{"id":21266,"date":"2013-12-21T09:23:04","date_gmt":"2013-12-21T11:23:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=21266"},"modified":"2013-12-18T09:40:18","modified_gmt":"2013-12-18T11:40:18","slug":"enredo-do-meu-samba-o-predio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/12\/enredo-do-meu-samba-o-predio\/","title":{"rendered":"Enredo do Meu Samba &#8211; &#8220;O pr\u00e9dio&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><!--[if gte mso 9]&gt;--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>O pr\u00e9dio<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto Feitosa lamentava e contava dos predicados de Sheila eu olhava o jornal. Com a chamativa manchete \u201cPagando a Chantagem\u201d a reportagem dizia que Nicanor ainda estava no hospital em coma induzido e Rico tomara alta, mas foi preso devido \u00e0 chantagem que fez com Sheila e a levou \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo depois Feitosa fechou a banca e sentou-se conosco no bar para beber. Almeidinha nos serviu e comentou que faltavam duas semanas pra desocuparem o bar e Manolo recebera a segunda parte da venda. S\u00f3 faltava a terceira que pagariam no ato da desocupa\u00e7\u00e3o. Lamentei o que parecia ser inevit\u00e1vel, o fechamento do bar. Almeidinha se perguntava o que fazer da vida, pois sempre trabalhou ali. Feitosa riu e comentou que o gar\u00e7om j\u00e1 era um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, devia ser tombado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ri da piada. Parei pra pensar um pouco e me levantei dizendo que precisava telefonar. Dei um telefonema para uma pessoa importante que h\u00e1 tempos n\u00e3o conversava e voltei para beber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto beb\u00edamos e com\u00edamos umas calabresas meu pai comentou que duas semanas era tamb\u00e9m o tempo para o casamento da Bia. Peguei uma linguicinha e \u201cagradeci\u201d meu pai por lembrar. Almeidinha estranhou e perguntou \u201cU\u00e9, sua mulher vai casar?\u201d. Respondi \u201cSim, s\u00f3 n\u00e3o sei quem ser\u00e1 a noiva\u201d. O gar\u00e7om nada entendeu e meu pai disse que era besteira minha.\u00a0 Batemos papo por mais um tempo e meu pai reclamou de dor de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntei se queria ir embora e ele respondeu que sim. Paguei a conta e partimos. Fomos em sil\u00eancio at\u00e9 sua casa e quando ele desceu pedi que fosse ao m\u00e9dico ver os motivos dessa dor de cabe\u00e7a. Andando em dire\u00e7\u00e3o a porta meu velho falou \u201cverei, verei\u201d. Senti um aperto no cora\u00e7\u00e3o vendo meu pai caminhar para casa e me preocupei com \u201cmeu neg\u00e3o\u201d. Sim, sou branco e meu pai \u00e9 mulato. Minha m\u00e3e era branca e sou fruto da miscigena\u00e7\u00e3o que tanto marca esse pa\u00eds. Que faz o Brasil, que faz nosso carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A semana prosseguiu. Chegava mais pr\u00f3ximo o casamento de Bia e o fechamento do \u201ccasa de bamba\u201d. A fase n\u00e3o estava nada boa para mim. Quer dizer, tinha coisas boas ocorrendo tamb\u00e9m. O Fant\u00e1stico aproveitou o gancho de minha reportagem e fez mat\u00e9ria sobre tr\u00e1fico humano. Tr\u00eas dias depois meu telefone tocou freneticamente em uma manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atendi e era do jornal mandando que eu ligasse a televis\u00e3o. Atendi e tive uma grande e agrad\u00e1vel surpresa. Na Globonews passava reportagem do desbaratamento de uma quadrilha que traficava pessoas e um homem algemado. Era o Rubens. Tamb\u00e9m mostraram mulheres resgatadas, uma escondia o rosto, mas pelo corpo e a foto que vi lembrava muito Mariana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\">O telefone tocou de novo e era Andressa chorando e agradecendo por tudo que fiz. Realmente era Mariana e ela estava livre. Orgulhoso, respondi que ela n\u00e3o precisava agradecer porque apenas fiz meu papel. Poucas vezes me senti t\u00e3o orgulhoso na vida. Poucas coisas me senti t\u00e3o feliz de ser eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui para a reda\u00e7\u00e3o do jornal e me receberam com aplausos. Meu chefe me chamou at\u00e9 sua sala e me deu um abra\u00e7o. Ele nunca nem apertara minha m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentei em meu local de trabalho e recebi um SMS. Era da Bia dizendo \u201cEstamos orgulhosas de voc\u00ea\u201d. Eu estava com a alma lavada. Faltava o contato de seu Jair, mas de certa ele aproveitara pra dormir mais um pouco. Entretido com o trabalho ouvi um \u201cTa com tudo hein magnata?\u201d. Quando olhei era Luisinho, o estagi\u00e1rio. Ri e brinquei \u201cFala a\u00ed comil\u00e3o\u201d. O rapaz sentou-se ao meu lado e disse que eu estava com moral, tanto que merecia uma hist\u00f3ria nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntei quem ele tinha comido daquela vez. O rapaz respondeu que ningu\u00e9m, mas tinha gente que comera e se dado mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava falando de Gentil. Homem que entendia tudo de carnaval. Foi harmonia, compositor, mestre-sala, cantor at\u00e9 que virou diretor de carnaval. Nas horas vagas trabalhava em um escrit\u00f3rio de arrecada\u00e7\u00e3o de direitos autorais no centro do Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ou pela Villa Rica. Tradicional escola de Copacabana, passou pela Le\u00e3o de Nova Igua\u00e7u at\u00e9 que parou na Acad\u00eamicos do Cubango. Escola de belos sambas de Niter\u00f3i. Casado com Djanira. Baiana da Acad\u00eamicos do Sossego, tamb\u00e9m de Niter\u00f3i o que levou o destino do casal para l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alugaram uma casa na cidade pra facilitar a vida e Gentil ia trabalhar no Rio pegando barca e apreciando a natureza como sempre gostou. N\u00e3o tinham filhos ent\u00e3o podiam curtir o samba. Djanira era a respons\u00e1vel pela feijoada do Sossego, a mulher era muito boa na cozinha e dizem que prendeu Gentil pelo est\u00f4mago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gentil conheceu Djanira fora do samba. Alguns anos antes na Estudantina, famosa casa de gafieira no Rio de Janeiro. O homem sempre foi um sedutor, p\u00e9 de valsa de primeira. Viu a baiana em um canto e rapidamente lhe chamou pra dan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambos eram vi\u00favos. Djanira por sinal tr\u00eas vezes e em algumas semanas o homem j\u00e1 chegou de mala e cuia na casa da baiana. Era tratado como um rei com Djanira preparando na cozinha todas as coisas que Gentil adorava. O sambista arrumara a sorte grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram um casal respeitado, casal 20 pro mundo do samba e Gentil considerado um diretor de pulso firme, mas respeitador. Produtor de grandes carnavais foi convidado pelo presidente Pel\u00e9 pra assumir o comando da Cubango. Era a grande chance de sua carreira, botar a Cubango no especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a mudan\u00e7a para perto da quadra passava o dia inteiro na agremia\u00e7\u00e3o. Uma parte do tempo na quadra, outra no barrac\u00e3o. Gentil era do tipo que dizia que o gado s\u00f3 crescia com o olho do dono. Era implac\u00e1vel nos ensaios de comunidade. Botava os desfilantes da Cubango pra ensaiar tr\u00eas vezes por semana. Queria tudo certo pra Sapuca\u00ed tanto que pediu licen\u00e7a no escrit\u00f3rio pra se dedicar apenas a Cubango.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tem um detalhe da personalidade de Gentil que eu ainda n\u00e3o contei. O homem era safado. Consertando: era muito safado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulherengo desde pequeno quando era \u201cacalentado\u201d pelas amigas da m\u00e3e Gentil n\u00e3o podia ver um rabo de saia. Seja velha, nova, alta, baixa, gorda, magra, vasca\u00edna ou botafoguense o homem n\u00e3o queria saber. Queria \u201cpassar o rodo\u201d. Mas sabia ser discreto. Apesar de rolar burburinhos quase nada chegava a Djanira e quando chegava o homem se exaltava e respondia que era inveja por ele ter uma mulher maravilhosa como a baiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">C\u00ednico ainda completava \u201cDeixa que falem, a inveja deles faz a minha fama\u201d. E claro que Djanira ca\u00eda no conto do vig\u00e1rio. Como eu disse antes Gentil era sedutor, galanteador e era capaz at\u00e9 de convencer pastor evang\u00e9lico a ir a terreiro. Chegava sempre em casa com um buqu\u00ea de flores, uma caixa de bombom que adocicava a mulher e lhe dava tempo porque enquanto ela estava nas nuvens com tanto galanteio ele lavava a camisa que tinha marca de batom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem era demais e em um desses ensaios da Cubango encontrou uma nova \u201cpresa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viu um menino chorando, devia ter uns dez anos e perguntou qual era o problema. O garoto respondeu que se perdera de sua m\u00e3e. Gentil pediu que alguns harmonias procurassem pela mulher enquanto ele tomava conta do menino. Enquanto conversava com o garoto e lhe acalmava apareceu uma mulher dizendo gra\u00e7as a Deus por encontrar seu filho. Uma loura com mais ou menos trinta anos, balzaquiana linda que imediatamente balan\u00e7ou o cora\u00e7\u00e3o safado de Gentil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gentil deu um sorriso e comentou com o menino \u201cpronto, a\u00ed est\u00e1 sua m\u00e3e\u201d. A loura agradeceu ao homem por ter cuidado de seu filho e claro que Gentil aproveitou pra puxar assunto comentando que nunca lhe vira por l\u00e1. Apresentou-se como Gentil, diretor de carnaval da escola e a loura disse que se chamava Madalena e o filho come\u00e7ara naquele dia na ala mirim da escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor achou interessante e perguntou se ela n\u00e3o iria desfilar na agremia\u00e7\u00e3o. Madalena respondeu que n\u00e3o, n\u00e3o tinha dinheiro pra comprar fantasia, nem tempo pra ensaiar tr\u00eas vezes por semana com a comunidade e assim Gentil deu o endere\u00e7o do barrac\u00e3o para ela pedindo que comparecesse no dia seguinte que daria um jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carnaval estava pr\u00f3ximo, mas ele daria um jeito. Ah se daria&#8230; No dia seguinte a mulher estava no barrac\u00e3o e Gentil perguntou se ela queria sair em carro aleg\u00f3rico. Madalena irradiou felicidade e o homem, charmoso, disse que seria tudo como ela quisesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Madalena entendeu o jogo e gostou. Falou ao homem que topava e nem sabia como agradecer. Gentil respondeu que pensara em v\u00e1rias formas de agradecimento e a loura disse que tamb\u00e9m, mas s\u00f3 podia depois do carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor chamou auxiliares e pediu que tirassem as medidas da nova componente do carro. Madalena mandou beijinho para o homem, saiu com os auxiliares e exultante Gentil falou sozinho \u201cesse carnaval tem que passar logo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carnaval chegou e a Cubango fez um belo desfile, muito cotada para vencer o carnaval. Enquanto todos cumprimentavam Gentil pelo desfile Madalena passou por ele e disse em seu ouvido \u201cquarta eu posso, me ligue\u201d. O homem vibrou, mas depois lembrou que era o dia da apura\u00e7\u00e3o. E a\u00ed? Como fazer? Ligou para a mulher tentando marcar para outro dia, mas n\u00e3o teve como. S\u00f3 podia quarta de tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na ter\u00e7a pensativo Gentil chegou em Djanira e comentou que n\u00e3o iria \u00e0 apura\u00e7\u00e3o. Espantada a esposa perguntou o motivo e o diretor mentiu contando que fora convocado para trabalhar no escrit\u00f3rio. Na verdade ele s\u00f3 voltaria segunda, mas resolveu \u201cantecipar\u201d para a esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Cubango se reuniu em uma mesa na Apoteose com a expectativa de subir. Djanira lamentava que o marido n\u00e3o estivesse l\u00e1 e tivesse que trabalhar em momento t\u00e3o importante quando notou que as pessoas n\u00e3o paravam de olhar para ela e lamentar. Djanira perguntou qual era o problema. Ningu\u00e9m tinha coragem de falar at\u00e9 que uma senhora teve e disse \u201cO pr\u00e9dio onde fica o escrit\u00f3rio que o Gentil trabalha desabou\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher ficou branca, quase desmaiou, tiveram que dar \u00e1gua, abanar Djanira que ficou perto de um enfarte. A mulher chorava em desespero imaginando seu marido nos escombros quando algu\u00e9m deu a id\u00e9ia \u201cliga pra ele!!\u201d. Outro respondeu que ele n\u00e3o teria como atender soterrado, mas a pessoa insistiu falando que poderia ocorrer um milagre. Djanira respirou fundo e com l\u00e1grimas nos olhos comentou \u201ccusta nada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela ligou e o safado atendeu. Gentil estava no motel \u201cCarinhus\u201d localizado na Baixada Fluminense, bem distante de tudo. Em desespero Djanira perguntou \u201conde voc\u00ea est\u00e1 homem?\u201d e sem saber de nada Gentil respondeu \u201cOra aonde, trabalhando u\u00e9?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Djanira engoliu o choro e desligou o telefone. Uma pessoa se aproximou e perguntou se Gentil estava vivo. A mulher respondeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor enquanto sim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que Djanira ficaria vi\u00fava pela quarta vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar. 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