{"id":19302,"date":"2013-10-17T15:23:28","date_gmt":"2013-10-17T18:23:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=19302"},"modified":"2013-10-14T09:33:26","modified_gmt":"2013-10-14T12:33:26","slug":"cinecasulofilia-as-cinzas-e-o-nascituro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/10\/cinecasulofilia-as-cinzas-e-o-nascituro\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia: &#8220;As Cinzas e o Nascituro&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s longa aus\u00eancia, mais uma edi\u00e7\u00e3o <strong>da coluna sobre cinema do cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda<\/strong> &#8211; que pode ser visto no v\u00eddeo ao final deste post.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>As Cinzas e o Nascituro<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O SIGNO DO CAOS e EST\u00c9TICA DA SOLID\u00c3O. O que esses dois filmes t\u00e3o diferentes possuem em comum? O que est\u00e1 por tr\u00e1s desse meu gesto de aproximar esses dois filmes t\u00e3o estapaf\u00fardios?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado, um filme sobre a consci\u00eancia do fracasso, sobre a imin\u00eancia do fim, o \u00faltimo filme de um veterano cineasta brasileiro, atrelado ao gr\u00e3o da pel\u00edcula cinematogr\u00e1fica. De outro lado, um filme sobre a possibilidade do come\u00e7o, um filme adolescente sobre adolescentes, o primeiro filme de um (dois) jovem(ns) realizador(es) brasileiro(s), sob a semente do video.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois filmes que d\u00e3o as costas ao modelo t\u00edpico de produ\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro de sua \u00e9poca, do cinema do &#8220;bom gosto&#8221; e da busca pelo profissionalismo, que regeu o cinema da retimada, os discursos sobre o cinema brasileiro da virada do s\u00e9culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado, um filme sobre o fim, um fime dionis\u00edaco sobre o ju\u00edzo final. De outro, um filme sobre o in\u00edcio, filme-ensaio apol\u00edneo sobre a gesta\u00e7\u00e3o de um porvir. As cinzas e o nascituro. Tarde demais, cedo demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me interessa aproximar esses dois filmes t\u00e3o diferentes porque ambos s\u00e3o filmes-ilha, desconectados de seu tempo, e exatamente por isso me parecem absurdamente contempor\u00e2neos, muito mais do que os &#8220;filmes da retomada&#8221; feitos na sua \u00e9poca. Porque comprovam o texto do Agamben, por dirigirem um facho de luz em nossa dire\u00e7\u00e3o mas que n\u00e3o conseguimos alcan\u00e7ar. Tenho dificuldade em ver esses filmes, mas essa dificuldade me interessa, porque, acima de tudo, aponta para o gesto desses autores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses filmes me interessam pela pureza de suas inten\u00e7\u00f5es e pela radicalidade do seu gesto. Me interessam porque provocam, a partir dos seus deslocamentos, uma \u00e9tica do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque s\u00e3o filmes sobre a liberdade. Porque conseguimos criar, mesmo diante de tudo, diante do sistema e do pa\u00eds, mesmo diante da morte, mesmo asfixiando o artista, mesmo com as picuinhas, pilantragens e trai\u00e7\u00f5es do cinema brasileiro, mesmo assim a obra continua, permanece, reverbera, o filme de welles ressoa ainda que ele tenha sido destru\u00eddo, ouroboros. Porque conseguimos criar, mesmo sendo crian\u00e7as e mesmo sendo s\u00f3s, mesmo n\u00e3o tendo ningu\u00e9m a n\u00e3o ser n\u00f3s mesmos, e mesmo que n\u00e3o consigamos sair do nosso quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses realizadores atiraram-se num precip\u00edcio ao fazerem os seus filmes. Mergulharam num abismo. Um labirinto de espelhos. Ou um castelo de cartas, um jogo de lego. N\u00e3o importa. &#8220;Maturidade&#8221; ou &#8220;precocidade&#8221;, n\u00e3o importa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses artistas n\u00e3o tiveram medo de se lan\u00e7ar de uma maneira fr\u00e1gil. Esses filmes escancaram e potencializam as suas pr\u00f3prias fragilidades, que s\u00e3o tamanhas. Os realizadores ofereceram suas feridas, suas chagas, a c\u00e9u aberto. E encontraram no pr\u00f3prio processo de realiza\u00e7\u00e3o do filme talvez o \u00fanico modo de lidar com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o filmes exemplares, longe disso, pois n\u00e3o pretendo passar filmes exemplares. Me interessa v\u00ea-los como um gesto imperfeito desses autores que escavaram essas fendas como sa\u00edda (encontro) suicida diante do mundo. Talvez em outros filmes, eles puderam (talvez) desenvolver, aprofundar melhor outras quest\u00f5es, mas isso importa menos. Importa mais ver para o que eles apontam, para o que eles escondem de n\u00f3s, para o que eles escondem de si mesmos, para o que eles n\u00e3o puderam filmar, para o que eles n\u00e3o puderam ser, e por conta disso assim acabaram sendo, dessa forma, e n\u00e3o de outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, n\u00e3o quero apontar para o que eles n\u00e3o fizeram, mas como essa aus\u00eancia est\u00e1 incrustada no pr\u00f3prio filme como uma cicatriz que os faz. Como essas impossibilidades se d\u00e3o a ver no pr\u00f3prio corpo desses filmes, como filmes-faquires. \u00c9 por isso que defendo n\u00e3o s\u00f3 a exist\u00eancia desses filmes, mas o seu projeto de err\u00e2ncia, de incompletude, de fugacidade, de desespero, de incredulidade, de liberdade. Defendo a \u00ednfima possibilidade de que eles possam ser vistos. Esses filmes, mais do que muitos outros, precisam de n\u00f3s, urgem, nos chamam, e me interessa n\u00e3o propriamente em atender a esse chamado, mas fazer com que ele ecoe um pouco mais, abrindo uma pequena janela desse por\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"EST\u00c9TICA DA SOLID\u00c3O - MFL 2011\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1XA3jQECWEg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s longa aus\u00eancia, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna sobre cinema do cineasta, cr\u00edtico e professor Marcelo Ikeda &#8211; que pode ser visto no v\u00eddeo aoTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-19302","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19302"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19302\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}