{"id":24920,"date":"2014-04-11T14:44:34","date_gmt":"2014-04-11T17:44:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=24920"},"modified":"2014-04-11T14:44:34","modified_gmt":"2014-04-11T17:44:34","slug":"cinecasulofilia-para-sempre-amador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/04\/cinecasulofilia-para-sempre-amador\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia: &#8220;Para Sempre Amador&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta sexta, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna cinematogr\u00e1fica assinada pelo cr\u00edtico, cineasta e professor de Cinema Marcelo Ikeda<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Para Sempre Amador<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&#8220;ser livre \u00e9 muitas vezes ser s\u00f3&#8221; W.H. Auden<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que fomos criados para tentarmos ser grandes blocos de concreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um bloco de concreto. Imponente, extenso, s\u00f3lido, muito dif\u00edcil de derrubar. Que se v\u00ea ao longe e se imp\u00f5e na paisagem. Mas prefiro ser uma pluma. A um sopro mais forte ela pode se desmanchar no ar. Fr\u00e1gil, quase passa despercebida. Por\u00e9m leve, flex\u00edvel, est\u00e1 sempre em movimento. Sem massa, \u00e9 dif\u00edcil destru\u00ed-la com uma arma de fogo, com um soco, com choque el\u00e9trico. O vento a leva meio sem dire\u00e7\u00e3o. Sua virtude est\u00e1 exatamente em sua fragilidade; em sua leveza e na sua agilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinema livre me ensinou que prefiro tentar ser essa pluma do que esse bloco de concreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que eu queria mesmo \u00e9 poder sair esta noite, abra\u00e7ar as estrelas, arremessar-me no mar, molhar o corpo, rir muito, tirar a roupa, andar nu, cair nos seus bra\u00e7os e dizer eu te amo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que na verdade fa\u00e7o \u00e9 apenas observar os outros, um pouco de longe, dentro do meu casulo. Foi assim que descobri o cinema, como voyeur de minha pr\u00f3pria vida. Como Tomek, o menininho de N\u00e3o Amar\u00e1s. Se n\u00e3o consigo me atirar no mar, fico ent\u00e3o aqui dentro da minha confort\u00e1vel casa arremessando garrafas ao mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/barco_papel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-24922\" alt=\"barco_papel\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/barco_papel-300x199.jpg\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/barco_papel-300x199.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/barco_papel-510x340.jpg 510w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/barco_papel.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Dentro dessas garrafas h\u00e1 bilhetinhos que falam de mim: cada palavra, cada plano, cada gesto, voc\u00eas podem ter certeza de que s\u00e3o feitos em um esfor\u00e7o imenso em que eu procuro me colocar inteiro, nessa tamanha possibilidade de eu ser eu mesmo. Essa possibilidade grave que me arrepia at\u00e9 a espinha, que me faz abrir a escotilha do meu barco \u00e0 vela sem velas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E que \u00e9 de onde eu vejo o mundo, e vejo voc\u00ea, rodopiando com sua saia de havaiana, requebrando os quadris. Queria estar com voc\u00ea mais de perto e dizer eu te amo. Mas n\u00e3o consigo me aproximar, pois h\u00e1 tanta coisa entre mim e voc\u00ea. Como voc\u00ea poderia se interessar por mim? O que eu poderia te dizer? E, al\u00e9m disso, eu n\u00e3o sei dan\u00e7ar. Ent\u00e3o jogo mais uma garrafa, com a esperan\u00e7a de que ela possa chegar at\u00e9 voc\u00ea, e que voc\u00ea seja de alguma forma afetada por esse gesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, o cinema \u00e9 isso. Nada mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez, uns amigos que eu tinha me disseram que no in\u00edcio faziam filmes como se fossem cin\u00e9filos, para entender melhor os filmes que tinham visto. E que agora, superada essa primeira etapa, percebiam que deveriam passar a fazer filmes como realizadores. Antes eles eram amadores; agora, s\u00e3o profissionais. Exatamente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu desejo (a minha op\u00e7\u00e3o) \u00e9 ser para sempre amador. N\u00e3o quero me tornar profissional. N\u00e3o quero aprender como se faz um filme, n\u00e3o quero me tornar um cineasta. Quero apenas jogar esse bilhetinho no mar, quero apenas ter essa possibilidade de dizer eu te amo, quero apenas te dar um presente sem ter que esperar nada em troca. N\u00e3o penso no p\u00fablico, n\u00e3o penso nos discursos de agradecimento, n\u00e3o penso na minha carreira, n\u00e3o penso com quem devo convenientemente me casar, n\u00e3o me\u00e7o as minhas palavras nem meus planos para aumentar meu &#8220;networking&#8221;, ou seja, n\u00e3o penso como um realizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso apenas como posso me colocar da maneira mais honesta nesse filme que n\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia do que possa ser. N\u00e3o quero amadurecer. N\u00e3o quero ser grande. Com o tempo, fui me afastando desses meus grandes amigos que eram amadores e que agora s\u00e3o cineastas profissionais premiados, estabelecidos nesse nosso &#8220;(proto)mercado-do-cinema-de-arte&#8221;. Eles agora moram longe, bem longe de mim. E eu continuo aqui na minha casa com essa escotilhazinha aberta. Continuo sozinho, costurando \u00e0 m\u00e3o cada um dos planos que n\u00e3o sei fazer, sem filtros, sem color correction, sem ilha fire, sem mixagem, sem protools. Minha precariedade n\u00e3o me orgulha, mas \u00e9 o que tenho, \u00e9 o que sou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse mundo pautado pela efici\u00eancia e pela competitividade, vou guiando o meu barquinho de papel (vou sendo guiado), vou remando solit\u00e1rio, dando voltas em torno do meu casulo. Continuo teimando. Daqui de dentro, vejo as pessoas se amando, e \u00e0s vezes doi. \u00c0s vezes preciso de ajuda, me sinto fr\u00e1gil, como se eu fosse um velhinho anacr\u00f4nico, que v\u00ea a vida passar pela janela. Mas isso \u00e9 o que querem me fazer acreditar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha loucura \u00e9 que, mesmo com todos os meus limites, minha paralisia, meu anacronismo, minhas verrugas, minhas cicatrizes, minha dificuldade motora, eu continuo teimando em sobreviver, eu continuo teimando em deixar aquela escotilha aberta, e de l\u00e1 fico jogando bilhetes e bilhetes em garrafas, porque vejo um grande mar que me afeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou espectador de minha pr\u00f3pria vida, eu a fa\u00e7o: esta minha solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fuga do mundo, mas um gesto de encontro, \u00e9 op\u00e7\u00e3o que me faz. Porque sou intensamente afetado pelo mundo. Mesmo de longe, vou vivendo e interagindo com o que vejo. Mesmo que o meu amor n\u00e3o seja correspondido, eu continuo amando, tanto quanto antes. N\u00e3o \u00e9 a minha vingan\u00e7a, \u00e9 a minha \u00fanica forma poss\u00edvel de sobreviver. Como um navegante amador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para sempre amador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna cinematogr\u00e1fica assinada pelo cr\u00edtico, cineasta e professor de Cinema Marcelo Ikeda. 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