{"id":35851,"date":"2015-07-08T05:50:45","date_gmt":"2015-07-08T08:50:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=35851"},"modified":"2015-07-07T19:53:28","modified_gmt":"2015-07-07T22:53:28","slug":"a-gramatica-dos-tambores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/07\/a-gramatica-dos-tambores\/","title":{"rendered":"A Gram\u00e1tica dos Tambores"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Os tambores rituais possuem gram\u00e1ticas pr\u00f3prias. Eles, afinal, contam hist\u00f3rias, conversam com as mulheres, homens e crian\u00e7as, modelam condutas e ampliam os horizontes do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tocadores dos tambores rituais, normalmente preparados para essa fun\u00e7\u00e3o desde crian\u00e7as, precisam aprender o toque adequado para cada orix\u00e1, vodum ou inquice. H\u00e1, portanto, uma pedagogia do tambor, feita dos sil\u00eancios das falas e da resposta dos corpos e fundamentada nas maneiras de ler o mundo sugeridas pelos mitos primordiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 toques para expressar conquistas, alegrias, tristezas, cansa\u00e7o, realeza, harmonia, suavidade e conflitos. H\u00e1 os que anunciam a vida e os que celebram a morte. Anunciadores de reis e de razias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da hist\u00f3ria das culturas da di\u00e1spora africana no Brasil, os tambores muita vezes contaram o que a palavra n\u00e3o podia dizer. No processo, por exemplo, de legitima\u00e7\u00e3o das escolas de samba \u2013 a partir da media\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo com o estado \u2013 tal fato se evidenciou com not\u00e1vel perspic\u00e1cia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fala-se muito que as escolas de samba, durante boa parte de suas trajet\u00f3rias, contaram em seus enredos a Hist\u00f3ria oficial, as efem\u00e9rides da p\u00e1tria e os propalados grandes personagens. Isso \u00e9 verdade se atentarmos apenas para os enredos e letras dos sambas. As baterias, todavia, contavam outra coisa, elaboravam outros relatos, percept\u00edveis para aqueles que conheciam a gram\u00e1tica dos tambores. Exemplifico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caixa de guerra, um tambor com uma membrana superior e outra inferior, algo que muitos sabem, \u00e9 um instrumento que d\u00e1 uma const\u00e2ncia r\u00edtmica ao conjunto de uma bateria, al\u00e9m de sustentar o andamento do samba.\u00a0\u00a0 O toque das caixas era o elemento que, na maioria das vezes, identificava as orquestras de percuss\u00e3o das agremia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em v\u00e1rios casos o toque das caixas fundamentava-se na batida dos orix\u00e1s. \u00c9 not\u00f3rio para quem conhece que o aguer\u00e9 de Oxossi anunciava a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel e o il\u00fa \u2013 tamb\u00e9m conhecido como aguer\u00e9 de Ians\u00e3 &#8211; marcava as baterias da Portela e do Imp\u00e9rio Serrano, por exemplo. A Mangueira tamb\u00e9m est\u00e1 nessa. O Salgueiro, com as caixas posicionadas no alto, apresentava um toque mais pr\u00f3ximo da levada do pandeiro do partido-alto (caracter\u00edstica tamb\u00e9m da Est\u00e1cio e da Unidos da Tijuca).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mocidade 1968 6\/10 - Viagem Pitoresca Atrav\u00e9s do Brasil\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wvoPRdaPyAA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem apenas conhece a gram\u00e1tica das letras, ao ouvir o samba de 1968 da Mocidade Independente de Padre Miguel vai identificar a homenagem ao pintor alem\u00e3o J.M. Rugendas. Quem aprendeu o tambor, todavia, escutar\u00e1 a louva\u00e7\u00e3o aos orix\u00e1s ca\u00e7adores sintetizados nos mitos de Oxossi e no toque do aguer\u00e9. Enquanto as fantasias, alegorias e a letra do samba evocavam o homem das telas, a bateria evocava a cad\u00eancia e a ast\u00facia do ca\u00e7ador que conhece os atalhos da floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem hoje critique a perda desses elementos identit\u00e1rios das baterias. H\u00e1 quem busque recuper\u00e1-los, inclusive do ponto de vista pedag\u00f3gico a partir da forma\u00e7\u00e3o de novos ritmistas. N\u00e3o podemos, ainda, desconsiderar que em outros tempos as baterias eram fortemente marcadas pela presen\u00e7a dos og\u00e3s das casas de culto. A separa\u00e7\u00e3o, afinal, entre sagrado e profano simplesmente n\u00e3o \u00e9 pertinente para as concep\u00e7\u00f5es de mundo e saberes afro-brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolas de samba e terreiros eram, em larga medida, extens\u00f5es de uma mesma coisa: institui\u00e7\u00f5es associativas de inven\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o, dinamiza\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de identidades comunit\u00e1rias, redefinidas no Brasil a partir da fragmenta\u00e7\u00e3o que a di\u00e1spora negreira imp\u00f4s. O tambor \u00e9 talvez a ponte mais s\u00f3lida entre o terreiro e a avenida.<\/p>\n<p>Apenas a t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, podemos citar alguns toques mais famosos, que demonstram como os tambores falam de maneiras diversas. Nos terreiros de Ketu, o toque caracter\u00edstico de Ogum \u00e9 o adarrum e se caracteriza pela rapidez e pelo ritmo cont\u00ednuo, capaz de evocar o car\u00e1ter marcial do orix\u00e1 guerreiro e propiciar o transe. O citado aguer\u00e9, consagrado a Oxossi, descreve um ritual de ca\u00e7a.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Aguer\u00e9 - Toque sagrado do orixa Od\u00e9\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5Bqf6Kj4Wfg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O il\u00fa de Ians\u00e3 (tamb\u00e9m conhecido como \u201cquebra-pratos\u201d) \u00e9 muito r\u00e1pido e repicado, representando a agita\u00e7\u00e3o da senhora dos ventos, controladora de rel\u00e2mpagos e tempestades. O aluj\u00e1 de Xang\u00f4 \u00e9 vigoroso e se caracteriza pelo constante dobrar do rum, o maior dos tambores, como a simbolizar os trov\u00f5es que o grande orix\u00e1 comanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nan\u00e3, anci\u00e3 de dan\u00e7a lenta, tem como toque marcante o sat\u00f3, que evoca o peso dos tempos e o car\u00e1ter vener\u00e1vel da iab\u00e1 mais velha. O opanij\u00e9 de Omolu \u00e9 um toque quebrado por pausas e pela lentid\u00e3o solene, como a evocar os mist\u00e9rios do orix\u00e1. A vamunha \u00e9 uma marcha r\u00e1pida, tocada geralmente para a entrada e a sa\u00edda dos ia\u00f4s e para a retirada dos orix\u00e1s no final da festa. Convida, em sua empolga\u00e7\u00e3o, para aclama\u00e7\u00f5es dos presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O igbin, toque consagrado a Oxaluf\u00e3, se caracteriza pela lentid\u00e3o e pelo desenvolvimento cont\u00ednuo do ritmo. Evoca o lento caminhar do caramujo que carrega sua pr\u00f3pria casa, como Oxaluf\u00e3 carrega o peso do mundo. O ijex\u00e1, preferencialmente tocado para Oxum e Loguned\u00e9, evoca a suavidade dos banhos de rio e dos ritos de sedu\u00e7\u00e3o t\u00edpicos desses orix\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios outros toques obedecem a este mesmo crit\u00e9rio descritivo, como o adabi de Exu, o korin-ewe de Ossain e o bravum que embala o bailado rasteiro de Oxumar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 nas casas de Angola, o repert\u00f3rio dos atabaques se estrutura em torno de tr\u00eas ritmos basilares: barravento, cabula e congo. Cada um deles apresenta varia\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o caso da muzenza (provavelmente o toque mais famoso) em rela\u00e7\u00e3o ao barravento. Os toques de Angola s\u00e3o mais soltos. Inquices, orix\u00e1s e caboclos podem ser evocados por qualquer um dos toques b\u00e1sicos e suas varia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As influ\u00eancias r\u00edtmicas da cabula, do barravento e do congo se fazem sentir com mais evid\u00eancia em uma s\u00e9rie de ritmos profanos da m\u00fasica brasileira, sobretudo vinculados ao tronco do samba e suas varia\u00e7\u00f5es. S\u00e3o marcantes tamb\u00e9m na pr\u00e1tica da capoeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem n\u00e3o percebe que existe a\u00ed, nesse idioma dos tambores, um manancial educativo vigoroso de elucida\u00e7\u00e3o dos mundos e capacita\u00e7\u00e3o para interpretar a vida? \u00c9 sempre tempo de reconhecer e estudar as possibilidades did\u00e1ticas que os atabaques tiveram na forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as de terreiro e escolas de samba. As agremia\u00e7\u00f5es e suas baterias precisam ter consci\u00eancia da dimens\u00e3o educativa que as escolas de samba tiveram um dia. Oxal\u00e1 voltem a ter e reassumam a condi\u00e7\u00e3o cotidiana de educar para a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tambor tamb\u00e9m \u00e9 livro e o aguidavi \u2013 a vareta sagrada que percute o couro \u2013 \u00e9 caneta poderosa para contar as aventuras do mundo. Eles educaram mais gente que os nossos olhares, acostumados apenas aos saberes que se cristalizaram formalmente nos bancos acad\u00eamicos e escolas padronizadas, imaginam. Saibamos reconhecer, aprender e ensinar as suas falas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os tambores rituais possuem gram\u00e1ticas pr\u00f3prias. Eles, afinal, contam hist\u00f3rias, conversam com as mulheres, homens e crian\u00e7as, modelam condutas e ampliam os horizontes do mundo.Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[18,19,9],"class_list":["post-35851","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-carnaval","tag-escolas-de-samba","tag-religiao"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35851"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35851\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}