{"id":18131,"date":"2013-07-05T07:19:18","date_gmt":"2013-07-05T10:19:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=18131"},"modified":"2013-07-05T07:48:57","modified_gmt":"2013-07-05T10:48:57","slug":"cinecasulofilia-tudo-bem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/07\/cinecasulofilia-tudo-bem\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &#8220;Tudo Bem&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta sexta feira, a <strong>coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, do cineasta, cr\u00edtico de cinema e professor Marcelo Ikeda<\/strong>, versa sobre um dos filmes do dubl\u00ea de cineasta e (reacion\u00e1rio) analista pol\u00edtico Arnaldo Jabor. Como sempre, publicada em parceria <span style=\"color: #ff6600;\"><a href=\"http:\/\/www.cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">com o blog de mesmo nome<\/span><\/a><\/span>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Tudo Bem<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(de Arnaldo Jabor)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente exibi TUDO BEM, o filme do Jabor, para minha turma de cinema brasileiro e fiquei espantado em perceber como o filme envelheceu ao mesmo tempo que se revela atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme envelheceu n\u00e3o apenas em suas op\u00e7\u00f5es de encena\u00e7\u00e3o \u2013 um texto excessivamente marcado com inten\u00e7\u00f5es por demais explicitadas sem sutileza, um enorme exagero caricato expresso no corpo e na voz dos atores por meio de um teatro gritado, etc. \u2013 mas especialmente em como o filme est\u00e1 por demais preso ao contexto do Brasil de sua \u00e9poca: junto com BYE BYE BRAZIL, me parece que TUDO BEM \u00e9 um dos grandes filmes brasileiros que reflete o final dos anos setenta, o fim do sonho, o fim das utopias, o desencanto com a possibilidade de transformar o pa\u00eds, e a fal\u00eancia dos intelectuais, do pr\u00f3prio cinema novo, em construir um pa\u00eds melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que para Jabor falar sobre esse desencanto ele se fecha para as possibilidades do sonho: ele simplesmente faz um diagn\u00f3stico do atraso, do arca\u00edsmo da classe m\u00e9dia e da classe pobre brasileiras, mas n\u00e3o aponta nem para as causas desse atraso nem para qualquer possibilidade de supera\u00e7\u00e3o desse estado, como se isso fosse imanente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou pior, mais do que resignar-se a um pa\u00eds de que n\u00e3o se gosta, o filme, atrav\u00e9s de seu tom de com\u00e9dia rasgada, adota um discurso cr\u00edtico niilista que muitas vezes descamba no cinismo. Assim, o tom de com\u00e9dia de TUDO BEM em muito difere do tom de com\u00e9dia de OS INCONFIDENTES, j\u00e1 que o filme de Joaquim Pedro investiga as ra\u00edzes hist\u00f3ricas desse atraso, ligado \u00e0 trai\u00e7\u00e3o, o ego\u00edsmo, \u00e0 covardia, \u00e0 pequenez, e, especialmente, \u00e0 falta de um projeto pol\u00edtico, das elites brasileiras (ou ainda, uma certa classe m\u00e9dia que buscava atingir o poder) que propuseram uma outra forma de governo, muito mais para as suas pr\u00f3prias conveni\u00eancias individuais do que por um projeto pol\u00edtico de supera\u00e7\u00e3o de um atraso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A com\u00e9dia farsesca de Joaquim Pedro estava ancorada num teatro brechtiano, de afastamento da identifica\u00e7\u00e3o dos personagens com o p\u00fablico, ou seja, num teatro pol\u00edtico. J\u00e1 em TUDO BEM me parece que se ainda vemos uma farsa com forte cr\u00edtica pol\u00edtica, e a impossibilidade de o p\u00fablico se identificar (torcer, amar) seus personagens por demais pat\u00e9ticos e caricatos, a com\u00e9dia rasgada, se tamb\u00e9m assume um tom teatral (os personagens est\u00e3o num palco representando papeis \u2013 os de empregado, patr\u00e3o, etc, para a outra classe e dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia), a refer\u00eancia me parece mais pr\u00f3xima do teatro de revista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante percebermos como, cada vez mais, \u00e0 medida em que a obra prossegue, o dia-a-dia dessa fam\u00edlia se revela um verdadeiro pandem\u00f4nio, a casa vira um microcosmo de um pa\u00eds, e o pr\u00f3prio filme vai se espiralando, tornando-se cada vez mais ca\u00f3tico, preenchido basicamente por esquetes independentes, em que os atores funcionam muito mais como presen\u00e7a c\u00eanica, com performances c\u00eanicas, do que propriamente com uma dramaturgia coesa. Talvez esse seja o grande m\u00e9rito do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou ainda, o que faz num certo ponto o filme se aproximar da chanchada, ou ainda, se aproximar do cinema marginal (o sujo, o feio, o grotesco, a fragmenta\u00e7\u00e3o, as esquetes aut\u00f4nomas, o cinema poss\u00edvel, as performances c\u00eanicas). Um exemplo t\u00edpico, talvez o \u00e1pice dessa presen\u00e7a do cinema marginal, \u00e9 quando a personagem da Zez\u00e9 Motta (uma empregada) faz um \u201cshow musical\u201d na cozinha cantando \u201cComo nossos pais\u201d: esse \u201cn\u00famero musical\u201d improvisado se revela quase como uma par\u00f3dia dos pr\u00f3prios n\u00fameros musicais da chanchada, e nessa revisita\u00e7\u00e3o da chanchada, se aproxima do cinema marginal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa aproxima\u00e7\u00e3o se d\u00e1 muito nesse desejo de o filme tocar num certo nacional-popular, num cinema que busca uma comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, ainda que um lado meio apelativo, de mau gosto. \u00c9 o cinema poss\u00edvel, num pa\u00eds que j\u00e1 se deixou de sonhar, busca-se um cinema pragm\u00e1tico, um cinema da sobreviv\u00eancia. Desencanto e pragmatismo que torna a experi\u00eancia de ver TUDO BEM hoje, trinta e cinco anos depois, uma experi\u00eancia, mais do que triste, melanc\u00f3lica, dif\u00edcil, mas que nos gera um enorme mal estar. E que por isso se revela assim, atual, pela forma an\u00e1rquica como o filme critica o atraso de um pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira, a coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, do cineasta, cr\u00edtico de cinema e professor Marcelo Ikeda, versa sobre um dos filmes do dubl\u00ea de cineasta eTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,24],"class_list":["post-18131","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18131\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}