{"id":26416,"date":"2014-06-04T12:13:43","date_gmt":"2014-06-04T15:13:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=26416"},"modified":"2014-06-03T15:40:26","modified_gmt":"2014-06-03T18:40:26","slug":"meu-jogo-inesquecivel-futebol-arte-dupla-derrota-na-espanha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/06\/meu-jogo-inesquecivel-futebol-arte-dupla-derrota-na-espanha\/","title":{"rendered":"Meu Jogo Inesquec\u00edvel: \u201cFutebol Arte: dupla derrota na Espanha\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>(por Rodrigo Mattar, jornalista da Fox Sports e dono do <a href=\"http:\/\/rodrigomattar.warmup.com.br\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">blog A Mil Por Hora<\/span><\/a>)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior trag\u00e9dia que presenciei no futebol n\u00e3o merece muitos detalhes: a derrota sofrida diante da It\u00e1lia, com os tr\u00eas gols do carrasco Paulo Rossi arrombando a defesa brasileira, foi a mais do\u00edda que assisti da sele\u00e7\u00e3o brasileira. Tinha onze anos de idade e para uma crian\u00e7a, uma derrota destas \u00e9 mais dolorida do que qualquer outra. Chorei adoidado, uma na\u00e7\u00e3o inteira foi \u00e0s l\u00e1grimas e os cr\u00edticos decretavam o fim do futebol-arte do time de Tel\u00ea Santana, decantado em verso e prosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A melhor sele\u00e7\u00e3o sa\u00eda da Copa e entrava para a hist\u00f3ria, assim como a Hungria de 1954 e o Carrossel Holand\u00eas de 1974 como os grandes times que nunca foram campe\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que rem\u00e9dio, n\u00e3o? Eliminado o Brasil, o jeito era continuar a assistir as partidas da Copa de 1982 e escolher uma sele\u00e7\u00e3o para torcer. Na verdade, eu j\u00e1 torcia em paralelo ao time de Cerezo, Falc\u00e3o, S\u00f3crates e Zico, pela Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Heresia? N\u00e3o. A gente sempre tem uma sele\u00e7\u00e3o estrangeira por quem somos simp\u00e1ticos. Na \u00e9poca, eu gostava dos Bleus e n\u00e3o me perguntem o motivo. Pena pela elimina\u00e7\u00e3o precoce em 1978? Talvez. A Fran\u00e7a, quatro anos antes, deu azar: sorteada numa chave dific\u00edlima contra It\u00e1lia, Argentina e Hungria, perdeu na estreia para os italianos \u2013 mesmo com um gol rel\u00e2mpago do centroavante Lacombe \u2013 e depois para os donos da casa, numa bomba de Luque que desviou num zagueiro e tirou o goleiro Baratelli, que, ali\u00e1s, entrara no lugar de Bertrand-Demanes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-26420\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-III-300x201.jpg\" alt=\"alemanha e fran\u00e7a III\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-III-300x201.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-III.jpg 350w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>J\u00e1 eliminada, a Fran\u00e7a protagonizou uma cena curiosa: foi para o campo de jogo contra a Hungria, cumprir tabela vestindo branco. Os magiares s\u00f3 levaram o uniforme branco tamb\u00e9m e fez-se o impasse. Num sorteio, os franceses perderam e o jeito foi improvisar com o uniforme do Kimberley, um pequeno time argentino. A Fran\u00e7a despediu-se vencendo o jogo por 3 x 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse mesmo placar repetiu-se na estreia da Copa da Espanha, quatro anos depois. O time era praticamente o mesmo de 1978, com alguns jogadores j\u00e1 mais experientes, feito Michel Platini, que j\u00e1 brilhava intensamente no futebol europeu. Os veloc\u00edssimos Rocheteau e Six tamb\u00e9m estavam no elenco, al\u00e9m dos zagueiros Battiston, Bossis, Tr\u00e9sor e Lopez. Com dois gols, um deles a menos de um minuto de jogo, Bryan Robson criou a primeira crise no time franc\u00eas. Platini pediu o afastamento de Tr\u00e9sor ao t\u00e9cnico Henri Michel, antigo colega dos dois na Copa de 1978 como jogador. N\u00e3o foi atendido: o grupo era simp\u00e1tico ao zagueiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surpresa? Nenhuma. Conhecida pela mistura de ra\u00e7as, a sele\u00e7\u00e3o mostrava que Tr\u00e9sor n\u00e3o estava sozinho. Havia, ainda, Janvion e Jean Tigana, que come\u00e7ou a Copa na reserva, mas n\u00e3o tardaria a ganhar a posi\u00e7\u00e3o de titular. Todos negros e talentosos, calando o preconceito de Platini.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com as coisas mais calmas, a Fran\u00e7a goleou o Kuwait, no famoso jogo em que um xeque invadiu o campo para anular um gol contra a sele\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds (e foi atendido) e empatou com a Tchecoslov\u00e1quia, obtendo uma vaga para a fase seguinte, em que enfrentaria \u00c1ustria e Irlanda do Norte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro jogo foi duro: sem Platini, a Fran\u00e7a perdeu sua refer\u00eancia no meio-campo e s\u00f3 venceu com um gol de falta de Genghini, aos 39 do primeiro tempo. Foi a\u00ed que Tigana ganhou definitivamente espa\u00e7o no time e Henri Michel convenceu-se que dava para a sele\u00e7\u00e3o jogar com dois meio-campistas criativos, o combativo Giresse e o solid\u00e1rio Genghini, al\u00e9m dos velozes pontas Rocheteau e Six, que poderiam se revezar na posi\u00e7\u00e3o. O centroavante era o apenas esfor\u00e7ado Soler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na v\u00e9spera da elimina\u00e7\u00e3o do Brasil, a Fran\u00e7a deu um baile na Irlanda do Norte, uma das grandes surpresas da Copa de 1982. Com dois gols do baixinho Giresse e outros dois de Rocheteau, passou tranquila \u00e0s semifinais, o que n\u00e3o acontecia desde 1958, quando o Brasil cruzou o caminho daquele time fant\u00e1stico que tinha Jonquet, Kopa, Piantoni e Fontaine e detonou os Bleus com tr\u00eas gols de Pel\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele era um fantasma com o qual os franceses conviviam havia 24 anos e era chegada a hora de expurg\u00e1-lo. O futebol-arte, sem a sele\u00e7\u00e3o canarinho, tinha na Fran\u00e7a sua grande representante na decis\u00e3o por uma vaga na final contra a sempre tradicional e perigosa Alemanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-82-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-26419\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-82-II-300x170.jpg\" alt=\"alemanha e fran\u00e7a 82 II\" width=\"300\" height=\"170\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-82-II-300x170.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/alemanha-e-fran\u00e7a-82-II.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Com 70 mil espectadores nas arquibancadas do est\u00e1dio Sanchez Pizju\u00e1n, que os brasileiros chamavam de \u201cPai Jo\u00e3o\u201d, o \u00e1rbitro Charles Corver deu in\u00edcio a um dos maiores jogos da hist\u00f3ria das Copas. Logo a Alemanha prevaleceu a experi\u00eancia de seu grupo e aos 17 minutos saiu o primeiro gol: Ettori, o esfor\u00e7ado goleiro franc\u00eas, saiu aos p\u00e9s de um advers\u00e1rio e no rebote, Littbarski estufou as redes tricolores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O troco veio ainda no primeiro tempo. Ap\u00f3s uma cobran\u00e7a de falta ensaiada, Rocheteau foi derrubado por um zagueiro e Charles Corver marcou p\u00eanalti. Platini cobrou sem chances para Harald Schumacher e empatou a partida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda etapa, a Fran\u00e7a teve a chance de virar o placar: aos quinze do segundo tempo, o zagueiro Battiston recebeu um lan\u00e7amento precioso e s\u00f3 foi parado com uma entrada digna de Karat\u00ea Kid, perpetrada por Schumacher. O auxiliar fez vista grossa e o \u00e1rbitro Charles Corver nem co\u00e7ou o bolso: o goleiro alem\u00e3o permaneceu alegrinho em campo e Battiston, nocauteado ap\u00f3s ficar 10 minutos em campo, deu lugar a Lopez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Alemanha, que al\u00e9m do \u201ccarateca\u201d Schumacher e de Briegel, seu lateral-decatleta, tinha tamb\u00e9m o cerebral Paul Breitner, agora comandando o meio-campo, tinha um trunfo para o resto do jogo: Rummenigge, em condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas prec\u00e1rias, assistia ao jogo do banco de reservas, esperando por uma chance na prorroga\u00e7\u00e3o. E a chance veio: o tempo normal acabou 1 x 1 e haveria 30 minutos de tempo extra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1982 WC  Germany FR - France\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DY8O9qhFbj4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prorroga\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegou a ser um \u00e9pico como It\u00e1lia x Alemanha de 1970, mas chegou muito pr\u00f3ximo. Logo aos dois minutos, com um voleio bel\u00edssimo e indefens\u00e1vel, Tr\u00e9sor, o zagueiro t\u00e3o criticado por Platini, punha a Fran\u00e7a na frente. Jupp Derwall, atento, olhou pro banco e mandou Rummenigge entrar \u2013 e no lugar de Briegel, refor\u00e7ando o poder ofensivo dos germ\u00e2nicos. Desorganizada, a Alemanha permitiu um contra-ataque puxado por Rocheteau: Six ajeitou com carinho e Giresse fez 3 x 1. \u00c0quela altura, eu vibrava loucamente, antevendo um Fran\u00e7a x It\u00e1lia e a vingan\u00e7a por nossa derrota no Sarri\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que a Alemanha nunca pode ser chamada de galinha morta em Copas do Mundo, a menos que d\u00ea motivos para isso. Com o time que tinham, isso era imposs\u00edvel. Eles acordaram para o jogo e, liderados por Rummenigge, diminu\u00edram o preju\u00edzo ainda no primeiro tempo da prorroga\u00e7\u00e3o: ap\u00f3s jogada pela esquerda com Littbarski, o pr\u00f3prio Rummenigge escorou na sa\u00edda de Ettori.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A press\u00e3o foi intensa em busca do gol de empate e ele saiu aos tr\u00eas minutos do segundo tempo extra: o grandalh\u00e3o Horst Hrubesch escorou de cabe\u00e7a e Fischer, numa meia-bicicleta espetacular, igualou o marcador em 3 x 3. O esfor\u00e7o pela vit\u00f3ria foi imenso, faltaram pernas \u00e0s duas sele\u00e7\u00f5es e o resultado levou o jogo ao drama dos p\u00eanaltis. Por sinal, a primeira partida da hist\u00f3ria de todas as Copas que seria decidida dos tiros da marca fatal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Ettori conseguiu defender a cobran\u00e7a de Uli Stielike e a Fran\u00e7a abriu 3 x 2, achei sinceramente que j\u00e1 eram favas contadas. O 4 x 2 poderia decidir tudo se Didier Six marcasse e Littbarski perdesse. Aconteceu justamente o contr\u00e1rio: o franc\u00eas perdeu sua cobran\u00e7a e o alem\u00e3o converteu. Com Platini e Rummenigge acertando suas cobran\u00e7as, a decis\u00e3o foi para os tiros alternados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maxime Bossis, cansado, estropiado, meias arriadas abaixo da canela, foi o escolhido para o sacrif\u00edcio da primeira cobran\u00e7a da s\u00e9rie alternada. O camisa 4 da sele\u00e7\u00e3o francesa telegrafou o canto e n\u00e3o foi dif\u00edcil para Schumacher defender. A bola foi \u00e0 meia-altura, n\u00e3o havia como o goleiro da Alemanha levar o gol. Nessa altura, eu n\u00e3o sabia se gritava de \u00f3dio com Bossis como se ele fosse o Zico, S\u00f3crates ou o J\u00falio C\u00e9sar na Copa seguinte ou se chorava de tristeza pelo fim do futebol-arte, da magia e do encantamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda op\u00e7\u00e3o foi bem mais simples. Quando Hrubesch deslocou Ettori com um chute rasteiro, o jeito foi abrir o berreiro e lamentar a derrota daquele time que admirava e que substituiu, por 72 horas, o Brasil no meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pj-HM57dyjY<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(por Rodrigo Mattar, jornalista da Fox Sports e dono do blog A Mil Por Hora) A maior trag\u00e9dia que presenciei no futebol n\u00e3o merece muitosTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[564,550],"tags":[437,37],"class_list":["post-26416","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-convidados","category-meu-jogo-inesquecivel","tag-copa-do-mundo","tag-futebol"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26416","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26416"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26416\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}