{"id":33043,"date":"2015-02-21T12:45:04","date_gmt":"2015-02-21T14:45:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=33043"},"modified":"2015-02-21T12:50:49","modified_gmt":"2015-02-21T14:50:49","slug":"canta-guine-equatorial","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/02\/canta-guine-equatorial\/","title":{"rendered":"Canta, Guin\u00e9 Equatorial!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um gri\u00f4 \u00e9 um s\u00e1bio anci\u00e3o cuja responsabilidade \u00e9 transmitir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes os ensinamentos e as hist\u00f3rias vividas pelos seus ancestrais. Um gri\u00f4 me levou em determinada madrugada de ter\u00e7a-feira gorda at\u00e9 a Ceiba, a \u00e1rvore da vida que marca o territ\u00f3rio da Guin\u00e9 Equatorial. Tamb\u00e9m me fez conhecer ou relembrar costumes e ritos antigos de povos africanos que, de uma maneira ou de outra, s\u00e3o respons\u00e1veis pelo meu pa\u00eds ser o que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m conheci atrav\u00e9s desse gri\u00f4 foli\u00e3o a ra\u00e7a dos negros e seus primitivos contatos com os povos europeus. Soube que a Guin\u00e9 Equatorial, pa\u00eds sobre o qual pouco tinha ouvido falar, foi dominada por franceses, tamb\u00e9m recebeu holandeses e ingleses, mas foi conquistada mesmo pelos portugueses. Uma hist\u00f3ria, semelhante em suas diferen\u00e7as, com a do Brasil. Mas as peculiaridades da Guin\u00e9 Equatorial tamb\u00e9m foram ensinadas por esse gri\u00f4. A diversidade natural, as riquezas minerais e a os princ\u00edpios que nortearam a nova na\u00e7\u00e3o independente n\u00e3o est\u00e3o, por \u00f3bvio, nos livros de hist\u00f3ria. Mas o gri\u00f4 fez o favor de me ensinar, assim como de mostrar que eu n\u00e3o estava enganado e, sim, existem la\u00e7os entre o Brasil e a Guin\u00e9 Equatorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para espanto de voc\u00ea que passou os \u00faltimos dias postando no Facebook que a Beija-Flor foi campe\u00e3 do Carnaval 2015 com um enredo sobre um ditador, digo que fiz nestes dois \u00faltimos par\u00e1grafos fiz um resumo bastante sucinto de &#8220;Um gri\u00f4 conta a hist\u00f3ria: um olhar sobre a \u00c1frica e o despontar da Guin\u00e9 Equatorial. Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade&#8221;, o enredo da azul-e-branca de Nil\u00f3polis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como qualquer um pode ver &#8211; e, se n\u00e3o acredita em mim, pode ver <span style=\"color: #ff6600;\"><a style=\"color: #ff6600;\" href=\"http:\/\/liesa.globo.com\/2015\/material\/carnaval15\/abrealas\/abrealassegunda2015.pdf\">direto da fonte<\/a><\/span>\u00a0-, o enredo da Beija-Flor n\u00e3o faz qualquer tipo de men\u00e7\u00e3o e muito menos de exalta\u00e7\u00e3o a Teodoro Obaing Nguema Mbasogo, o ditador que comanda o pa\u00eds homenageado. O enredo, brilhantemente desenvolvido pela comiss\u00e3o de carnaval da agremia\u00e7\u00e3o nilopolitana, fez aquilo que se espera de um Carnaval: nos ensinou algo sobre uma cultura ao mesmo tempo distante e t\u00e3o pr\u00f3xima. Seria a hist\u00f3ria de Guin\u00e9 Equatorial menos interessante e carnavalesca que a da Su\u00ed\u00e7a, narrada pela Unidos da Tijuca? N\u00e3o. Prova disso \u00e9 que a da Beija-Flor deu samba, a da Tijuca nem tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tudo isso, me espantou ver gente que acompanha Carnaval o ano todo h\u00e1 tantos anos descendo a marreta no tema da campe\u00e3 de 2015 &#8211; o que j\u00e1 acontecia desde o an\u00fancio do enredo, embora em menor grau. Em uma \u00e9poca bastante macabra em termos de enredos no Carnaval, esperava mais elogios. Ainda mais por ser o resgate da ess\u00eancia da escola de Nil\u00f3polis, que desde 2007 n\u00e3o trazia para a Avenida um tema afro. Mas mais espantoso ainda foi ver essas mesmas pessoas espantadas e indignadas com a nota m\u00e1xima do enredo que, vamos repetir, n\u00e3o exaltou e nem mencionou ditador nenhum. Vamos agora para o <span style=\"color: #ff6600;\"><a style=\"color: #ff6600;\" href=\"http:\/\/liesa.globo.com\/2015\/por\/03-carnaval\/manual\/ManualdoJulgadorCarnaval2015.pdf\">manual do julgador<\/a><\/span> do quesito enredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Para conceder notas de 9,0 \u00e0 10,0 pontos, o Julgador dever\u00e1 considerar: CONCEP\u00c7\u00c3O: (valor do sub-quesito: de 4,5 \u00e0 5,0 pontos)<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; o argumento ou tema, ou seja, a id\u00e9ia b\u00e1sica apresentada pela Escola e o desenvolvimento te\u00f3rico do tema proposto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>REALIZA\u00c7\u00c3O: (valor do sub-quesito: de 4,5 \u00e0 5,0 pontos)<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; a sua adapta\u00e7\u00e3o, ou seja, a capacidade de compreens\u00e3o do enredo a partir da associa\u00e7\u00e3o entre o Tema ou Argumento proposto e o seu desenvolvimento apresentado na Avenida atrav\u00e9s das Fantasias, Alegorias e outros elementos pl\u00e1stico-visuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; a apresenta\u00e7\u00e3o seq\u00fcencial das diversas partes (alas, alegorias, fantasias, etc.) que ir\u00e1 possibilitar o entendimento do tema ou argumento proposto, de acordo com o roteiro previamente fornecido pela Escola (Livro Abre-Alas);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; a criatividade (n\u00e3o confundir com ineditismo);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sinceramente n\u00e3o vejo onde tirar ponto desse enredo com base nesses crit\u00e9rios. Acho uma \u00f3tima escolha de tema e achei muito bem realizado. Ali\u00e1s, vi poucas cr\u00edticas ao tema nesse sentido. As cr\u00edticas foram por conta, vejam voc\u00eas, do patroc\u00ednio (que, embora muito prov\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 provado) de, segundo conta-se, R$ 11 milh\u00f5es recebido pela escola dos cofres da miser\u00e1vel Guin\u00e9 Equatorial. Vamos por partes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ditador, segundo se diz, \u00e9 corrupto. O pa\u00eds \u00e9 pobre. Por essa conta, realmente o dinheiro que chegou at\u00e9 Nil\u00f3polis \u00e9 um crime contra os habitantes do pa\u00eds homenageado. Do ponto de vista \u00e9tico, pode ser at\u00e9 um contrasenso homenagear um povo com um dinheiro que lhe far\u00e1 falta. Por\u00e9m, isso n\u00e3o faz desse dinheiro um dinheiro sujo e muito menos ilegal. Foi um investimento de um Estado independente em um espet\u00e1culo internacional feito para promover o pa\u00eds (deu errado nesse sentido, mas s\u00e3o os riscos do marketing). Repito, a discuss\u00e3o n\u00e3o deve ser sobre a origem do dinheiro, mas sim sobre sua aplica\u00e7\u00e3o. E, ao menos em minha vis\u00e3o, isso \u00e9 algo que compete mais \u00e0 Guin\u00e9 Equatorial que \u00e0 Beija-Flor, embora esta, \u00e9 verdade, poderia ter aberto m\u00e3o do financiamento em prol do pa\u00eds que homenageou &#8211; n\u00e3o que fosse uma obriga\u00e7\u00e3o, ressalto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao constatar que o enredo n\u00e3o exaltou ditador nenhum, algumas pessoas lan\u00e7aram um argumento que beira o inacredit\u00e1vel. Ao contar um enredo sobre Guin\u00e9 Equatorial, a escola obrigatoriamente deveria mencionar os anos de ditadura sanguin\u00e1ria que assolam o pa\u00eds. Al\u00e9m de querer interferir na liberdade criativa dos outros, esse pitaco demonstra uma falta de conhecimento sobre o assunto que chega a dar pena. A Portela falou sobre o Rio de Janeiro sem citar enchentes, viol\u00eancia, vigas da perimetral e trens da supervia. Fico aqui imaginando um carro aleg\u00f3rico no desfile da Unidos da Tijuca sobre os bancos su\u00ed\u00e7os que recebem dinheiro de corrup\u00e7\u00e3o (inclusive da Guin\u00e9 Equatorial), mas prefiro n\u00e3o imaginar como seria a alegoria dos problemas do excesso no consumo de iogurte no desfile de 2012 da Porto da Pedra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Homenagens, no Carnaval e em qualquer outra \u00e1rea, s\u00e3o feitas para exaltar e n\u00e3o para criticar. E, voltando a quest\u00e3o do patroc\u00ednio, eu confesso que cheguei a dar risada quando vi o mundo do samba chocado com tudo isso. Eu amo Carnaval, muitos outros colunistas tamb\u00e9m, mas tentar negar a contribui\u00e7\u00e3o do dinheiro sujo (esse dinheiro sujo mesmo, ilegal, n\u00e3o simplesmente um investimento desnecess\u00e1rio por parte de um pa\u00eds miser\u00e1vel) na grandiosidade do Carnaval atual \u00e9 de uma inoc\u00eancia impressionante. E n\u00e3o \u00e9 coisa do passado n\u00e3o. Sempre existiu e ainda existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, \u00e9 esse outro tipo de dinheiro sujo que provoca a indigna\u00e7\u00e3o das pessoas que n\u00e3o acompanham Carnaval com esse financiamento do Carnaval de 2015 da Beija-Flor. Todos os pa\u00edses do mundo tem rela\u00e7\u00e3o com ditadores e ditaduras. Todos. Podem n\u00e3o ser amigos, mas tem rela\u00e7\u00f5es. Algu\u00e9m imagina o Mundo virando as costas para o petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio, marcado por deixar muita gente bilion\u00e1ria enquanto seus habitantes vivem entre a mis\u00e9ria absoluta e a escravid\u00e3o? Pa\u00edses estes, ali\u00e1s, que patrocinam e muitas vezes compram gigantes clubes europeus tidos como &#8220;exemplos de gest\u00e3o&#8221;, corridas de F\u00f3rmula 1 de encher os olhos e outros eventos. Tem tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es comerciais cada vez mais estreitas com a ditadura &#8220;socialista de mercado&#8221; da China e, no caso brasileiro, as rela\u00e7\u00f5es com ditaduras hist\u00f3ricas como a cubana. Ali\u00e1s, at\u00e9 os Estados Unidos entraram nessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diga-se de passagem, a pr\u00f3pria Guin\u00e9 Equatorial tem rela\u00e7\u00f5es comerciais com v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, incluindo o Brasil. Em todos esses casos, sem exce\u00e7\u00e3o, as pessoas sempre lamentam, mas dizem que &#8220;\u00e9 o jeito&#8221;. \u00c9 o capitalismo. Se \u00e9 o capitalismo, por que tanta revolta com o patroc\u00ednio ditatorial a Beija-Flor? Simples. Porque, durante esses anos todos, o Carnaval ficou marcado pela rela\u00e7\u00e3o com o dinheiro sujo. A pr\u00f3pria Beija-Flor \u00e9 associada imediatamente por quem n\u00e3o entende muito do neg\u00f3cio com a contraven\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque, nos outros 10 meses do ano o Carnaval s\u00f3 est\u00e1 nos jornais quando algum bicheiro que \u00e9 patrono de escola de samba vai preso. Ent\u00e3o, o rigor \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diria Jair Rodrigues, deixe que digam, que pensem e que falem. Essa discuss\u00e3o toda \u00e9 in\u00fatil e n\u00e3o leva a lugar nenhum. Em um mundo cor de rosa, todo e qualquer tipo de dinheiro ilegal sairia do Carnaval e de todos os outros setores da sociedade, mas essa \u00e9 uma realidade muito distante e, se algu\u00e9m pode mud\u00e1-la, \u00e9 a Pol\u00edcia. Ela que investigue, ela que descubra que escola \u00e9 financiada por quem. Eu, honestamente, n\u00e3o sei, nem tenho como saber e nem quero. S\u00f3 lamento que todo esse debate tenha apagado e, pior, tenha colocado em xeque a lisura e o merecimento de mais um t\u00edtulo da Beija-Flor que, enfim, resgatou sua alma africana e, na batida do tambor, voltou na mem\u00f3ria de um gri\u00f4. Parab\u00e9ns, Nil\u00f3polis!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um gri\u00f4 \u00e9 um s\u00e1bio anci\u00e3o cuja responsabilidade \u00e9 transmitir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes os ensinamentos e as hist\u00f3rias vividas pelos seus ancestrais. 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