{"id":18385,"date":"2013-07-31T12:13:05","date_gmt":"2013-07-31T15:13:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=18385"},"modified":"2017-01-07T19:58:36","modified_gmt":"2017-01-07T21:58:36","slug":"historias-brasileiras-o-torcedor-carioca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/07\/historias-brasileiras-o-torcedor-carioca\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias Brasileiras &#8211; &#8220;O torcedor carioca&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta quarta feira, a coluna do <strong>historiador Luiz Antonio Simas<\/strong> comenta livro referente ao perfil das torcidas dos clubes do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>O torcedor carioca<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestes tempos em que o perfil do torcedor de futebol nos est\u00e1dios se transforma, sob as exig\u00eancias de uma vis\u00e3o empresarial que busca elitizar a frequ\u00eancia nos est\u00e1dios, dou uma dica de leitura aos amigos do Ouro de Tolo interessados no jogo: a jornalista Cl\u00e1udia Matos publicou, no final do s\u00e9culo passado (minha edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1997), um livro interessant\u00edssimo sobre os clubes de futebol do Rio de Janeiro e suas torcidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Cem Anos de Paix\u00e3o &#8211; Uma mitologia carioca do<\/i> <i>futebol<\/i>, \u00e9 o t\u00edtulo da obra.<i><br \/>\n<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao analisar a imprensa esportiva e os textos de craques no assunto, como os irm\u00e3os M\u00e1rio e Nelson Rodrigues, o arretado Jo\u00e3o Saldanha e o escritor Jos\u00e9 Lins do Rego, a autora descreve os perfis, eficientes no terreno do mito, dos times de futebol e de seus adeptos que foram produzidos ao longo da centen\u00e1ria hist\u00f3ria do futebol no Rio de Janeiro. Tento resumir o que o livro diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Fluminense representa a diferen\u00e7a entre a vida civilizada do Rio Antigo em compara\u00e7\u00e3o com o caos de uma cidade que cresceu e foi sitiada pela viol\u00eancia urbana e pelos dilemas da vida moderna. O Flu resiste como um monumento de uma \u00e9poca mais cordial e guarda tra\u00e7os de uma elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica que dominou a Belle \u00c9poque carioca. \u00c9 uma torcida com fumos de aristocracia e boa dose de arrog\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Flamengo \u00e9 o clube da massa, com a maior torcida em todas as classes. Representa uma composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-populista com o pov\u00e3o, contorna a amea\u00e7a de uma pobreza turbulenta e a torna, por meio dessa aproxima\u00e7\u00e3o, menos intimidadora. O Flamengo, time da autora da obra, \u00e9 o contr\u00e1rio da cidade partida e tem um papel crucial na rela\u00e7\u00e3o entre as classes no Rio de Janeiro. Seria, e aqui digo eu, o Get\u00falio Vargas do futebol carioca, mediando tens\u00f5es sociais e mostrando que uma uni\u00e3o entre as classes \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Vasco tem o papel magn\u00edfico de fornecer uma certeza de integra\u00e7\u00e3o social de um sub\u00farbio pobre e menosprezado a uma cidade que s\u00f3 se reconhece sob o prisma da orla mar\u00edtima. \u00c9 o time do povo, com pouca presen\u00e7a nas classes abastadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o Botafogo \u00e9 visto como o time de uma elite sem poder econ\u00f4mico ou pol\u00edtico efetivo, chamada pela autora de &#8216;elite irrespons\u00e1vel&#8217; <em>[1]<\/em>. S\u00e3o formadores de opini\u00e3o, capazes de influenciar a sociedade com suas ideias. O problema \u00e9 que essas ideias, em geral, s\u00e3o completamente desprovidas de argumentos s\u00f3lidos. S\u00e3o adeptos da cultura do acaso; supersticiosos, adolescentes e fatalistas. Os alvinegros se parecem com os apostadores do jogo do bicho. O Botafogo, n\u00e3o custa lembrar, teve dois bicheiros como patronos. S\u00e3o os famosos &#8216;porraloucas&#8217; das arquibancadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os irm\u00e3os Rodrigues descreveram o botafoguense de formas muito curiosas. Escreve o grande N\u00e9lson:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>&#8220;Na Sic\u00edlia, quando um moribundo escapa de morrer, a quase vi\u00fava cai em frustra\u00e7\u00e3o. Ela se sente espoliada do seu defunto e seu respectivo vel\u00f3rio. \u00c9 a mesma tristeza do alvinegro que n\u00e3o tem nenhum pretexto para solu\u00e7ar suas m\u00e1goas club\u00edsticas.&#8221;<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rio arremata:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 clube de sensibilidade mais \u00e0 flor da pele, com mais orgulho de Grande de Espanha do que o Botafogo. Eis por que ele est\u00e1 sempre disposto a topar paradas, a se meter em encrencas, a arriscar at\u00e9 a pr\u00f3pria vida por uma coisinha. Nada que o atinja e mesmo que n\u00e3o o atinja, mas que ele julgue que foi para atingi-lo, \u00e9 coisinha para ele. Ele devia ter nascido em outra \u00e9poca. \u00c9 a \u00fanica flor retardat\u00e1ria de capa-e-espada que surgiu depois de 1900.&#8221;<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o tricolor representa a emp\u00e1fia dos intelectuais acad\u00eamicos de outrora, o botafoguense emite opini\u00f5es que n\u00e3o nascem nas institui\u00e7\u00f5es e nem bebem nas teorias da academia. Falam, isso sim, de um ponto de observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrico das ruas, distantes da esfera de domina\u00e7\u00e3o institucional da elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica e s\u00e3o, ao mesmo tempo, fascinados por uma rebeldia popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que, conclui a autora, &#8220;o <i>Botafogo se op\u00f5e \u00e0s regras \u00f3bvias de um padr\u00e3o de comportamento esportivo-club\u00edstico (&#8230;) e \u00e9, entre os quatro maiores clubes do Rio, o de menor e mais fan\u00e1tica torcida.&#8221;<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tra\u00e7o mais interessante do livro \u00e9 perceber como criadores e criaturas podem se confundir. Todo torcedor tem um pouco do poeta de Fernando Pessoa, o fingidor que de fato sente a dor que finge. N\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto N\u00e9lson, M\u00e1rio Rodrigues, Saldanha, Z\u00e9 Lins, Sandro Moreira e outros, descrevem o que observam no botafoguense, no vasca\u00edno, no tricolor e no flamenguista, e at\u00e9 que ponto s\u00e3o eles que inventam esses perfis; que acabam incorporados diariamente por legi\u00f5es de fi\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro da Cl\u00e1udia, que acabo de reler, anda a merecer uma reedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>[N.do.E.1 &#8211; elite esta tamb\u00e9m conhecida em outras searas por &#8220;esquerda festiva&#8221;.]<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Foto: O Globo)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta feira, a coluna do historiador Luiz Antonio Simas comenta livro referente ao perfil das torcidas dos clubes do Rio de Janeiro. 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