tempo, essa lacuna. H\u00e1 uns seis ou sete anos, descobri que queria ser jornalista &#8211; e, posteriormente, que trabalhar com esporte deve ser um neg\u00f3cio legal pra burro, embora ainda n\u00e3o seja um objetivo propriamente dito &#8211; e, ent\u00e3o, veio mais uma pergunta \u00f3bvia: quem s\u00e3o suas refer\u00eancias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa \u00e9 uma pergunta que eu ainda n\u00e3o sei responder porque considero a profiss\u00e3o que eu escolhi ampla demais para isso. Eu n\u00e3o me vejo em nenhuma \u00e1rea do jornalismo hoje. \u00c9 uma profiss\u00e3o fascinante justamente porque te faz passageiro da sua pr\u00f3pria carreira. Ent\u00e3o, minha \u00fanica refer\u00eancia e meu \u00fanico objetivo \u00e9 fazer bem feito aquilo que eu me dispuser a fazer com base naquilo em que acredito e em que vou acreditar. Tenho, sim, alguns sonhos que gostaria de realizar um dia, mas, a rigor, \u00e9 isso. Um conceito vago demais para que eu tomasse um \u00fanico profissional como refer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas, ainda que n\u00e3o tenha respondido \u00e0 segunda pergunta, essa escolha me fez responder a primeira. Descobri, recentemente, uma atra\u00e7\u00e3o enorme pelo jornalismo esportivo. De uns anos para c\u00e1, passei a ficar atento em cada narrador, em cada bord\u00e3o, em cada rep\u00f3rter, em cada programa, muitas vezes mais at\u00e9 do que no jogo. Ser\u00e1 que quem narra hoje \u00e9 o Fulano? Ser\u00e1 que Sicrano est\u00e1 in loco? Como eram as transmiss\u00f5es antigamente? Como Beltrano come\u00e7ou? Quem narrou aquele jogo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E, nessa hist\u00f3ria de conhecer e pesquisar a hist\u00f3ria do r\u00e1dio e TV esportivos do Brasil, coisa que virou quase um hobby, passei a admirar muita gente. Mas n\u00e3o \u00e9 uma admira\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que quer ser jornalista. \u00c9 a admira\u00e7\u00e3o de um torcedor, de algu\u00e9m que ama futebol e que gosta dos seus detalhes. Mais do que isso, passei at\u00e9 a ter alguns \u00eddolos. Depois dessa longa introdu\u00e7\u00e3o, falo daquele que hoje \u00e9 o maior deles: Galv\u00e3o Bueno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Galv\u00e3o Bueno n\u00e3o \u00e9, para mim, o narrador que \u00e9 para muita gente. Quem \u00e9 mais velho do que eu (que seja dois ou tr\u00eas anos) pegou um Galv\u00e3o Bueno que narra jogos de quarta e domingo, das decis\u00f5es aos menos importantes. Quando eu comecei a ver futebol, ele j\u00e1 narrava com menos frequ\u00eancia e, quando passei a ter esse interesse pelo jornalismo esportivo, ele j\u00e1 era, basicamente, Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, F\u00f3rmula 1 e finais de Libertadores que n\u00e3o envolvessem times do eixo Rio-S\u00e3o Paulo, j\u00e1 que essas ficavam com Cleber Machado (outro dos meus \u00eddolos) e Luis Roberto (que n\u00e3o \u00e9 meu \u00eddolo porque narra poucos jogos para S\u00e3o Paulo, mas que tamb\u00e9m considero um craque). Ent\u00e3o, Galv\u00e3o Bueno sempre foi, para mim, uma personagem muito distante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pode parecer loucura, mas, quando meu time estava mal, eu cheguei a torcer para que ele virasse uma pot\u00eancia s\u00f3 para que pudesse ver o Galv\u00e3o gritar um gol do meu time. Eu o via narrando os grandes feitos de rivais, de clubes de outros estados, e reproduzia tudo aquilo com o meu clube. Lembrava de poucos jogos com ele na narra\u00e7\u00e3o e s\u00f3 fui poder matar essa vontade recentemente. Se tinha Galv\u00e3o na narra\u00e7\u00e3o (e hoje isso acontece com muitos outros locutores), n\u00e3o me bastava estar em casa na hora do jogo. Tinha que estar 10, 20, 30, quantos minutos antes fosse preciso para que eu ouvisse o &#8220;bem, amigos da Rede Globo&#8221; e visse uma tomada de imagem da cabine. Isso \u00e9 mais ou menos o que eu acho que um f\u00e3 sente pelo \u00eddolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-medium wp-image-36118 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao4-300x189.jpg\" alt=\"galvao4\" width=\"300\" height=\"189\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao4-300x189.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao4-541x340.jpg 541w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao4.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Fala, Galv\u00e3o!<\/em> foi o livro que mais r\u00e1pido eu li na vida &#8211; e \u00e9 por causa dele que fa\u00e7o esse texto. Ao que me parece, Galv\u00e3o pensou o livro &#8211; e Ingo Ostrovsky reproduziu com perfei\u00e7\u00e3o no papel &#8211; como algo diferente de uma biografia. O livro nos d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o (muito facilitada pelo fato de conhecermos muito bem a voz do homem) de que estamos ouvindo o pr\u00f3prio Galv\u00e3o contar a hist\u00f3ria em uma entrevista no Programa do J\u00f4 ou em uma edi\u00e7\u00e3o do Bem, Amigos. Com um pouco de for\u00e7a de vontade, d\u00e1 para imaginar os trejeitos, os cacoetes e essas marcas registradas que at\u00e9 o mais feroz de seus detratores consegue identificar de longe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O livro me fez entender melhor porque eu admiro Galv\u00e3o. Eu j\u00e1 imaginava isso, mas, com o livro, tive certeza. O Galv\u00e3o \u00e9 simplesmente um \u00eddolo na concep\u00e7\u00e3o mais simples do termo. Ele matou aula para ver o seu \u00eddolo, o Pel\u00e9, jogar. Eu matei aula mais de uma vez para v\u00ea-lo narrando. E \u00e9 f\u00e1cil de entender o porqu\u00ea disso e tamb\u00e9m de imaginar que n\u00e3o sou o \u00fanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O esporte \u00e9 algo apaixonante por natureza. A figura do narrador surgiu no r\u00e1dio porque algu\u00e9m tinha de contar o que estava vendo em campo para quem n\u00e3o estava no est\u00e1dio. Talvez, se n\u00e3o existisse r\u00e1dio, apenas televis\u00e3o, o narrador nem existiria. S\u00f3 que, em pouco tempo, algu\u00e9m percebeu que esses caras tinham um poder fora do normal no entretenimento. Esporte, afinal de contas, n\u00e3o passa disso. E de repente come\u00e7aram a surgir bord\u00f5es que fizeram do locutor quase um astro. Eu aposto que muita gente iniciou um jogo de bot\u00e3o ou qualquer outra coisa com um &#8220;abrem-se as cortinas e come\u00e7a o espet\u00e1culo&#8221;, ou, jogando bola, disse &#8220;\u00e9 fogo no bon\u00e9 do guarda!&#8221;, &#8220;o que vale \u00e9 bola na rede!&#8221;, \u00a0&#8220;a casa da vi\u00fava est\u00e1 aberta&#8230;&#8221;, &#8220;o melhor futebol do Mundo no 13&#8230;&#8221;, &#8220;t\u00e1 l\u00e1 dentro&#8221;, &#8220;e que gol!&#8221;, &#8220;pimba na gorduchinha&#8221; e muitas outras frases.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com a televis\u00e3o, a narra\u00e7\u00e3o esportiva tamb\u00e9m precisou se reinventar. Afinal, se fosse apenas para descrever o que estava acontecendo, bastariam as imagens. Mas a\u00ed veio outro dom dos narradores, esse o que, para mim, marca a definitiva liga\u00e7\u00e3o entre essa fun\u00e7\u00e3o e o jornalismo: a capacidade de transmitir emo\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, a princ\u00edpio, algo pr\u00f3ximo do jornalismo, mas \u00e9 que essa capacidade vem da escolha da palavra correta, da capacidade de entender qual a real import\u00e2ncia daquilo que est\u00e1 acontecendo, de tentar traduzir uma sequ\u00eancia de imagens em palavras. Isso \u00e9, basicamente, jornalismo e, na TV (e talvez at\u00e9 considerando os locutores do r\u00e1dio), ningu\u00e9m nunca foi melhor do que Galv\u00e3o Bueno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tivemos e temos muitos narradores capazes de emocionar. Posso fazer uma lista das melhores narra\u00e7\u00f5es de gols da hist\u00f3ria s\u00f3 com os outros narradores tranquilamente. Para ficar s\u00f3 nos da atualidade, temos Cleber Machado e o gol que levou o Atl\u00e9tico Mineiro na\u00a0 final da Libertadores de 2013 para a prorroga\u00e7\u00e3o, Milton Leite e o gol da volta de Ronaldo no Corinthians, Luiz Penido e o gol da classifica\u00e7\u00e3o do Fluminense para a semi e, depois, para a final da Libertadores de 2008, Luis Roberto e o t\u00edtulo carioca do Flamengo em 2014, Everaldo Marques e o gol do Paulinho que levou o Corinthians \u00e0 semifinal da Libertadores em 2012, Jos\u00e9 Carlos Ara\u00fajo e o tri do Flamengo em 2001, Jos\u00e9 Silv\u00e9rio e o fim do jejum do Palmeiras em 1993, Oscar Ulisses e a capacidade de unir equil\u00edbrio e emo\u00e7\u00e3o de modo que v\u00e1rias narra\u00e7\u00f5es se destaquem e muitos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-medium wp-image-36116 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao2-300x273.jpg\" alt=\"galvao2\" width=\"300\" height=\"273\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao2-300x273.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao2.jpg 372w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Galv\u00e3o Bueno tem muitas narra\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis. Ele fala com carinho do &#8220;\u00e9 tetra&#8221;, do gol do Ronaldo no penta (e da loucura do <em>&#8220;se voc\u00ea acredita no Brasil acende e apaga a luz!&#8221;)<\/em>, da prata no revezamento nos Jogos de Sidney, dos t\u00edtulos de Ayrton Senna, mas s\u00e3o muitas outras mais. As vit\u00f3rias de Felipe Massa, de Barrichello, o gol de Adriano na final da Copa Am\u00e9rica de 2004, os gols e os finais dos jogos que deram t\u00edtulos Mundiais a Flamengo, S\u00e3o Paulo, Internacional e Corinthians, a final da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es de 2013, a vit\u00f3ria nos p\u00eanaltis contra o Chile em 2014, as medalhas ol\u00edmpicas, etc, etc, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso porque eu nem falei das derrotas que renderam narra\u00e7\u00f5es geniais, como por exemplo na Copa de 1990 (<em>&#8220;vamo Muller, agoooooraaaaa&#8230;&#8221;, &#8220;o Jorginho foi dar um toque de calcanhar no Maradona aos 44 minutos e meio com o Brasil perdendo o jogo&#8230; Agora o Maradona vai ficar ca\u00eddo quatro horas e meia&#8230;&#8221;, &#8220;foi fazer bolinha na frente do argentino&#8230;&#8221;<\/em>), na de 1998\u00a0<em>(&#8220;torce pra pela primeira vez na vida essa lista estar errado!&#8221;, &#8220;Olha o que aconteceu! Copa do Mundo n\u00e3o \u00e9 lugar de brincadeira!&#8221;)<\/em>, a derrota nos p\u00eanaltis na Copa Am\u00e9rica de 2011\u00a0<em>(&#8220;n\u00e3o vou nem falar nada&#8230;&#8221;)<\/em>, Felipe Massa e a mangueira de combust\u00edvel no GP de Cingapura em 2008, o final daquele campeonato\u00a0<em>(&#8220;cad\u00ea o Glock, cad\u00ea o Glock, cad\u00ea o Glock&#8230;..? e o Glock n\u00e3o resistiu&#8230;&#8221;)\u00a0<\/em>e, \u00e9 claro, o 7 a 1 com seus incont\u00e1veis momentos que, hoje, s\u00e3o engra\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00f3 que, mesmo assim, n\u00e3o \u00e9 isso que faz de Galv\u00e3o um narrador especial. Embora ningu\u00e9m tenha narrado melhor que ele cada um dos momentos citados, ele tamb\u00e9m n\u00e3o foi o melhor em v\u00e1rios outros. Ele mesmo diz que jamais teve o potencial vocal de Luciano do Valle (outro que tamb\u00e9m admiro muito, embora infelizmente tenha descoberto isso tarde demais), o que faz diferen\u00e7a em alguns casos. Seu talento e sua capacidade para passar emo\u00e7\u00e3o seriam suficientes para que ele estivesse entre os maiores. Mas ele \u00e9, e isso eu acho dif\u00edcil contraargumentar, &#8220;o maior&#8221;. &#8220;O melhor&#8221; \u00e9 relativo (para mim ele \u00e9), mas &#8220;o maior&#8221; n\u00e3o tem contesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para mim, Galv\u00e3o \u00e9 o maior n\u00e3o pelo que podemos chamar de momentos agudos do jogo ou da corrida. Ele \u00e9 o maior por tudo o que faz no resto da transmiss\u00e3o. Quando Galv\u00e3o se diz um vendedor de emo\u00e7\u00f5es que anda no fio da navalha entre a verdade dos fatos e a paix\u00e3o, ele soluciona o enigma da narra\u00e7\u00e3o. O narrador, e isso vai do estilo de cada um, pode se destacar pela neutralidade, por &#8220;ler&#8221; o jogo e funcionar como um &#8220;guia&#8221; para quem n\u00e3o tem o conhecimento jornal\u00edstico dele. Temos \u00f3timos narradores nessa linha. Por\u00e9m, em muitos casos, ele vai al\u00e9m. Ele se destaca por falar aquilo que o torcedor est\u00e1 falando. O fot\u00f3grafo registra o momento pelo melhor \u00e2ngulo, o chute, a rede balan\u00e7ando, a c\u00e2mera flagra todo o movimento, o redator descreve como foi, procura o detalhe. O narrador eterniza o que aquilo significou para seu p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma vez vi o Galv\u00e3o falar que a narra\u00e7\u00e3o do tetra foi a mais desafinada e a mais rid\u00edcula, mas que ele gritou daquele jeito porque todo mundo estava gritando igual. E n\u00e3o est\u00e1 certo? Luciano do Valle narrou aqueles p\u00eanaltis com o brilhantismo de sempre: cheio de emo\u00e7\u00e3o, com um potencial vocal impec\u00e1vel. E por que a desafinada do Galv\u00e3o que fez sucesso? Porque realmente estava todo mundo gritando igual. Quem era nascido em 1994 certamente se v\u00ea pulando como pulavam Galv\u00e3o, Pel\u00e9, Arnaldo e Ciro Jos\u00e9. Assim como eu soltei o mesmo &#8220;aiaiaiaiai&#8221; do Galv\u00e3o quando Massa saiu com a mangueira do combust\u00edvel e falei &#8220;que absurdo!&#8221; quando a Alemanha fez mais um gol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que eu quero dizer \u00e9 o que diz Galv\u00e3o: ele n\u00e3o quer se achar mais importante do que a imagem, mas n\u00e3o quer ser dispens\u00e1vel. Ele tem a t\u00e9cnica que s\u00f3 os narradores tem e o talento de traduzir o que todos os torcedores sentem. Parece simples, mas \u00e9 coisa para poucos. Fiori Gigliotti foi um dos narradores de maior sucesso da hist\u00f3ria por quebrar o paradigma de narra\u00e7\u00f5es rebuscadas e trazer uma simplicidade para a narra\u00e7\u00e3o que aproximava narrador e p\u00fablico, fazia o p\u00fablico se identificar com ele. Galv\u00e3o quebrou outro paradigma: o de que narrador n\u00e3o torce, apenas vibra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-36119\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao5.jpg\" alt=\"galvao5\" width=\"590\" height=\"392\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao5.jpg 606w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao5-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galvao5-511x340.jpg 511w\" sizes=\"auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 isso que quero dizer quando falo dos momentos que n\u00e3o s\u00e3o agudos. Galv\u00e3o disse mais de uma vez: &#8220;eu tor\u00e7o mesmo!&#8221;. Ele n\u00e3o se limita a narrar. Ele torce, empurra, incentiva, vibra, \u00e9 como um de n\u00f3s. Por isso, talvez, tenhamos poucas narra\u00e7\u00f5es apote\u00f3ticas de Galv\u00e3o em jogos entre dois clubes brasileiros. Nesses, ele sempre foi &#8220;apenas&#8221; um excelente narrador. Mas ele \u00e9 o que \u00e9, e \u00e9 meu \u00eddolo, porque \u00e9 um comunicador fant\u00e1stico. Ele reclama do juiz como n\u00f3s reclamamos, rebate o que diz seu comentarista como n\u00f3s rebatemos, vai se desesperando como a gente. Um jogo de futebol \u00e9 uma hist\u00f3ria de 90 minutos que tem v\u00e1rios momentos. Em nenhum ou quase nenhum, estamos n\u00f3s, os espectadores, equilibrados. Por isso admiro tanto narradores que conseguem fazer sua narra\u00e7\u00e3o de acordo com o momento do jogo. Ele sempre conseguiu em todos os esportes. E \u00e9, nas entrevistas que d\u00e1 e nos programas que apresenta, uma figura pra l\u00e1 de carism\u00e1tica. Um personagem, como ele mesmo diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Galv\u00e3o \u00e9 o maior expoente de um estilo de narra\u00e7\u00e3o. Esse estilo que torce descaradamente e que, por isso, irrita. Se assistirmos, eu e o leitor, a um jogo juntos, \u00e9 muito prov\u00e1vel que um v\u00e1 discordar do outro. Temos leituras diferentes. Por isso, em geral, comentaristas s\u00e3o mais odiados que narradores. Galv\u00e3o narra, comenta, diz, contesta e isso irrita muita gente. \u00c9 natural. Mas, como uma boa companhia para assistir futebol, para muita gente, ele \u00e9 indispens\u00e1vel. \u00c9 bom que tenhamos narradores que optem pelo estilo mais ponderado, que relate mais e emocione menos. Eu, como a grande maioria dos brasileiros (e isso os n\u00fameros comprovam), quero outra coisa. Quero algu\u00e9m que me fa\u00e7a, com sua narra\u00e7\u00e3o, lembrar da minha alegria ou da minha tristeza naquele momento. Mais uma vez fazendo uma analogia com a fotografia, algu\u00e9m que pegue uma foto bonita e, com um efeito que s\u00f3 o melhor fot\u00f3grafo sabe colocar, tenha a simplicidade de n\u00e3o acrescentar nada, mas apenas real\u00e7ar o que de melhor h\u00e1 ali. E isso, tenho certeza, ningu\u00e9m faz melhor do que ele. Eu sou f\u00e3 e n\u00e3o escondo. Nunca escondi. \u00c9, sim, meu \u00eddolo. Tem quem carregue pro resto da vida os gols que seu \u00eddolo marcou. Eu vou carregar os que o meu \u00eddolo narrou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Fala, Galv\u00e3o! Fala muito mais, Galv\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu comecei a acompanhar futebol para valer no fim de 2002, mais especificamente a partir das semifinais do Campeonato Brasileiro daquele ano. 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