{"id":21533,"date":"2013-12-31T13:49:03","date_gmt":"2013-12-31T15:49:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=21533"},"modified":"2014-01-02T09:09:28","modified_gmt":"2014-01-02T11:09:28","slug":"bissexta-a-revolta-dos-endinheirados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/12\/bissexta-a-revolta-dos-endinheirados\/","title":{"rendered":"Bissexta &#8211; &#8220;A Revolta dos Endinheirados&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Fechando o ano, a <strong>coluna do advogado Walter Monteiro<\/strong> disserta sobre o recente aumento do IOF para os cart\u00f5es de cr\u00e9dito pr\u00e9 pagos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>A Revolta dos Endinheirados<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a Zero Hora, minha fonte prim\u00e1ria de informa\u00e7\u00e3o, por madrugar embaixo do meu tapete e se caracterizar por um tom menos panflet\u00e1rio do que o Globo ou os jornais paulistas, se rendeu ao pessimismo e estampou na capa: viagens ao exterior ficam mais caras!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo a mat\u00e9ria, dava para descobrir que, na verdade, uma medida igualava a tributa\u00e7\u00e3o do IOF para os cart\u00f5es de d\u00e9bito pr\u00e9-pagos ao que j\u00e1 era cobrado dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, ou seja, 6,38% (at\u00e9 agora os pr\u00e9-pagos cart\u00f5es eram onerados em apenas 0,38%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem dei muita bola, porque n\u00e3o tenho viagem marcada. E imaginei que o mancheteiro da Zero Hora escolheu esse tema apenas por absoluta falta de not\u00edcia nesse fim de ano, j\u00e1 que quase ningu\u00e9m que conhe\u00e7o adota esses cart\u00f5es pr\u00e9-pagos como meio preferencial de pagamento \u2013 a turma gosta mesmo \u00e9 de dinheiro vivo ou de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, principalmente este, que acumula milhas para trocar por passagens a\u00e9reas, facilitando as pr\u00f3ximas f\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu Deus, como eu estava errado. Abri o computador e encontrei uma legi\u00e3o de revoltados, praguejando contra essa sanha arrecadat\u00f3ria desse governo maldito, que suga nossos minguados centavos sem nunca nos dar nada em troca. J\u00e1 n\u00e3o bastasse o IPTU, o IPVA e o IR, ainda mais essa agora, o IOF de um cart\u00e3o que ningu\u00e9m tem e nem pretendia ter, mas que vai de alguma forma encarecer as f\u00e9rias, nem que seja pressionando o c\u00e2mbio turismo \u2013 como de fato aconteceu, elevando-o para R$ 2,57, n\u00famero que servir\u00e1 de refer\u00eancia para todas as contas que farei adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fasc\u00ednio dos brasileiros pelas coisas do al\u00e9m-mar \u00e9 de fato intrigante. Desde que Cabral pisou nessas terras, espelhinhos e apitos vindos da Europa deslumbram os nativos. E nos faz cegar sobre coisas t\u00e3o \u00f3bvias, t\u00e3o explicitamente exibidas bem na nossa frente, capazes de enganar at\u00e9 mesmo observadores mais astutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 toquei nesse tema certa vez aqui mesmo no Ouro de Tolo, quando a VEJA exaltava as maravilhas das compras no exterior, mas a revolta dos endinheirados com essa filigrana do IOF renova a oportunidade. Entendam, por favor e de uma vez por todas: as coisas no Brasil <strong>N\u00c3O S\u00c3O MUITO MAIS CARAS DO QUE NO EXTERIOR<\/strong>. Assim mesmo, em caixa alta, que \u00e9 para ver se todo mundo entende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os americanos, sabiamente, em seus relat\u00f3rios de vendas, dividem o mundo em duas partes: US Market and Non US Market. Nada pode ser mais pr\u00f3ximo da realidade quando se observa o comportamento dos pre\u00e7os. Itens de consumo mais corriqueiros nos EUA s\u00e3o muito mais baratos do que no resto do mundo. N\u00e3o me perguntem a raz\u00e3o, n\u00e3o sou especialista, nem pretendo ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No auge dos muitos debates que travei, me dispus a comparar o pre\u00e7o de um item espec\u00edfico, um t\u00eanis de corrida, Asics Kayano 19, escolhido aleatoriamente. Ele custa R$ 310,00 nos EUA e R$ 600,00 no Brasil. Metade do pre\u00e7o. Ponto para os american\u00f3filos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o pre\u00e7o brasileiro \u00e9 o, digamos, nominal, porque para n\u00f3s o t\u00eanis \u00e9 vendido em 12 vezes \u201csem juros\u201d. Como qualquer pessoa sabe, n\u00e3o existe nada que possa ser parcelado em 12 meses sem que os juros estejam embutidos. Se eles forem m\u00f3dicos 2% ao m\u00eas, o \u201cvalor presente\u201d do t\u00eanis \u00e9 de R$ 528,00. Muito alto ainda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se a compara\u00e7\u00e3o for com a Inglaterra. L\u00e1 o t\u00eanis custa R$ 481,00. Para os ingleses \u2013 porque os brasileiros v\u00e3o ter que adicionar o amaldi\u00e7oado IOF, elevando o pre\u00e7o final para R$ 512,00, praticamente igualando o valor de quem vai comprar o t\u00eanis (ideal para pisadas pronadas) em suaves presta\u00e7\u00f5es mensais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em produtos de ponta, a conta \u00e9 mais ou menos essa, em quase todos os cen\u00e1rios: muito mais barato nos EUA, mais ou menos parecido nos outros pa\u00edses. D\u00e1 para concluir que o ponto fora da curva, nesse caso, s\u00e3o justamente os Estados Unidos, n\u00e3o n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mesmo assim para quem quiser fazer a compara\u00e7\u00e3o exata de um produto espec\u00edfico. Porque nada pode ser mais falacioso do que a impress\u00e3o de que \u201croupa\u201d \u00e9 muito mais barata nos EUA do que no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitando o recesso forense de fim de ano e a ilustre presen\u00e7a de minha filha adolescente, fui passear no shopping center aqui em Porto Alegre e conferir alguns pre\u00e7os.\u00a0 S\u00f3 procurei mercadoria \u201cde qualidade\u201d por um crit\u00e9rio infal\u00edvel: coisas que eu usaria com prazer e me sentiria bem vestido com elas. Segue a tabela, dolarizada e sem os centavos:<\/p>\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">ITEM<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">VALOR<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">Camiseta (\u201cTees\u201d, como eles dizem)<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">US$ 11.00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">Jeans<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">US$ 31.00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">Camisa Social (100% algod\u00e3o)<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">US$ 42.00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">Cal\u00e7a Social (\u201calfaitaria\u201d)<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">US$ 42.00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">Camisa Polo<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"288\">US$ 16.00<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos esses pre\u00e7os s\u00e3o absolutamente semelhantes aos praticados nos EUA, rigorosamente todos, convenhamos. A diferen\u00e7a \u00e9 que est\u00e3o ao alcance de qualquer um, do porteiro do seu pr\u00e9dio ao seu cunhado milion\u00e1rio. E talvez seja por isso que a gente n\u00e3o d\u00e1 tanto valor a eles, porque, diferentemente dos EUA e da Europa, por aqui a turma que um dia foi da Casa Grande n\u00e3o gosta de se vestir igual a turma que antes estava na Senzala. Ainda quero entender a raz\u00e3o da relativa exclusividade de poder exibir uma camiseta que custa US$ 15,00, mas est\u00e1 escrito Aeropostale, ter um valor intang\u00edvel para a brasileirada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00f3gico que existem coisas bem mais caras no Brasil. Mas vejam que tamb\u00e9m n\u00e3o estou falando de com\u00e9rcio popular. Estou falando de lojas de shopping center, lojas com algum estilo, lojas que vendem roupas para a nossa classe m\u00e9dia. E que est\u00e3o, na nossa escala de valores, no mesmo ponto que a Aeropostale, a Abercrombie, a JC Penney e a Calvin Klein est\u00e3o na escala de valores dos americanos.\u00a0 A quem interessar possa, a camiseta \u00e9 da Hering, a polo \u00e9 da TNG, a camisa e a cal\u00e7a social s\u00e3o da Luigi Bertolli e o jeans \u00e9 da Renner (que durante anos foi controlada justamente pela JC Penney).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensa\u00e7\u00e3o dos brasileiros viajantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201ceconomia\u201d que fazem em suas compras no exterior \u00e9 muito parecida com a dos jogadores compulsivos: lembram-se apenas das pequenas vit\u00f3rias contra a banca, esquecendo-se facilmente das derrotas \u2013 essas expressadas pelo alto pre\u00e7o das refei\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exceto em condi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas e planejadas, fazer compras no exterior n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico e nem saud\u00e1vel. Nada \u00e9 mais vergonhoso do que embarcar com dezenas de malas, lotadas de coisas cujos similares brasileiros custam mais ou menos o mesmo. \u00a0Apesar disso, a febre de compras no exterior vem crescendo de forma assustadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 para se ter uma ideia do tamanho do problema, dificilmente o pa\u00eds rompia a barreira dos gastos anuais de US$ 5 bilh\u00f5es. At\u00e9 2006 era assim. Pois bem, apenas no m\u00eas de outubro passado, mesmo com toda a alta do d\u00f3lar, os brasileiros gastaram US$ 2,3 bilh\u00f5es, queimando em 1 \u00fanico m\u00eas aquilo que est\u00e1vamos acostumados a gastar em 1 ano. Provavelmente fecharemos o ano gastando mais de US$ 25 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">25 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e9 o PIB da Bol\u00edvia! O Brasil est\u00e1 gastando nas suas f\u00e9rias o equivalente de todo o valor que 10,5 milh\u00f5es de bolivianos conseguem produzir em 1 ano inteiro, com g\u00e1s natural e tudo. E o mais chocante \u00e9 que em 2009, meros 5 anos atr\u00e1s, esses gastos eram de US$ 10 bilh\u00f5es. Mais do que dobramos essa farra em t\u00e3o pouco tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitando que a mudan\u00e7a de ano sempre nos convida a refletir e fazer promessas, que tal, coletivamente, a sociedade brasileira passar a entender que n\u00e3o existe uma diferen\u00e7a mensur\u00e1vel entre uma camisa feita no Brasil e outra em El Salvador (mas etiquetada em Miami) e reduzir o excesso de bagagem nas pr\u00f3ximas f\u00e9rias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por pela pieguice de dizer que a ind\u00fastria e os trabalhadores , brasileiros agradecem \u2013 o que n\u00e3o deixa de ser verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 para deixarmos de ser motivo de chacota e espanto de outros povos, que n\u00e3o conseguem disfar\u00e7ar o desconforto diante da f\u00faria consumista dos brasileiros no exterior, que se comportam em frente \u00e0s g\u00f4ndolas como uma horda de fam\u00e9licos diante de um banquete, dando a falsa impress\u00e3o de que por aqui n\u00e3o se encontram \u00e0 venda itens de necessidade b\u00e1sica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma Bol\u00edvia inteira queimada nas f\u00e9rias&#8230;.e ainda tem quem diga que o Brasil est\u00e1 em mini crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feliz 2014, mo\u00e7ada. Com mais Hering e menos Aeropostale!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fechando o ano, a coluna do advogado Walter Monteiro disserta sobre o recente aumento do IOF para os cart\u00f5es de cr\u00e9dito pr\u00e9 pagos. 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