{"id":21694,"date":"2014-01-08T05:52:58","date_gmt":"2014-01-08T07:52:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=21694"},"modified":"2014-01-08T08:59:45","modified_gmt":"2014-01-08T10:59:45","slug":"historias-brasileiras-literatura-na-avenida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2014\/01\/historias-brasileiras-literatura-na-avenida\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias Brasileiras: &#8220;Literatura na Avenida&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No artigo de hoje o <strong>historiador Luiz Antonio Simas<\/strong> retoma a a serie sobre os sambas de enredo e faz um passeio relacionando a literatura brasileira e sua presen\u00e7a na avenida de desfiles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Literatura na Avenida<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escritor Coelho Neto era entusiasmado adepto dos ranchos carnavalescos que marcaram o carnaval carioca no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Torcedor do Ameno Resed\u00e1, o literato defendeu em mais de um artigo o papel dos ranchos como instrumentos de divulga\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de seus enredos, de epis\u00f3dios da hist\u00f3ria do Brasil, feitos de seus her\u00f3is e poesia de suas lendas. Os ranchos seriam instrumentos de certa pedagogia popular; capazes de educar no amor aos valores da p\u00e1tria uma popula\u00e7\u00e3o sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse papel que Coelho Neto atribu\u00eda aos ranchos foi desempenhado pelas escolas de samba, agremia\u00e7\u00f5es moldadas nos anos 30, que se afirmaram como principais representantes do carnaval carioca a partir da d\u00e9cada de 1940. Desde ent\u00e3o, e por for\u00e7a de regulamentos que visavam disciplinar os desfiles, as escolas eram obrigadas a apresentar em seus cortejos temas com motivos nacionalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro dessa perspectiva, as escolas de samba come\u00e7aram a adotar enredos que, em geral, versavam sobre epis\u00f3dios e her\u00f3is da hist\u00f3ria brasileira e a exuberante natureza do pa\u00eds. Outra vertente dessa perspectiva nacionalista se transformou em um prato cheio para as agremia\u00e7\u00f5es se apresentarem no carnaval: a literatura brasileira, incluindo a\u00ed escritores e suas obras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os exemplos s\u00e3o numerosos e mostram como o carnaval carioca \u2013 predominantemente popular e marcado pela perspectiva da oralidade \u2013 enxergou e transformou a manifesta\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia da cultura escrita, a literatura, em mat\u00e9ria de samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do indianismo de Gon\u00e7alves Dias (enredo da Mangueira em 1952, com bel\u00edssimo samba de C\u00edcero e Pelado) , ao modernismo de Asc\u00eancio Ferreira (Oropa, Fran\u00e7a e Bahia foi o tema da Imperatriz Leopoldinense em 1970) e Cassiano Ricardo (Martin Cerer\u00ea, da mesma Imperatriz, deu um samba\u00e7o de Z\u00e9 Catimba e Gibi, em 1972), \u00e9 poss\u00edvel passear pela hist\u00f3ria das letras no Brasil ao som dos tamborins e surdos de marca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wNUvQwslGp8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso saber, por exemplo, que viraram sambas obras como Inven\u00e7\u00e3o de Orfeu (o herm\u00e9tico poema de Jorge de Lima resultou no belo samba de Paulo Bras\u00e3o, baluarte da Unidos de Vila Isabel, em 1976); Os Sert\u00f5es (Edeor de Paula, da Em Cima da Hora, sintetizou em poucos versos o calhama\u00e7o de quinhentas p\u00e1ginas de Euclides da Cunha e fez um dos maiores sambas de enredo de todos os tempos); O Manuscrito Holand\u00eas (a peleja entre o caboclo Mitava\u00ed e o monstro Macobeba, de M. Cavalcanti Proen\u00e7a, embalou a Unidos da Tijuca em 1981, acima); Mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias (\u00fanico samba vitorioso de Paulinho da Viola para a Portela, em 1966, que em dezenas de versos contava as peraltices de Leonardo Pataca nos tempos do Rei); e Macuna\u00edma (obra-prima de David Correia e Norival Reis, com um refr\u00e3o \u2013<em> Vou-me embora\/vou-me embora\/eu aqui volto mais n\u00e3o\/vou morar no infinito\/e virar constela\u00e7\u00e3o<\/em> &#8211; que embalou as tardes de futebol do Maracan\u00e3, em 1975). A pr\u00f3pria Academia Brasileira de Letras foi enredo da Vila Isabel, em 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero, por\u00e9m, me ater rapidamente a um caso exemplar, que mostra como o carnaval \u00e9 uma excelente oportunidade para se falar de literatura de forma original e atraente, sobretudo para estudantes do ensino m\u00e9dio, que em geral se aproximam das obras liter\u00e1rias com uma esp\u00e9cie de horror absoluto. O samba de enredo pode ser, como acontece frequentemente com a hist\u00f3ria do Brasil, uma porta de entrada afetuosa para o estudo mais sistem\u00e1tico e aprofundado dos livros e autores.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Imperio Serrano 1989 - Jorge Amado Axe Brasil.mpg\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XIKfV_UHbJ8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1989, o Imp\u00e9rio Serrano, que em seu primeiro carnaval, o de 1948, homenageou Castro Alves, apresentou o enredo \u2018Jorge Amado, Ax\u00e9 Brasil\u2019. O samba, de autoria de Beto Sem Bra\u00e7o, Alu\u00edsio Machado, Bicalho e Arlindo Cruz, descreve uma grande festa ocorrida na tenda dos milagres, em que os personagens do baiano se encontram para um furdun\u00e7o dos bons. N\u00e3o imagino uma aula sobre Jorge Amado que introduza melhor o aluno adolescente ao universo do autor que esse samba da agremia\u00e7\u00e3o da Serrinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Protegendo o port\u00e3o da tenda, est\u00e1 o pai-de-santo Jubiab\u00e1 (<em>Jubiab\u00e1 t\u00e1 no port\u00e3o\/e as ia\u00f4s jogam pitangas pelo ch\u00e3o<\/em>). Aos poucos come\u00e7am a chegar, de todos os cantos da Bahia, os personagens de Amado, que logo se entrosam perfeitamente (<em>Com os pastores da noite\/Vem gente l\u00e1 das terras do sem fim &#8230; Olha que papo maneiro\/Entre os velhos marinheiros\/E os novos capit\u00e3es &#8230; Vem gente que sofreu demais\/L\u00e1 do sert\u00e3o e da beira do cais<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No auge da festa, Teresa Batista dan\u00e7a um samba de roda com Tieta e o cambaleante Quincas Berro D \u00c1gua, enquanto Gabriela e Dona Flor dividem as panelas preparando o vatap\u00e1 que vai alimentar aquela gente toda. O desfecho do samba \u00e9 apote\u00f3tico. Jorge Amado \u00e9 homenageado no refr\u00e3o com a sauda\u00e7\u00e3o que o povo do candombl\u00e9 faz ao orix\u00e1 Obtal\u00e1, considerado o pai maior pelos adeptos do culto :<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEcheu\u00eapa Bab\u00e1<\/em><br \/>\n<em> Echeu\u00eapa Bab\u00e1<\/em><br \/>\n<em> Ax\u00e9 Brasil<\/em><br \/>\n<em> Pai Amado Sarav\u00e1.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comovido com a homenagem, n\u00e3o \u00e9 todo dia que algu\u00e9m vira orix\u00e1, o mestre baiano compareceu ao desfile, apresentando-se em um carro aleg\u00f3rico cercado de amigos e m\u00e3es de santo e escoltado por Z\u00e9lia Gattai, que desfilou com os trajes t\u00edpicos da boa terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos depois, o mesmo Imp\u00e9rio Serrano conseguiu levar Ariano Suassuna para a Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed \u2013 devidamente consagrado pelas arquibancadas da Pra\u00e7a da Apoteose como o leg\u00edtimo Imperador da Pedra do Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesma sorte n\u00e3o teve a Mangueira, que em 1987 homenageou Carlos Drummond de Andrade. A verde e rosa ganhou o carnaval, mas n\u00e3o conseguiu de forma alguma arrastar para a folia o poeta de Itabira \u2013 j\u00e1 adoentado e pouco afeito ao surdo sem resposta da Esta\u00e7\u00e3o Primeira. A Vila Isabel, que em 1980 transformou o poema de Drummond Sonho de um Sonho em enredo, com belo samba de Martinho, j\u00e1 n\u00e3o havia conseguido tirar o mineiro da reclus\u00e3o em Copacabana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, evidentemente, casos pitorescos. Em 1982, um rep\u00f3rter que cobria os desfiles para uma r\u00e1dio perguntou a um diretor da Unidos da Tijuca se o escritor homenageado desfilaria na escola em algum carro aleg\u00f3rico. O enredo da agremia\u00e7\u00e3o tijucana era Lima Barreto, falecido quando Ismael Silva era s\u00f3 um adolescente do Est\u00e1cio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como nem tudo \u00e9 perfeito, vez por outra alguma escola assassina a literatura, como foi o caso do desastroso desfile de 2009 da Mocidade Independente de Padre Miguel, que promoveu o encontro entre os legados de Machado de Assis e Guimar\u00e3es Rosa na avenida. O desfile, um dos piores da escola da Zona Oeste, n\u00e3o honrou os dois gigantes das letras nacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 melhor ficar mesmo nos exemplos felizes. A literatura brasileira, enfim, deu muito samba dos bons. Vai abaixo a minha lista, absolutamente pessoal, dos cinco melhores:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gon\u00e7alves Dias (Mangueira, 1952) \/ Os Sert\u00f5es (Em Cima da Hora, 1976) \/ Oropa, Fran\u00e7a e Bahia (Imperatriz, 1970) \/ O mundo encantado de Monteiro Lobato (Mangueira,1967) \/ Macuna\u00edma (Portela, 1975)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No artigo de hoje o historiador Luiz Antonio Simas retoma a a serie sobre os sambas de enredo e faz um passeio relacionando a literaturaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[19,73,392],"class_list":["post-21694","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-escolas-de-samba","tag-livros","tag-samba-enredo"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21694"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21694\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}