{"id":17977,"date":"2013-06-17T06:51:41","date_gmt":"2013-06-17T09:51:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17977"},"modified":"2013-06-15T11:18:21","modified_gmt":"2013-06-15T14:18:21","slug":"historias-brasileiras-baderna-e-as-laranjas-da-sabina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/06\/historias-brasileiras-baderna-e-as-laranjas-da-sabina\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias Brasileiras &#8211; &#8220;Baderna e as laranjas da Sabina&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta segunda feira e em tempos de manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas,<strong> a coluna &#8220;Hist\u00f3rias Brasileiras&#8221;, do historiador e professor Luiz Antonio Simas<\/strong>, nos traz uma deliciosa hist\u00f3ria de protestos populares ocorrida no final do S\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Baderna e as laranjas da Sabina<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabina era uma quitandeira famosa, provavelmente ex-escrava, que trabalhava nas ruas do Rio de Janeiro nos idos de 1889, ano em que a Monarquia foi pro belel\u00e9u e o Brasil virou Rep\u00fablica, no golpe de 15 de novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes da queda de D. Pedro II, mais precisamente em julho, alguns estudantes da Escola de Medicina, republicanos at\u00e9 os ossos e principais clientes das laranjas Sabina, resolveram alvejar com os baga\u00e7os das frutas do tabuleiro da vendedora a carruagem do Visconde de Ouro Preto, figura imponente do Imp\u00e9rio, que cruzou \u00e0 frente da escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 seguinte, o subdelegado da regi\u00e3o chegou com uns meganhas e, aos berros, expulsou Sabina do ponto, al\u00e9m de apreender seu tabuleiro e levar as laranjas sabem os deuses pra onde. Amea\u00e7ou, ainda, prender os estudantes e descer a lenha em quem fizesse baderna em via p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui cabe um par\u00eantese: a express\u00e3o &#8216;baderna&#8217; fazia tremendo sucesso no Rio de Janeiro e tem origem na hist\u00f3ria de Marietta Baderna, uma bailarina italiana que, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, chocou as senhoras da sociedade carioca ao misturar os \u201c<strong>changements de pieds\u201d <\/strong><strong>da<\/strong> dan\u00e7a cl\u00e1ssica com os requebrados sensuais e cheios de ziriguidum do lundu africano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A italianinha gostava de um fuzu\u00ea: frequentava bares depois dos espet\u00e1culos, bebia, cantava, requebrava nas cadeiras e pintava os cavacos.\u00a0 Era arretada, a mo\u00e7a. Onde a Baderna chegava, diziam os cariocas, a confus\u00e3o vinha tamb\u00e9m. Por seu comportamento, a italiana come\u00e7ou a ser boicotada pelas casas de espet\u00e1culo da cidade. Seus f\u00e3s passaram a ser conhecidos como baderneiros e faziam protestos onde Marietta n\u00e3o podia dan\u00e7ar.\u00a0 Fecha o par\u00eantese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jovens clientes de Sabina resolveram, ent\u00e3o, armar um furdun\u00e7o pac\u00edfico. Percorreram o centro da cidade com laranjas espetadas em bengalas e receberam impressionante ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o carioca. A marcha era precedida por um estandarte com uma coroa feita com bananas e leguminosas e uma faixa em homenagem ao homem da lei: <i>Ao exterminador das laranjas<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em pouco tempo, as ruas do centro estavam tomadas por manifestantes portando laranjas, bananas, ma\u00e7\u00e3s e hortifrutigranjeiros em geral. Fez-se um carnaval fora de \u00e9poca nas esquinas do Rio. Os rebeldes sa\u00edram do Largo da Miseric\u00f3rdia, percorreram a Primeiro de Mar\u00e7o e, ao entrar na Rua do Ouvidor, saudaram as reda\u00e7\u00f5es dos principais jornais cariocas. Receberam mais ades\u00f5es e vivas entusiasmados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante da rea\u00e7\u00e3o popular causada pela remo\u00e7\u00e3o da quitandeira mais famosa da cidade, o subdelegado pediu demiss\u00e3o e a chefatura de policia permitiu que a quitanda de rua voltasse a funcionar no mesmo local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Sabina virou lenda &#8211; uns dizem at\u00e9 que a punida n\u00e3o foi ela, mas outra vendedora de sua quitanda, de nome Geralda. N\u00e3o importa; Sabina estava imortalizada pela cultura das ruas cariocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1890, logo depois da queda do Imp\u00e9rio, os irm\u00e3os Arthur e Alu\u00edsio Azevedo popularizaram Sabina na revista teatral <i>A Rep\u00fablica<\/i>. O curioso &#8211; e revelador de uma \u00e9poca em que o racismo era expl\u00edcito e quase n\u00e3o havia atrizes negras &#8211; \u00e9 que a artista que representou Sabina no teatro era uma grega, tremenda branca azeda, chamada Ana Menarezzi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A can\u00e7\u00e3o <i>As Laranjas de Sabina (ao final deste artigo h\u00e1 um v\u00eddeo com uma grava\u00e7\u00e3o de 1906)<\/i>, composta para o espet\u00e1culo dos Azevedo, acabou sendo, segundo o pesquisador Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o, uma das primeiras em que a express\u00e3o mulata apareceu na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira. Eis o trechinho garboso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> \u201cOs rapazes arranjaram<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma grande passeata<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Deste modo provaram<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quanto gostam da mulata, ai&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longa vida, enfim, ao Rio de Janeiro que requebrou com Marietta Baderna e chupou as laranjas da Sabina. E que saibamos em quem e onde jogar os baga\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pepa Delgado e piano - AS LARANJAS DA SABINA - Artur Azevedo - Grava\u00e7\u00e3o de 1906\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/O5IGyl1K84I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta segunda feira e em tempos de manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas, a coluna &#8220;Hist\u00f3rias Brasileiras&#8221;, do historiador e professor Luiz Antonio Simas, nos traz uma deliciosaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[35,24,70,164],"class_list":["post-17977","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras","tag-historia","tag-politica","tag-rio-de-janeiro","tag-teatro"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17977"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17977\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}