{"id":21425,"date":"2013-12-28T09:24:25","date_gmt":"2013-12-28T11:24:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=21425"},"modified":"2013-12-26T09:48:29","modified_gmt":"2013-12-26T11:48:29","slug":"buraco-da-fechadura-pec-no-cafezal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/12\/buraco-da-fechadura-pec-no-cafezal\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &#8220;PEC no Cafezal&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><!--[if gte mso 9]&gt;--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos do compositor Aloisio Villar.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>PEC no Cafezal<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deodato era negro tinhoso, daqueles que n\u00e3o aceitava ser escravo. Muitas vezes fugiu da fazenda do Bar\u00e3o de Bole-Bole e dava trabalho para os capatazes de seu dono. Embrenhava-se pelo mato, tentava chegar a quilombos, enfrentava dilig\u00eancias. Era o c\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez fugiu e mais uma vez foi pego. Levado ao tronco, come\u00e7ou a sofrer os castigos costumeiros: chibatadas nas costas ao som de Calypso. Nem o Kimzinho da Coreia do Norte teria ideia melhor para torturar algu\u00e9m. O negro pedia clem\u00eancia e que pelo menos a m\u00fasica parasse enquanto apanhava. O Bar\u00e3o apenas olhava e dizia \u201cmaldito, vai morrer no tronco\u201d quando o capit\u00e3o do mato tirou algo de seu bolso, olhou e disse ao patr\u00e3o \u201ctemos problemas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bar\u00e3o que se excitava vendo o escravo apanhar perguntou o que acontecera e o capit\u00e3o disse <em>\u201cacabei de ver no meu tablet que Isabel a hero\u00edna assinou a lei divina. Esse maluco a\u00ed ta livre, acabou a escravid\u00e3o\u201d. <\/em>O Bar\u00e3o assustado perguntou como assim e o capit\u00e3o refor\u00e7ou dizendo que uma tal Lei \u00c1urea foi assinada, agora a escravid\u00e3o era proibida no pa\u00eds e n\u00e3o podia mais bater em crioulo &#8211; a n\u00e3o ser que fosse policial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desolado, o Bar\u00e3o mandou que soltassem Deodato do tronco. O homem muito machucado tentava se recompor enquanto o Bar\u00e3o sorria<em> \u201cDeodato, voc\u00ea sabe que sempre te vi como filho e esses castigos n\u00e3o eram nada pessoal. N\u00e3o quer trabalhar pra mim? Reformo sua senzala, boto at\u00e9 gatonet!\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deodato recusou. Disse que j\u00e1 tinha proposta de um empres\u00e1rio de funk para montar um grupo e se mandou com os outros escravos da fazenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era noite e desolado o Bar\u00e3o via todos os escravos irem embora da fazenda abandonando seu cafezal. Amaldi\u00e7oou o governo que dava benef\u00edcios \u00e0s classes mais pobres equivalendo seus direitos \u00e0 classe m\u00e9dia e alta. Vociferava <em>\u201c\u00e9 um absurdo, capaz de daqui a pouco viajar para Paris e encontrar o Deodato\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrou na casa grande, sentou no sof\u00e1 e viu a mucama. Pediu que ela lhe preparasse uma bebida e fosse para o quarto que queria lhe usar e ela se recusou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cPatr\u00e3ozinho, s\u00e3o nove horas, n\u00e3o posso fazer mais nada\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bar\u00e3o disse j\u00e1 saber da liberta\u00e7\u00e3o dos escravos e que contrataria a mucama como empregada dando um bom sal\u00e1rio. Ela revidou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAgora s\u00f3 trabalho oito horas por dia. Acordei \u00e0s seis e meia da manh\u00e3. Fiz seu caf\u00e9, acompanhei sinhazinha at\u00e9 o col\u00e9gio, arrumei seu quarto, fiz o almo\u00e7o, brinquei a tarde toda com ela, dei banho e fiz outras coisas mais.\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bar\u00e3o suplicava, mas de nada adiantava. A mucama respondeu que s\u00f3 serviria ao patr\u00e3o se recebesse hora extra. O Bar\u00e3o argumentou que perdera todos os escravos e n\u00e3o teria dinheiro pra pagar o extra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante das recusas suplicou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cVamos fazer o seguinte. Eu pago esses minutos em que voc\u00ea me serve, damos uma rapidinha e compenso com a sa\u00edda mais cedo sexta-feira ok?\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cMas isso \u00e9 poss\u00edvel?\u201d Perguntou a mucama. \u201dSim, j\u00e1 que se trata de compensa\u00e7\u00e3o dentro da mesma semana. Se assim n\u00e3o fosse, \u00e9 que ter\u00edamos que nos socorrer do banco de horas que s\u00f3 tem validade se for institu\u00eddo por acordo coletivo de trabalho&#8230;.Ah!\u00a0Deixa pra l\u00e1!\u201d<\/em> respondeu o Bar\u00e3o j\u00e1 certo da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201dN\u00e3o entendi nada que o senhor falou. Mas ta certo\u201d<\/em>. A empregada se encaminhava para preparar o drinque do patr\u00e3o quando recebeu um SMS. Euf\u00f3rica parou de preparar o drinque e contou ao Bar\u00e3o que n\u00e3o poderia fazer hora extra, pois recebera convite para ir a um show do Sorriso Maroto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Despediu-se do patr\u00e3o, mas voltou o alertando que estava quase na hora do lanche da sinhazinha e ele teria que preparar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O capit\u00e3o do mato assistia a tudo e enquanto o Bar\u00e3o se lamentava por n\u00e3o saber fazer o lanche perguntou se a Baronesa n\u00e3o podia fazer. O patr\u00e3o respondeu que n\u00e3o, pois a mulher passava f\u00e9rias na casa de uma amiga cantora de ax\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhou para o capit\u00e3o e disse \u201cterei que fazer e voc\u00ea vai me ajudar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma o Bar\u00e3o de Bole-Bole, poderoso homem do caf\u00e9 e seu capit\u00e3o do mato foram para a cozinha, colocaram avental e tentaram fazer o lanche. Foi um desastre, mesmo com livro de receitas n\u00e3o conseguiram fazer e a cozinha ficou uma zona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim a sinhazinha apareceu na cozinha com um bichinho de pel\u00facia nas m\u00e3os e disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPapai, quer gagau!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Bar\u00e3o, irritado, entregou um prato e uma colher pra filha e saiu da cozinha deixando a menina sozinha e dizendo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cPois fa\u00e7a voc\u00ea menina pregui\u00e7osa. Na sua idade o Dudu j\u00e1 est\u00e1 lendo\u201d.\u00a0 <span class=\"textexposedshow\"><span style=\"font-size: 16pt; font-family: Calibri; color: black; background: none repeat scroll 0% 0% white;\"><br \/>\n<\/span><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos do compositor Aloisio Villar. 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