{"id":17943,"date":"2013-06-15T09:17:33","date_gmt":"2013-06-15T12:17:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17943"},"modified":"2013-06-12T08:26:49","modified_gmt":"2013-06-12T11:26:49","slug":"buraco-da-fechadura-construcao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/06\/buraco-da-fechadura-construcao\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &#8220;Constru\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAmou daquela vez como se fosse a \u00faltima<\/em><br \/>\n<em> Beijou sua mulher como se fosse a \u00faltima<\/em><br \/>\n<em> E cada filho seu como se fosse o \u00fanico<\/em><br \/>\n<em> E atravessou a rua com seu passo t\u00edmido<\/em><br \/>\n<em> Subiu a constru\u00e7\u00e3o como se fosse m\u00e1quina\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia nem amanhecera ainda no Rio de Janeiro, mas em um barraco no morro da Roda Viva j\u00e1 havia pessoas de p\u00e9. Francisco tomava um banho gelado para poder despertar enquanto Geni, sua esposa, colocava o caf\u00e9 da manh\u00e3 na mesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um caf\u00e9 preto com p\u00e3o de ontem porque o dinheiro andava curto na casa. Mas o que Francisco queria de verdade era um copo de cacha\u00e7a para aliviar o frio do inverno carioca e seu sofrimento. Comeu o p\u00e3o devagar tentando pensar na vida enquanto Geni falava das contas que tinham que pagar e do t\u00eanis do filho mais velho, que estava furado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco mastigava como um burro comendo mato no pasto e parecia n\u00e3o ouvir o que Geni dizia. J\u00e1 conhecia o discurso da mulher e automaticamente respondia com \u201cta bem, ta bem\u201d tudo que ela contava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhou o rel\u00f3gio na parede que ficava embaixo de uma foto de Jesus Cristo e disse que tinha que ir e perguntou se a mulher passara sua roupa. Geni respondeu que sim e estava em cima do sof\u00e1 da sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com passos lentos Francisco pegou e se encaminhou ao quarto para trocar a roupa e botar o macac\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhou-se no espelho e viu suas rugas e cabelos brancos. Notou o tempo passar e ele ficar para tr\u00e1s. Todos os sonhos desfeitos, a vida que de cor de rosa n\u00e3o tinha nada: era uma pedreira que ele tinha que quebrar todos os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escovou os dentes, sentiu dor e mais uma vez resmungou que precisava ir ao dentista. Encontrou Geni com sua marmita na m\u00e3o na sala. Deu um beijo na testa da mulher desejando bom dia, lhe deu vinte reais e saiu com Geni indo acordar os filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tudo e n\u00e3o era nem seis da manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desceu o morro com os traficantes armados lhe desejando bom dia. Viu garotos de doze, treze anos com fuzis na m\u00e3o, cord\u00f5es de ouro, t\u00eanis de marca, produtos que valiam mais que tr\u00eas meses de sal\u00e1rios dele. Respondeu os cumprimentos e saiu da favela se dirigindo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de trem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sempre o trem estava quebrado. No meio daquela confus\u00e3o n\u00e3o restou alternativa a Francisco sen\u00e3o encaminhar-se ao ponto de \u00f4nibus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ve\u00edculo demorou e quando chegou veio abarrotado. Francisco em p\u00e9 viajava no \u00f4nibus e era empurrado de todas as formas. Os passageiros gritavam ao motorista que n\u00e3o dava mais ningu\u00e9m na condu\u00e7\u00e3o, mas o homem mal humorado mascava chicletes e botava mais gente pra dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma hora e meia de viagem Francisco chegava ao pr\u00e9dio que ajudava a construir, um \u2018arranha c\u00e9u\u2019 na Barra da Tijuca. Lugar dos mais ricos do Rio de Janeiro, contrastando com a pobreza a que Francisco se acostumara na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomou bronca do chefe de obras pelo atraso e pediu desculpas contando do problema com o trem. O homem disse que n\u00e3o queria desculpas e sim trabalho e logo Francisco estava com os outros companheiros virando cimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram muitos trabalhadores naquele projeto ambicioso, o maior pr\u00e9dio da Am\u00e9rica Latina. Um grande centro comercial que renderia milh\u00f5es de reais para a cidade e um sal\u00e1rio m\u00ednimo para Francisco at\u00e9 o t\u00e9rmino das obras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os homens corriam de um lado para o outro. Mexiam em cimento, tijolos, areia, pedras, subiam e desciam por andaimes. Era um enxame humano construindo algo que provavelmente nunca freq\u00fcentariam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ser inverno o Sol sa\u00edra com for\u00e7a e Francisco na altura do d\u00e9cimo quinto andar trabalhava no andaime com seu melhor amigo, o Curi\u00f3. Curi\u00f3 sonhava em ser artista e passava o tempo todo cantando animado m\u00fasicas de Roberto Carlos dizendo que seria t\u00e3o famoso quanto o rei. Francisco martelava, acimentava e s\u00f3 torcia para chegar logo seis da tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hora do almo\u00e7o os dois sentados no andaime comiam olhando a vista e Curi\u00f3 comentou que de onde veio n\u00e3o tinha nada t\u00e3o bonito. Curi\u00f3 era um daqueles nordestinos do sert\u00e3o que achavam que encontrariam o dinheiro e a felicidade no \u201cSul Maravilha\u201d, mas s\u00f3 encontrou a solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco mais velho, mais amargo s\u00f3 olhava enquanto dava colheradas no feij\u00e3o com arroz. Curi\u00f3 comentava com o amigo que ali do alto as pessoas viravam formigas de t\u00e3o pequenininhas e Francisco respondeu que pequeninos eram eles, mesmo l\u00e1 de cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de beber um pouco de \u00e1gua Francisco perguntou se o amigo tinha no\u00e7\u00e3o de quantos col\u00e9gios e faculdades ele j\u00e1 ajudara a construir com suas m\u00e3os calejadas. Curi\u00f3 respondeu que n\u00e3o e o homem contou que oito escolas e tr\u00eas faculdades. Curi\u00f3 ficou impressionado e Francisco respondeu que mesmo assim estudou apenas at\u00e9 o terceiro ano e nunca sequer sonhou nem em entrar numa faculdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curi\u00f3 resignado respondeu que a vida era assim mesmo e Francisco levantou limpando a boca e dizendo que n\u00e3o devia ser, porque eram eles que constru\u00edam o pa\u00eds e depois de inaugurado nunca mais conseguiriam entrar naquele pr\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curi\u00f3 levantou e respondeu ao amigo que isso mudaria um dia e Francisco discordou dizendo que n\u00e3o. O poder estava ai no alto daquele pr\u00e9dio e os dois juntos com todos os oper\u00e1rios daquela constru\u00e7\u00e3o estavam ali embaixo, com o tamanho de formiguinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltaram ao trabalho e ficaram ali ralando debaixo do Sol at\u00e9 as seis da tarde. Deu o tempo de sa\u00edda e eles formaram fila pra bater o ponto na sa\u00edda como se fossem soldados do ex\u00e9rcito. M\u00e1quinas prontas para serem desligadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAmou daquela vez como se fosse o \u00faltimo<br \/>\nBeijou sua mulher como se fosse a \u00fanica<br \/>\nE cada filho seu como se fosse o pr\u00f3digo<br \/>\nE atravessou a rua com seu passo b\u00eabado<br \/>\nSubiu a constru\u00e7\u00e3o como se fosse s\u00f3lido\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pegou o \u00f4nibus de volta para casa pegando um engarrafamento monstruoso, mas pelo menos conseguiu voltar sentado. Encostado \u00e0 janela viu a chuva desabar de forma intensa e observava a janela ficar molhada pelas gotas. Concentrou-se naquele ato da janela sendo molhada pela chuva caindo como se fosse a coisa mais importante do mundo e de certa forma saiu daquela cena tr\u00e1gica que ocorria com a \u00e1gua subindo e trazendo enchente, carros sendo levados e pessoas com \u00e1gua pela cintura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou ao morro e parecia que vivia em outra cidade, porque n\u00e3o ca\u00edra uma gota de \u00e1gua l\u00e1. Parou em um bar e pediu uma dose de cacha\u00e7a. Sentou-se em uma mesa de frente a rua e devagar saboreava aquele copo de pinga como se fosse vinho italiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o seu momento de prazer no meio daquela vida ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Engolia aquela cacha\u00e7a com imenso gosto, quase sendo um orgasmo. Pegou ma\u00e7o de cigarros e acendeu um soltando a fuma\u00e7a para o alto. Geni n\u00e3o deixava que o homem fumasse nem bebesse, alguns dos poucos prazeres que tinha na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Subiu a favela e entrou em casa. Deu um beijo nos filhos e perguntou pela m\u00e3e. Geni entrou na sala com balde cheio de \u00e1gua dizendo que precisava da ajuda de Francisco. Mais uma vez faltara \u00e1gua e eles teriam que pegar na biquinha no alto do morro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Francisco cansado de tanto trabalhar subiu com Geni e pegou a \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco tomou banho, jantaram sopa e depois o homem sentou em frente a TV para assistir um pouco de telejornal. L\u00e1 viu que as coisas estavam dif\u00edceis para o povo e mais um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o estourava no pa\u00eds. Quase adormecendo Francisco via o deputado na tv dizendo que as acusa\u00e7\u00f5es eram mentirosas e pensava na vida boa que aquele homem tinha, roubava o povo, o seu dinheiro e ficaria por isso mesmo enquanto ele tinha que acordar cedo e trabalhar na constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais alguns minutos e Francisco estava na cama para descansar o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 seguinte tudo igual. Francisco acordou, foi tomar banho, dessa vez com balde por a \u00e1gua n\u00e3o ter voltado. Comeu o p\u00e3o com caf\u00e9 enquanto Geni reclamava. Trocou de roupa, escovou os dentes e na hora de se despedir deu cinq\u00fcenta reais na m\u00e3o da mulher; cumprimentou os bandidos e foi pra esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez trem quebrado e teve que pegar \u00f4nibus, mas dessa vez conseguiu n\u00e3o chegar atrasado. Bateu ponto e subiu o andaime ajudando a empilhar tijolos, passando cimento e construindo paredes que guardariam as vidas e os sonhos de uma elite que nem olhava para sua cara na rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hora do almo\u00e7o estava com Curi\u00f3 no andaime olhando a vista e o amigo s\u00f3 falava no esquema de corrup\u00e7\u00e3o que vira na tv.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco ouvia e comia o frango que Geni colocara na sua marmita torcendo para chegar as seis horas. Curi\u00f3 ent\u00e3o perguntou se Francisco lembrava do Zel\u00e3o, um companheiro deles em uma obra anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco respondeu que sim e Curi\u00f3 contou que ele ca\u00edra de um andaime na constru\u00e7\u00e3o de um shopping evang\u00e9lico e estava entre a vida e a morte no hospital. Francisco perguntou como era essa hist\u00f3ria de shopping evang\u00e9lico e Curi\u00f3 respondeu que era um shopping s\u00f3 voltado ao p\u00fablico evang\u00e9lico, com produtos crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco deu uma colherada na comida e falou que a vantagem de cair de um andaime de uma constru\u00e7\u00e3o crist\u00e3 era que pelo menos Zel\u00e3o devia estar sendo cuidado por Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bateu o ponto seis da tarde na fila dos \u201csoldados m\u00e1quina\u201d e no \u00f4nibus novamente observava pela janela a vida passando do lado de fora. Chegou ao morro e bebeu sua cacha\u00e7a como se fosse um pr\u00edncipe. Bebia a pinga e se sentia bem, como se ouvisse uma m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrou em casa, deu um beijo nos filhos, na mulher, jantou e sentou-se a frente da tv que mostrava as casas, lanchas e fazendas do deputado acusado de corrup\u00e7\u00e3o. Adormeceu ali mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAmou daquela vez como se fosse m\u00e1quina<\/em><br \/>\n<em> Beijou sua mulher como se fosse l\u00f3gico<\/em><br \/>\n<em> Ergueu no patamar quatro paredes fl\u00e1cidas<\/em><br \/>\n<em> Sentou pra descansar como se fosse um p\u00e1ssaro<\/em><br \/>\n<em> E flutuou no ar como se fosse um pr\u00edncipe\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordou no dia seguinte, foi tomar banho, sentou-se para o caf\u00e9 da manh\u00e3 com Geni reclamando das contas que tinha que pagar, trocou de roupa, viu como estava velho, escovou os dentes, reclamou do dente, deu um beijo em Geni lhe dando dez reais e pedindo desculpas por ser o que ele tinha e foi para o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa vez conseguiu pegar o trem que andou por duas esta\u00e7\u00f5es e quebrou. Andou pelo trilho por um quil\u00f4metro, foi para o ponto de \u00f4nibus, pegou um super lotado e chegou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o meia hora atrasado tomando uma bronca federal do chefe de obras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estranhou a aus\u00eancia de Curi\u00f3 e perguntou aos outros oper\u00e1rios por ele. Um contou que ele tinha morrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco assustado perguntou o que ocorrera e o homem respondeu que ele chegava em casa e foi confundido com um bandido, sendo assassinado pela pol\u00edcia. Outro homem ouviu e contou que achava que Curi\u00f3 era bandido, pois foi encontrado com arma na m\u00e3o; o homem que contou a hist\u00f3ria mandou que ele deixasse de ser burro que a pol\u00edcia tinha posto a arma na m\u00e3o dele e essa era uma a\u00e7\u00e3o normal dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco calejado pela vida e suas dores sentiu o impacto da morte de Curi\u00f3 e se abalou. Voltou ao trabalho, mas n\u00e3o conseguia se concentrar. Deu uma martelada no dedo e saiu gritando palavr\u00f5es e reclamando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hora do almo\u00e7o sentou no andaime e sentiu falta do amigo, via as pessoas como formigas l\u00e1 embaixo quando o chefe de obras chamou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco perguntou o que o homem queria e o chefe contou que infelizmente devido a problemas com o dono do pr\u00e9dio ele teria que dispensar algumas pessoas e por seus atrasos Francisco estava no grupo de demitidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco ouvia a tudo sem esbo\u00e7ar rea\u00e7\u00e3o e o chefe contou que todos os seus direitos estavam resguardados e ele receberia direitinho. Quis saber se Francisco tinha alguma pergunta e o homem respondeu que n\u00e3o. O chefe ent\u00e3o contou que ele estava dispensado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco saiu e andou at\u00e9 o andaime. De l\u00e1 via os trabalhadores dispensados irem embora como m\u00e1quinas enferrujadas e o chefe de obras conversando com o dono do pr\u00e9dio. Era o deputado corrupto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O oper\u00e1rio chegou \u00e0 beira do andaime e olhou o c\u00e9u com a concentra\u00e7\u00e3o com que olhava a janela do \u00f4nibus e bebia sua cacha\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensava no sistema e como ele era cruel. Nos dava a concess\u00e3o de viver e existir, um p\u00e3o duro pra roer e uma cacha\u00e7a pra engolir, a certid\u00e3o para nascer e o andaime para cair. Tratava a todos como m\u00e1quinas construindo seus sonhos e nos dando as migalhas que formigas carregam para suas casas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco fechou os olhos, estendeu os bra\u00e7os e saltou como um p\u00e1ssaro. Caiu no meio da avenida, provocando um engarrafamento abissal. Os motoristas enfurecidos buzinavam e pediam para que se tirasse logo o corpo para cumprirem seus compromissos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morreu na contram\u00e3o atrapalhando o tr\u00e1fego.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Buarque - Constru\u00e7\u00e3o (Clipe ao Vivo) HD\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DF_XuE328eY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;. 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