{"id":20530,"date":"2013-11-26T14:02:27","date_gmt":"2013-11-26T16:02:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=20530"},"modified":"2016-07-05T04:53:13","modified_gmt":"2016-07-05T07:53:13","slug":"pitaco-o-neo-elitismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/11\/pitaco-o-neo-elitismo\/","title":{"rendered":"Pitaco: &#8220;O Neoelitismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A coluna do <strong>advogado Gustavo Cardoso<\/strong> desnuda as propostas da oposi\u00e7\u00e3o brasileira no intuito de &#8220;colocar os pobres em seu devido lugar&#8221;. Leitura imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\"><em><strong>O Neoelitismo<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A diminui\u00e7\u00e3o da pobreza no Brasil, a amplia\u00e7\u00e3o da classe com acesso aos bens de consumo, a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social sempre foram defendidos universalmente, reconhecidos como metas da nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na teoria. Quando o processo deu seus primeiros passos, com melhoras discretas para os mais pobres, despertou uma f\u00faria na \u201cclasse m\u00e9dia tradicional\u201d que poucos seriam capazes de prever. Tornou-se lugar-comum falar com irrita\u00e7\u00e3o dos aeroportos lotados, dos engarrafamentos, dos negros nas universidades, das esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 planejadas para \u00e1reas nobres, enfim, das invas\u00f5es b\u00e1rbaras aos redutos antes exclusivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A m\u00eddia tradicional, que se dirige aos atuais incomodados, n\u00e3o deixa de ressoar este desconforto. Tenta evitar o preconceito expl\u00edcito, mas \u00e0s vezes explode. Exemplo extremo foi o desabafo de Luiz Carlos Prates h\u00e1 tr\u00eas anos na RBS de Santa Catarina (abaixo), que se tornou famoso, lhe rendeu uma dispensa, mas tamb\u00e9m uma vaga no SBT para continuar praticando seu \u00f3dio de classe. Prates atribuiu um acidente automobil\u00edstico a <em>\u201ceste governo esp\u00fario que popularizou, pelo cr\u00e9dito f\u00e1cil, o carro para qualquer miser\u00e1vel\u201d.<\/em> Note que, no Youtube, a maior parte dos que assistiram aprovou seu coment\u00e1rio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Luiz Carlos Prates: qualquer miser\u00e1vel agora tem carro\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uwh3_tE_VG4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos \u00faltimos tempos o neoelitismo come\u00e7ou a assumir um aspecto mais t\u00e9cnico e intelectualizado, que expressa o mesmo sentimento de forma menos ofensiva (\u00e0 primeira vista). Este m\u00eas, Fernando Henrique Cardoso emprestou sua sutileza ao discurso de Prates, ao escrever que foi um erro a pol\u00edtica <em>\u201cdo est\u00edmulo \u00e0 compra de carros, do incentivo ao consumo de gasolina, em detrimento do etanol, e do gasto das fam\u00edlias via cr\u00e9dito f\u00e1cil, empurrado pela Caixa Econ\u00f4mica Federal. Os reflexos aparecem nas grandes cidades pelo Pa\u00eds afora: congestionamentos, transporte p\u00fablico deficiente, aumento do n\u00edvel de polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, etc.\u201d<\/em> (<span style=\"color: #ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,sem--complacencia-,1092632,0.htm\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600\">http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,sem&#8211;complacencia-,1092632,0.htm<\/span><\/a><\/span>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Economistas insatisfeitos com a situa\u00e7\u00e3o atual mas incapazes de encontrar problemas graves nos fundamentos macroecon\u00f4micos t\u00eam apontado o dedo para a valoriza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, que pressionaria a infla\u00e7\u00e3o. Como reduzir sal\u00e1rio? Revendo a lei que determina o aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo e provocando desemprego deliberado, principalmente via aumento dos juros. Estas propostas impopulares costumam ser enunciadas de forma codificada. Quando descobertas, os pol\u00edticos ligados aos tais economistas procuram se distanciar dos mesmos aos olhos do eleitor, mas n\u00e3o dos financiadores de campanhas (<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/poder\/138571-aecio-diz-que-nao-mexeria-no-salario-minimo.shtml)\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/poder\/138571-aecio-diz-que-nao-mexeria-no-salario-minimo.shtml)<\/span><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O denominador comum dessas ideias \u00e9 atribuir os males brasileiros ao aumento do consumo \u2013 o que, nas atuais circunst\u00e2ncias, deve ser lido como \u201caumento da base de consumidores\u201d, pois os problemas s\u00f3 se tornaram vis\u00edveis, para essas pessoas, quando uma nova massa entrou no mercado. Antes, quando poucos tinham acesso aos bens da modernidade, n\u00e3o havia tantos congestionamentos nem tanta polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. Eles s\u00e3o livres para imaginar que o transporte p\u00fablico costumava ser eficiente, pois nunca o utilizaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A vers\u00e3o mais recente dessa ideologia \u00e9 o neoelitismo ambiental. Seu principal guru no Brasil \u00e9 o economista Eduardo Gianetti, consultor de Marina Silva e prov\u00e1vel ministro num eventual governo dela. Segundo o professor, o planeta n\u00e3o suporta que haja tanto gado, pois as reses emitem muitos poluentes. O que fazer? Coma-se menos carne e beba-se menos leite, ora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas quem comer\u00e1 e beber\u00e1 menos? Gianetti? N\u00e3o por enquanto&#8230; quem sabe um dia: <em>\u201cn\u00e3o virei vegetariano, mas pretendo caminhar para isso\u201d<\/em>. Ele evita dar detalhes, mas jura: <em>\u201cdentro dos meus limites, tento pautar minhas a\u00e7\u00f5es pelo que acredito ser o melhor.\u201d<\/em> (<span style=\"color: #ff6600\"><a href=\"http:\/\/planetasustentavel.abril.com.br\/noticia\/ambiente\/escritor-eduardo-giannetti-natureza-bem-consumo-sem-etica-681078.shtml?func=1&amp;pag=0&amp;fnt=14px\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600\">http:\/\/planetasustentavel.abril.com.br\/noticia\/ambiente\/escritor-eduardo-giannetti-natureza-bem-consumo-sem-etica-681078.shtml?func=1&amp;pag=0&amp;fnt=14px<\/span><\/a><\/span>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na verdade, ele confia pouco em decis\u00f5es \u00e9ticas individuais, e mais no impacto que certas medidas podem causar no bolso das pessoas: <em>\u201cSe for proibitivamente caro eu pegar meu carro para andar dois quarteir\u00f5es, vou pensar duas vezes e posso preferir caminhar ou pegar minha bicicleta.\u201d<\/em> O embara\u00e7oso, para um economista liberal, \u00e9 que Gianetti reconhece a impossibilidade do mercado de resolver este problema: <em>\u201co que se percebe hoje \u00e9 que o sistema de pre\u00e7os padece de uma falha muito s\u00e9ria, porque deixa de sinalizar de maneira adequada os custos reais envolvidos nas nossas escolhas tanto ao produzir quanto ao consumir.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ou seja, ele defende que haja um controle p\u00fablico de certos pre\u00e7os, como os da carne e dos combust\u00edveis, de modo que seu consumo seja contido. Trata-se de uma quest\u00e3o realmente s\u00e9ria, \u00e9 prov\u00e1vel que seja mesmo necess\u00e1ria a redu\u00e7\u00e3o &#8211; por todas as pessoas &#8211; do consumo de certos itens. Mas a solu\u00e7\u00e3o de Gianetti tem um desdobramento evidente: s\u00f3 os ricos passam a poder comer carne, tomar leite e andar de carro e de avi\u00e3o. Ele sabe que h\u00e1 outras solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis, mas se apressa a caricatur\u00e1-las: a sa\u00edda alternativa, de planejar o acesso aos bens de consumo, equivaleria ao comunismo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u00fanica hip\u00f3tese de mantermos nossa liberdade e a natureza\u00a0ao mesmo tempo \u00e9 o Estado intervir <em>nos pre\u00e7os<\/em>, o que produziria duas classes de seres humanos \u2013 os ricos, que por terem mais dinheiro poderiam continuar consumindo e poluindo \u00e0 vontade; e os outros, aos quais ficaria reservada a gl\u00f3ria de salvar o planeta da destrui\u00e7\u00e3o. Gianetti n\u00e3o acha que isso comprometeria a liberdade, afinal s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 rico quem n\u00e3o quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ele tem consci\u00eancia do conte\u00fado explosivo do que est\u00e1 propondo: <em>\u201cCom que autoridade vamos bloquear o acesso a esses confortos da vida moderna que foram vendidos h\u00e1 s\u00e9culos para pa\u00edses emergentes como sendo a modernidade e o bem-estar?\u201d<\/em> Diante da dificuldade, elabora um discurso \u201ccient\u00edfico\u201d para justificar a pol\u00edtica aos mais pobres: <em>\u201cA boa not\u00edcia \u00e9 que os estudos sobre bem-estar, a partir de um n\u00edvel de renda m\u00e9dio, indicam que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia de que acr\u00e9scimos da renda per capita se traduzam em ganhos de bem-estar subjetivos. Quando voc\u00ea parte de baixo, at\u00e9 chegar a certo patamar, o crescimento da renda per capita \u00e9 acompanhado de um aumento do bem-estar subjetivo. A partir desse ponto, a renda per capita continua crescendo, mas o bem-estar subjetivo para de crescer.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ele se refere a pesquisas realizadas nos Estados Unidos, que apuraram que, a partir de uma renda equivalente a cerca de oito mil reais por m\u00eas, o aumento de sal\u00e1rio n\u00e3o influi mais na &#8220;felicidade&#8221; do indiv\u00edduo, seja l\u00e1 como conseguiram definir isto. Se Gianetti viveria feliz como uma tal remunera\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea deve estar brincando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em outras palavras: eu sei de quanto voc\u00ea precisa para ser feliz. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que voc\u00ea tenha mais do que o valor que eu calculei nos meus estudos sobre bem-estar. Quanto a mim? N\u00e3o se preocupe, vou me tornar vegetariano um dia desses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coluna do advogado Gustavo Cardoso desnuda as propostas da oposi\u00e7\u00e3o brasileira no intuito de &#8220;colocar os pobres em seu devido lugar&#8221;. Leitura imprescind\u00edvel. 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