{"id":30095,"date":"2014-10-20T14:17:38","date_gmt":"2014-10-20T16:17:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=30095"},"modified":"2014-10-20T18:43:53","modified_gmt":"2014-10-20T20:43:53","slug":"bodas-de-prata-2000-vai-vai-e-tri-no-carnaval-dos-500-anos-x-9-surpreende-e-tambem-leva","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/10\/bodas-de-prata-2000-vai-vai-e-tri-no-carnaval-dos-500-anos-x-9-surpreende-e-tambem-leva\/","title":{"rendered":"Bodas de Prata \u2013 2000: Vai-Vai \u00e9 tri no Carnaval dos 500 anos; X-9 surpreende e tamb\u00e9m leva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O ano de 2000 prometia ser um marco na hist\u00f3ria do Carnaval de S\u00e3o Paulo. Pela primeira vez, os desfiles do Grupo Especial seriam realizados em duas noites, como j\u00e1 acontecia no Rio de Janeiro desde a inaugura\u00e7\u00e3o do Samb\u00f3dromo da Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, em 1984. Apesar da evidente defasagem em rela\u00e7\u00e3o ao desfile carioca, a folia paulistana havia conseguido, nos \u00faltimos anos, atrair um grande p\u00fablico de fora da cidade vizinha e, agora, a meta seria fazer um desfile com uma grandiosidade ao menos parecida \u00e0 do Estado vizinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de vetada a ideia de se desfilar com 20 agremia\u00e7\u00f5es na elite, subindo assim todas do Grupo 1, o Grupo Especial seria formado pelo n\u00famero \u2013 recorde, at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 de 14 agremia\u00e7\u00f5es, deixando as seis restantes no segundo grupo \u2013 n\u00famero bastante baixo, a prop\u00f3sito. Apesar da euforia e do momento hist\u00f3rico, n\u00e3o faltavam motivos para que os amantes do samba paulistano se preocupassem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a audi\u00eancia e a atra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia para os desfiles crescessem a cada ano, havia uma enorme incerteza quanto ao sucesso dos desfiles divididos em dois dias. N\u00e3o havia a seguran\u00e7a geral de que o Carnaval de S\u00e3o Paulo j\u00e1 conseguisse sustentar desfiles na sexta e no s\u00e1bado. Para piorar, no auge da crise do Governo Celso Pitta na Prefeitura de S\u00e3o Paulo, come\u00e7ava a se ventilar a hip\u00f3tese do Parque Anhembi \u2013 e, por consequ\u00eancia o Samb\u00f3dromo, ser privatizado, o que poderia provocar uma mudan\u00e7a no local das apresenta\u00e7\u00f5es em um futuro bem pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para completar, at\u00e9 o dia da ordem dos desfiles, n\u00e3o havia se chegado a um acordo sobre quais seriam exatamente os dias do Grupo Especial. A ideia inicial era de que fossem no s\u00e1bado e no domingo, batendo de frente, assim, com a primeira noite do primeiro grupo do Rio de Janeiro. Essa proposta era levada em conta porque uma corrente dentro da Liga acreditava que colocar os desfiles na sexta-feira provocaria o caos na Marginal Tiet\u00ea, ali ao lado do Samb\u00f3dromo. Al\u00e9m de ser um dia \u00fatil, \u00e9 um dia onde muitos paulistanos resolvem sair para o litoral para aproveitar o feriado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim das contas, optou-se por fazer os desfiles na sexta e no s\u00e1bado, colocando a abertura no primeiro dia para as 22h30, evitando assim maiores transtornos no hor\u00e1rio de pico. Por outro lado, n\u00e3o faltaram decis\u00f5es pol\u00eamicas. A Liga mudou o crit\u00e9rio de julgamento e reduziu o n\u00famero de jurados de cinco para tr\u00eas. S\u00f3 que, ao inv\u00e9s de descartadas a maior e a menor nota, apenas a menor seria eliminada. Com a aus\u00eancia de crit\u00e9rios de desempate, isso seria um prato cheio para que houvesse uma chuva de empates na classifica\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O maior problema no julgamento, por\u00e9m, estava na quest\u00e3o dos jurados. Os julgadores n\u00e3o avaliariam todas as escolas, mas sim metade delas, j\u00e1 que trabalhariam em apenas uma das duas noites. A situa\u00e7\u00e3o beirava o surreal: a escola que desfilava na sexta seria julgado por uma pessoa e a que desfilasse no s\u00e1bado, por outro. A Liga tamb\u00e9m resolveu intervir na quest\u00e3o dos enredos. Como se sabe, em 2000 foram comemorados os 500 anos do descobrimento do Brasil e, tal como no Rio de Janeiro, resolveu adotar um Carnaval tem\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imposi\u00e7\u00e3o de temas, por\u00e9m, n\u00e3o se limitou a obrigar as agremia\u00e7\u00f5es a falar sobre os 500 anos de Brasil. A Liga tomou uma decis\u00e3o, ainda antes dos desfiles de 1999, que merecia palmas pela criatividade, mas que engessou ainda mais as escolas. A hist\u00f3ria do Brasil foi dividida em 14 partes e caberia a cada uma das escolas contar uma parte. Mais do que isso: os desfiles seriam cronol\u00f3gicos. Ou seja: a agremia\u00e7\u00e3o que abrisse o Carnaval ficaria com a primeira parte, a que viesse em seguida com a segunda e assim sucessivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, coube a campe\u00e3 do Grupo de Acesso, a Tom Maior ficou encarregada de falar sobre os primeiros anos ap\u00f3s a chegada dos portugueses, de 1500 a 1520. O Camisa Verde e Branco pegou o per\u00edodo de 1520 a 1580, a Mocidade Alegre de 1580 a 1654, a \u00c1guia de Ouro falaria dos anos entre 1654 a 1700, a Leandro de Itaquera de 1700 a 1730, o ciclo da ouro e a X-9 sobre o ciclo do caf\u00e9, de 1730 a 1770. Encerrando a primeira noite de desfiles, por escolha pr\u00f3pria, a Gavi\u00f5es da Fiel contaria os anos que antecederam a chegada da Fam\u00edlia Real, de 1770 a 1807.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao Grupo Especial, o Morro da Casa Verde ficou com o per\u00edodo de 1807 a 1840, enquanto a Unidos do Peruche contaria o que ocorreu no Brasil de 1840 a 1889, ano da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. A Imperador do Ipiranga contaria a hist\u00f3ria da Rep\u00fablica Velha (1889-1930), enquanto a Nen\u00ea falaria sobre a Era Vargas nos anos entre 1930 e 1945. A Rosas de Ouro ficou com os anos anteriores ao Golpe Militar (1945-1964), ao passo que a Tucuruvi contaria a hist\u00f3ria dos anos de chumbo, que duraram de 1964 a 1984. Por fim, tamb\u00e9m escolhendo sua posi\u00e7\u00e3o de desfile, a outra campe\u00e3 de 1999, Vai-Vai, falaria sobre os anos mais recentes, no per\u00edodo entre 1984 e 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 3 de mar\u00e7o de 2000, o livro da hist\u00f3ria do Brasil enfim foi aberto com o desfile da Tom Maior. A escola, no entanto, teve que esperar vinte minutos para iniciar o desfile \u201cBrasil&#8230; Amor \u00e0 primeira vista\u201d. O motivo: as apresenta\u00e7\u00f5es estavam marcadas para as 22h30, mas a Globo s\u00f3 abriu a sua transmiss\u00e3o as 22h50. Quando a emissora carioca enfim entrou com imagens diretas do Anhembi, o cron\u00f4metro foi disparado e o Carnaval de 2000 teve in\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contando com a luxuosa presen\u00e7a de Rixxa no comando do carro de som, a vermelho-e-amarelo do Sumar\u00e9 tinha um samba apenas razo\u00e1vel para contar o in\u00edcio da hist\u00f3ria do Brasil. Muito antes de ficar conhecido por seus enredos distintos, o estreante Cl\u00e1udio Cebola buscou no deus Netuno o ponto de partida para desenvolver seu enredo. Netuno entrava na hist\u00f3ria como o deus do mar, em uma associa\u00e7\u00e3o ao desejo de explorar os mares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma bela comiss\u00e3o de frente trouxe as reuni\u00f5es da Escola de Sagres, que definiam as navega\u00e7\u00f5es portuguesas, sendo seguida por um modesto abre-alas que ainda falava sobre as tais reuni\u00f5es. A escola apostou em uma longa introdu\u00e7\u00e3o sobre Portugal antes de entrar propriamente na quest\u00e3o do descobrimento. Alas trouxeram a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica dos lusitanos em fantasias de acabamento simples, mas de f\u00e1cil leitura, com desenhos que remetiam a vestimentas tipicamente portuguesas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, a vermelho-e-amarelo entrou na viagem de Cabral e cia. propriamente dita. Cebola lembrou a teoria de que o Brasil foi descoberto por acaso e, na bateria, brincou ao intitular a ala de \u201cBatedores de Cabral\u201d, que teriam sidos os primeiros a desembarcar por aqui. A bateria, ali\u00e1s, teve um desempenho bastante modesto e praticamente desapareceu atr\u00e1s do vozer\u00e3o de Rixxa. O ponto negativo do desfile foi, de longe, o conjunto aleg\u00f3rico. Pobre e mal acabado, pecando na concep\u00e7\u00e3o e de dif\u00edcil leitura, o segundo carro, \u201cMisterioso mar\u201d ficou marcado apenas pela presen\u00e7a do ator Gerson Brenner que j\u00e1 sofria as consequ\u00eancias do tiro na cabe\u00e7a que havia levado meses antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que veio em seguida tamb\u00e9m n\u00e3o foi l\u00e1 muito animador. Para piorar, um dos carros ainda quebrou no meio da Avenida e a escola teve problemas de evolu\u00e7\u00e3o. Apesar da apresenta\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica e das fantasias razo\u00e1veis, a Tom Maior era forte candidata a uma das duas \u00faltimas coloca\u00e7\u00f5es e, assim, a voltar ao Grupo 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentando voltar a brigar pelo t\u00edtulo, o Camisa Verde e Branco deu sequ\u00eancia ao desfile com o enredo \u201cMare Liberum, nas terras de Ibirapitanga\u201d, que falava um pouco sobre os primeiros anos do pa\u00eds como col\u00f4nia portuguesa. O Trevo da Barra Funda, no entanto, fez mais uma apresenta\u00e7\u00e3o decepcionante nos quesitos pl\u00e1sticos e, mais uma vez, n\u00e3o conseguiu empolgar a Passarela. Apesar do excelente trabalho do sempre criativo Tito Arantes, o Camisa trouxe alegorias pouco luxuosas para o Anhembi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enredo falava sobre capitanias heredit\u00e1rias, visitas dos franceses e o surgimento da primeira cidade do Brasil, S\u00e3o Vicente. Tito Arantes, como dito, teve que usar de muita criatividade para compensar as dificuldades financeiras. Aproveitando a cor da escola em um enredo que muito falava sobre vegeta\u00e7\u00e3o, ele usou de muitas tonalidades de verde para criar fantasias de bom efeito. Nas alegorias, trabalhou com muitas palhas para remeter ao universo dos \u00edndios em alguns carros \u2013 um deles, o da funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, com a presen\u00e7a de Orlando Villas-B\u00f4as, ent\u00e3o com 86 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O abre-alas, apesar de excessivamente pequeno, estava bastante colorido e tinha esculturas bem acabadas. Foi, ao lado da alegoria que trazia Villas-Boas, o melhor carro do desfile. O enredo foi muito bem desenvolvido e explorou diferentes pontos que marcaram aqueles anos que teve que contar. Foi mais um desfile marcado pela garra dos componentes, que cantaram \u00e0 plenos pulm\u00f5es um samba bastante fraco e que foi se arrastando ao longo do desfile.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostei muito da setoriza\u00e7\u00e3o bem definida da escola, que soube dosar bem a presen\u00e7a de \u00edndios, portugueses e franceses ao longo do desfile e de maneira bastante coerente. N\u00e3o tivesse tantas limita\u00e7\u00f5es financeiras que se refletiram nos conjuntos pl\u00e1sticos, o Camisa poderia brigar pelo t\u00edtulo. Em todo caso, o Trevo da Barra Funda ainda p\u00f4de deixar o Anhembi na expectativa de uma boa coloca\u00e7\u00e3o. Quem saiu ganhando mesmo foi Tito Arantes, que fez talvez o seu trabalho mais feliz em termos de concep\u00e7\u00e3o. Merecia um desenvolvimento melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem conseguiu dar a volta por cima foi a Mocidade Alegre. Terceira escola a desfilar, a Morada do Samba mostrou muita anima\u00e7\u00e3o na defesa do enredo \u201cHist\u00f3ria Brasilae, Cultura, H\u00e1bitos e Costumes de uma Holanda Tropical\u201d. A come\u00e7ar pelo carro de som, comandado por Cl\u00f3vis P\u00ea, importado da Mangueira, e formado ainda por Daniel Coll\u00eate e Andr\u00e9 Pantera. Os tr\u00eas deram um show de empolga\u00e7\u00e3o na interpreta\u00e7\u00e3o do samba, mediano, mas animado, com direito a dan\u00e7as e cacos bastante divertidos que, no entanto, n\u00e3o animaram o Samb\u00f3dromo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Mocidade Alegre enfrentou um problema no in\u00edcio do desfile: a presen\u00e7a da Globeleza Val\u00e9ria Vanessa, que estava na escola desde o desfile em homenagem a Hans Donner em 1997, atraiu um batalh\u00e3o de fot\u00f3grafos indesejado, que causou um tumulto na concentra\u00e7\u00e3o. Resolvido (parcialmente, porque alguns muitos profissionais continuaram por ali) o problema, a Morada do Samba apresentou um bom desfile para falar sobre o per\u00edodo da invas\u00e3o holandesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Carnavalesco Wagner Santos fez o seu primeiro grande trabalho em um irrepreens\u00edvel desenvolvimento do enredo. Wagner apostou em fantasias luxuosas, com muitas plumas, e em uma divis\u00e3o crom\u00e1tica carregada de cores quentes para trazer o p\u00fablico ao Nordeste dos S\u00e9culos XVI e XVII. A Mocidade ainda impressionou pelo luxo apresentado em suas alegorias, que contrastava com o que a escola vinha levando ao Anhembi em anos anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bel\u00edssimo abre-alas, que trazia um le\u00e3o em sua dianteira, remetendo ao Estado de Pernambuco, estava impec\u00e1vel acabado e adere\u00e7ado. Com escadarias e pisos tipicamente holandeses, tinha componentes perfeitamente trajados com roupas t\u00edpicas dos flandres e passava a ideia da \u201cmistura\u201d entre Brasil e Holanda. O primeiro setor foi dedicado a um contexto hist\u00f3rico das Invas\u00f5es Holandesas, destacando que, apesar das boas rela\u00e7\u00f5es com Portugal, os Pa\u00edses Baixos aqui chegaram por conta dos narizes torcidos com a Espanha, que \u00e0 \u00e9poca dominava os lusitanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mauricio de Nassau, claro, n\u00e3o deixou de dar as caras no desfile da Morada. Ele foi um dos principais personagens de um desfile que fez quest\u00e3o de destacar o encantamento que os holandeses tiveram com as belezas naturais do Brasil, bem como as influ\u00eancias que essa ocupa\u00e7\u00e3o deixou por aqui at\u00e9 os dias de hoje. A Mocidade apresentou, de maneira geral, um conjunto aleg\u00f3rico impec\u00e1vel. Wagner Santos desde ent\u00e3o j\u00e1 se mostrava extremamente caprichoso e cuidadoso. Uma pena que a evolu\u00e7\u00e3o da Morada n\u00e3o tenha sido das melhores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, o desfile foi muito bom, mas faltava algo mais para que pudesse ter cara de t\u00edtulo. Faltou talvez uma melhor resposta das arquibancadas ou ainda um diferencial na quest\u00e3o do enredo. Como a hist\u00f3ria do Brasil em seus 200 primeiros anos estava muito envolvida com portugueses, \u00edndios e navega\u00e7\u00f5es, acabou ficando a sensa\u00e7\u00e3o de mais do mesmo. As chances de t\u00edtulo da agremia\u00e7\u00e3o do Lim\u00e3o foram pro espa\u00e7o de vez quando tr\u00eas dos cinco carros aleg\u00f3ricos apresentaram, em momentos diferentes, problemas que complicaram ainda mais a evolu\u00e7\u00e3o. Um deles inclusive emperrou no meio do Anhembi e teve que ser \u201cultrapassado\u201d por tr\u00eas alas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Envolta naquela que talvez fosse a maior pol\u00eamica do Carnaval de 2000, a \u00c1guia de Ouro foi a quarta escola a entrar na Avenida para apresentar o enredo \u201cA forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro\u201d, que exaltaria a mistura de ra\u00e7as que formou o Brasil atrav\u00e9s do per\u00edodo de 1655 a 1700. O tema, apesar de ser um dos menos empolgantes dentre os dispon\u00edveis, fez com que a escola atra\u00edsse uma indesejada aten\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto da disc\u00f3rdia foi a alegoria que representava o encontro entre o catolicismo e os \u00edndios. Nele, os \u00edndios estavam em volta de uma enorme escultura da Virgem Maria. A Igreja, atrav\u00e9s do Tribunal da Fam\u00edlia, conseguiu proibir que a escultura entrasse na Avenida. A sa\u00edda da agremia\u00e7\u00e3o da Pomp\u00e9ia, presidida pelo \u00e0 \u00e9poca Presidente da Liga\/SP, foi transformar a Santa em uma \u00cdndia. O Carnavalesco Victor Santos, j\u00e1 no Anhembi, dizia que ela \u201csempre ser\u00e1 a Virgem Maria\u201d. O TFP chegou a voltar \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o j\u00e1 no dia do desfile para ver se a ordem judicial havia sido cumprida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com ou sem Virgem Maria, a \u00c1guia de Ouro fez um desfile bastante superior ao do ano anterior e, seguramente, o seu melhor no Anhembi at\u00e9 ent\u00e3o. Com um bom samba de refr\u00e3o forte, a escola apresentou componentes empolgados e que cantaram forte. A bateria, formada por muitos jovens e por muitas mulheres, garantiram uma boa cad\u00eancia ao samba, que foi interpretado com corre\u00e7\u00e3o por Douglinhas Aguiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ainda enfrentar o problema da sensa\u00e7\u00e3o de \u201cmais do mesmo\u201d, o enredo foi desenvolvido com corre\u00e7\u00e3o e coer\u00eancia, embora tenha fugido um pouco da proposta de narrar o per\u00edodo de entradas, bandeiras e demais explora\u00e7\u00f5es. O abre-alas veio como uma esp\u00e9cie de \u201cfinal no in\u00edcio\u201d, lembrando o resultado de tudo aquilo que viria em seguida: a miscigena\u00e7\u00e3o entre negros, \u00edndios e portugueses. Penso que a concep\u00e7\u00e3o poderia ter sido mais feliz, mas o carro estava muito bem acabado e n\u00e3o fez feio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A divis\u00e3o crom\u00e1tica foi bastante feliz, alternando muitas cores e garantindo um bom efeito. Vista de cima, a escola estava bem colorida e, devido \u00e0 leveza dos componentes, a evolu\u00e7\u00e3o garantiu belas imagens a\u00e9reas com a dan\u00e7as das plumas, paet\u00eas e das diferentes cores. A escola tinha uma relativa defasagem econ\u00f4mica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria das escolas, mas fez uma apresenta\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel, apesar de alguns erros. A fantasia da comiss\u00e3o de frente, por exemplo, n\u00e3o conseguiu um bom efeito e, muita pesada, prejudicou a coreografia dos componentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desfile teve uma consider\u00e1vel melhora quando entrou nas explora\u00e7\u00f5es propriamente ditas. O enredo explicou bem o conceito das bandeiras, expedi\u00e7\u00f5es dos bandeirantes que desbravaram o interior do Brasil, em alas que, no entanto, s\u00f3 tinham seu sentido captado por quem via na TV e tinha acesso \u00e0 legenda. O desfile ficou marcado por algumas alas que destoavam do bom padr\u00e3o de luxo e acabamento e por alegorias que estavam mais para a Tom Maior que para a Mocidade Alegre. N\u00e3o que houvesse muitas falhas na execu\u00e7\u00e3o, mas a \u00c1guia passou longe do luxo em alegorias que tiveram uma concep\u00e7\u00e3o muito feliz por parte do Carnavalesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por n\u00e3o ter errado em quesitos b\u00e1sicos como evolu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o ter tido problemas em alegorias, no entanto, a \u00c1guia se via praticamente livre do rebaixamento, ainda que a briga para fugir do descenso prometesse ser intensa em um Carnaval muito equilibrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sequ\u00eancia, a Leandro de Itaquera entrou na Avenida para falar do ciclo do ouro no enredo \u201cVale Ouro, Meu Brasil, Minha Terra, Meu Tesouro\u201d. Depois do bom desfile de 1999, o Le\u00e3o Guerreiro de Itaquera prometia um desfile luxuoso. O samba, diferente daquilo que a escola costumava trazer para a Avenida, prejudicou um pouco, mas n\u00e3o impediu a boa comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico e um bom desfile da vermelho-e-branco. O luxo esteve presente em uma apresenta\u00e7\u00e3o que, claro, usou muito dourado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O competente Marco Aur\u00e9lio Ruffim desenvolveu o enredo com corre\u00e7\u00e3o e apostou em fantasias grandiosas, que inclusive prejudicaram um pouco a evolu\u00e7\u00e3o e o canto dos componentes. A Comiss\u00e3o de Frente, que representava os bandeirantes, teve boa exibi\u00e7\u00e3o e foi seguida por um abre-alas todo em amarelo, que simbolizava o descobrimento do ouro. O carro falhou justamente por ser monocrom\u00e1tico, mas tinha um padr\u00e3o de luxo razo\u00e1vel. A divis\u00e3o crom\u00e1tica tamb\u00e9m abusou um pouco do amarelo. As fantasias estavam um pouco simples, com acabamento apenas regular e algumas alas de dif\u00edcil leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostei de algumas sa\u00eddas que o carnavalesco usou para sair do lugar-comum, como falar sobre \u201co monstro da fome\u201d que foi combatido com o ouro. Gostei do segundo carro, chamado \u201cO garimpo\u201d, que estava bonito, apesar de simples. Os demais carros tamb\u00e9m pecaram pelo excesso de amarelo, em contraste com as fantasias, que melhoraram bastante. Enquanto isso, a Bateria foi, com folga, o maior desastre do desfile ao n\u00e3o conseguir acompanhar o samba em um andamento agrad\u00e1vel. Foi uma apresenta\u00e7\u00e3o apenas convencional da Leandro, que n\u00e3o trazia riscos \u00e0 escola, mas tamb\u00e9m n\u00e3o a faria repetir suas melhores coloca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-30098 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000-300x222.jpg\" alt=\"x92000\" width=\"300\" height=\"222\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000-300x222.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000-459x340.jpg 459w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000.jpg 632w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Refor\u00e7ada de Lucas Pinto, a X-9 foi a sexta a entrar na Avenida com o enredo \u201cQuem \u00e9 voc\u00ea? Caf\u00e9\u201d. Apesar do samba com o explosivo refr\u00e3o \u201ca X-9 vem a\u00ed, vai sacudir \/ bota a \u00e1gua pra ferver no Anhembi \/ vem nessa amor, que eu quero ir\u201d, a escola apostava em uma apresenta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Os componentes foram preparados para \u00fanica e exclusivamente buscar a nota 10 em cada um dos 10 quesitos. O rico tema foi muito bem desenvolvido pelo estreante Lucas Pinto, que explorou corretamente a influ\u00eancia do caf\u00e9 na transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil no S\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi, de fato, um desfile t\u00e9cnico: os componentes n\u00e3o estavam muito animados, mas evolu\u00edram com corre\u00e7\u00e3o e cantaram o samba durante todo o desfile. As fantasias estavam muito bonitas, com uma divis\u00e3o crom\u00e1tica impec\u00e1vel e muitas plumas. O abre-alas, particularmente, me pareceu high-tech demais. As x\u00edcaras rodando \u00e0 frente de um painel de luzes verdes n\u00e3o me parecia um bom jeito de representar o convite para que o p\u00fablico tomasse um cafezinho. Essa miss\u00e3o foi mais bem sucedida com a comiss\u00e3o de frente.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000b.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-30099 alignright\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000b-300x221.jpg\" alt=\"x92000b\" width=\"300\" height=\"221\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000b-300x221.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000b-460x340.jpg 460w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/x92000b.jpg 628w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passado o abre-alas, no entanto, o desfile foi muito correto e teve alegorias impec\u00e1veis: a que representava um cafezal beirava a perfei\u00e7\u00e3o na riqueza de detalhes. Se por um lado o excesso de \u201clicen\u00e7as po\u00e9ticas\u201d que Lucas Pinto usou para desenvolver o enredo \u2013 que, ali\u00e1s, foi um dos \u00fanicos a ir al\u00e9m do per\u00edodo determinado, chegando at\u00e9 a quebra da bolsa de Nova Iorque, no S\u00e9culo XX -, desagradou, por outro chamou a aten\u00e7\u00e3o a riqueza de cores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito verde, muito vermelho, muito branco foi usado em fantasias coloridas e de f\u00e1cil leitura. Apesar de tudo, faltava para a X-9 algo mais. Estava tudo muito bonito, mas nada chamava aten\u00e7\u00e3o. O samba se arrastou um pouco, a arquibancada n\u00e3o correspondeu, foi tudo convencional demais. A escola saiu certa de um bom resultado, mas o t\u00edtulo parecia bastante improv\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000c.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-29956 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000c-300x274.jpg\" alt=\"gavioes2000c\" width=\"300\" height=\"274\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000c-300x274.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000c-371x340.jpg 371w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000c.jpg 512w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Quem chegou pisando forte com o dia clareando foi a Gavi\u00f5es da Fiel, que vinha em busca do bicampeonato com o enredo \u201cUm voo para a liberdade\u201d. Apesar da rouquid\u00e3o do excelente Ernesto Teixeira, que prejudicou um pouco o bom samba da escola, a Gavi\u00f5es fez uma grande apresenta\u00e7\u00e3o. O enredo, um tributo \u00e0 na\u00e7\u00e3o, tanto a corinthiana, quanto a brasileira, conquistou as arquibancadas tanto no ch\u00e3o, quanto no impec\u00e1vel visual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Freitas estreou em S\u00e3o Paulo com o p\u00e9 direito. O abre-alas foi, de longe, o melhor da noite. O mais belo Gavi\u00e3o a entrar com a escola at\u00e9 ent\u00e3o abrigou uma luxuosa representa\u00e7\u00e3o do tal tributo. Freitas soube usar muito bem do preto e do branco, mesclando com outras tonalidades e, de quebra, escolheu cores que conseguiam um bom efeito mesmo no ingrato hor\u00e1rio em que a escola come\u00e7ou a desfilar (nem de madrugada, nem de manh\u00e3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escola come\u00e7ou lembrando a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para movimentos pr\u00f3-Independ\u00eancia no Brasil. A Torcida Que Samba lembrou a figura de Tiradentes e o seu fracasso \u201cque n\u00e3o foi em v\u00e3o\u201d na luta por um pa\u00eds livre. As fantasias estavam muito luxuosas e impecavelmente bem acabadas. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, representando a elite mineira que conheceu o iluminismo, estava maravilhosamente trajado. Sem poder usar do verde, Freitas apresentou fantasias em dourado e vermelho, que garantiram \u00f3timo efeito. Acho apenas que o enredo gastou tempo demais na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e poderia ter sido mais direto, assim como as fantasias podiam ser mais claras quanto ao seu significado.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000b.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-thumbnail wp-image-29955 alignright\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/gavioes2000b-150x150.jpg\" alt=\"gavioes2000b\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, a Gavi\u00f5es fechou a primeira noite como a grande favorita ao t\u00edtulo dentre as sete primeiras a se apresentar. O conjunto aleg\u00f3rico impressionou pelo bom acabamento e pelo luxo, acima do padr\u00e3o que S\u00e3o Paulo costumava apresentar. As escolas do s\u00e1bado precisariam suar muito para bater a Fiel Torcida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abrindo a segunda noite de desfiles e estreando no Grupo Especial na Era Anhembi, o Morro da Casa Verde surpreendeu com o desfile \u201cBrasil: do Reino Unido \u00e0 Independ\u00eancia\u201d. Mesmo contraindo uma d\u00edvida de R$ 70 mil reais na reta final de prepara\u00e7\u00e3o para o desfile, provocada por um acidente inesperado \u2013 um carro invadiu o barrac\u00e3o e destruiu instrumentos da bateria -, a simp\u00e1tica agremia\u00e7\u00e3o comandada por Dona Guga apresentou um desfile de alto n\u00edvel em termos pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o empolgou uma passarela ainda fria, a verde-e-rosa ao menos chamou a aten\u00e7\u00e3o pela apresenta\u00e7\u00e3o muito correta em termos de desenvolvimento do enredo e embalada por uma pl\u00e1stica muito interessante. O sempre caprichoso Caranvalesco Nilson Louren\u00e7o, o Nilsinho, aproveitou das cores da escola para estabelecer uma divis\u00e3o crom\u00e1tica que valorizasse o verde e o rosa, sempre em tonalidades mais claras. A op\u00e7\u00e3o por poucas cores pesadas valorizou o conjunto visual da escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro setor, que falava sobre a vinda da Fam\u00edlia Real para o Brasil e sobre o rebuli\u00e7o que isso causou por aqui, ganhou um abre-alas muito bonito e fantasias de f\u00e1cil leitura. O potencial econ\u00f4mico do Morro era visivelmente reduzido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria das concorrentes, mas a criatividade fez com que a agremia\u00e7\u00e3o praticamente afastasse qualquer risco de rebaixamento. O desenvolvimento coerente garantiu uma leitura f\u00e1cil do enredo, que foi muito bem setorizado. Depois da chegada da Fam\u00edlia Real, foram mostradas as consequ\u00eancias diretas dela, como a cria\u00e7\u00e3o da imprensa, dos Correios e do Banco do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posteriormente, quase como um contraponto ao que foi dito antes, a escola contou a crise do Reinado Portugu\u00eas, que culminaria na Independ\u00eancia, e acabou fazendo um dos desfiles mais coerentes daquele Carnaval. A exposi\u00e7\u00e3o dos problemas do Imp\u00e9rio, das Revoltas Populares e do seu sucesso, ou seja, da Independ\u00eancia propriamente dita, levou a um dos poucos desfiles neutros de 2000, que n\u00e3o procurou romantizar ou demonizar determinado per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um grande problema foi que, com o passar do desfile, as alegorias e fantasias foram ficando cada vez mais pobres e, a\u00ed, com um acabamento menos feliz, a op\u00e7\u00e3o por alegorias monocrom\u00e1ticas acabou sendo prejudicial. Tamb\u00e9m achei a evolu\u00e7\u00e3o um pouco confusa, mas, ainda assim, um rebaixamento seria muito surpreendente pelo que se viu nos desfiles de sexta-feira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para falar do per\u00edodo p\u00f3s-Independ\u00eancia e da crise do Brasil Imperial, uma escola que sabia bem o que era a tal decad\u00eancia: mergulhada em uma crise, a Unidos do Peruche entrou na Avenida para apresentar o enredo \u201cCara e Coroa, as Duas Faces de um Imp\u00e9rio\u201d. Como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o se via, a escola ganhou o Anhembi pelo refr\u00e3o simples de seu samba \u2013 composto, ali\u00e1s, por uma parceria formada por Jackson Martins e Serginho do Porto -, mas, com um dos enredos mais interessantes da noite, naufragou em termos pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O per\u00edodo de 1840 a 1889 \u00e9 um dos mais ricos da hist\u00f3ria do Brasil: revoltas, aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, Guerra do Paraguai, crises pol\u00edticas e, claro, a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foram lembrados pela Filial do Samba, mas de maneira pouco feliz. O abre-alas, que representava a consagra\u00e7\u00e3o de D. Pedro II, foi talvez o mais pobre de todo o Carnaval 2000. As fantasias, de dif\u00edcil leitura, eram muitas vezes de gosto duvidoso e foram prejudicadas pelo baixo potencial financeiro da escola. Talvez pelo baixo or\u00e7amento, o Carnavalesco F\u00e1bio Borges optou por fantasias com mais tecido e menos plumas, o que prejudicou ainda mais o conjunto visual. A divis\u00e3o crom\u00e1tica tamb\u00e9m foi confusa e, de bom mesmo, restaram o samba e o desenvolvimento impec\u00e1vel do enredo. Ainda assim, parecia insuficiente para salvar a Filial do Samba do descenso que j\u00e1 vinha se aproximando nos anos anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrando no per\u00edodo republicano, a Imperador do Ipiranga foi a terceira escola a desfilar no s\u00e1bado de Carnaval com o enredo \u201cImperador na Velha Rep\u00fablica\u201d. O enredo foi, como j\u00e1 era de se esperar, focado em revoltas, golpes e articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Com um samba correto (de autoria, entre outros, do int\u00e9rprete Mois\u00e9s Santiago e de Djalma Falc\u00e3o), a escola fez uma apresenta\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel e que alternou bons e maus momentos. O abre-alas, por exemplo, apesar de n\u00e3o simbolizar muito bem a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e de \u201cpular\u201d muito, estava bonito e bem adere\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se faltou clareza para o abre-alas, sobrou para o resto do enredo e para o pr\u00f3prio samba. A primeira parte era quase um texto de Telecurso: \u201cbailando na ilha fiscal \/ Brasil dava adeus a Portugal \/ (&#8230;) \/ imprensa, aboli\u00e7\u00e3o, fatores de press\u00e3o \/ foram elos da proclama\u00e7\u00e3o \/ (&#8230;) \/ se fez pol\u00edtica do caf\u00e9-com-leite \/ S\u00e3o Paulo e Minas elegiam o Presidente\u201d. A primeira parte do desfile foi mesmo dedicada \u00e0s articula\u00e7\u00f5es iniciais do novo sistema de Governo e optou por falar do tal caf\u00e9-com-leite de maneira neutra, sem exaltar S\u00e3o Paulo e sem mostrar o qu\u00e3o danoso isso era para o pa\u00eds. N\u00e3o diretamente porque, na sequ\u00eancia, foram mostrados os problemas enfrentados no Nordeste e as revoltas comandadas por Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desfile ainda lembrou a Semana de Arte de 1922 e as primeiras articula\u00e7\u00f5es para a tomada do poder por parte de Get\u00falio Vargas. Com um potencial econ\u00f4mico reduzido, a criatividade de Pedrinho Pinotti salvou algumas fantasias, mas comprometeu outras. As alegorias tamb\u00e9m n\u00e3o estavam, de maneira geral, brilhantes (o carro da m\u00fasica chegou a lembrar vagamente as escolas de menor poderio financeiro l\u00e1 pelos idos de 1991) e os componentes foram uns dos menos empolgados da noite. Por outro lado, a evolu\u00e7\u00e3o mereceu destaque. Em um ano equilibrado, a escola ainda corria riscos de rebaixamento, mas apresentou uma enorme evolu\u00e7\u00e3o se compararmos ao desfile de 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/nene2000.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-29957 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/nene2000-300x227.jpg\" alt=\"nene2000\" width=\"300\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/nene2000-300x227.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/nene2000-447x340.jpg 447w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/nene2000.jpg 616w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Com um dos enredos mais pol\u00eamicos de 2000, a Nen\u00ea de Vila Matilde levantou a Passarela para tentar sair do \u201cquase\u201d. O enredo \u201cPorque me orgulho de ser brasileiro\u201d fez todo o Anhembi sair do ch\u00e3o, mas chamou a aten\u00e7\u00e3o negativamente pela exalta\u00e7\u00e3o excessiva \u00e0 Era Vargas. O enredo era concebido com a ideia de que \u201cVargas era um ditador, mas&#8230;\u201d. Foi passada uma imagem err\u00f4nea de um Brasil perfeito e feliz. Pessoalmente, me chamou como, ao mesmo tempo, a Nen\u00ea exaltou Vargas e a Revolu\u00e7\u00e3o de 1932. Uma incoer\u00eancia hist\u00f3rica das grandes. Isso sem falar no fraco samba, que dizia que \u201co estadista mostrava o seu valor \/ o grande caudilho suplantava o Ditador\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, a Nen\u00ea continuou apresentando uma clara evolu\u00e7\u00e3o e se colocou mais uma vez na briga pelo t\u00edtulo. O abre-alas e a fantasia do casal de mestre-sala e porta-bandeira foram os mais bonitos daquele Carnaval. O primeiro carro, com uma enorme \u00e1guia iluminada e batendo asas, falava sobre a chegada de Vargas ao poder. A fantasia do casal, toda em azul claro, garantiu um \u00f3timo efeito. N\u00e3o gostei da Comiss\u00e3o de Frente, que trazia v\u00e1rios Get\u00falios Vargas igualmente trajados e fazendo a mesma coreografia. Para piorar, um desses Get\u00falios estava sem chap\u00e9u, o que poderia levar a algumas puni\u00e7\u00f5es no quesito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Augusto Oliveira, ali\u00e1s, usou e abusou das diversas tonalidades de azul. Pessoalmente, achei at\u00e9 exagerado, mas um bom efeito foi conquistado. Para fortalecer a imagem do \u201cgrande estadista\u201d, ele lembrou o qu\u00e3o amado pelo povo Get\u00falio era pelo povo e o surgimento da Petrobras, da UNE, da R\u00e1dio Nacional e da CSN. Por falar em Petrobras, a ala da descoberta do petr\u00f3leo foi, de longe, a mais feia de todo o desfile da Nen\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em mais uma contradi\u00e7\u00e3o enorme, Augusto Oliveira n\u00e3o s\u00f3 \u201cescondeu\u201d o Get\u00falio ditador, como apresentou um Get\u00falio Democrata. A Velha Guarda, por exemplo, lembrou o voto das mulheres, que teve in\u00edcio com Get\u00falio. Dentro da proposta da escola, por\u00e9m, o desfile foi quase impec\u00e1vel. Ainda achei o conjunto de fantasias inferior ao da Gavi\u00f5es, mas estava tudo muito bonito, com uma divis\u00e3o crom\u00e1tica que, nos \u00faltimos setores, usou outras tonalidades al\u00e9m do azul. Achei interessantes as alas que representavam o Carnaval da Era Vargas com Pierr\u00f4s, Arlequins e Colombinas. Os carros tamb\u00e9m estavam grandiosos, luxuosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa grandiosidade toda trouxe um problema que poderia, somado \u00e0 perda do chap\u00e9u, tirar a Nen\u00ea de briga. O carro das reformas trabalhistas tinha um enorme trabalhador que, tal como a asa da \u00e1guia de 1996, era maior que o port\u00e3o que d\u00e1 acesso \u00e0 Avenida. O pessoal da diretoria for\u00e7ou (inclusive agredindo fot\u00f3grafos que documentavam o problema), o bra\u00e7o quebrou, mas passou. No meio da Avenida, por\u00e9m, ele desabou e poderia levar a penalidades no quesito Alegoria. Mesmo fazendo o desfile mais bem recebido pelo p\u00fablico at\u00e9 ent\u00e3o, o t\u00edtulo parecia dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pretendo mostrar a evolu\u00e7\u00e3o cultural e industrial do Brasil p\u00f3s-Segunda Guerra, a Rosas de Ouro contou com o talento de Ra\u00fal Diniz e a irrever\u00eancia de Quinho para apresentar o enredo \u201cYes, n\u00f3s temos mais que banana\u201d. O samba podia n\u00e3o ser uma maravilha, mas era animado e ajudou mais uma vez a quebrar a ideia daquela Rosas \u201ccertinha\u201d. Foi talvez o menos brasileiro de todos os enredos, at\u00e9 por conta da forte influ\u00eancia americana no per\u00edodo, embalada pelo in\u00edcio da Guerra Fria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostei muito da Comiss\u00e3o de Frente que representava os soldados brasileiros, mas o abre-alas foi a grande surpresa negativa do desfile. Representando o \u201cvoo do Brasil em dire\u00e7\u00e3o ao futuro\u201d, ele parecia um trip\u00e9. Sabendo do potencial financeiro da escola, ficou claro que foi mais um del\u00edrio do genial Ra\u00fal Diniz. Ao contr\u00e1rio da maioria deles, n\u00e3o deu certo. Por outro lado, o tanque de guerra que veio atr\u00e1s do carro da II Guerra soltando pap\u00e9is picados ao inv\u00e9s de tiros, foi de uma genialidade no n\u00edvel do Carnavalesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi mais um desfile a romantizar demais um per\u00edodo que teve os seus problemas. Os anos entre 1945 e 1964 foram, na Roseira, s\u00f3 estradas, ind\u00fastrias, Bras\u00edlia e crescimento absoluto. A escola focou ainda em conquistas importantes foram do \u00e2mbito pol\u00edtico, como o bicampeonato mundial de futebol em 1958 e 1962. Mais uma vez, a escola apresentou um bom conjunto pl\u00e1stico e uma boa divis\u00e3o crom\u00e1tica, mas, tal como nos anos anteriores, ficou devendo um pouco \u00e0 Gavi\u00f5es e Nen\u00ea. Foi um trabalho menos feliz de Ra\u00fal Diniz nesse sentido, especialmente nas alegorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostei muito do setor que falava sobre a influ\u00eancia estrangeira. Bem humorado, apresentou fantasias com super-her\u00f3is americanos, rock and roll e vestimentas, o que fez os componentes se soltarem. O setor da arte no Brasil tamb\u00e9m foi muito bacana, que lembrou, entre outros, a figura de Chacrinha. Apesar do \u00e2nimo dos componentes, foi um desfile que n\u00e3o empolgou o p\u00fablico e que n\u00e3o dava \u00e0 azul-e-rosa muitas esperan\u00e7as de t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pen\u00faltima escola a desfilar, a Acad\u00eamicos do Tucuruvi entrou na Avenida cercada de expectativa. N\u00e3o s\u00f3 por conta um dos enredos mais esperados da noite, sobre a Ditadura Militar, mas principalmente por dois nomes trazidos do Rio de Janeiro: o int\u00e9rprete Preto J\u00f3ia e Mestre Jorj\u00e3o, que voltou a usar a Paradinha Funk que havia feito sucesso em 1998 na Viradouro. Menos badalado, o Carnavalesco Jer\u00f4nimo Guimar\u00e3es manteve a escola na evolu\u00e7\u00e3o que havia apresentado em 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enredo \u201c90 milh\u00f5es em A\u00e7\u00e3o, na Tristeza e na Felicidade\u201d era, evidentemente, cr\u00edtico ao Regime Militar e mostrou isso j\u00e1 no abre-alas. Todo em preto e roxo, trazia vampiros, teias de aranha e outras representa\u00e7\u00f5es macabras para contar a obscuridade do per\u00edodo de 1964 a 1984. Achei interessante e lembran\u00e7a do apoio americano ao Golpe, que j\u00e1 se fazia presente no samba (\u201ca bruxa est\u00e1 solta, o Tio Sam quer mandar\u201d). Nesse contexto, se destacou a comiss\u00e3o de frente dos \u201cBruxos Conspiradores\u201d, que lembrava justamente a a\u00e7\u00e3o americana na conspira\u00e7\u00e3o que derrubou Jo\u00e3o Goulart ap\u00f3s a sa\u00edda de J\u00e2nio Quadros. No abre-alas, uma forte imagem da Est\u00e1tua da Liberdade como uma bruxa tamb\u00e9m remetia a essa mensagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que a escola conseguiu uma abordagem muito criativa para o enredo. As torturas e persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas estavam inseridas no enredo em meio \u00e0 Tropic\u00e1lia, aos movimentos art\u00edsticos e a luta dos artistas. At\u00e9 conquistas brasileiras que ajudaram os Ditadores, como o tricampeonato mundial em 1970, foram comemoradas. Fosse eu o Carnavalesco, n\u00e3o iria muito por esse lado, mas n\u00e3o d\u00e1 para dizer que foi um erro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostei muito da divis\u00e3o crom\u00e1tica que come\u00e7ou pesad\u00edssima e foi clareando aos poucos. Em todo o desfile, as diferentes tonalidades foram mescladas com o verde e o amarelo da bandeira, que apareceu na fantasia dos militares. Um dos grandes destaques, ainda no primeiro setor, foi a ala \u201cfuneral da democracia\u201d, que trazia cruzes sobre plumas brancas e roxas, garantindo \u00f3timo efeito. O segundo carro, apesar de ligeiramente mau concebido e acabado, representou bem \u201cO poder ditatorial\u201d com destaques presos em jaulas com roupas tipicamente carcer\u00e1rias. O carro tamb\u00e9m lembrou o \u201cgolpe no golpe\u201d, j\u00e1 que a ideia inicial era que a democracia fosse reestabelecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Tucuruvi fez um desfile muito bom, ainda melhor que o de 1999. Gostei muito das alas que representaram os problemas sociais do Brasil no Regime, como a infla\u00e7\u00e3o, mas achei algumas passagens desnecess\u00e1rias, como uma cita\u00e7\u00e3o direta a Elymar Santos e outra ao piloto Ayrton Senna que, em 1984, estava longe de ser personagem fundamental no per\u00edodo. Por outro lado, gostei da lembran\u00e7a do gol mil de Pel\u00e9, marcado em 1969. A Bateria de Mestre Jorj\u00e3o tamb\u00e9m esteve firme do in\u00edcio ao fim. O potencial econ\u00f4mico reduzido prejudicou um pouco algumas alegorias (embora o terceiro carro, o dos \u201cMovimentos Musicais\u201d foi um dos mais bonitos e coloridos da noite) e deixou a agremia\u00e7\u00e3o da Cantareira razoavelmente atr\u00e1s da Gavi\u00f5es. Ainda assim, uma boa coloca\u00e7\u00e3o era muito prov\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/vaivai2000b.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-29959 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/vaivai2000b-300x222.jpg\" alt=\"vaivai2000b\" width=\"300\" height=\"222\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/vaivai2000b-300x222.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/vaivai2000b-459x340.jpg 459w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/vaivai2000b.jpg 632w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Para encerrar, um sacode hist\u00f3rico da Vai-Vai. Com o tema que, fosse eu Carnavalesco, seria o dos sonhos, a escola retratou o per\u00edodo de 1984 a 2000 com maestria no enredo \u201cVai-Vai Brasil!\u201d. O excelente samba ganhou o Anhembi, que respondeu como s\u00f3 havia respondido \u00e0 Nen\u00ea. A composi\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Carlinhos, Zeca do Cavaco e Denay era genial. No refr\u00e3o do meio, por exemplo, dizia: \u201ceu elegi um Presidente \/ \u2018collorido\u2019 e diferente e me dei mal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o Carnaval mais caro do Grupo Especial, a Saracura chamou a aten\u00e7\u00e3o pelo lind\u00edssimo abre-alas. Com o ent\u00e3o Governador do Mato Grosso Dante de Oliveira, criador da emenda das Diretas J\u00e1, como destaque, a escola lembrou o movimento que pedia Elei\u00e7\u00f5es diretas para Presidente e o fez em um carro cheio de luzes e representa\u00e7\u00f5es nacionalistas. Com o dia amanhecendo, a escola manteve o Anhembi lotado e foi ovacionada com gritos de \u201ctricampe\u00e3\u201d por toda a Passarela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desfile manteve seu alto n\u00edvel do in\u00edcio ao fim. O segundo carro, \u201cA Era dos Cruzados\u201d, satirizava de maneira genial os planos econ\u00f4micos do Presidente Jos\u00e9 Sarney. O ex-Presidente aparecia montado em um cavalo como um guerreiro da \u00e9poca das Cruzadas e, \u00e0 sua frente, dois brasileiros com olhos esbugalhados comandavam um carrinho de supermercado Foi o carro mais criativo de 2000, sem sombra de d\u00favidas. Gostei muito de uma das alas subsequentes, a ala dos \u201cmendigos\u201d. N\u00e3o havia fantasias, mas sim roupas t\u00edpicas de moradores das ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contexto do Brasil da segunda metade da d\u00e9cada de 1980 foi representado com perfei\u00e7\u00e3o. O fim da ilegalidade para os partidos de esquerda, a luta pela Reforma Agr\u00e1ria e pelas Elei\u00e7\u00f5es Diretas ganhou lindas e coloridas fantasias. O locutor Osmar Santos, \u201ca voz das Diretas\u201d, voltou a desfilar, j\u00e1 na cadeira de rodas. O Governo Collor tamb\u00e9m foi representado de maneira genial: no terceiro carro, \u201cA cascata da Dinda\u201d, modelos foram colocadas sobre jet-skis \u00e0 frente de s\u00f3sias de Collor, sua mulher Rosane e PC Farias, esse j\u00e1 morto. No primeiro plano, porcos, cofrinhos, amarrados por cordas representavam o confisco das poupan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anos de Governo de Itamar Franco foram representados em uma ala sensacional atr\u00e1s do terceiro carro: \u201cO topetudo mineiro\u201d. A fantasia era um fusca, que voltou a ser produzido com Itamar. Os \u00fanicos a ganharem elogios foram Fernando Henrique Cardoso, respons\u00e1vel pelo Plano Real, representado no quarto carro, \u201cO Renascimento da Na\u00e7\u00e3o\u201d (todo em verde e amarelo, ele n\u00e3o tinha nenhuma sacada genial, mas estava muito bonito e luxuoso) e Ayrton Senna, o her\u00f3i nacional no per\u00edodo. As \u00faltimas fantasias e o \u00faltimo carro saudavam os 70 anos da Escola do Povo e fecharam com chave de ouro uma apresenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A superioridade da Vai-Vai foi t\u00e3o grande que, mesmo com o excelente desfile da Gavi\u00f5es, qualquer resultado que n\u00e3o fosse um tricampeonato para a agremia\u00e7\u00e3o do Bixiga seria um absurdo completo. A apura\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com uma puni\u00e7\u00e3o que decretou o rebaixamento da Peruche: por desfilar com 200 componentes a menos que o m\u00ednimo de 2 mil, a escola perdeu 15 pontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escola do Bixiga deixou a ponta no segundo quesito, Enredo, quando levou dois 9,5 (um descartado), ficando atr\u00e1s de Gavi\u00f5es, Leandro e Tucuruvi, ambas com 40, e empatada com X-9, Mocidade e Rosas. O terceiro quesito, Alegoria, tirou a Roseira da briga, enquanto Letra do Samba come\u00e7ou a derrubar a Tucuruvi e Harmonia derrubaram a Leandro. A Gavi\u00f5es fechou o oitavo quesito somando todos os 160 pontos poss\u00edveis, contra 159,5 de Vai-Vai e X-9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No nono quesito, mestre-sala e porta-bandeira, a Gavi\u00f5es levou s\u00f3 um 10 e dois nove, caindo assim para 179 pontos contra 179,5 de Vai-Vai e X-9. As tr\u00eas gabaritaram o \u00faltimo quesito, Bateria, levando assim a mais um t\u00edtulo dividido, dessa vez entre Vai-Vai e X-9. A Gavi\u00f5es foi a vice-campe\u00e3, seguida por Mocidade, Rosas e Nen\u00ea, que ficaram em terceiro com 198,5. O Camisa acabou em quarto, \u00e0 frente de Leandro, Tucuruvi, \u00c1guia de Ouro, Imperador e Morro da Casa Verde que, com 190,5 pontos, superou em 0,5 a rebaixada Tom Maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Peruche terminou na lanterna e l\u00e1 ficaria mesmo se n\u00e3o fosse punida. Foi o primeiro rebaixamento da hist\u00f3ria da escola desde 1980. No Grupo 1 de seis escolas, a P\u00e9rola Negra foi campe\u00e3 e voltou ao Especial ao lado da Unidos de S\u00e3o Lucas, que estrearia na elite em 2001. A escola deixou a Imp\u00e9rio de Casa Verde a meio ponto do acesso in\u00e9dito ao primeiro grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Curiosidades<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Cleber Machado mais uma vez comandou as transmiss\u00f5es na TV Globo, que pela primeira vez transmitiu as apresenta\u00e7\u00f5es na \u00edntegra. Ele foi acompanhado por Mariana Godoy, enquanto os coment\u00e1rios outra vez ficaram a cargo de Maur\u00edcio Kubrusly. Nas reportagens, o destaque ficou por conta de M\u00e1rcio Canuto que, na arquibancada monumental, representou personagens hist\u00f3ricos contados nos desfiles, de Pedro \u00c1lvares Cabral a Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O caso da alegoria da \u00c1guia de Ouro foi o mais grave, mas a verdade \u00e9 que, por conta dos temas muito ligados \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil, foi um Carnaval marcado pela grande press\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica sobre imagens que remetessem \u00e0 religi\u00e3o. Muitos carros e fantasias receberam pedidos formais de altera\u00e7\u00f5es e, em alguns casos, elas de fato ocorreram, para desespero dos Carnavalescos. Outro grande problema para a Igreja foram os s\u00edmbolos religiosos pintados em mulheres seminuas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Primeiro ano do int\u00e9rprete Carlos J\u00fanior como int\u00e9rprete oficial. O cantor, que depois se tornaria um dos principais de S\u00e3o Paulo, estreou logo no Camisa Verde e Branco, onde ficaria at\u00e9 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Outros dois int\u00e9rpretes cariocas tamb\u00e9m estrearam na Terra da Garoa em 2000: na Mocidade Alegre, Cl\u00f3vis P\u00ea; na Rosas de Ouro, Quinho. O primeiro se consagraria, anos depois, na pr\u00f3pria Morada. O segundo, teria uma passagem futura pela Vila Maria. Dentre os Carnavalescos, temos o debute de Lucas Pinto, na X-9, e do carioca Jorge Freitas, na Gavi\u00f5es da Fiel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O int\u00e9rprete Douglinhas entoou \u201cEu sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor\u201d no esquenta da \u00c1guia de Ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O samba da X-9 foi o primeiro dos mais de 30, por enquanto, composto por Arm\u00eanio Poesia no Carnaval de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A escola, ali\u00e1s, abandonou naquele ano o nome Passo de Ouro de sua denomina\u00e7\u00e3o oficial, ficando tamb\u00e9m com o verde, vermelho e branco dentre as \u00fanicas cores oficiais, abandonando o amarelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pela primeira vez, a apura\u00e7\u00e3o dos desfiles do Grupo Especial aconteceu na ter\u00e7a-feira gorda e n\u00e3o na quarta-feira de cinzas. O hor\u00e1rio, no entanto, continuou o mesmo: as notas foram lidas pela manh\u00e3, poucas horas depois do fim dos desfiles do Grupo 2 da UESP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Depois de anos de muitos festejos com sua presen\u00e7a, o Prefeito Celso Pitta, meses antes da ren\u00fancia, chegou e saiu sem ser anunciado no Samb\u00f3dromo do Anhembi, com medo das vaias do p\u00fablico. Sua curta passagem pela Passarela ficou marcada por uma declara\u00e7\u00e3o: \u201cSe o Presidente FHC liberar a verba que eu espero para S\u00e3o Paulo, prometo que farei um \u2018pas-de-deux\u2019 no meio da Avenida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pitta, ali\u00e1s, entrou em um pequeno atrito com o Prefeito do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde, que havia dito que o Carnaval de S\u00e3o Paulo era \u201cum rodeio chat\u00edssimo\u201d. O Prefeito, do PTN, afirmou que o Prefeito carioca estava com \u201cdor de cotovelo\u201d por perder turistas para a cidade. O pol\u00edtico do PFL n\u00e3o deixou por menos: \u201cPitta \u00e9 carioca, tem samba no p\u00e9, sabe do que eu estou falando. Ele at\u00e9 disse que queria ser bailarino, deve entender do neg\u00f3cio\u201d. Na sequ\u00eancia, ambos trocaram, atrav\u00e9s de assessorias, n\u00fameros sobre o turismo na folia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Os sambistas paulistanos se irritaram quando Conde prop\u00f4s que a campe\u00e3 e a vice na Terra da Garoa desfilassem no Acesso do Rio em 2001 para tentar chegar ao Especial em 2002. Presidente da Nen\u00ea, Betinho disse que \u201cningu\u00e9m chuta cachorro morto, estamos incomodando\u201d. L\u00edder da \u00c1guia de Ouro e da Liga\/SP, Sidinei Carrioulo cutucou: \u201cele devia se preocupar mais com a seguran\u00e7a e a sinaliza\u00e7\u00e3o na cidade dele\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O jogador Dinei esbanjou preparo f\u00edsico naquele Carnaval. Depois de atuar pelo Corinthians j\u00e1 na sexta-feira de Carnaval, foi ao Anhembi desfilar por Leandro de Itaquera e Gavi\u00f5es da Fiel e ainda disse que s\u00f3 n\u00e3o saiu em outras duas escolas porque n\u00e3o teve tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A Nen\u00ea de Vila Matilde apresentou naquele Carnaval o mesmo enredo de sua madrinha, Portela, no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Ambas foram criticadas pela abordagem rom\u00e2ntica de Get\u00falio.<br \/>\n&#8211; Cl\u00e9ber Machado e Maur\u00edcio Kubrusly ironizaram bastante as irregularidades de Collor e os planos fracassados de Sarney. Quanto a Collor, Kubrusly lembrou que ele \u201ctalvez fosse candidato a Prefeito de S\u00e3o Paulo\u201d naquele 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Os ritmistas da Bateria Pulsa\u00e7\u00e3o Nota 1000 da X-9 Paulistana, comandados pelo sempre irreverente Mestre Adamastor, prometeram raspar a cabe\u00e7a em caso de t\u00edtulo. Alguns, na festa da vit\u00f3ria, choraram de tristeza na hora de pagar a promessa, executada por membros da pr\u00f3pria X-9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa \u00e9 uma das evid\u00eancias de que nem a X-9 Paulistana acreditava no pr\u00f3prio t\u00edtulo. Quando a escola da Parada Inglesa come\u00e7ou a se aproximar das l\u00edderes, o helic\u00f3ptero da Rede Globo sobrevoou a quadra e a encontrou fechada, com alguns componentes correndo para abri-la enquanto alguns torcedores j\u00e1 ocupavam a rua. A festa da vit\u00f3ria foi toda improvisada. O pr\u00f3prio Presidente admitiu que s\u00f3 encomendou as cervejas depois da apura\u00e7\u00e3o. \u201cDesfilamos para os jurados e acredit\u00e1vamos em uma boa coloca\u00e7\u00e3o, mas o t\u00edtulo surpreendeu\u201d, afirmou Lauro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O t\u00edtulo da Vai-Vai a fez se isolar na ponta como maior campe\u00e3 do Carnaval de S\u00e3o Paulo: a 11\u00aa conquista fez a Saracura superar as 10 ta\u00e7as da Nen\u00ea de Vila Matilde. A escola do Bixiga tamb\u00e9m chegou ao seu quinto t\u00edtulo no Anhembi, superando os quatro trof\u00e9us da Rosas de Ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>V\u00eddeos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande desfile da Mocidade<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4fKjPOUnjW0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bom desfile da Leandro<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WQFIh4DjrFg<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A surpreendente campe\u00e3 X-9<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=c24bdP1Hzt8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A excelente apresenta\u00e7\u00e3o da Gavi\u00f5es<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=irtGqteoEqs<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bom desfile do Morro<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nBohBysSjP0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Nen\u00ea com Get\u00falio<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0M8AZjKais8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A surpreendente Tucuruvi<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WK-qBnwvLZ8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vai-Vai quebrando tudo<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jsnim5jTXzE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas reportagens sobre a apura\u00e7\u00e3o<br \/>\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fVOb0rrU0pU<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2000 prometia ser um marco na hist\u00f3ria do Carnaval de S\u00e3o Paulo. 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