{"id":21379,"date":"2013-12-25T09:19:10","date_gmt":"2013-12-25T11:19:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=21379"},"modified":"2013-12-23T10:11:03","modified_gmt":"2013-12-23T12:11:03","slug":"cinecasulofilia-tres-breves-textos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/12\/cinecasulofilia-tres-breves-textos\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &#8220;Tr\u00eas Breves Textos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste dia de Natal, a <strong>coluna do cr\u00edtico, cineasta e professor Marcelo Ikeda<\/strong> nos traz tr\u00eas pequenas avalia\u00e7\u00f5es de filmes. Como sempre, <a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">publicada em parceria com o blog de mesmo nome<\/span><\/a>. O Ouro de Tolo aproveita para desejar um Feliz Natal a todos os seus leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Tr\u00eas Breves Textos<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas impress\u00f5es sobre tr\u00eas filmes, sempre vistos e revisitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil filme este THE BLING RING. De que lado Coppola est\u00e1? Do lado dos que roubam, ou do lado dos que s\u00e3o roubados?De quem ela tem raiva, ou por quem ela tem paix\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De ambos. Coppola, a eterna filha de Coppola, querendo ou n\u00e3o? Ent\u00e3o, de que lado se pode estar? Todos os filmes anteriores de Sofia Coppola eram uma esp\u00e9cie de ajuste de contas com seu passado, os conflitos entre a admira\u00e7\u00e3o pela opul\u00eancia e um nojo desse mesmo circuito. Como se posicionar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">THE BLING RING \u00e9 uma mistura entre AS VIRGENS SUICIDAS e MARIA ANTONIETTA. Amoralismo das jovens que, juntas, querem ir al\u00e9m dos limites do mundo, viver a vida como se fossem s\u00f3 elas. Pesar por esse conto de fadas vazio e pretensamente opulento. Um t\u00e9dio. Mas THE BLING RING n\u00e3o tem a melancolia de MARIA ANTONIETTA nem de SOMEWHERE. H\u00e1 algo que pulsa nos jovens, mas o que pulsa n\u00e3o deixa de ser vazio e autocomplacente. Um filme com varia\u00e7\u00f5es em torno do mesmo ato. Andar em c\u00edrculos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, de que lado se est\u00e1? O que se busca com esse filme?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem tanto um prazer em filmar, nem tanto decupar as estripulias pr\u00f3prias do universo do cinema: h\u00e1 um certo torpor mas ao mesmo tempo uma certa recusa. Coppola usa toda a estrutura de produ\u00e7\u00e3o que est\u00e1 dispon\u00edvel para fazer os seus filmes para promover tabalhos amb\u00edguos entre a identifica\u00e7\u00e3o e o distanciamento desse universo. \u00c9 isso o que me parece aproximar este filme de MARIA ANTONIETA: os personagens vivem em castelos de cartas, pois \u00e9 o que h\u00e1 para viver, nada mais. Opul\u00eancia dos personagens, opul\u00eancia da diretora, no seu &#8220;parque de divers\u00f5es&#8221; de Hollywood. Mas sem melancolia, sem culpa, sem miss\u00f5es e sem desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um prazer moderado, um prazer nada deslumbrado: THE BLING RING n\u00e3o \u00e9 SPRING BREAKERS com seus jogos visuais de sedu\u00e7\u00e3o &#8220;sensorial&#8221;. Nem sexo h\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 prazer; os roubos apenas se sucedem. A prova disso \u00e9 que boa parte do filme \u00e9 filmada em planos gerais (bela op\u00e7\u00e3o). A paisagem &#8211; ou ainda, a opul\u00eancia da paisagem &#8211; talvez seja a grande personagem desse filme amb\u00edguo, que merece uma revis\u00e3o mais atenta, que dialoga com filmes anteriores ao mesmo tempo que ventila a filmografia de Sofia Coppola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>La fille de nulle part<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles poucos que acompanham com algum interesse os escritos deste blog devem imaginar o que representa para mim ver um filme em que um diretor se p\u00f5e em cena para se filmar em casa. Eu me sinto como se fosse uma testemunha de uma cerim\u00f4nia num templo budista! \u00c9 um daqueles lugares em que eu entro devagar, p\u00e9 por p\u00e9, e escolho um lugar estrat\u00e9gico para me sentar, e ali fico sem me mover!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, desta vez, penso que LA FILLE DE NULLE PART (foto ao alto do post) \u00e9 uma esp\u00e9cie de resposta dura a uma posi\u00e7\u00e3o que Brisseau foi posto num certo cinema franc\u00eas. A simplicidade de sua encena\u00e7\u00e3o, sua sobriedade, sua serenidade, tem grande impacto para (surpreende) aqueles que conhecem a obra pregressa de Brisseau, e para quem ouviu um pouco dos bastidores da grande confus\u00e3o que foram seus \u00faltimos filmes (penso em OS ANJOS EXTERMINADORES, n\u00e3o sei se outros) quanto \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es do papel das mulheres e que ele seria um aproveitador (qual artista n\u00e3o \u00e9 um aproveitador?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brisseau faz uma resposta dura, porque doce. Seu filme \u00e9 sobre um fim (\u00e9 um filme fatalista), mas, com sobriedade, sem ressentimento, ele consegue olhar para frente, \u00e9 generoso. Brisseau n\u00e3o se filma de forma autocomplacente como Jean-Claude Rousseau em DE SON APPARTEMENT nem com a veia ferina, a autocr\u00edtica corrosiva de Jacques Nolot em AVANT QUE J&#8217;OUBLIE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brisseau tampouco morre cego como Carl\u00e3o morreu em AVANTI POPPOLI. LA FILLE DE NULLE PART \u00e9 uma mistura curiosa de WHATEVER WORKS com GRUPPO DI FAMIGLIA IN UN INTERNO. Contra o ressentimento, Brisseau faz um cinema poss\u00edvel. Retira-se em um apartamento; coloca-se em cena. Retira o que \u00e9 escandaloso e provocativo e reduz o seu cinema \u00e0 sua mat\u00e9ria-prima, \u00e0 sua seiva. Campos-contracampos. O m\u00edstico, o inef\u00e1vel, o desejo. A inven\u00e7\u00e3o. A necessidade de criar. A necessidade de amar. A vontade de arriscar tudo por um amor fugaz. \u00c0 beira do oportunismo. Uma vida miser\u00e1vel, uma vida sem Deus. A solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O romance que o personagem de Brisseau escreve &#8211; talvez pat\u00e9tico romance, n\u00e3o o sabemos &#8211; termina com uma cita\u00e7\u00e3o a Van Gogh: <em>&#8220;Eu passo muito bem sem Deus, seja em minha vida seja na pintura. Mas, sofredor como sou, eu n\u00e3o passo sem algo que \u00e9 maior do que eu, que \u00e9 a minha vida: o poder de criar.&#8221;<\/em>. Ao acabar o livro &#8211; \u00e9 o que restou da vida, \u00e9 o que \u00e9 poss\u00edvel &#8211; o que resta a n\u00e3o ser morrer? O que resta, a n\u00e3o ser lembrar daquela c\u00e1lida chama, que alguns podem chamar de amor? Um corpo que definha. Agora \u00e9 tarde demais. Resta celebrar o que fica (algumas palavras num peda\u00e7\u00f5 de papel, escritas a duas penas &#8211; o conforto contra o risco), e resta celebrar o que prossegue &#8211; a vida, o sexo, o feminino, aquilo que abre as janelas, que foge pelas portas, e que escapa pelas ruas do mundo. Mesmo sendo fr\u00e1gil amar, dolorido, doloroso. A juventude \u00e9 dif\u00edcil enquanto se \u00e9 jovem, \u00e9 bela quando vista de longe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que se tem. Brisseau permanece do lado de dentro &#8211; \u00e9 tarde demais para tentar sair &#8211; mas n\u00e3o morre cego nem joga bolinha pra sua cachorra (ele permanece com uma miss\u00e3o, seja ela qual for, tendo sentido ou n\u00e3o, ao menos \u00e9 uma &#8220;raz\u00e3o de ser&#8221;, o que mais se pode querer se n\u00e3o se pode mais amar?): ele v\u00ea uma n\u00e9voa de luz na parte final da sua vida, e celebra por isso. Por conseguir ver essa luz que se esvai, e por permitir que essa luz brilhe mais um pouco &#8211; o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ap\u00f3s o seu adeus. E isso basta. <a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/diario.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-21381\" alt=\"diario\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/diario-510x340.jpg\" width=\"510\" height=\"340\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/diario-510x340.jpg 510w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/diario-300x199.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/diario.jpg 1772w\" sizes=\"auto, (max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/a>Em <strong>O di\u00e1rio aberto de R.<\/strong> (acima) aproximamo-nos da intimidade de seu personagem, mas ainda assim mantendo uma certa dist\u00e2ncia. Este singelo curta de Caetano Gotardo \u00e9 sobre o intervalo entre a\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o. Seu protagonista praticamente n\u00e3o emite palavra durante o curta. Ele espera. Observa. Espera o momento de chegar mais perto e emitir essa palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O curta ent\u00e3o \u00e9 sobre essa palavra que n\u00e3o pode ser dita. Sobre esse passo que n\u00e3o pode ser dado, sobre essa dist\u00e2ncia que n\u00e3o pode ser percorrida. Sobre n\u00e3o poder se aproximar mais. Sobre esse amor que \u00e9 sentido mas n\u00e3o pode ser dito, experienciado, expresso, colocado em palavras. O que fazer ent\u00e3o? Observar, do mais perto que se possa, ainda que n\u00e3o seja perto o suficiente. Ou criar. Imaginar. Se a palavra n\u00e3o pode ser dita, ela pode ser escrita em um di\u00e1rio. Os di\u00e1rios s\u00e3o guardados para si. Criar, imaginar&#8230;.filmar. Assim, ao final O di\u00e1rio aberto de R. fala do seu pr\u00f3prio processo de g\u00eanese: criar como forma de preencher esse intervalo entre agir e imaginar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O DI\u00c1RIO ABERTO DE R. me lembra, curiosamente, de N\u00c3O AMAR\u00c1S: uma vida que \u00e9 vivida a partir de seu contracampo. Pode-se ser feliz apenas em observar o amor, de uma certa dist\u00e2ncia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\" Em O di\u00e1rio aberto de R. aproximamo-nos da intimidade de seu personagem mas ainda assim mantendo uma certa dist\u00e2ncia. Este singelo curta de Caetano Gotardo \u00e9 sobre o intervalo entre a\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o. Seu protagonista praticamente n\u00e3o emite palavra durante o curta. Ele espera. Observa. Espera o momento de chegar mais perto e emitir essa palavra. O curta ent\u00e3o \u00e9 sobre essa palavra que n\u00e3o pode ser dita. Sobre esse passo que n\u00e3o pode ser dado, sobre essa dist\u00e2ncia que n\u00e3o pode ser percorrida. Sobre n\u00e3o poder se aproximar mais. Sobre esse amor que \u00e9 sentido mas n\u00e3o pode ser dito, experienciado, expresso, colocado em palavras. O que fazer ent\u00e3o? Observar, do mais perto que se possa, ainda que n\u00e3o seja perto o suficiente. Ou criar. Imaginar. Se a palavra n\u00e3o pode ser dita, ela pode ser escrita em um di\u00e1rio. Os di\u00e1rios s\u00e3o guardados para si. Criar, imaginar....filmar. Assim, ao final O di\u00e1rio aberto de R. fala do seu pr\u00f3prio processo de g\u00eanese: criar como forma de preencher esse intervalo entre agir e imaginar.  O DI\u00c1RIO ABERTO DE R. me lembra, curiosamente, de N\u00c3O AMAR\u00c1S: uma vida que \u00e9 vivida a partir de seu contracampo. Pode-se ser feliz apenas em observar o amor, de uma certa dist\u00e2ncia?  http:\/\/portacurtas.org.br\/filme\/?name=o_diario_aberto_de_r\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">http:\/\/portacurtas.org.br\/filme\/?name=o_diario_aberto_de_r<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste dia de Natal, a coluna do cr\u00edtico, cineasta e professor Marcelo Ikeda nos traz tr\u00eas pequenas avalia\u00e7\u00f5es de filmes. 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