{"id":18688,"date":"2013-08-28T14:16:53","date_gmt":"2013-08-28T17:16:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=18688"},"modified":"2013-08-28T07:58:54","modified_gmt":"2013-08-28T10:58:54","slug":"sobretudo-ainda-os-ingressos-os-arrasa-quarteirao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/08\/sobretudo-ainda-os-ingressos-os-arrasa-quarteirao\/","title":{"rendered":"Sobretudo &#8211; &#8220;Ainda os Ingressos: Os Arrasa Quarteir\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta quarta, a<strong> coluna do publicit\u00e1rio Affonso Romero<\/strong> retoma a quest\u00e3o dos ingressos de futebol sob uma outra perspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Ainda os Ingressos: Os Arrasa Quarteir\u00e3o<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um filme lan\u00e7ado em 1990 que se tornou um dos cl\u00e1ssicos recentes de Hollywood: Uma Linda Mulher. A men\u00e7\u00e3o do nome do filme trar\u00e1 \u00e0 sua mente a imagem da ent\u00e3o jovem e exuberante Julia Roberts imersa numa banheira de espuma (foto) cantarolando o hit Kiss, do Prince. Sem esfor\u00e7o, voc\u00ea poder\u00e1 se lembrar que o par rom\u00e2ntico da prostituta Vivian naquele conto de fadas moderno era o Richard Gere, no papel de um empres\u00e1rio yuppie extremamente bem sucedido. Tudo isso virou \u00edcone daquela era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que exige um pouco mais de mem\u00f3ria \u00e9 saber do que exatamente vivia o milion\u00e1rio bonit\u00e3o. Mas este \u00e9 o detalhe mais datado do filme. Mais datado que a Julia Roberts, o Prince, o figurino&#8230; A coisa mais t\u00edpica daquela \u00e9poca era que o executivo de sucesso tinha como principal atividade comprar e desmontar empresas alquebradas e, depois, revender com imenso lucro as fatias desmembradas, como se fosse a venda de um carro batido para um ferro-velho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A personagem de Gere poderia ser retratada como um vil\u00e3o insens\u00edvel, se n\u00e3o fosse seu encontro fortuito com a doce Vivian. \u00c0 medida que ambos se apaixonam, resgatam-se mutuamente da brutalidade daqueles tempos em que a busca pelo lucro n\u00e3o encontrava barreiras \u00e9ticas ou regulamentos inflex\u00edveis. A mensagem do filme \u00e9 que o amor redime. A ela, da triste condi\u00e7\u00e3o de prostituta de beira de cal\u00e7ada, inculta e sem maiores perspectivas; a ele, da insensibilidade workaholic das bolsas de valores, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es. A gan\u00e2ncia dele era justificada por um sentimento de revanche, com direito a traumas do passado e, como tal, tinha \u201ccura\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso para deixar o papel de vil\u00e3o puro-sangue nas m\u00e3os do excelente ator Jason Alexander , o s\u00f3cio-parceiro-assessor de Gere chamado Philip Stuckey que insiste, at\u00e9 o final, em comprar mais uma empresa para desmontar demitir, enxugar, \u201csanear\u201d e revender aos peda\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sucesso do filme tem muito a ver com a propriedade e o sentido que esta f\u00e1bula fazia numa Am\u00e9rica empobrecida por anos de governo republicano Reagan, liberal at\u00e9 a raiz, que incentivou a \u201ccompetitividade\u201d como valor econ\u00f4mico supremo, provocando uma onda de desemprego e desmonte da seguran\u00e7a social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para breve compara\u00e7\u00e3o, lembremos que pouqu\u00edssimos anos antes (86), no auge da era Reagan, o papel de yuppie bom-vivant vivido por Mickey Rourke em 9 Semanas e Meia de Amor era glamourizado como o ideal de homem de sucesso. Uma Linda Mulher \u00e9 mais que uma suave com\u00e9dia rom\u00e2ntica que se tornou cl\u00e1ssica; \u00e9 um retrato de um momento de virada na consci\u00eancia americana sobre os valores econ\u00f4micos e a import\u00e2ncia das pessoas (e seus empregos) sobre os processos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas havia os Philip Stuckey, o vil\u00e3o que canaliza no filme todo o mal que havia no modelo dos \u00a0abutres arrasa-quarteir\u00e3o. Continuou havendo muitos deles na economia e na pol\u00edtica, exportados pela onda neo-liberal que at\u00e9 hoje tem ecos (cada vez mais espor\u00e1dicos) pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anos 1990 foram ainda caracterizados por modelos tecnocratas que refletiam uma estrutura mental obtusa pela qual a gest\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es, neg\u00f3cios, empresas, projetos e at\u00e9 pa\u00edses s\u00f3 pode ser projetada a partir da objetividade fria e imediatista dos n\u00fameros, como se os processos n\u00e3o dependessem fundamentalmente do envolvimento de pessoas. E como se pessoas n\u00e3o comportassem a subjetividade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos, por um instante, o exemplo do que aconteceu no Brasil, levado de assalto por esta l\u00f3gica perversa do neo-liberalismo naqueles anos. Diga-se, o mesmo se estabeleceu na totalidade da Am\u00e9rica Latina, com os mesmos resultados catastr\u00f3ficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por aqui, o Estado foi primeiramente desacreditado. Suas defici\u00eancias (em parte, reais) foram exploradas e amplificadas atrav\u00e9s de poderosas armas de comunica\u00e7\u00e3o de massas. Os defeitos (igualmente reais) de seus dirigentes foram tamb\u00e9m amplificados e caricaturados. As institui\u00e7\u00f5es foram artificialmente corro\u00eddas, escarnecidas. Na sequ\u00eancia, apresentou-se um \u201csalvador da p\u00e1tria\u201d, com uma mensagem t\u00e9cnica, uma apar\u00eancia moldada. Tomou-se o poder e o centro das decis\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, \u201cconstatou-se\u201d que a situa\u00e7\u00e3o seria mais cr\u00edtica do que se avaliara a princ\u00edpio, o que requereria medidas dr\u00e1sticas. Da\u00ed, enxugou-se a economia, atrav\u00e9s de retra\u00e7\u00e3o e recess\u00e3o, com desemprego e concentra\u00e7\u00e3o de capitais. Passo seguinte, desmontou-se o Estado, descartou-se o que n\u00e3o interessava, loteou-se o que havia de valioso, vendeu-se a pre\u00e7o de banana, descapitalizou-se, pagou-se seletivamente a d\u00edvida aos parceiros dos poderosos. Sob a desculpa da reestrutura\u00e7\u00e3o e do saneamento, o Estado brasileiro foi enfraquecido e suas fun\u00e7\u00f5es \u2013 para muito al\u00e9m da simples desestatiza\u00e7\u00e3o-privatiza\u00e7\u00e3o \u2013 foram dilu\u00eddas pela terceiriza\u00e7\u00e3o, desinvestimento p\u00fablico e utiliza\u00e7\u00e3o do v\u00e1cuo criado para a gera\u00e7\u00e3o de oportunidades privadas, tornando patrim\u00f4nio e l\u00f3gica privados algo que antes era tido como reserva da sociedade (como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, por exemplo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00e9todos utilizados s\u00e3o incrivelmente similares aos descritos na fic\u00e7\u00e3o pelo personagem de Richard Gere n\u2019Uma Linda Mulher. Pelo menos, antes de seu resgate pelo amor. A diferen\u00e7a \u00e9 que, na vida real, n\u00e3o h\u00e1 amor nenhum para curar desse mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anos passam, mas ainda h\u00e1 muitos abutres por a\u00ed, saudosos desses tempos. Mal a hist\u00f3ria nos contava dos efeitos dos anos 1980 e 1990 sobre a economia mundial (no Brasil, um Estado ainda mais endividado, sem patrim\u00f4nio, desestruturado, que promoveu concentra\u00e7\u00e3o de renda, recess\u00e3o, desemprego, encolhimento da massa salarial), outra leva neo-liberal assolou o Planeta, culminando na quebradeira geral de 2007, cujos efeitos nefastos ainda se refletem pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os abutres arrasa-quarteir\u00e3o n\u00e3o se d\u00e3o por vencidos, vendem sua verve e sua caixinha de \u201csolu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas\u201d baseadas em cortes e enxugamentos nas mais diversas frentes da vida cotidiana. \u00c9 um modelo falido, burro, tecnocr\u00e1tico, dogm\u00e1tico, desumano, baseado em insensibilidade quanto \u00e0 natureza e peculiaridade dos entes econ\u00f4micos. Mas persiste, at\u00e9 porque sempre haver\u00e1 um sem-n\u00famero de Philip Stuckeys a vagar por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns deles, por exemplo, infestavam o BNDES nos anos 1990 e chegaram ao final de suas carreiras profissionais relegados ao ostracismo, com suas biografias ligadas ao fracasso do modelo sob o qual funcionavam. Mas se debatem, lutam para vender como solu\u00e7\u00e3o para tudo e para todos sua caixinha preta de maldades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A suposta objetividade por detr\u00e1s do debate sobre pre\u00e7os dos ingressos para partidas de futebol nas novas e modernas arenas brasileiras \u00e9 bem um reflexo deste tipo de equa\u00e7\u00e3o onde entra um pouco de tudo, menos o fundamental: a natureza das pessoas. Ou, na linguagem tecnicista que se quer empregar, a humanidade escondida por detr\u00e1s do ente econ\u00f4mico chamado de consumidor-torcedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os clubes est\u00e3o de pires nas m\u00e3os, esgotaram as vari\u00e1veis de onde se possa tirar dinheiro; logo, o torcedor que pague a conta. Aumenta-se o pre\u00e7o do ingresso e est\u00e1 resolvido o problema, porque se o ingresso passa de R$20,00 a R$100,00, o clube vai faturar cinco vezes mais com a bilheteria. Pura aritm\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 que esqueceram de combinar com o ser humano, aquele que tem no\u00e7\u00e3o racional de valor (apesar de ser parcialmente movido a paix\u00e3o, no caso), que elenca prioridades, que sente-se explorado, que sente-se tra\u00eddo, que j\u00e1 vem h\u00e1 tempos (e mesmo com pre\u00e7o mais baixo) reclamando direta e indiretamente que a qualidade do composto de produto futebol brasileiro vem caindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pior: vem caindo ainda mais acentuadamente se comparado com os concorrentes similares tais como outras formas de divers\u00e3o e lazer, e at\u00e9 mesmo com outros esportes, ou o \u00a0futebol europeu. Esqueceu-se tamb\u00e9m de vari\u00e1veis mais t\u00e9cnicas, como a no\u00e7\u00e3o de elasticidade do pre\u00e7o-produto, mas eu nem quero entrar no m\u00e9rito da capacidade t\u00e9cnica de gente que arrota arrog\u00e2ncia profissional e se vende como a \u00faltima Coca-Cola do deserto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemos um passo na an\u00e1lise e lembremos como o abutre arrasa-quarteir\u00e3o tipicamente se aproxima de seu alvo, desacredita a institui\u00e7\u00e3o, assume o poder, \u201csurpreende-se\u201d com o estado das coisas, aproveita-se do caos para propor sua solu\u00e7\u00e3o \u201cm\u00e1gica\u201d de saneamento e enxugamento, paga seletivamente d\u00edvidas, aumenta pre\u00e7os&#8230; n\u00f3s todos sabemos que o pr\u00f3ximo passo seria desmontar, repassar o que \u00e9 explor\u00e1vel (seja por venda direta, seja por \u201cparcerias\u201d) e deixar para tr\u00e1s um cen\u00e1rio de terra arrasada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os processos se repetem absolutamente id\u00eanticos, seja em empresas dos anos 1980, pa\u00edses nos anos 1990, sistemas financeiros nos anos 2000 e, finalmente, clubes de futebol nos anos 2010. Ou seja l\u00e1 onde for, h\u00e1 um modus operandi muito semelhante, e eu n\u00e3o sou dado a acreditar em coincid\u00eancias, principalmente quando personagem iguais atuam em hist\u00f3rias iguais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Haveria dezenas de enfoques poss\u00edveis para a quest\u00e3o dos novos est\u00e1dios e os pre\u00e7os cobrados para os ingressos. H\u00e1 uma m\u00e1xima aplic\u00e1vel a linhas de produtos minimamente complexas de que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passe por segmenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m um argumento baseado em t\u00e9cnica, e eu n\u00e3o refuto de forma alguma que a t\u00e9cnica \u2013 uma vez posta a servi\u00e7o do fator humano, e n\u00e3o contra ele \u2013 seja \u00fatil \u00e0s discuss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 absolutamente in\u00fatil debater racionalmente com gente que usa a comunica\u00e7\u00e3o de massa para fomentar uma legi\u00e3o dogm\u00e1tica teleguiada e, resguardada por detr\u00e1s deste muro, joga com interesses econ\u00f4micos diametralmente opostos aos que simulam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplificando com o paralelo utilizado: durante os anos 1990, a Petrobr\u00e1s, administrada por um governo que sonhava vend\u00ea-la, n\u00e3o foi capaz de fazer descobertas importantes que se concretizaram logo depois, sob outro ambiente e gest\u00e3o. Pode-se tentar explicar isso por muitos caminhos. Mas o que seria improv\u00e1vel \u00e9 que a empresa tivesse sucesso e encontrasse solu\u00e7\u00f5es sob a \u00e9gide de quem gostaria de desmembrar e vender seus ativos a pre\u00e7os camaradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, \u00e9 improv\u00e1vel que se encontre uma solu\u00e7\u00e3o que combine os interesses de torcedores com a necessidade de faturamento dos clubes sob a gest\u00e3o de gente que tem interesses econ\u00f4micos nesses mesmos clubes e seus poss\u00edveis \u201cparceiros\u201d. A l\u00f3gica arrasa-quarteir\u00e3o n\u00e3o combina com solu\u00e7\u00e3o alguma. \u00c9 bobagem discutir op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta, a coluna do publicit\u00e1rio Affonso Romero retoma a quest\u00e3o dos ingressos de futebol sob uma outra perspectiva. Ainda os Ingressos: Os Arrasa Quarteir\u00e3oTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[58,42,37,36],"class_list":["post-18688","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sobretudo","tag-economia","tag-flamengo","tag-futebol","tag-gestao-esportiva"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18688"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18688\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}