{"id":31089,"date":"2014-12-09T06:58:33","date_gmt":"2014-12-09T08:58:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=31089"},"modified":"2014-12-12T11:40:31","modified_gmt":"2014-12-12T13:40:31","slug":"paulo-stein-a-voz-do-samba-carioca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/12\/paulo-stein-a-voz-do-samba-carioca\/","title":{"rendered":"Paulo Stein, a voz do samba carioca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em 1947, Paulo Stein \u00e9 considerado at\u00e9 hoje pelos amantes do Carnaval refer\u00eancia nas transmiss\u00f5es dos desfiles das escolas de samba. Hoje no SporTV, Paulo n\u00e3o tem mais participado das coberturas como na \u00e9poca \u00e1urea da extinta Rede Manchete, na qual liderava um time recheado de comentaristas de peso como Fernando Pamplona, Jos\u00e9 Carlos R\u00eago, S\u00e9rgio Cabral, Roberto Barreira, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio a incont\u00e1veis hist\u00f3rias saborosas dos desfiles,\u00a0Paulo ainda tem acesa a chama do Carnaval dentro dele e por isso alerta, em entrevista exclusiva ao Ouro de Tolo, sobre os atuais rumos das escolas de samba:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O samba t\u00e1 morrendo! Gente boa n\u00e3o falta, a imposi\u00e7\u00e3o aos compositores \u00e9 que \u00e9 perniciosa. Lembrando a Alcione, <em>\u201cN\u00e3o deixe o samba morrer\/N\u00e3o deixe o samba acabar\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ouro de Tolo: Como come\u00e7ou sua rela\u00e7\u00e3o com o Carnaval?<\/strong><br \/>\n<strong>Paulo Stein<\/strong>: Sempre gostei de Carnaval. Eu quando garoto era levado pelo meu pai para o Carnaval de rua, na \u00e9poca em que se tinha um grande Carnaval de rua, desfiles de blocos&#8230; Eu me fantasiava de tirol\u00eas, de pirata. Com o passar dos anos, virei jornalista e comecei minha carreira em 1968, no extinto Jornal dos Sports, e eles tinham cobertura de Carnaval. Ent\u00e3o, eu passei a ir \u00e0s escolas, aos ensaios, quando algum rep\u00f3rter ia l\u00e1 para alguma pauta. Fui a in\u00fameros ensaios nas quadras antigas das escolas de samba como Mangueira, Imp\u00e9rio Serrano, Salgueiro l\u00e1 no morro ainda. Da\u00ed, o Carnaval das escolas de samba entrou no meu gosto e passei a acompanhar os desfiles e as transmiss\u00f5es. Por isso, passei a ter cada vez mais conhecimento. Al\u00e9m disso, o meu irm\u00e3o Fernando Pamplona era muito amigo do meu irm\u00e3o. Eu era garoto e o Pamplona j\u00e1 frequentava a minha casa, ent\u00e3o foi uma pessoa que tamb\u00e9m me deu um gancho muito grande pro Carnaval.\u00a0E, numa dessas oportunidades da vida, eu estava na Manchete quando\u00a0houve a chance\u00a0de transmitir o Carnaval de 1984 depois que\u00a0a Globo desistiu de transmitir os desfiles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paulostein2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-31095 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paulostein2-300x181.jpg\" alt=\"paulostein2\" width=\"300\" height=\"181\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paulostein2-300x181.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paulostein2.jpg 417w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>OT:\u00a0A Globo n\u00e3o quis realmente transmitir o carnaval de 1984? Como se negociaram os direitos de transmiss\u00e3o daquele ano?<\/strong><br \/>\nPS: A ideia do Professor Darcy Ribeiro (ent\u00e3o vice-governador do Rio) de fazer um est\u00e1dio permanente para o samba foi encampada pelo governador Brizola, e a genialidade de Oscar Niemeyer de juntar no mesmo lugar um CIEP foi um marco. Mas Darcy Ribeiro queria estender a folia por mais um dia para dar ao povo mais tempo para se divertir na grande festa. As instala\u00e7\u00f5es anteriores, que eram montadas anualmente em andaimes (antes da Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, tamb\u00e9m foram erguidas na Presidente Vargas e na Ant\u00f4nio Carlos), custavam caro e atrapalhavam o tr\u00e2nsito por quatro meses, da\u00ed a ideia de se criar um espa\u00e7o fixo.\u00a0O professor Darcy ent\u00e3o imaginou uma grande festa, apote\u00f3tica e vislumbrou uma grande pra\u00e7a no fim da pista de desfile, onde as escolas pudessem fazer uma esp\u00e9cie de volta ol\u00edmpica e retornar. Nada mais do que certa a convoca\u00e7\u00e3o de Oscar Niemeyer.\u00a0Bem, a Globo n\u00e3o aceitou mudar a regra e o Boni n\u00e3o acreditou em Carnaval de dois dias: <em>\u201cA Globo n\u00e3o transmite desfile em dois dias\u201d.<\/em>\u00a0O slogan era sempre: <em>\u201cPrograma\u00e7\u00e3o normal e o melhor do Carnaval!\u201d<\/em> A tradi\u00e7\u00e3o das transmiss\u00f5es dos desfiles pela Globo estava quebrada. Brizola ent\u00e3o procurou Adolpho Bloch, que comandava a rec\u00e9m-inaugurada Rede Manchete. E Adolpho topou:\u00a0&#8220;A Globo pagou pra ver e perdeu!&#8221; Foi uma surra jamais imaginada na audi\u00eancia: 70% a 5% com picos de 82%. Na verdade n\u00e3o houve negocia\u00e7\u00e3o. O Brizola passou os direitos para Manchete porque a Globo n\u00e3o acreditou no Carnaval de dois dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Como foi montar o aparato t\u00e9cnico e de equipe de especialistas para a TV Manchete transmitir sozinha aquele desfile?<\/strong><br \/>\nPS: Logo ap\u00f3s definir com Brizola, Adolpho chamou Maur\u00edcio Sherman, que era o diretor art\u00edstico da Manchete e fazia sucesso no comando do famoso \u201cBar Academia\u201d e do \u201cClube da Crian\u00e7a\u201d com a Xuxa. Foi ele junto com Moiy\u00e9s Weltman e Mauro Costa, que tra\u00e7aram o roteiro da cobertura. Sherman se encarregou do lado art\u00edstico e da transmiss\u00e3o enquanto Moys\u00e9s Weltman e Mauro Costa cuidaram da parte jornal\u00edstica. O aparato t\u00e9cnico foi responsabilidade de Francisco Cavalcanti, engenheiro da Manchete. Todos sob a tutela de Rubens Furtado, o diretor geral.\u00a0A Manchete tinha o melhor equipamento, c\u00e2meras Ikegamy, superiores as da Sony na \u00e9poca, e todo um material t\u00e9cnico de primeira linha \u2013 lembra o slogan? <em>&#8220;Rede Manchete, televis\u00e3o de primeira classe!&#8221;<\/em> As escolhas mais complicadas foram as dos comentaristas, e eu. Quando Sherman me indicou foi uma surpresa. Adolpho perguntou: <em>\u201cmas ele n\u00e3o \u00e9 locutor de futebol?\u201d<\/em> E Sherman respondeu:<em> \u201c\u00e9 por isso que quero ele, preciso de gente que saiba improvisar; n\u00e3o preciso de um locutor de est\u00fadio pra ler\u201d<\/em>. Os nomes de Fernando Pamplona, Haroldo Costa, S\u00e9rgio Cabral e Albino Pinheiro foram logo lembrados.\u00a0Sherman foi pra Sapuca\u00ed, ainda um canteiro de obras, com o pessoal t\u00e9cnico, Mauro Costa e eu. Participei de toda a montagem das c\u00e2meras e ali ficou definido o posicionamento das 11 c\u00e2meras e da cabine, improvisada em cima de andaime na esquina da Salvador de S\u00e1, em frente ao Espa\u00e7o Candonga (recuo da bateria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transmiss\u00e3o da Manchete em 1984 para o desfile da Mangueira<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kZ8am9856RU<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT: Falando em posicionamento, atrapalha colocar a equipe de locutor e comentaristas no in\u00edcio ou no final da passarela de desfile, como \u00e9 feito hoje? Se n\u00e3o, por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nPS: Um tremendo erro. o melhor lugar \u00e9 mesmo ali, na frente do Espa\u00e7o Candonga. O locutor tem uma vis\u00e3o geral da pista e os comentaristas ficam perto do desfile para fazer suas an\u00e1lises e observa\u00e7\u00f5es. Para ficar no in\u00edcio ou no final da passarela, sinceramente, prefiro fazer <em>off tube<\/em> (sistema de transmiss\u00e3o no qual o narrador n\u00e3o est\u00e1 no local do evento)\u00a0num est\u00fadio na sede da emissora, mais confort\u00e1vel e menos tumultuado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Em 2009 voc\u00ea fez o Grupo de Acesso em uma esp\u00e9cie de <em>off tube<\/em>. Como foi a experi\u00eancia?<\/strong><br \/>\nPS: N\u00e3o era para ser. O presidente da Lesga tinha acertado uma cabine, segundo ele, num camarote. S\u00f3 sei que quando cheguei l\u00e1 n\u00e3o tinha a tal cabine e o jeito foi fazer dentro do caminh\u00e3o de externa. N\u00e3o teve o mesmo espa\u00e7o e conforto de um est\u00fadio, mas na televis\u00e3o a narra\u00e7\u00e3o e o coment\u00e1rio tem que ser feitos em cima das imagens que est\u00e3o sendo mostradas. Quando estamos no local trabalhamos com um olho na tela e o outro na pista. Quando acontece um fato expressivo fora do que est\u00e1 sendo mostrado voc\u00ea tem que explicar e dizer porque n\u00e3o est\u00e1 sendo mostrado. \u00c9 mais jornalismo, informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Sem contar o carnaval de 1984, qual a sua transmiss\u00e3o inesquec\u00edvel do carnaval carioca?<\/strong><br \/>\nPS: Sinceramente todas. Eu tinha um grande prazer de estar ali narrando essa grande festa ao lado de pessoas incr\u00edveis como o Fernando Pamplona, o Haroldo Costa, Z\u00e9 Carlos R\u00eago, Maria Augusta, S\u00e9rgio Cabral, Albino Pinheiro, Roberto Barreira e outros que entre 1984 e 1998 me ajudaram a levar a emo\u00e7\u00e3o que vivia na Passarela do Samba. As pessoas iam na cabine pra falar com a gente, todos os carnavalescos e os patronos das escolas, jornalistas e artistas, sempre foi uma grande festa pra mim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Teve at\u00e9 o Jo\u00e3o Saldanha nos coment\u00e1rios, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nPS: Sim, o Jo\u00e3o era uma pessoa que tinha uma grande vis\u00e3o geral sobre tudo. E foi muito engra\u00e7ado porque uma vez ele tinha de fazer\u00a0um coment\u00e1rio de dois minutos e n\u00e3o tinha mais jogos de futebol rolando. Da\u00ed ele come\u00e7ou com aquela contin\u00eancia de sempre e mandou: <em>&#8220;A Mangueira \u00e9 uma escola \u00fanica, pois tem uma marca\u00e7\u00e3o de apenas um surdo: tum&#8230;&#8230;..tum&#8230;&#8230;..tum&#8230;&#8230;.. e n\u00e3o tum&#8230;tum&#8230;tum&#8230;<\/em> E ele fazia essa marca\u00e7\u00e3o na mesa! Ele era torcedor da Portela e bom botafoguense. Teve tamb\u00e9m o Armando Marques, que era apaixonado por Carnaval e participou por dois anos da nossa cobertura. Mas a grande equipe mesmo tinha eu, Pamplona, Z\u00e9 Carlos R\u00eago, Haroldo e Roberto Barreira, que era\u00a0diretor da revista Desfile e tinha uma cultura sobre moda extraordin\u00e1ria. Ele era formado em Mil\u00e3o, que era a terra da moda. Ent\u00e3o ele olhava de longe e falava &#8220;<em>aquilo \u00e9 de tafet\u00e1 (um tipo de tecido), aquilo \u00e9 de algod\u00e3o&#8221;<\/em>, e falava sobre as combina\u00e7\u00f5es de cores, sobre a gra\u00e7a da moda. Tinha o Pamplona, que era carnavalesco, o Haroldo, ator consagrado e que viveu a vida inteira no mundo do samba, e o Z\u00e9 Carlos R\u00eago, que conhecia o sorveteiro de cada porta de quadra das escolas de samba. Tinha um time em que cada um falava mais de cada peda\u00e7o mas sabia falar de tudo, a gente tinha isso. Eu me escorei nisso a\u00ed, e, em meio ao pouco que eu sabia, fui aprendendo cada vez mais porque quem acha que aprendeu todo, na verdade n\u00e3o sabe nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Quais as melhores hist\u00f3rias de bastidores de todos estes anos de transmiss\u00e3o?<\/strong><br \/>\nPS: Todo ano tinha muita hist\u00f3ria, s\u00e3o muitas. Para represent\u00e1-las, a entrada na cabine aos prantos de Jo\u00e3ozinho Trinta depois do desfile da Beija-Flor com &#8220;Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia&#8221; (1989). Ele se atirou nos ombros do Pamplona e chorava muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Componentes retiram o pl\u00e1stico do Cristo no desfile das campe\u00e3s da Beija-Flor<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ykt0KMvgbDU<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0J\u00e1 que voc\u00ea\u00a0falou\u00a0do Pamplona\u00a0nesse desfile de\u00a01989,\u00a0ele\u00a0foi ao del\u00edrio quando os componentes da Beija-Flor retiraram o pl\u00e1stico preto que cobria o cristo no Desfile das Campe\u00e3s. Naquele momento voc\u00ea teve sensibilidade de deix\u00e1-lo aflorar aquele sentimento ou voc\u00ea estava t\u00e3o surpreso quanto todos?<\/strong><br \/>\nPS: A dire\u00e7\u00e3o da Manchete nunca nos impediu de falar o que pens\u00e1vamos e, quando eu percebi a emo\u00e7\u00e3o estampada no rosto do Pamplona, deixei ele dar o recado. Lembra do choro do Jo\u00e3ozinho que contei antes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT: Um dos momentos mais tensos das transmiss\u00f5es foi no desfile da Mangueira em 1990. A escola fazia excelente apresenta\u00e7\u00e3o, mas os carros come\u00e7aram a quebrar e a escola estourou o tempo. Voc\u00eas estavam torcendo muito pra que a escola escapasse daquilo, tanto que Pamplona soltou palavr\u00f5es no ar. Como foi?<\/strong><br \/>\nPS: Eu peguei a manha do tempo de desfile e n\u00e3o errava a previs\u00e3o do estouro. Percebi que a Mangueira estava encrencada e comecei a falar. Era comum os diretores de ala passarem pela cabine e perguntar como estava a escola. E a gente (eu sou Mangueira, o Pamplona era Salgueiro, o Z\u00e9 Carlos R\u00eago era Imp\u00e9rio Serrano, o Haroldo Costa \u00e9 Salgueiro, e o Roberto Barreira tamb\u00e9m era Salgueiro) torcia pelo sucesso de todo mundo. O Pamplona sa\u00eda da cabine e ia pra varanda do lado pra gritar pros diretores de harmonia consertarem uma coisa ou outra. Foi uma rea\u00e7\u00e3o natural dele torcendo pra que tudo desse certo para todas as escola, s\u00f3 que dessa vez ele o microfone estava aberto. Mas foi bacana, o p\u00fablico nos entendia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inc\u00eandio no carro da Viradouro na transmiss\u00e3o da Manchete (a partir de 19:50)<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=M76LnqkncFQ<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Outro momento ainda mais tenso foi o inc\u00eandio no carro da Viradouro em 1992. Qual era a vis\u00e3o que voc\u00eas tinham? Como foi n\u00e3o perder a calma?<\/strong><br \/>\nPS: O Mauro Costa entrou na minha coordena\u00e7\u00e3o e me disse que tinha imagem do carro pegando fogo, como a rep\u00f3rter Marcia Prado estava longe, no fim da Pra\u00e7a da Apoteose, ele pediu pra que eu narrasse em cima das imagens. Foi o que eu fiz at\u00e9 que a Marcia\u00a0chegou, uns tr\u00eas\u00a0minutos depois, e come\u00e7ou a dividir a narrativa comigo. Os comentaristas ficaram de olho nos monitores e eu fui falando aquilo que via junto com a Marcia. A calma faz parte da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00edntegra do desfile da Portela de 1991 pela Manchete<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=djg01CspI4Y<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Quais os elementos que uma transmiss\u00e3o de desfiles deve ter para torn\u00e1-la informativa e atraente ao grande p\u00fablico?<br \/>\n<\/strong>PS: Ter gente que conhe\u00e7a carnaval e com um bom n\u00edvel cultural; uma coordena\u00e7\u00e3o eficiente entre a cabine de locu\u00e7\u00e3o e dos comentaristas com a dire\u00e7\u00e3o de TV\u00a0e o time de rep\u00f3rteres; e falar uma linguagem que seja compreens\u00edvel para o p\u00fablico sem express\u00f5es rebuscadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT: Al\u00e9m daquilo que voc\u00ea j\u00e1 falou sobre o Sherman, tem mais algo que explique por que\u00a0transmiss\u00e3o de carnaval \u00e9 feita normalmente por locutores de futebol? (al\u00e9m de voc\u00ea, \u00a0Fernando Vannucci, Cleber Machado e Luis Roberto j\u00e1 conduziram ou ainda conduzem transmiss\u00f5es).<\/strong><br \/>\nPS: Al\u00e9m de o locutor de futebol saber improvisar, narrar o que v\u00ea, Carnaval e futebol s\u00e3o as maiores paix\u00f5es do nosso povo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT: Mas voc\u00ea entende a transmiss\u00e3o dos desfiles como algo jornal\u00edstico ou da \u00e1rea de entretenimento? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nPS: As duas coisas se misturam. Uma n\u00e3o sobrevive sem a outra. Se voc\u00ea s\u00f3 mostra o desfile e n\u00e3o fala nada o telespectador n\u00e3o vai entender nada. E voc\u00ea n\u00e3o pode falar o \u00f3bvio, o que est\u00e1 sendo visto; tem que explicar e para isso tem que ter cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Voc\u00ea acha vi\u00e1vel uma transmiss\u00e3o segmentada do carnaval em canal fechado, voltada ao p\u00fablico especializado?<\/strong><br \/>\nPS: Claro que sim. Quem conhece se puder ter uma informa\u00e7\u00e3o melhor e ver o carnaval como um teatro, com in\u00edcio meio e fim, vai curtir muito mais do que ficar vendo artista e bunda de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Stein, voc\u00ea e Pamplona fizeram na extinta Rede Manchete o modelo de transmiss\u00e3o que at\u00e9 hoje \u00e9 o padr\u00e3o-refer\u00eancia em carnaval. Quais os elementos que uma transmiss\u00e3o ideal dos desfiles hoje deveria ter?<\/strong><br \/>\nPS: O carnaval \u00e9 um teatro e precisa ser respeitado e mostrado como ele se prop\u00f5e e n\u00e3o como se fosse um sal\u00e3o de baile. Foi essa a ideia que eu e o Pamplona sempre defendemos. O p\u00fablico que n\u00e3o entende muito vai entender melhor e quem entende se satisfaz. Artista, mulher bonita e bunda de fora tamb\u00e9m podem e devem ser mostrados, mas inseridos no desfile n\u00e3o como destaques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Quanto aos desfiles de hoje, voc\u00ea acha que o samba perdeu import\u00e2ncia com o incremento dos quesitos pl\u00e1sticos? As baterias n\u00e3o est\u00e3o aceleradas demais, n\u00e3o? O que voc\u00ea faria para melhorar os desfiles e o julgamento deles?<\/strong><br \/>\nPS: O samba come\u00e7ou a cair no fim dos anos 90 por conta das exig\u00eancias de diminuir os figurantes e o tempo de desfile. A isso se somou a acelera\u00e7\u00e3o do samba, para ajudar a escola a desfilar mais rapidamente. O surdo virou surdo de segunda, o de segunda virou de terceira e o de terceira virou som de metralhadora. Nessa velocidade, caiu a qualidade po\u00e9tica, a rima ficou dif\u00edcil e a linha mel\u00f3dica perdeu o romantismo. Como no samba de Edson da Concei\u00e7\u00e3o e Aloisio Silva \u201cN\u00e3o deixe o samba morrer\u201d &#8211; <em>&#8220;N\u00e3o deixe o samba morrer\/ N\u00e3o deixe o samba acabar\/ O morro foi feito de samba\/De Samba, pra gente sambar.&#8221;<\/em> Antigamente com a proximidade do Carnaval a gente voltava a cantar os sambas dos anos anteriores hoje ningu\u00e9m lembra do samba do ano passado. Mas os velhos cl\u00e1ssicos s\u00e3o cantados at\u00e9 por gente que nasceu depois deles. O julgamento d\u00e1 um toque de competi\u00e7\u00e3o que acho importante para manter a chama acesa. \u00c9 como no futebol: a sua escola \u00e9 campe\u00e3 e tem que tirar sarro em cima do amigo que torce por outra. Era assim, agora as ra\u00edzes est\u00e3o morrendo e n\u00e3o falta muito pra \u00e1rvore cair apodrecida. Mudou muito pra pior. A poesia tem que voltar e o surdo tem que soar no seu antigo compasso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OT:\u00a0Por fim, Paulo, que mensagem voc\u00ea passa aos amantes do Carnaval e das escolas de samba?<\/strong><br \/>\nPS: \u00c9 hora de iniciar um protesto nas quadras pela volta do samba po\u00e9tico no seu compasso natural e acabar com essas marchinhas de hoje. O samba t\u00e1 morrendo! Gente boa n\u00e3o falta, a imposi\u00e7\u00e3o aos compositores \u00e9 que \u00e9 perniciosa. Lembrando a Alcione, <em>\u201cN\u00e3o deixe o samba morrer\/N\u00e3o deixe o samba acabar\u201d.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido em 1947, Paulo Stein \u00e9 considerado at\u00e9 hoje pelos amantes do Carnaval refer\u00eancia nas transmiss\u00f5es dos desfiles das escolas de samba. 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