{"id":31809,"date":"2015-01-15T05:42:56","date_gmt":"2015-01-15T07:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=31809"},"modified":"2015-01-12T09:08:39","modified_gmt":"2015-01-12T11:08:39","slug":"sem-folego","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2015\/01\/sem-folego\/","title":{"rendered":"Sem f\u00f4lego"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sabe aquela express\u00e3o \u201clendo de um f\u00f4lego s\u00f3\u201d? Pois eu li <em>\u201c<a href=\"http:\/\/www.travessa.com.br\/nem-a-morte-nos-separa\/artigo\/e8f5d992-8f2b-4c02-b31d-ea2afb38c2e7\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">Nem a Morte nos Separa<\/span><\/a>\u201d <\/em>(Ed.Mauad X), livro escrito pelo jornalista Ricardo Gonzalez sobre o seu filho Rafael, de um sem-f\u00f4lego s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra tinha tudo para caminhar pela perigosa trilha da autocomisera\u00e7\u00e3o e cair no piegas, afinal \u2013 e sabe-se desde sempre o final tr\u00e1gico da hist\u00f3ria \u2013 Rafael era um jovem em seus plenos 21 anos de idade quando foi diagnosticado com c\u00e2ncer. Ricardo foge do caminho \u00f3bvio ao colocar um tema t\u00e3o delicado no papel, da mesma forma que teve uma atua\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria como pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo adiantar que o autor \u00e9 um amigo de h\u00e1 30 anos, o que me fez tentar ler a obra com algum distanciamento, tarefa em que tive apenas parte do sucesso. Mas esta resenha \u00e9 sincera, bem como o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu e Ricardo nos conhecemos na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da UFRJ, h\u00e1 exatas tr\u00eas d\u00e9cadas. Frequentamos os mesmos campos de pelada e divid\u00edamos a paix\u00e3o pela m\u00fasica e pelo Flamengo. Chegamos a tocar numa banda (n\u00f3s e os irm\u00e3os Randy e Sidney Merino) e acompanhamos juntos no Maracan\u00e3 quase todos os jogos da conquista da Copa Uni\u00e3o de 1987 (quase sempre acompanhados pelo pai do Ricardo, o espanhol Constantino, que tamb\u00e9m valeria um livro s\u00f3 para ele).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da banda, o Ricardo come\u00e7ou a namorar a M\u00f4nica. Eles engravidaram, e como a M\u00f4nica tocava teclado, logo foi incorporada ao grupo. Uma vez por semana, o Rafael, ainda na barriga da m\u00e3e-tecladista, ouvia os ensaios do Vira-Lobos. Quando nasceu, al\u00e9m dos pais, ele identificava a voz do tio-cantor aqui. Logo depois, mudei-me pela primeira vez para S\u00e3o Paulo e casei. Quando voltei ao Rio, foi a vez de Ricardo vir trabalhar na Folha. E, desta maneira, a vida foi desencontrando os amigos que, ainda assim, falavam-se de vez em quando, ao que a amizade dava mostras de que sempre se manteve viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 poucos anos, antes de voltar a morar em S\u00e3o Paulo, marquei de me encontrar com o Ricardo no Maracan\u00e3. Surpreso, revi tamb\u00e9m o Rafael, que j\u00e1 era ent\u00e3o um adolescente na virada para a vida adulta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?attachment_id=29542\" rel=\"attachment wp-att-29542\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-29542\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140906_164124-300x168.jpg\" alt=\"20140906_164124\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140906_164124-300x168.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140906_164124-550x309.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Pode parecer lugar-comum, mas eu atesto que \u00e9 a mais pura verdade: Rafael era um moleque daqueles que d\u00e1 orgulho nos pais e enchem a todos em volta de admira\u00e7\u00e3o. Era um promissor jornalista, especializado em esportes como o pai, mas mantinha viva a inquietude que o levava a se interessar por outras \u00e1reas, e estava cursando Hist\u00f3ria tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele e o Ricardo eram grandes amigos, desses de compartilhar mais que apenas tempo juntos. E uma das coisas que eles tinham em comum \u00e9 uma vis\u00e3o bastante positiva da vida, uma felicidade contagiante, um otimismo sadio e o prazer de levar a vida construindo coisas bem feitas \u2013 mat\u00e9rias jornal\u00edsticas, carreiras, amizades, m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesse cen\u00e1rio quase perfeito em que o Ricardo come\u00e7ou a escrever o livro porque, se havia alguma coisa errada com a sa\u00fade do filho, o relato serviria futuramente para contar como deram juntos a volta por cima. Depois, quando a situa\u00e7\u00e3o tornou-se mais aguda, o livro poderia ter tomado o rumo de uma obra-den\u00fancia sobre a precariedade da sa\u00fade no Brasil, t\u00e3o profunda quanto o despreparo para lidar com situa\u00e7\u00f5es at\u00edpicas, doen\u00e7as terminais e com o lado humano da atividade m\u00e9dica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ricardo foge desses estere\u00f3tipos, da mesma forma que soube fugir do sentimentalismo vazio, ou de vender uma \u201cverdade\u201d e uma \u201cli\u00e7\u00e3o\u201d a partir de fatos t\u00e3o duros. O livro, ao contr\u00e1rio, tenta relatar com o bom-humor poss\u00edvel \u2013 o senso de humor e esperan\u00e7a que ligaram pai e filho \u2013 e com a serenidade cab\u00edvel, a travessia de uma fam\u00edlia ao longo de um ano de lutas que resultou num crescimento pessoal de cada um mas, infelizmente, no falecimento do Rafael.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como narrador, Ricardo consegue a proeza de manter o leitor sem f\u00f4lego do in\u00edcio ao fim sem que, para isso, use qualquer subterf\u00fagio emocional ou estil\u00edstico. Nem mesmo o recurso do suspense. O livro \u00e9 absolutamente sincero. Emociona exatamente porque o autor n\u00e3o retira nem acrescenta nada artificialmente. N\u00e3o h\u00e1 autopiedade, lamenta\u00e7\u00f5es fora de lugar, exageros. H\u00e1 a vida como ela \u00e9, ou pode ser \u00e0s vezes, da forma como ela \u00e9. Sem explica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, sem uma busca maluca por um sentido, sem revolta pela falta de sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que n\u00e3o significa que seja um livro frio, sem pesar, sem dor, sem l\u00e1grimas. Eu li entre solu\u00e7os, mas n\u00e3o pelas minhas rela\u00e7\u00f5es pessoais com os personagens, eu que tenho o Ricardo como a um irm\u00e3o. Mesmo que n\u00e3o o conhecesse, eu teria perdido a linha da mesma forma, porque estava diante de um relato honesto, antes de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lan\u00e7amento do livro aqui em S\u00e3o Paulo foi em dezembro e, como disse o Ricardo, s\u00f3 o Rafael para faz\u00ea-lo reencontrar pessoalmente tanta gente querida. Sa\u00ed da livraria j\u00e1 folheando e acabei a leitura dois dias depois. \u00c0s v\u00e9speras do Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, fiquei com vontade de compartilhar a experi\u00eancia com mais amigos. Falei v\u00e1rias vezes do \u201cNem a Morte nos Separa\u201d. Foi exatamente por n\u00e3o tentar impor uma moral \u00e0 est\u00f3ria que Ricardo deixou ao leitor o melhor legado: cada um repassa pelo caminho \u00e0 sua maneira, tirando viv\u00eancias e conclus\u00f5es pr\u00f3prias e pessoais. No meu caso, eu acho que emergi da leitura um pouquinho melhor como ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?attachment_id=29540\" rel=\"attachment wp-att-29540\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-29540\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140906_164917-300x168.jpg\" alt=\"20140906_164917\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140906_164917-300x168.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140906_164917-550x309.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Talvez o Ricardo consiga entregar um pouco do seu cora\u00e7\u00e3o imenso junto com a sua hist\u00f3ria. Ele j\u00e1 tinha passado por tudo isso quando, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia de 400 km, numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil para mim, foi o amigo mais leal que algu\u00e9m pode ter. Mas voc\u00ea n\u00e3o precisa ter esta proximidade para perceber o tamanho do cora\u00e7\u00e3o deste cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, talvez por transitar numa vibra\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica t\u00e3o boa, coisas m\u00e1gicas acontecem com este livro. Algumas s\u00e3o contadas ao final do pr\u00f3prio relato. Outras continuam acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro dia mesmo, ao final do Sarau At\u00e9 Quarta, eu recomendei o livro aos presentes. N\u00e3o entrei em detalhes, n\u00e3o falei sobre o que era, s\u00f3 dei o t\u00edtulo e sugeri a leitura. Quando j\u00e1 recolh\u00edamos as cadeiras do evento, um autor presente veio me perguntar o nome do livro e a editora. Ent\u00e3o, eu comentei sobre o tema, o porqu\u00ea da minha sugest\u00e3o. Pois o meu interlocutor disse que iria ler, sem falta, que tamb\u00e9m ele havia perdido h\u00e1 uns poucos anos um filho adolescente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias depois, quando eu estava prestes a escrever esta coluna, a televis\u00e3o do quarto ligada, vi no v\u00eddeo por acaso uma cena de \u201cO Dia Depois de Amanh\u00e3\u201d que o Ricardo relata no livro. \u00c9 o dia seguinte ao anivers\u00e1rio de nascimento do Rafael. N\u00e3o pode ser acaso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o \u00e9 de todo casual que eu, depois de adiar por duas semanas, publique esta coluna na semana do 50\u00ba anivers\u00e1rio do meu irm\u00e3o Ricardo Gonzalez. Como a coincid\u00eancia j\u00e1 estava praticamente feita, eu pedi ao editor que \u201csubisse\u201d a coluna na data de hoje, dia exato. Meu amigo comemorar\u00e1 no pr\u00f3ximo s\u00e1bado. Tive que recusar o convite de ir ao Rio, porque vou passar o final de semana fora, e j\u00e1 estava marcado quando ele combinou a festa. Os irm\u00e3os Merino devem estar por l\u00e1. Est\u00e1 programado tocarem alguma coisa da antiga banda, o Ricardo me pediu para tocarem uma composi\u00e7\u00e3o minha. Nem precisava pedir, \u00e9 claro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu amigo, que a vida d\u00ea toda a felicidade poss\u00edvel. Agora a gente ficou velho o suficiente para saber que nada \u00e9 por merecimento. Porque, se fosse, este livro teria sido, no m\u00e1ximo, fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, que seja pelo acaso, que ele lhe traga agora o que n\u00f3s sabemos que a vida deveria ter dado, desde sempre, por tudo que voc\u00ea merece de bom.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe aquela express\u00e3o \u201clendo de um f\u00f4lego s\u00f3\u201d? 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