{"id":19728,"date":"2013-11-03T08:30:24","date_gmt":"2013-11-03T10:30:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=19728"},"modified":"2013-11-07T11:46:16","modified_gmt":"2013-11-07T13:46:16","slug":"orun-aye-a-morte-de-todos-os-dias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/11\/orun-aye-a-morte-de-todos-os-dias\/","title":{"rendered":"Orun Ay\u00e9: &#8220;A morte de todos os dias&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><!--[if gte mso 9]&gt;--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste domingo seguinte ao Dia de Finados, <strong>o compositor Alo\u00edsio Villar<\/strong> nos faz refletir sobre os motivos de a morte ocupar tanto o imagin\u00e1rio das pessoas e como morremos todos os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>A morte de todos os dias<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem foi o Dia de Finados. Tema m\u00f3rbido, n\u00e3o? Mas acho interessante de tocar at\u00e9 porque a \u00fanica certeza que temos na vida \u00e9 de que vamos morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem que o ser humano \u00e9 o \u00fanico que sofre por saber que um dia morrer\u00e1. \u00c9 um assunto que tentamos evitar. N\u00e3o gostamos de pensar, mas \u00e9 verdade \u00e9 essa. Um dia iremos, sim, morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia de ontem \u00e9 um dia do ano que nos permitimos pensar no assunto. Tem pa\u00edses em que a data \u00e9 at\u00e9 celebrada, fazem festa. Aqui n\u00e3o chega a tanto, mas as pessoas saem de suas casas, compram flores e levam at\u00e9 os t\u00famulos de seus entes queridos ou celebridades que gostavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dia de visitar t\u00famulos de Carmem Miranda, Clara Nunes, Ayrton Senna, Elis Regina, Cazuza&#8230; Todos os anos reportagens mostram a peregrina\u00e7\u00e3o a esses t\u00famulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pessoa que sempre esteve presente nessas ocasi\u00f5es n\u00e3o estar\u00e1. Morreu o famoso \u201cpapagaio de pirata\u201d dos enterros cariocas. Um cara baixinho, cara de \u201cPara\u00edba\u201d que usava terno e gravata sempre aparecendo atr\u00e1s das celebridades nos enterros importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 estranho pensar que um \u201cpapa enterro\u201d morreu. Ser\u00e1 que teve \u201cpapagaio de pirata\u201d em seu enterro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte \u00e9 a \u00fanica coisa de nossa exist\u00eancia que une a todos. Rico, pobre, famoso, desconhecido, todo mundo passa por isso e n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o de cor, credo, grana ou op\u00e7\u00e3o sexual. Morte de celebridade sempre chama nossa aten\u00e7\u00e3o. Faz com que a gente lhe veja como um igual. Um mortal realmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses \u00faltimos dias tivemos as mortes de Paulinho Tapaj\u00f3s, Mauricio Az\u00eado e Lou Reed. Esse ano tivemos mortes como de Em\u00edlio Santiago, Fernando Pamplona e Cl\u00e1udio Cavalcanti. Pessoas que quando sabemos das mortes ficamos um pouco chocados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas me chocaram profundamente, como as do presidente Tancredo Neves, do jogador Dener, do esportista Pep\u00ea, dos Mamonas Assassinas, Tim Maia, Michael Jackson e claro, Ayrton Senna. A morte que parou um pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que \u00e9 a morte pra mim? Como eu vejo a morte afinal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que come\u00e7amos a morrer no dia em que nascemos. Meio depressivo pensar nisso, mas, a cada dia que passamos, nos aproximamos dela e em alguns momentos mais tristes ou desesperadores at\u00e9 pedimos por ela. Mas \u00e9 tudo da boca pra fora. Todo mundo quer viver muito, bem e feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E acho que n\u00e3o morremos apenas uma vez. O ex-jogador de futebol Falc\u00e3o disse que o jogador de futebol morre duas vezes. Na morte em si e quando para de jogar. Pela import\u00e2ncia do ato, deve ser verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas seja a morte real ou morte metaf\u00f3rica, acho que morremos muitas vezes durante a vida. Eu mesmo morri muitas vezes j\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morri com uma semana de vida quando me engasguei e parei em hospital j\u00e1 roxo. Morri quando do terra\u00e7o da minha casa jogaram um cano e esse acertou minha cabe\u00e7a. Morri em acidente de carro quando pequeno ou quando uma vez apareceu uma mancha em exame meu do pulm\u00e3o e acharam que fosse c\u00e2ncer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morri muito, meu amigo. Morri todas \u00e0s vezes em que uma mulher me atraiu. Todas em que eu n\u00e3o fui correspondido ou quando fui e beijei a mulher que fiquei afim. Morri a cada amizade que fiz, cada gargalhada que dei com amigos, cada zoa\u00e7\u00e3o, farra ou simplesmente no sil\u00eancio c\u00famplice de quando um de n\u00f3s est\u00e1 mal e o outro est\u00e1 ali s\u00f3 pela presen\u00e7a mesmo. Pra dizer \u201cestou aqui, meu parceiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morri toda vez que conheci um lugar novo. A cada livro que abri, cada filme a que assisti ou m\u00fasica que ouvi. A arte me comove, a arte \u00e9 bela e me emociona. Quando vejo algo engra\u00e7ado, rio, emocionante, choro. N\u00e3o tenho vergonha disso, de me encantar pela arte. \u00c9 minha morte po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morro cada vez que escrevo. Gosto de escrever porque assim dentro dessa minha morte, me torno imortal. Meus restos mortais est\u00e3o ali em cada frase, cada verso. Todas as hist\u00f3rias j\u00e1 foram escritas, mas nem todas foram ouvidas. Por isso escrevo, para renascer e morrer sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morro cada vez que encontro parceiros pra compor um samba-enredo. Cada vez que um nasce e fica bonito. Morro a cada apresenta\u00e7\u00e3o, na estreia, na final. Morri quando subi a um palco para minha primeira final. Minha alma deixou meu corpo e ganhou o universo quando ganhei meu primeiro samba e esse foi Estandarte de Ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem morte mais bonita que morrer de amor? Morri quando amei. Quando tive o corpo da mulher que amei colado ao meu. Quando choramos ao fazer amor e no momento tocar nossa m\u00fasica. A cada bobeira nossa dita, a cada momento ao seu lado por mais irrelevante que ele pudesse ser naquele instante. Morri quando perdi esse amor. Morri, definhei, virei um cad\u00e1ver sepulto em um cemit\u00e9rio de lembran\u00e7as e saudades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morro cada vez que ou\u00e7o por telefone a voz de minha av\u00f3 em Curitiba. A minha velhinha com seus oitenta anos. Tive uma morte dolorida demais em 4 de abril de 2005 quando perdi minha m\u00e3e. Uma morte insuport\u00e1vel muitas vezes, que me fez perambular por um umbral s\u00f3 meu e achei que nunca mais conseguisse sair. A cada dia morro um pouco com essa saudade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas morri de alegria dia 16 de maio de 2009 quando ganhei Ana Beatriz de Jesus Villar e dia 9 de agosto de 2013, dia do meu anivers\u00e1rio, quando ganhei Gabriel Ata\u00edde de Jesus Villar. Atravessei um t\u00fanel brilhante, luminoso e no outro lado encontrei um campo florido, dois anjos e os dois me disseram \u201csaia do umbral que vamos te levar ao c\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E me levaram. A pequena Bia me levou transformando a minha morte em vida. O pequen\u00edssimo, mas vitorioso Gabriel mostrou o quanto sou babaca e fraco quando internado em um hospital, com suas veias furadas, soro entrando por seu corpo me olhou e sem saber falar me disse: \u201cMorte? Eu vou \u00e9 viver!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viveu e me deu vida. Fez oitenta dias essa semana e \u00e9 o ser vivo mais vitorioso que convivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada dia morro. A cada dia morremos. De tristeza, de alegria, mas a cada morte aprendemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprendemos que viver \u00e9 bom. A morte \u00e9 s\u00f3 uma pequena viagem e o mais importante dela \u00e9 que depois sempre renascemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia de Finados? Dia da vida. Entre vivos e mortos todos vivemos. Todos existimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque enquanto houver amor, n\u00e3o tem fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo seguinte ao Dia de Finados, o compositor Alo\u00edsio Villar nos faz refletir sobre os motivos de a morte ocupar tanto o imagin\u00e1rio dasTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[381,379,378,129,380,6],"class_list":["post-19728","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-orun-aye","tag-amor","tag-finados","tag-morte","tag-poesia","tag-vida","tag-vida-cotidiana"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19728"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19728\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20065,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19728\/revisions\/20065"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}