{"id":30198,"date":"2014-10-27T05:49:33","date_gmt":"2014-10-27T07:49:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=30198"},"modified":"2014-10-27T10:29:46","modified_gmt":"2014-10-27T12:29:46","slug":"cruz-e-sousa-poeta-simbolista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/10\/cruz-e-sousa-poeta-simbolista\/","title":{"rendered":"Cruz e Sousa, poeta simbolista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Cruz e Sousa, nascido em Santa Catarina, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1890 e come\u00e7ou a trabalhar na <em>Folha Popular<\/em>, jornal em que foram reunidos, pela primeira vez, os poetas representantes do movimento simbolista. Esse grupo de poetas, liderado por Cruz e Sousa, era contr\u00e1rio ao Realismo, ao Naturalismo e ao Parnasianismo, correntes\u00a0j\u00e1 anteriormente consagradas na literatura brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1893, o maior representante do Simbolismo brasileiro publica <em>Missal<\/em>, livro composto por poemas em prosa, e <em>Broqu\u00e9is<\/em>, que abarca poemas em verso. Foi a partir de tais publica\u00e7\u00f5es, sobretudo da segunda, que ele marcou uma nova tend\u00eancia liter\u00e1ria, caracterizada pelo espiritualismo, pela subjetividade, pela musicalidade e pelo predom\u00ednio da emo\u00e7\u00e3o \u2013 aspectos opostos ao Parnasianismo, que cultuava o cientificismo, a exterioridade objetiva, o rebuscamento e a racionalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como aponta Raimundo Magalh\u00e3es Jr. no livro <em>Poesia e vida de Cruz e Sousa<\/em>, o poeta, quando publicou <em>Broqu\u00e9is<\/em> e alcan\u00e7ou certa visibilidade, foi bastante criticado na imprensa: Artur Azevedo, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Rodrigo Ot\u00e1vio e Araripe Jr., por exemplo, escreveram negativamente sobre Cruz e Sousa. No embate entre os simbolistas e os adeptos das outras correntes citadas, por\u00e9m, havia certa conten\u00e7\u00e3o por parte dos primeiros, que pertenciam a uma atmosfera m\u00edstica e sutil. Enquanto estes demonstravam total antipatia \u00e0 objetividade e \u00e0 exatid\u00e3o, os parnasianos consideravam-nos como \u201cnefelibatas\u201d, ou seja, como escritores que viviam nas nuvens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o poeta parnasiano, de acordo com Alfredo Bosi em <em>Hist\u00f3ria concisa da literatura brasileira<\/em>, \u201ctudo pode ser dito com clareza\u201d, porque \u201cn\u00e3o h\u00e1 transcend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras\u201d. Diferentemente disso, o simbolista Cruz e Sousa imprime \u00e0 palavra a tens\u00e3o entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito, explorando exatamente a transcend\u00eancia inexistente no Parnasianismo, como se pode verificar no poema \u201cC\u00e1rcere das almas\u201d:<\/p>\n<p><em>C\u00e1rcere das almas<\/em><\/p>\n<p><em>Ah! Toda a alma num c\u00e1rcere anda presa,<\/em><br \/>\n<em> Solu\u00e7ando nas trevas, entre as grades<\/em><br \/>\n<em> Do calabou\u00e7o olhando imensidades,<\/em><br \/>\n<em> Mares, estrelas, tardes, natureza.<\/em><\/p>\n<p><em>Tudo se veste de uma igual grandeza<\/em><br \/>\n<em> Quando a alma entre grilh\u00f5es as liberdades<\/em><br \/>\n<em> Sonha e, sonhando, as imortalidades<\/em><br \/>\n<em> Rasga no et\u00e9reo o Espa\u00e7o da Pureza.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00d3 almas presas, mudas e fechadas<\/em><br \/>\n<em> Nas pris\u00f5es colossais e abandonadas,<\/em><br \/>\n<em> Da Dor no calabou\u00e7o, atroz, fun\u00e9reo!<\/em><\/p>\n<p><em>Nesses sil\u00eancios solit\u00e1rios, graves,<\/em><br \/>\n<em> que chaveiro do C\u00e9u possui as chaves<\/em><br \/>\n<em> para abrir-vos as portas do Mist\u00e9rio?!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/cruz-e-souza2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-30210 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/cruz-e-souza2-225x300.jpg\" alt=\"cruz e souza2\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/cruz-e-souza2-225x300.jpg 225w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/cruz-e-souza2-255x340.jpg 255w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/cruz-e-souza2.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a>Embora n\u00e3o seja o \u00fanico representante do Simbolismo, \u00e9 poss\u00edvel dizer que Cruz e Sousa seja o principal respons\u00e1vel pelo seu encerramento. Quando o poeta falece, em 1898, o movimento deixa de ter a organiza\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a que antes possu\u00eda, mesmo\u00a0permanecendo por algum tempo gra\u00e7as a outros escritores. A influ\u00eancia simbolista, contudo, acaba manifestando-se no Modernismo, que abrange um grupo, ainda que mergulhado nas novidades modernistas, vinculado a certo espiritualismo, a exemplo de Ribeiro Couto, Cec\u00edlia Meireles e Tasso da Silveira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe dizer, por fim, que Cruz e Sousa, sendo um poeta negro, sofreu bastante com o racismo e, atualmente, sofre com o poss\u00edvel silenciamento de seus versos e de sua hist\u00f3ria, j\u00e1 que \u00e9 muitas vezes esquecido. Nesse sentido, o estudo do movimento liter\u00e1rio no qual ele se insere \u00e9 uma maneira de valoriz\u00e1-lo e de reconhecer sua grandeza n\u00e3o s\u00f3 na literatura, mas, tamb\u00e9m, na cultura nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cruz e Sousa, nascido em Santa Catarina, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1890 e come\u00e7ou a trabalhar na Folha Popular, jornal em queTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":30,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[624],"tags":[735,91],"class_list":["post-30198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-caderno-literario","tag-cruz-e-sousa","tag-literatura"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/30"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30198"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30211,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30198\/revisions\/30211"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}