{"id":26909,"date":"2014-06-24T08:15:55","date_gmt":"2014-06-24T11:15:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=26909"},"modified":"2014-06-23T21:36:41","modified_gmt":"2014-06-24T00:36:41","slug":"copa-do-ouro-o-ponto-final-no-maior-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/06\/copa-do-ouro-o-ponto-final-no-maior-do-mundo\/","title":{"rendered":"Copa do Ouro: &#8220;O ponto final no Maior do Mundo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A Espanha, ao longo da hist\u00f3ria, ficou marcada por montar bons times de futebol e, ao mesmo tempo, por ser uma sele\u00e7\u00e3o \u201cperdedora\u201d. A sina de ter grandes gera\u00e7\u00f5es e com elas sofrer grandes derrotas \u00e9 antiga, bem antiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na segunda Copa do Mundo, em 1934, os espanh\u00f3is montaram aquele que, para muitos, foi um dos melhores da hist\u00f3ria do pa\u00eds. A competi\u00e7\u00e3o era disputada toda no sistema de \u201cmata-mata\u201d e, ap\u00f3s derrotar o Brasil na estreia, a F\u00faria foi ao encontro da anfitri\u00e3 It\u00e1lia, embalada pelo regime fascista de Mussolini, nas quartas de final e conseguiu um empate por 1 a 1. Como \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o existia disputa por p\u00eanaltis, foi realizada uma nova partida na qual, com uma arbitragem pol\u00eamica, os donos da casa venceram por 1 a 0 e rumaram para sua primeira conquista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro anos depois, os espanh\u00f3is eram novamente favoritos para levarem a ta\u00e7a, mas sequer foram \u00e0 Fran\u00e7a devido a Guerra Civil que culminou no in\u00edcio da ditadura franquista no pa\u00eds. Passada a Segunda Guerra Mundial, os europeus voltariam a aparecer com destaque no futebol na Copa de 1950, no Brasil. A miss\u00e3o de se classificar em um grupo que tinha a inventora do futebol, a Inglaterra, era dif\u00edcil, mas, com tr\u00eas vit\u00f3rias em tr\u00eas jogos, a F\u00faria conseguiu avan\u00e7ar para o quadrangular final \u2013 a Copa de 50 foi a \u00fanica da hist\u00f3ria a n\u00e3o ter uma final \u2013 ao lado de Brasil, Su\u00e9cia e Uruguai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de empatar em 2 a 2 com os uruguaios na primeira partida, a Espanha foi ao Maracan\u00e3 enfrentar a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira que, tamb\u00e9m no M\u00e1rio Filho, havia enfiado 7 a 1 na Su\u00e9cia. Apoiados por 152 mil torcedores, os brasileiros n\u00e3o tiveram piedade da Espanha e golearam mais uma vez, agora por 6 a 1. A humilha\u00e7\u00e3o espanhola foi completa com o hoje tradicional grito de \u201col\u00e9\u201d, copiado das touradas espanholas e que, at\u00e9 onde se sabe, jamais havia sido usado antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande marca daquele jogo, no entanto, \u00e9 o fato do est\u00e1dio inteiro ter entoado uma Marcinha de sucesso, que dizia: <em>\u201cih, foi \u00e0s touradas em Madri \/ ih, quase n\u00e3o volto mais aqui&#8230;\u201d<\/em>. Uma humilha\u00e7\u00e3o total para os espanh\u00f3is, que ainda foram derrotados pelos suecos no \u00faltimo e esquecido jogo que aconteceu no Pacaembu, paralelamente ao Maracanazzo que calou um pa\u00eds. Derrotada, humilhada e sapateada, a Espanha teria todos os motivos para guardar p\u00e9ssimas recorda\u00e7\u00f5es do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos seguintes, novas decep\u00e7\u00f5es. Em 1962, no Chile, o excelente time espanhol acabou derrotado pela Tchecoslov\u00e1quia e precisava vencer o ent\u00e3o detentor do t\u00edtulo, novamente o Brasil, para avan\u00e7ar de fase no grupo mais forte do torneio. Os europeus sa\u00edram na frente e s\u00f3 n\u00e3o tiveram a chance de ampliar o placar por conta daquele conhecido lance em que um malandro N\u00edlton Santos cometeu um p\u00eanalti, mas saiu sorrateiramente da \u00e1rea, levando o \u00e1rbitro a marcar apenas a falta. Os espanh\u00f3is tiveram um gol mal anulado e acabaram sofrendo a virada, deixando precocemente o torneio e abrindo caminho para o bicampeonato dos brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria de derrotas da F\u00faria foi a Eurocopa de 1964, disputada em um sistema eliminat\u00f3rio de jogos em ida e volta e que s\u00f3 chegou a uma sede fixa \u2013 a pr\u00f3pria Espanha \u2013 na semifinal. Derrotando Hungria e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os espanh\u00f3is sagraram-se campe\u00f5es, o que n\u00e3o lhes tiraria o r\u00f3tulo de perdedores d\u00e9cadas mais tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe de ter um dos melhores times daquele torneio, a Espanha de 1978 s\u00f3 n\u00e3o eliminou o Brasil \u2013 sempre ele \u2013 na fase de grupos porque teve um gol n\u00e3o validado (a bola entrou e os \u00e1rbitros n\u00e3o viram) na partida que terminou em zero a zero. Quatro anos depois, como sede do Mundial, a F\u00faria at\u00e9 conseguiu passar de fase, mas logo foi eliminada em um grupo com Alemanha Ocidental e Inglaterra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Eurocopa de 1984, a Espanha voltou a apresentar um bom time ao mundo. Em terras francesas e em um j\u00e1 consolidado torneio continental, os espanh\u00f3is fizeram bonito, chegando at\u00e9 a final. O bicampeonato, no entanto, acabou esbarrando em um dos melhores times franceses da hist\u00f3ria. Platini e companhia venceram por 2 a 0 e levaram a ta\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar dos fracassos anteriores, a sina de perdedora come\u00e7ou a perseguir mesmo os espanh\u00f3is em 1986. Na Copa do M\u00e9xico, a F\u00faria n\u00e3o era muito notada e chegou as oitavas de final longe de ser favorita contra o fort\u00edssimo time da Dinamarca. O 5 a 1 aplicado na \u201cdinam\u00e1quina\u201d, no entanto, credenciou os espanh\u00f3is a disputa pelo t\u00edtulo. A disputa com a B\u00e9lgica nas quartas de final foi intensa e acabou empatada em 1 a 1. Nas cobran\u00e7as de p\u00eanaltis, nove dos 10 chutes foram para as redes. Apenas a cobran\u00e7a do espanhol Eloy teve destino diferente: as m\u00e3os do goleiro Pfaff, acabando assim com qualquer euforia causada pelos espanh\u00f3is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oito anos depois, aquela que talvez seja a mais traum\u00e1tica derrota da hist\u00f3ria da Espanha. No Mundial dos Estados Unidos, a Espanha chegou novamente \u00e0s quartas de final, agora para disputar com a It\u00e1lia uma vaga na semi. O jogo foi tenso e a It\u00e1lia vencia por 2 a 1 at\u00e9 os minutos finais, quando o lateral Tassotti deu uma cotovelada no espanhol Luis Enrique. Nada foi marcado pelo \u00e1rbitro e a cena do jogador sangrando reclamando com o juiz foi uma das mais emblem\u00e1ticas da Copa de 1994. Uma derrota dolorida e que seria guardada por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha1998.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-26915 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha1998-300x156.jpg\" alt=\"espanha1998\" width=\"300\" height=\"156\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha1998-300x156.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha1998-550x287.jpg 550w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha1998.jpg 956w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Em 1998, a Espanha era tida como favorita, mas, no grupo da morte, foi derrotada pela Nig\u00e9ria, empatou com o Paraguai e, mesmo ap\u00f3s golear a Bulg\u00e1ria, se despediu da Copa da Fran\u00e7a ainda na primeira fase. Quatro anos depois, mais uma vez entre as favoritas, a Espanha sofreu mais uma dolorosa derrota nas quartas de final. Enfrentando a Coreia do Sul, que dividiu a organiza\u00e7\u00e3o daquele mundial com o Jap\u00e3o, a Espanha teve dois gols absurdamente mal anulados e n\u00e3o saiu do zero a zero com os coreanos. O p\u00eanalti perdido por Joaqu\u00edn, que levou a vit\u00f3ria dos coreanos por 5 a 3 nas penalidades, foi defendido por um muito adiantado goleiro dos locais. No entanto, o \u00e1rbitro validou o lance e a Espanha ficou mais uma vez no quase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Copa de 2006 foi a maior expoente do que sempre foi a Espanha: bons times, um futebol maravilhoso de se ver, superior a quase todos os times do planeta&#8230; mas sem qualquer voca\u00e7\u00e3o para a vit\u00f3ria. Na Copa da Alemanha, a F\u00faria triturou Ucr\u00e2nia, Ar\u00e1bia Saudita e Tun\u00edsia na primeira fase e se tornou muito favorita ao t\u00edtulo e a vencer uma Fran\u00e7a que avan\u00e7ou para as oitavas aos trancos e barrancos. Quando os espanh\u00f3is abriram o placar no primeiro tempo, a vit\u00f3ria parecia encaminhada, mas a\u00ed come\u00e7ou a aparecer a Fran\u00e7a que seria vice-campe\u00e3 Mundial e que virou o jogo, vencendo por 3 a 1 e escrevendo mais um tr\u00e1gico cap\u00edtulo da hist\u00f3ria espanhola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veio ent\u00e3o a Eurocopa de 2008 e as chances da Espanha eram altas. Ainda sob o comando de Luis Aragones, os espanh\u00f3is mudaram seu estilo de jogo. Mais do que isso: inventaram um estilo que jamais havia sido usado antes. O toque de bola, a paci\u00eancia, a valoriza\u00e7\u00e3o da posse de bola, os ataques letais e um time muito inteligente. Ingredientes que come\u00e7avam a dar ao mundo do futebol uma nova pot\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Euro da \u00c1ustria e da Su\u00ed\u00e7a, foi exorcizado o fantasma de 1994 com a vit\u00f3ria sobre a It\u00e1lia nas quartas de final. Foi exorcizado o fantasma da falta de um t\u00edtulo importante na era moderna do futebol com a vit\u00f3ria por 1 a 0 sobre a Alemanha na decis\u00e3o. Diferente sim daquela Espanha de um futebol-arte, a F\u00faria virava <em>La Roja<\/em> e come\u00e7ava a inaugurar uma nova era no futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda havia quem visse a Espanha, agora comandada por Vicente del Bosque com desconfian\u00e7a, principalmente ap\u00f3s a derrota para os Estados Unidos na semifinal da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es de 2009 e da derrota para a Su\u00ed\u00e7a na estreia pela Copa de 2010, na \u00c1frica do Sul. Irritando uns e conquistando outros, a Espanha venceu, ao seu novo estilo, quatro dos seus cinco jogos seguintes por 1 a 0 ou 2 a 1 (a exce\u00e7\u00e3o foi um 2 a 0 sobre Honduras) e chegou \u00e0 final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo teria um oitavo campe\u00e3o. Espanha e Holanda, de tantas derrotas marcantes, estavam a um jogo da primeira conquista em Copas do Mundo. O jogo foi nervoso, a Holanda foi inferior, mas perdeu as chances mais claras de gol. A quatro minutos do fim da prorroga\u00e7\u00e3o, Iniesta dava ao mundo do futebol um novo dono. Levava a Espanha ao incontest\u00e1vel posto de melhor time do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os antagonistas do tiki-taka, como ficou conhecido esse estilo de se jogar, ainda sofreram mais um duro baque em 2012, quando os espanh\u00f3is levaram sua terceira grande ta\u00e7a em quatro anos, a Eurocopa, com uma ainda mais incontest\u00e1vel vit\u00f3ria por 4 a 0 sobre a It\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha2014.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-26910 alignleft\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha2014-510x340.jpeg\" alt=\"espanha2014\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha2014-510x340.jpeg 510w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha2014-300x199.jpeg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/espanha2014.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a>O Maracan\u00e3, onde a Espanha foi humilhada em 1950, foi o palco da primeira grande derrota dessa gera\u00e7\u00e3o espanhola. Foi na final da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es de 2013, quando os europeus ca\u00edram por 3 a 0 para o Brasil. Nada, por\u00e9m, que lhes tirasse o posto de melhor time, de grande favorita ao t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas futebol \u00e9 feito de hegemonias e todas elas tem um in\u00edcio e um fim. A da Espanha come\u00e7ou em 2008 e terminou no dia 18 de junho de 2014. No mesmo Maracan\u00e3, palco de duras derrotas, uma irreconhec\u00edvel e abatida Espanha foi derrotada pela segunda vez em dois jogos na Copa do Mundo e ficou sem qualquer chance de classifica\u00e7\u00e3o. No Maior do Mundo, chegava ao fim uma das mais brilhantes gera\u00e7\u00f5es do futebol mundial em toda sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Goste voc\u00ea ou n\u00e3o do tiki-taka, admita que ele n\u00e3o morreu. Est\u00e1 vivo em muitos outros times, influenciou todo o futebol mundial. Seja adotando ou armando esquemas para combate-lo, quase ningu\u00e9m passou imune ao tiki-taka espanhol. E ele deve prosseguir na pr\u00f3pria Espanha, que tem tudo para ter gera\u00e7\u00f5es t\u00e3o brilhantes quanto essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses seis anos nos deram uma nova pot\u00eancia entra as sele\u00e7\u00f5es, mais uma daquelas que ser\u00e3o respeitadas s\u00f3 pelo nome que carrega. Se em 1950 a humilhada a Espanha pensou em n\u00e3o voltar mais aqui, essa sai do Maracan\u00e3 novamente humilhada, mas agora com a certeza de que estar\u00e1 sempre pronta para, caso tenha que jogar novamente aqui, exorcizar o \u00faltimo fantasma: vencer no lugar em que deixou de ser a melhor do mundo para entrar, enfim, para a hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Espanha, ao longo da hist\u00f3ria, ficou marcada por montar bons times de futebol e, ao mesmo tempo, por ser uma sele\u00e7\u00e3o \u201cperdedora\u201d. 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