{"id":23167,"date":"2014-02-20T13:24:13","date_gmt":"2014-02-20T16:24:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=23167"},"modified":"2014-02-20T11:46:48","modified_gmt":"2014-02-20T14:46:48","slug":"cinacasulofilia-curtas-mostra-de-tiradentes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/02\/cinacasulofilia-curtas-mostra-de-tiradentes\/","title":{"rendered":"Cinacasulofilia: &#8220;Curtas &#8211; Mostra de Tiradentes&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A coluna do <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\"><strong>cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda<\/strong><\/span><\/a> analisa alguns curta metragens da recente mostra realizada na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Curtas &#8211; Mostra de Tiradentes<\/strong> <\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada ano que passa a Mostra de Tiradentes vem se consolidando como o mais importante ponto de encontro de exibi\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o sobre os novos rumos do jovem cinema contempor\u00e2neo brasileiro. Al\u00e9m dos sete longas-metragens que concorrem na Mostra Aurora, dedicada a relizadores em seu primeiro ou segundo longa-metragem, uma s\u00e9rie de debates e semin\u00e1rios marca o esp\u00edrito de reflex\u00e3o e discuss\u00e3o em que se baseia a Mostra de Tiradentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, h\u00e1 a exibi\u00e7\u00e3o de curtas-metragens, divididos especialmente em duas sess\u00f5es: Mostra Panorama e Mostra Foco. Exibir curtas-metragens me parece uma parte essencial da mostra, no seu objetivo de difundir novos rumos est\u00e9ticos para o cinema brasileiro, e em sua procura de novos talentos promissores da cena local. O curta-metragem, ainda mais hoje, facilitado pelo barateamento dos novos modos de produ\u00e7\u00e3o, se revela campo privilegiado de experimenta\u00e7\u00e3o de outros caminhos para a linguagem audiovisual, dado o seu evidente descompromisso com a necessidade industrial de auferir lucros e atrair uma audi\u00eancia de milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/adele.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-23171\" alt=\"adele\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/adele-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/adele-300x168.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/adele-550x309.jpg 550w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/adele.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>A Mostra Aurora vem se consolidando como um campo privilegiado para a busca dos novos talentos do cinema brasileiro, atrav\u00e9s de uma curadoria atenta, que busca fazer rela\u00e7\u00f5es entre os filmes selecionados, rela\u00e7\u00f5es que se complementam, visto que os filmes apontam para olhares distintos, formando um panorama amplo de possibilidades para o jovem cinema brasileiro. Cada vez mais percebo que uma boa curadoria n\u00e3o \u00e9 aquela que simplesmente escolhe os &#8220;melhores filmes&#8221; segundo o mero gosto do curador, mas aquela que prop\u00f5e quest\u00f5es, que provoca o gosto do p\u00fablico, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es entre os filmes selecionados, propiciando um debate sobre possibilidades e escolhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a Mostra Aurora comprova seu amadurecimento de curadoria a cada edi\u00e7\u00e3o, confesso que me vejo desapontado com a curadoria dos curtas-metragens da Mostra, especialmente com a sele\u00e7\u00e3o da Mostra Foco. Com isso, est\u00e1 longe do meu prop\u00f3sito criticar ou atacar pessoalmente a figura dos curadores, que s\u00e3o pessoas competentes. Mas quero simplesmente provocar um debate sobre a dificuldade de a curadoria de curtas-metragens estar alinhada com a proposta da de longas-metragens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse abismo, essa falta de sensibilidade da curadoria de curtas, desloca o curta-metragem dessa discuss\u00e3o mais geral dos rumos do cinema brasileiro, reduzindo a pot\u00eancia do debate e as possibilidades subversivas desse formato. Diria que falta foco aos curtas da Mostra Foco. Um dos curtas, sobre uma menininha com S\u00edndrome de Down que quer ir \u00e0 praia com a irm\u00e3, me lembrou de uma novela do Manoel Carlos, em que ele escalou uma deficiente para mostrar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que ela era &#8220;uma pessoa normal&#8221;, e todos os planos meramente ilustravam essa premissa: a da &#8220;normalidade&#8221; e a da integra\u00e7\u00e3o. Premissa digna, humana, apropriada, mas cujo desenvolvimento dramat\u00fargico e est\u00e9tico me parece dizer quase contra as suas iniciais inten\u00e7\u00f5es. Ou seja, o oposto de Me and My Brother, de Robert Frank, e v\u00e1rios outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim sendo, desisto de minha inten\u00e7\u00e3o inicial de analisar cada um dos curtas da Mostra Foco, porque seria uma perda de tempo e de energia, e resolvi neste texto, analisar um ou outro curta, que se destacaram, ao meu ver, entre as sess\u00f5es de curtas que me foi poss\u00edvel ver. Assim, essa rela\u00e7\u00e3o de forma alguma coroa &#8220;os melhores curtas&#8221; do festival, mas simplesmente s\u00e3o exemplos de vitalidade dentro do formato, exemplos que, por um motivo ou outro, me chamaram a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>VAILAMIDEUS<\/em>, uma realizadora (Ticiana Augusto Lima, \u00e0 direita na foto abaixo) filma a festa de anivers\u00e1rio da av\u00f3, quase nonagen\u00e1ria. Estamos ent\u00e3o no registro de uma intimidade de uma fam\u00edlia, numa certa vertente de um cinema contempor\u00e2neo. Poder\u00edamos pensar em Naomi Kawase filmando a av\u00f3? Muito longe disso. Qual \u00e9 a forma que a relizadora encontrou para encenar isso? Atrav\u00e9s de dois \u00fanicos planos de c\u00e2mera fixa, de longa dura\u00e7\u00e3o.<a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/\u00cdndice.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-23173\" alt=\"\u00cdndice\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/\u00cdndice.jpg\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9 a quest\u00e3o? Nessa festa, que conta com a presen\u00e7a de toda a fam\u00edlia, percebemos uma certa dist\u00e2ncia afetiva da realizadora em rela\u00e7\u00e3o a esse contexto. Uma festa brega, como toda festa de fam\u00edlia, agravada pelo fato de ser em Fortaleza. Assim, VAILAMIDEUS aproxima-se de DIZEM QUE OS C\u00c3ES VEEM COISAS, de Guto Parente. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a este curta: \u00e9 sua av\u00f3, \u00e9 sua fam\u00edlia, por quem a realizadora possui um evidente la\u00e7o de afetividade. Como ent\u00e3o fazer essa cr\u00edtica desse modo de vida brega burgu\u00eas mas sem julgar de forma caricata, at\u00e9 porque se pertence a ele? Como se equilibrar dentro dessa contradi\u00e7\u00e3o: entre a afetividade e a cr\u00edtica, entre o distanciamento e a proximidade, entre o filme familiar e o ensaio cr\u00edtico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tici escolheu ent\u00e3o um momento-chave da festa: quando membros da fam\u00edlia tiram um retrato junto com a av\u00f3. Esta, numa cadeira de rodas, muito idosa, mal consegue reagir: \u00e9 uma meia-morta, quase um zumbi. Ou ainda, n\u00e3o conseguimos precisar muito bem como \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o dessa av\u00f3 \u00e0 festa, se ela gosta ou reprova o que fazem dela. Essa indefini\u00e7\u00e3o entre a aceita\u00e7\u00e3o e a recusa dessa av\u00f3 a esse espet\u00e1culo familiar que ela faz parte independentemente de sua opini\u00e3o possui um n\u00edtido paralelo com a posi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria realizadora diante de tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como Tici encena isso? Atrav\u00e9s de dois planos fixos longu\u00edssimos. O primeiro, um plano geral da fam\u00edlia posando para a foto. Um plano geral frontal, aos moldes de um retrato, o que nos remete \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos prim\u00f3rdios do cinema de cava\u00e7\u00e3o e do cinema como registro familiar. A realizadora posiciona sua c\u00e2mera de filmar assim como aquela outra c\u00e2mera que tira as fotos. No entanto, nos parece claro que existe um distanciamento cr\u00edtico entre esses dois gestos, entre essas duas c\u00e2meras. Esse distanciamento \u00e9 percept\u00edvel atrav\u00e9s da dura\u00e7\u00e3o, do tempo: \u00e9 n\u00edtido o tom farsesco da situa\u00e7\u00e3o, um certo constrangimento para efetuar as poses, o certo car\u00e1ter aleat\u00f3rio entre um ou outro grupo que se aproxima para sair nas fotos, e o tempo nos deixa cada vez mais desconfort\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a da av\u00f3 e sua condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica que entra em contraste com a (falsa) alegria das fotos instant\u00e2neas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, \u00e9 a partir da comtempla\u00e7\u00e3o, a partir do exame do tempo e da sua dura\u00e7\u00e3o que esse mesmo gesto de fotografar\/filmar acaba assumindo uma outra dimens\u00e3o, uma dimens\u00e3o cr\u00edtica desse pr\u00f3prio gesto. Fica claro ent\u00e3o que a realizadora nos prop\u00f5e n\u00e3o apenas um regime caseiro, familiar, mas que aponta para uma outra quest\u00e3o: a da vida em fam\u00edlia, ou ainda, inesperadamente para rela\u00e7\u00f5es de cultura da pr\u00f3pria cidade de Fortaleza. Com isso, quero sugerir que inesperadamente VAILAMIDEUS \u00e9 um filme sobre a classe m\u00e9dia alta de Fortaleza, muito mais potente que DIZEM QUE OS C\u00c3ES VEEM COISAS pois n\u00e3o quer meramente julgar personagens estereotipados mas propor uma reflex\u00e3o profunda em que a pr\u00f3pria realizadora se v\u00ea parte dessa classe, e, por isso, numa esp\u00e9cie de autocr\u00edtica, \u00e9 mais cuidadosa para n\u00e3o julgar de antem\u00e3o aqueles que ela filma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 quando vem o segundo plano, que encerra o filme. \u00c9 um plano fechado, um close, da av\u00f3. N\u00e3o conseguimos ler sua rea\u00e7\u00e3o. Seu rosto \u00e9 uma paisagem, mas ele esconde muito mais que revela. Ficamos ali, a meio palmo desse rosto, mas permanece o mist\u00e9rio. N\u00e3o conseguimos ver. H\u00e1 algo ali que permanece inacess\u00edvel. H\u00e1 um pequeno gesto, que parece ser o de uma concord\u00e2ncia, o de um parab\u00e9ns. Ao mesmo tempo, toda festa \u00e9 encenada, todo parab\u00e9ns de uma festa \u00e9 necessariamente encenado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que h\u00e1 de espont\u00e2neo ali naquele document\u00e1rio de observa\u00e7\u00e3o, que mostra pessoas posando para uma foto? O que h\u00e1 para se comemorar ali? O fato de se estar vivo. O fato de permanecermos. Se \u00e9 bom ou ruim, se vale ou n\u00e3o a pena, se h\u00e1 afeto ou n\u00e3o, se \u00e9 premeditado ou espont\u00e2neo, permanece um mist\u00e9rio. VAILAMIDEUS reavalia a tradi\u00e7\u00e3o de filmes familiares, inserindo uma carga pol\u00edtica \u00e0 sua investiga\u00e7\u00e3o da intimidade. Nesse abismo intranspon\u00edvel entre a cr\u00edtica e o afeto, entre a representa\u00e7\u00e3o e a vida, encena, em dois \u00fanicos planos, uma reflex\u00e3o profunda sobre as dificuldades de viver e filmar com justeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em<strong> (E)<\/strong>, de Alexandre Wahrhaftig, Helena Ungaretti e Miguel Antunes, n\u00e3o h\u00e1 fam\u00edlia, n\u00e3o h\u00e1 afeto, h\u00e1 apenas a cidade. Ou ainda, o capital, quase onisciente, a observar tudo. (E) prop\u00f5e uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre os rumos das grandes cidades, come\u00e7ando a observar a quantidade de carros nas cidades. O est\u00edmulo \u00e0 ind\u00fastria automobil\u00edstica como s\u00edmbolo da ascens\u00e3o social da dita classe C \u00e9 visto em suas contraindica\u00e7\u00f5es no modo de vida das cidades. Mas aqui o pulo do gato de (E) \u00e9 como os realizadores fazem uma articula\u00e7\u00e3o entre o aumento do n\u00famero de carros e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria no centro de S\u00e3o Paulo. <a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image_preview.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-23170\" alt=\"image_preview\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image_preview-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image_preview-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/image_preview.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o aumento do n\u00famero de carros, \u00e9 preciso criar estacionamentos para esses carros. Esses estacionamentos s\u00e3o cemit\u00e9rios tempor\u00e1rios de antigas casas e resid\u00eancias, que s\u00e3o demolidas, para dar lugar a estacionamentos, que em pouco tempo, ser\u00e3o transformados em grandes pr\u00e9dios. Os estacionamentos passam, numa l\u00f3gica de circula\u00e7\u00e3o do capital financeiro, a funcionar como investimentos em terrenos, que, por terem maior liquidez, podem se transformar rapidamente num investimento mais lucrativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(E) \u00e9 portanto uma esp\u00e9cie de filme-ensaio que nos d\u00e1 a ver os meandros dessa l\u00f3gica de moderniza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os urbanos, em que a padroniza\u00e7\u00e3o e a mecaniza\u00e7\u00e3o substituem uma outra experi\u00eancia de viver na cidade. Mas como os realizadores encenam essa quest\u00e3o pol\u00edtica? (E) nos surpreende pela forma irreverente e ousada de por em cena essas quest\u00f5es. O filme n\u00e3o apensas nos informa sobre essa situa\u00e7\u00e3o, como um panfleto jornal\u00edstico, mas incrementa seu impacto atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias discursivas, que, com o uso da ironia, abalam a percep\u00e7\u00e3o do espectador, numa tor\u00e7\u00e3o entre o humor, o desconforto e a indigna\u00e7\u00e3o. Com isso, (E) se aproxima de um filme como EM TR\u00c2NSITO, de Marcelo Pedroso, mas com n\u00edtidas diferen\u00e7as. Ambos os filmes analisam o impacto do est\u00edmulo \u00e0 ind\u00fastria automobil\u00edstica como ponto de partida para uma quest\u00e3o maior que desvela a desumaniza\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da estrat\u00e9gia de ocupa\u00e7\u00e3o das grandes cidades. Mas Pedroso utiliza um morador de rua (sua casa \u00e9 demolida), e aponta para o sistema pol\u00edtico que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 ilus\u00e3o do desenvolvimento (como se questionasse: &#8220;desenvolvimento para quem?&#8221;). J\u00e1 em (E) n\u00e3o vemos pessoas em todo o filme. Apenas carros, pr\u00e9dios, blocos de concreto. \u00c9 como se as pessoas tivessem sumido, desaparecido, soterradas pelo a\u00e7o e concreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme come\u00e7a com planos de diversos estacionamentos, alguns vazios, outros cheios de carros. O \u00e1pice dessa tend\u00eancia &#8211; que combina humor e indigna\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 quando o filme mostra um &#8220;elevador de carros&#8221;, que permite que o morador chegue at\u00e9 o seu apartamento sem sair de seu carro. A encena\u00e7\u00e3o desse momento \u00e9 formid\u00e1vel, pois mostra apenas o carro entrando e saindo da casa. Essas estrat\u00e9gias, mais do que recurso formal, apontam para o esp\u00edrito do filme: o impacto de um processo de moderniza\u00e7\u00e3o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, estimula a substitui\u00e7\u00e3o do homem em m\u00e1quina, ou ainda, a coisifica\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo, regido pelo carro e a casa como valores de uma identidade. Os protagonistas de (E) n\u00e3o t\u00eam rosto, n\u00e3o t\u00eam nome, n\u00e3o possuem identidade. De forma an\u00e1loga, os respons\u00e1veis pelo estado de coisas n\u00e3o t\u00eam rosto, s\u00e3o inomin\u00e1veis. Ao inv\u00e9s dos pol\u00edticos, aponta-se para algo mais intang\u00edvel, o mercado, ou, se preferirem, o capital. A velocidade de transforma\u00e7\u00f5es desse estado de coisas \u00e9 cada vez mais intensa e irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme possui uma genial estrat\u00e9gia de mostrar o &#8220;google street view&#8221;. Ao mesmo tempo em que funciona como ferramenta de prospec\u00e7\u00e3o de &#8220;futuros investimentos&#8221; (lugares abandonados que podem virar estacionamentos &#8211; ou pr\u00e9dios), \u00e9 poss\u00edvel constatar uma discrep\u00e2ncia entre as imagens vistas pela ferramenta com o que j\u00e1 vemos hoje &#8211; apontando para a velocidade dos efeitos dessa transforma\u00e7\u00e3o da paisagem urbana em fun\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. A forma irreverente e complexa que o trio de realizadores concebeu e realizou esse curta atualiza a tradi\u00e7\u00e3o de um cinema de milit\u00e2ncia pol\u00edtica que n\u00e3o seja sin\u00f4nimo de um mero panfleto jornal\u00edstico, mas potencializando suas quest\u00f5es atrav\u00e9s de uma lida criativa e rica com os elementos da linguagem cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dsc_0216_1298666850.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-23169\" alt=\"dsc_0216_1298666850\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dsc_0216_1298666850-511x340.jpg\" width=\"511\" height=\"340\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dsc_0216_1298666850-511x340.jpg 511w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dsc_0216_1298666850-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 511px) 100vw, 511px\" \/><\/a>Se estamos falando da rela\u00e7\u00e3o entre distanciamento e afetividade, e de um olhar cr\u00edtico para a ocupa\u00e7\u00e3o dos centros urbanos, um curta transversal a essas quest\u00f5es \u00e9 o simples e belo <em>MIE NISHI<\/em>, de Bruno Caticha. Em estilo observacional, o realizador acompanha o cotidiano de uma col\u00f4nia japonesa em S\u00e3o Paulo. Praticam esportes a c\u00e9u aberto: baseball, gateball, sum\u00f4. Cantam karaok\u00ea. Chove. N\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logos, personagens. H\u00e1 o tempo, o movimento, a natureza. O realizador observa de longe. Mas no fundo observa de perto, \u00e9 atento, generoso. N\u00e3o \u00e9 um filme frio ou formalista. \u00c9 simples e humano. Que maravilha esse cinema que observa o movimento do mundo, com uma dist\u00e2ncia precisa, entre o distanciamento e o afeto, com um enquadramento rigoroso, fixo, mas extremamente atento aos pequenos movimentos do mundo. As li\u00e7\u00f5es do cinema dos Irm\u00e3os Lumi\u00e8re no cinema de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O incr\u00edvel em MIE NISHI \u00e9 a maneira precisa com que o realizador e sua equipe observam esse dia de domingo dessa col\u00f4nia japonesa. N\u00e3o h\u00e1 especificamente uma aten\u00e7\u00e3o \u00e0 personalidade: quase como um pintor impressionista, Bruno observa uma paisagem, uma natureza, mas certamente ocupada por pessoas, por gestos, por movimentos. Mas \u00e9 um filme muito mais composto por planos gerais do que por closes. Assim, Bruno aponta para uma possibilidade de ocupa\u00e7\u00e3o dos centros urbanos (em S\u00e3o Paulo) em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 velocidade fren\u00e9tica e desenfreada. Seu cinema busca um modo de vida comum em que a contempla\u00e7\u00e3o dos pequenos gestos ainda possa ser poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns podem pensar que se trata de um filme que enquadra pessoas em tableau, fixos numa est\u00e9tica materialista, em que o quadro importa mais do que a vida. Mas \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio! O que me fascina em MIE NISHI &#8211; talvez influenciado pela longeva tradi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cultura japonesa e de sua forma de estar no mundo &#8211; \u00e9 justamente sua curiosidade pelo mundo, os valores humanos para que o filme aponta. Uma forma de estar no mundo. Em como o filme combina imenso rigor com uma estrutura t\u00e3o leve, uma forma leve de ser. Prova disso s\u00e3o as extraordin\u00e1rias panor\u00e2micas &#8211; poucas &#8211; que comp\u00f5em o filme, e que apontam para um extracampo. Ou seja, que mostram que o diretor \u00e9 curioso e que vislumbra outras possibilidades de enquadrar, que existem outros enquadramentos, outras pessoas e outros mundos que habitam ali. Que h\u00e1 muitos filmes e vidas poss\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saber observar o movimento do mundo. N\u00e3o \u00e9 muito diferente do que prop\u00f4s fazer os Irm\u00e3os Lumi\u00e8re tantos anos atr\u00e1s. Bruno Caticha recupera essa tradi\u00e7\u00e3o, alinhado a um bom cinema contempor\u00e2neo, como o de Chantal Akerman, James Benning, Sharon Lockhart e alguns outros, inserindo, claro, o seu olhar pessoal, dando um toque de inesperada afetividade numa S\u00e3o Paulo polu\u00edda, ca\u00f3tica e nublada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coluna do cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda analisa alguns curta metragens da recente mostra realizada na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. 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