{"id":17912,"date":"2013-06-08T09:53:45","date_gmt":"2013-06-08T12:53:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17912"},"modified":"2013-06-07T08:18:26","modified_gmt":"2013-06-07T11:18:26","slug":"enredo-do-meu-samba-feijoada-completa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/06\/enredo-do-meu-samba-feijoada-completa\/","title":{"rendered":"Enredo do Meu Samba &#8211; &#8220;Feijoada Completa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Enredo do Meu Samba&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Feijoada Completa<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confesso que deixei cair algumas l\u00e1grimas com a hist\u00f3ria e Maneta tamb\u00e9m emocionado comentou que o rapaz estava recuperado e que havia sido muita maldade o ocorrido. Manolo apenas comentou \u201cDeus sabe o que faz\u201d e triste com aquela hist\u00f3ria decidi ir embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte liguei para Bia e comentei sobre a feijoada no \u201cCasa de Bamba\u201d convidando a ela e Julia para me acompanharem. Bia estranhou dizendo que eu nunca fora muito apaixonado por samba, meu pai que era o membro da fam\u00edlia apaixonado; e perguntou o porqu\u00ea daquele convite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respondi que seguia o que a diretora falou e que achava uma boa estarmos mais tempo juntos, unidos. Bia concordou e perguntou se podia levar o Z\u00e9. Engoli em seco e respondi \u201ctudo bem\u201d, depois desligando injuriado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e1bado peguei meu pai e passei na casa de Bia. Minha filha veio correndo pedindo para ir conosco e Bia autorizou. Z\u00e9 saiu de dentro da casa vestindo rosa, \u00f3culos espalhafatoso e todo excitado dizendo nunca ter ido a uma feijoada com samba. Comentei com meu pai \u201ce a\u00ed?\u201d e meu coroa respondeu: \u201c\u00e9, voc\u00ea t\u00e1 certo\u201d. Assim eu, meu pai e J\u00falia em um carro e Bia e Z\u00e9 no outro nos encaminhamos para o bar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegando l\u00e1 o local j\u00e1 estava cheio e sentamos na mesa de Manolo, a \u201cmesa da diretoria\u201d como falavam. As baianas da Est\u00e1cio de S\u00e1 fizeram a feijoada e estava deliciosa.\u00a0 Comentei que h\u00e1 tempo n\u00e3o comia uma feijoada t\u00e3o boa e meu pai rindo comentou: \u201cainda bem que n\u00e3o \u00e9 a feijoada da Zez\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntei qual era o problema da tal feijoada e ele me contou mais uma grande hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zez\u00e9 era baiana da Em Cima da Hora, gloriosa escola de Cavalcanti autora de uma das maiores obras primas do nosso carnaval, o samba-enredo \u201cOs Sert\u00f5es\u201d (do compositor Edeor de Paula, que ser\u00e1 reeeditado em 2014) e a mulher desfilava na escola desde pequenina. At\u00e9 que decidiu descansar e comprou um s\u00edtio em Mag\u00e9, interior do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o descanso de Zez\u00e9 era trabalho. Ela tinha um bar na frente do s\u00edtio onde reunia quase todos os bebuns da cidade e outros do Rio que iam at\u00e9 o local matar saudades da velha baiana. A rapaziada adorava ouvir as hist\u00f3rias de Zez\u00e9 e principalmente ir at\u00e9 l\u00e1 pro \u201cbeija m\u00e3o\u201d. Ela era a madrinha de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Revelou muitos artistas de sucesso, muitos bambas hoje das escolas de samba devem seus sucessos a velha baiana ent\u00e3o quando ela realizava uma de suas famosas feijoadas no s\u00edtio o Rio de Janeiro parava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A feijoada mais famosa que existia. Reunia artistas, famosos que lhe tinham devo\u00e7\u00e3o, aspirantes com o sonho do estrelato, pol\u00edticos, jogadores de futebol. Todos se espremiam e confraternizavam para provar aquela del\u00edcia e tomar uma gelada ao som de muito partido alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feij\u00e3o era muito saboroso e levava carne de todos os tipos. Carne seca, orelha de porco, rabo de porco, p\u00e9 de porco, costelinha, paio e ling\u00fci\u00e7a portuguesa. N\u00e3o podiam faltar as cebolas grandes, o ma\u00e7o de cebolinha verde picadinho, folhas de louro, dente de alho, pimenta do reino, pinga, sal, couve, farofa e claro a laranjinha e o torresmo que d\u00e3o todo o sabor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E dependendo da quantidade de gente mais \u00e1gua no feij\u00e3o. O sonho de qualquer carioca que tenha um pouquinho de balacobaco e telecoteco nas veias era ser convidado para essa feijoada e no fim daquela semana teria mais uma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zez\u00e9 era casada com Joca, antigo compositor da Em Cima da Hora. Joca era o t\u00edpico malandro carioca. Adorador de uma pinga e de sinuca chegava altas horas da noite em casa. Rei do carteado e, dizem, das mulheres. O que provocava grandes \u201cq\u00fciproqu\u00f3s\u201d na resid\u00eancia dos baluartes do samba. N\u00e3o era raro panelas voarem pra cima de Joca e o malandro dormir do lado de fora com o cachorro lhe lambendo o focinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velha era danada e depois da velhice a coisa foi ficando s\u00e9ria. At\u00e9 queixa em delegacia Joca deu depois de apanhar da mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o tempo era de alegria, era dia de feijoada!!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Zez\u00e9 acordou cedo e pegou duas noras para ajudar.\u00a0 A Z\u00e9lia, mulher de seu filho mais velho Joquinha e a Yara, mulher de Nestor, o do meio. Norminha namorada de Dinho fugiu: essa s\u00f3 queria saber de piriguetear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A senhora colocara de molho na v\u00e9spera as carnes j\u00e1 salgadas e na manh\u00e3 do evento levou o feij\u00e3o preto ao caldeir\u00e3o com bastante \u00e1gua. Em outra panela ferveu os ingredientes postos de molho e j\u00e1 no fim da manh\u00e3 na companhia das noras juntava o refogado feito \u00e0 parte e deixava ferver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\">Os convidados chegavam e dona Zez\u00e9 recebia a todos com sorriso aberto. Joquinha e Nestor chegavam com os engradados de cerveja e Dinho preparava a caipirinha que nunca pode faltar a uma feijoada. Era uma grande festa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma roda de samba foi montada misturando sambistas da velha e da nova gera\u00e7\u00e3o. Mulatas faceiras sambavam e a caipirinha batia bem na garganta acompanhada da cacha\u00e7a e da cerveja. O torresmo enganava a fome dos convidados enquanto a feijoada ficava pronta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Zez\u00e9 deixou as noras tomando conta da cozinha e pegou o microfone para cantar sambas antigos da Em Cima da Hora e do Imp\u00e9rio Serrano, sua segunda escola. A escola do morro da Serrinha, fundada em 1947, \u00e9 in\u00fameras vezes campe\u00e3 do carnaval carioca e uma das escolas mais tradicionais e respeitadas. Dona de um acervo fant\u00e1stico de sambas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada vez mais convidados chegavam e escutavam logo na entrada a voz aveludada de dona Zez\u00e9. Candidatos a c\u00e2mara dos deputados misturavam-se a b\u00eabados sem identidade que eram apenas conhecidos por apelidos. Um deles, o Xex\u00e9u era metido a poeta e adorava declamar suas poesias no meio do samba. O homem parecia incorporar Vinicius de Moraes com o microfone na m\u00e3o e declamava sonetos que misturavam lirismo e cacha\u00e7a, dizia-se n\u00e3o um parnasiano, mas um \u201cbeberziano\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Z\u00e9 Gaguinho era cantor apesar do nome. Era dif\u00edcil e nervoso conversar com o homem que mal conseguia pronunciar as palavras. Mas quando soltava a voz para cantar era uma transforma\u00e7\u00e3o. Z\u00e9 Gaguinho tinha uma voz grave, poderosa e dizia com orgulho cantar parecido com Nelson Gon\u00e7alves. E o danado cantava bem mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neg\u00e3o do Frete era um sujeito muito engra\u00e7ado que lembrava o Mussum. Dono de uma gargalhada contagiante contava piadas como ningu\u00e9m. At\u00e9 o Costinha teria a aprender com o jeito do Neg\u00e3o contar piadas: ele incorporava o personagem e fazia todos acreditarem que a hist\u00f3ria era real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha o pastor Eug\u00eanio, sujeito s\u00e9rio, homem de Deus que adorava comer sua feijoada com suco de acerola, a Lady Batalh\u00e3o, \u00fanico travesti da regi\u00e3o que se emperiquitava todo para ir a feijoada parecendo ir numa festa de quinze anos. Detalhe: era filha do pastor. E o Moreirinha, famoso 171 de Mag\u00e9 que contava mentiras absurdas como se fosse verdade como no dia que ele jurou ajudar Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz a terminar uma m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi chegando gente, mais \u00e1gua no feij\u00e3o..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deputado Clementino precisava se reeleger e, claro, foi \u00e0 feijoada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo mundo sabia que ele odiava povo, por isso aplaudiam alto de forma ir\u00f4nica seu discurso. No fim o deputado foi de pessoa em pessoa entregar seu \u201csantinho\u201d de campanha e pegou in\u00fameras crian\u00e7as melequentas e choronas no colo fingindo a felicidade de tomar um vinho em Paris.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos estranhavam a aus\u00eancia de Joca. Dona Zez\u00e9 de forma s\u00e9ria respondia que botara o safado para correr, mas nenhum convidado levava a s\u00e9rio e rindo comentavam que daqui a pouco ele estava de volta mais uma vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O delicioso cheiro da feijoada j\u00e1 exalava por todo o s\u00edtio e o samba comia solto com medalh\u00f5es da MPB fazendo duetos e improvisando com os jovens num espa\u00e7o democr\u00e1tico. Quase na hora da comida chegaram alguns jogadores de futebol dos quatro grandes times do Rio que sentaram na roda e pegaram tamborins, tant\u00e3s e surdo de marca\u00e7\u00e3o como qualquer outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que a hora chegou. As panelas foram colocadas em mesas na varanda e a fila enorme foi montada sem privil\u00e9gios. As pessoas batucavam com os talheres nos pratos felizes cantando sambas enquanto dona Zez\u00e9 e as noras serviam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como sempre a feijoada estava maravilhosa. Todos elogiavam dona Zez\u00e9 e comentavam pela carne estar ainda melhor naquela tarde. A senhora respondia que fizera de um jeito diferente e recebia elogios entusiasmados. Xex\u00e9u subiu em uma cadeira e de improviso declamou uma poesia em homenagem \u00e0 feijoada dizendo que a feijoada era o Brasil que dava certo: em cada gr\u00e3o de feij\u00e3o ou peda\u00e7o de carne estava a alma e o cora\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deputado Clementino mandou que um assessor anotasse para usar aquelas frases na campanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m conseguiu comer um prato s\u00f3, repetiam uma, duas vezes. Fazia um calor infernal no Rio de Janeiro, mas ningu\u00e9m se importava. O que importava era a feijoada!! A comida dos Deuses!!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E de qualquer jeito a cerveja amenizava o calor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele dia bacana passava. As pessoas felizes conversavam, paqueravam, cantavam, batucavam e sambavam. Dona Zez\u00e9 sentou na roda e pegou um chocalho para acompanhar os sambistas. Uma equipe de tv da Alemanha chegou no s\u00edtio para fazer uma reportagem mostrando duas paix\u00f5es do brasileiro, o samba e a feijoada. Moreirinha se ofereceu como tradutor, mas ningu\u00e9m sabia se o 171 estava traduzindo s\u00e9rio ou s\u00f3 dando mais um golpe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Zez\u00e9 mostrou todo o s\u00edtio, os convidados e as panelas quase vazias com os produtos de sua feijoada. A rep\u00f3rter, uma loira que j\u00e1 estava com rosto vermelho e suando em bicas por causa do calor queria saber os segredos da feijoada e o tipo de carne que ela usava, mas dona Zez\u00e9 respondeu que era segredo. A f\u00f3rmula era s\u00f3 dela e morreria com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabou convidando a equipe da emissora alem\u00e3 para provar a feijoada fazendo um prato pra cada um. Nestor fez a caipirinha e os alem\u00e3es ficaram loucos com os sabores.\u00a0 O samba rolava com as pessoas ainda estranhando a aus\u00eancia de Joca achando que era uma briga boba e rapidamente ele entraria na feijoada, mas nada do homem chegar. Era a primeira vez que ele n\u00e3o participava do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que um carro da pol\u00edcia parou na frente do s\u00edtio e os policiais entraram. Yara pediu que Cleide fosse ver se ainda tinha feijoada, mas dona Zez\u00e9 mandou que esperasse: talvez o motivo fosse outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os policiais se aproximaram e dona Zez\u00e9 perguntou em que poderia ajudar. Um deles contou que receberam den\u00fancia an\u00f4nima que ocorrera um assassinato na casa. Nesse momento o pagode parou, tudo parou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos prestavam aten\u00e7\u00e3o no que dona Zez\u00e9 tinha a falar, at\u00e9 Xex\u00e9u ficou bom da bebedeira. Dona Zez\u00e9 pediu que o policial prosseguisse e ele continuou dizendo que pela den\u00fancia ela teria matado o marido e jogado o corpo para os cachorros em seu canil. Todos ouviam a hist\u00f3ria abismados quando dona Zez\u00e9 serena respondeu que aquilo n\u00e3o era verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes que as pessoas se aliviassem ela respondeu que s\u00f3 jogara os ossos para os cachorros. O policial perguntou onde tinha parado o restante do corpo. Dona Zez\u00e9 com olhar frio de psicopata apontou para as panelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estarrecidos, um olhava para o outro come\u00e7ando a vomitar enquanto dona Zez\u00e9 era algemada e levada para a delegacia. A feijoada daquela tarde se encerrava e de alguma forma os convidados descobriam que Joca estava presente no evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela turma toda que se esbaldou e fez fila para cair de boca no feij\u00e3o e na carne agora fazia fila no hospital de Saracuruna&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9..aquela feijoada n\u00e3o caiu bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E vamos botar \u00e1gua no feij\u00e3o..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos sambistas do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Enredo do Meu Samba&#8221;. 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