{"id":17758,"date":"2013-05-24T05:07:14","date_gmt":"2013-05-24T08:07:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17758"},"modified":"2013-05-23T15:19:57","modified_gmt":"2013-05-23T18:19:57","slug":"cinecasulofilia-conto-dos-crisantemos-tardios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/05\/cinecasulofilia-conto-dos-crisantemos-tardios\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &#8220;Conto dos Cris\u00e2ntemos Tardios&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta sexta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda. Como sempre, publicada em parceria com o blog de mesmo nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><b>Conto dos Cris\u00e2ntemos Tardios<\/b><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>de Kenji Mizoguchi<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro filme de consagra\u00e7\u00e3o da maturidade de Mizoguchi, realizado em 1939, curiosamente o mesmo ano de A regra do jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois filmes bem diferentes; dois filmes bem semelhantes. Dois filmes sobre o processo de representa\u00e7\u00e3o: a vida \u00e9 o maior dos palcos do teatro. Dois filmes que utilizam de estrat\u00e9gias de encena\u00e7\u00e3o mais realistas (especialmente a profundidade de campo) justamente para problematizar a constru\u00e7\u00e3o do realismo na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o tom farsesco, burlesco de Renoir se afasta do olhar rigoroso, do cinema \u00e9tico de Mizoguchi. Se CRIS\u00c2NTEMOS TARDIOS \u00e9 sem d\u00favida um filme sobre as tens\u00f5es entre vida e representa\u00e7\u00e3o, ou ainda, sobre os limites sombrios entre cria\u00e7\u00e3o e vida, outra faceta do filme \u00e9 sem d\u00favida entre seguir ou trair a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Mizoguchi, eterno japon\u00eas, n\u00e3o consegue ter uma rela\u00e7\u00e3o de avers\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o: se de um lado seu filme transpira uma imensa insatisfa\u00e7\u00e3o com o cheiro embolororado dos rituais anacr\u00f4nicos do passado, Mizoguchi \u201cquer mudar para continuar o mesmo\u201d. Me parece que Mizoguchi v\u00ea essa velha trupe de teatro como fariseus, e que s\u00f3 se deve desmascarar a tradi\u00e7\u00e3o quando, embolorada, ela n\u00e3o deixa transparecer a ess\u00eancia dos eternos valores da voca\u00e7\u00e3o do artista e da sua obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Mizoguchi n\u00e3o consegue romper com a tradi\u00e7\u00e3o \u2013 pelo menos com os valores de uma tradi\u00e7\u00e3o do teatro n\u00f4 e do kabuki orientais \u2013 ele precisa romper com a superf\u00edcie de bolor, com essa casca, para fazer sua arte renascer. E assim Mizoguchi \u201cinaugura\u201d o cinema moderno no Jap\u00e3o do entreguerras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os longos planossequ\u00eancias de CRIS\u00c2NTEMOS TARDIOS mostram penumbras, \u00e1reas de sombras pelas quais esse personagem pode caminhar. Ele perambula por um palco (palco entre palcos), do palco do teatro para o palco dos est\u00fadios em que esse pr\u00f3prio filme \u00e9 filmado: esse personagem que n\u00e3o parece ser dono da sua pr\u00f3pria vida, que rompe com o que se espera dele para, no final, \u201ccumprir o seu destino\u201d e fazer exatamente o que se espera dele. Uma marionete que perambula como um son\u00e2mbulo pelos palcos montados por Mizoguchi, em enormes travellings e em grandes angulares extremamente at\u00edpicas para a \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando perambula nesse palco, o cinema de Mizoguchi se aproxima do teatro, e ao mesmo tempo se afasta dele (teatro, vida, cinema, \u00e9 dif\u00edcil dizer&#8230;). Ou ainda, de palco em palco, n\u00e3o sabemos onde ele come\u00e7a ou onde termina \u2013 essa \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o \u201cmoderna\u201d de CRIS\u00c2NTEMOS TARDIOS.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou, poder\u00edamos dizer de outra forma: a modernidade do filme est\u00e1 quando perguntamos ao final: quem \u00e9 de fato esse personagem? At\u00e9 que ponto ele \u00e9 livre? At\u00e9 que ponto ele p\u00f4de viver sua pr\u00f3pria vida, ou viveu a vida de um personagem de si mesmo? Muito mais poderia (deveria) ser dito sobre esse filme, como, por exemplo, sobre o papel da personagem feminina \u2013 a verdadeira protagonista do filme. Nos seus filmes \u00e1ureos dos anos cinquenta, Mizoguchi vai retomar, de v\u00e1rias perspectivas, esses olhares: em CONTOS DA LUA VAGA, em INTENDENTE SANSHO, em A VIDA DE OHARU, em mais alguns outros. O gesto nobre de Otoku. O gesto nobre de Mizoguchi (e Yoda).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o que consagra a \u201cressurrei\u00e7\u00e3o\u201d de Kikunosuke, Otoku se retira do \u201cbackstage\u201d e sai da casa de espet\u00e1culos, caminha lentamente at\u00e9 cair agachada junto a uma \u00e1rvore. S\u00e3o nesses momentos \u00e9 que fica mais que claro o cinema \u00e9tico de Mizoguchi. Em optar, nesse momento, em acompanhar a consci\u00eancia dessa personagem, do seu fim. (S\u00e3o os dois planos \u2013 ver abaixo a partir de 1h44min).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Crisantemos Tardios - 1939 - Filme Completo Legendado\" width=\"525\" height=\"394\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fYp_HxI2-PA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo cineasta, cr\u00edtico e professor de cinema Marcelo Ikeda. Como sempre, publicada em parceria comTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[13,12,11],"class_list":["post-17758","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinecasulofilia","tag-cinema","tag-cultura","tag-marcelo-ikeda"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17758"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17758\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}