{"id":17702,"date":"2013-05-17T19:49:22","date_gmt":"2013-05-17T22:49:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17702"},"modified":"2013-05-17T19:49:22","modified_gmt":"2013-05-17T22:49:22","slug":"lacombianas-nao-contem-amarilla","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/05\/lacombianas-nao-contem-amarilla\/","title":{"rendered":"Lacombianas &#8211; &#8220;N\u00e3o cont\u00e9m Amarilla&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em edi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria,<strong> a coluna &#8220;Lacombianas&#8221;, da jornalista Milly Lacombe<\/strong>, nos conta uma noite de quarta feira com muitas emo\u00e7\u00f5es sob a \u00f3tica de uma torcedora corintiana &#8211; e um final n\u00e3o t\u00e3o feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>N\u00e3o cont\u00e9m Amarilla<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que torcemos? Para que nos esgoelamos por um gol quando bastava que capt\u00e1ssemos no ar que aquela seria uma noite de destinos decididos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 n\u00e3o tinha ficado muito evidente desde o minuto cinco que Amarilla n\u00e3o deixaria o Corinthians sair do Pacaembu com uma vit\u00f3ria? Seja por incompet\u00eancia, por m\u00e1 vontade ou por coisa muito pior e ainda mais grotesca. N\u00e3o era essa a sensa\u00e7\u00e3o que pairava no ar como neblina em uma noite fria de outono? Quem estava no est\u00e1dio viu a poeira passando. Eu vi a poeira passando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o torcedor \u00e9 um otimista, um ing\u00eanuo, um infeliz, mesmo o mais pessimista, maduro e afortunado. E s\u00f3 aos 43 minutos do segundo tempo parec\u00edamos ter, coletivamente, entendido a trag\u00e9dia. Est\u00e1vamos fora. Fora porque um trio de arbitragem assim decidiu. N\u00e3o perdemos para o Boca, perdemos para Amarilla e sua gangue, que erraram e erraram e erraram e erraram e erraram \u2013 e ent\u00e3o erraram uma definitiva vez. Seja por incompet\u00eancia, por implic\u00e2ncia ou por motivo muito mais grotesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o me venham os devotos do pragmatismo dizer que o Corinthians sacramentou sua sorte em Buenos Aires, quando jogou acovardadamente. Se \u00e9 para analisar com dados, fatos e n\u00fameros \u00e9 muito mais razo\u00e1vel escolher o \u201cperdemos porque o juiz errou imperialmente contra um mesmo time no m\u00ednimo quatro vezes durante um mesmo jogo\u201d, ou at\u00e9 o apaixonado \u201cperdemos porque fomos roubados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diabo \u00e9 que o juiz pilantra quando est\u00e1 a fim de encrencar \u2013 seja por incompet\u00eancia, implic\u00e2ncia ou op\u00e7\u00e3o mais grotesca \u2013 n\u00e3o erra apenas na grande jogada: erra nas pequenas, e desde muito cedo. Vai invertendo faltas e laterais, amarelando jogador que recebeu a falta ou reclamou corretamente, interrompendo o jogo a todo o instante na tentativa de calar a arquibancada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim que juiz malandro \u2013 seja por incompet\u00eancia, implic\u00e2ncia ou op\u00e7\u00e3o mais grotesca \u2013 mina um time.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi o que aconteceu no dia 15 de maio de 2013 no Pacaembu. Estava escrito h\u00e1 dez mil anos que o Corinthians n\u00e3o venceria o Boca naquela noite. Deixemos pra l\u00e1 o erro \u2013 seja por incompet\u00eancia, implic\u00e2ncia ou op\u00e7\u00e3o mais grotesca \u2013 contra o Tijuana, quando o trio de arbitragem, que n\u00e3o continha Amarilla, validou um gol com triplo impedimento. O Corinthians j\u00e1 teve um gol contra validado com quint\u00faplo impedimento, ocasi\u00e3o em que teria que vencer o Cianorte por quatro gols de diferen\u00e7a pela Copa do Brasil. Mas essa era uma noite diferente, que n\u00e3o continha Amarilla nem Conmebol, e o Corinthians fez o imposs\u00edvel. O Corinthians, esse iconoclasta, esse time que n\u00e3o entende o que \u00e9 imposs\u00edvel, foi l\u00e1 e fez, numa das viradas mais espetaculares e emocionantes que j\u00e1 vi dentro de um est\u00e1dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, mas voltam os devoradores de dados e n\u00fameros e estat\u00edsticas, o Corinthians \u00e9 o time que mais ganha roubado. De onde veio essa? Mostrem-me os n\u00fameros, idiotas da objetividade. Depois mostrem-me um time que nunca ganhou ou perdeu por erro de arbitragem \u2013 seja por incompet\u00eancia, implic\u00e2ncia ou op\u00e7\u00e3o ainda mais grotesca. E, ainda que um cientista vestido de jaleco branco venha com os n\u00fameros, uso e adapto Nelson Rodrigues: os n\u00fameros s\u00e3o burros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Burros porque n\u00e3o se pode medir paix\u00e3o. Burros porque n\u00e3o se pode provar uma sensa\u00e7\u00e3o, uma impress\u00e3o, uma percep\u00e7\u00e3o constru\u00edda a partir de desejos pr\u00e9-estabelecidos, de pr\u00e9-conceitos, de percep\u00e7\u00f5es. Burros porque voc\u00ea n\u00e3o pode sequer pensar em tratar o mais subjetivo dos esportes \u2013 o futebol \u2013 de forma cartesiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para pessoas como essas, o inferno tem que reservar um lugar especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou citar algu\u00e9m que explicou a vida e os homens bastante melhor e mais brilhantemente do que eu estou tentando, desse jeito destrambelhado, fazer. Vou citar E\u00e7a de Queir\u00f3s: \u201c<em>Apesar de s\u00e9culos de geometria me afirmarem que a linha reta \u00e9 a mais curta dist\u00e2ncia entre dois pontos, se eu achasse que para subir da porta do hotel Universal \u00e0 porta da Casa Havanesa me sa\u00eda mais direto e breve rodear pelo bairro de S\u00e3o Martinho e pelos Altos da Gra\u00e7a, declararia logo \u00e0 secular geometria que a dist\u00e2ncia mais curta entre dois pontos \u00e9 uma curva vadia e delirante\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, homens e mulheres, n\u00e3o somos seres que funcionam racionalmente. Somos emo\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 o futebol. Como \u00e9 a vida. O time mais prejudicado da hist\u00f3ria, a despeito de dados e planilhas e gr\u00e1ficos e contas exatas, ser\u00e1 sempre o seu. O mais ajudado, a despeito de fatos e dados e matem\u00e1ticas, sempre o grande rival. E da\u00ed que o time que perdeu teve mais posse de bola? E da\u00ed que o campe\u00e3o foi o \u00faltimo na etapa classificat\u00f3ria? E da\u00ed que o time que mais encantou perdeu na final? E da\u00ed que aquele time nunca venceu jogando de cal\u00e7\u00f5es brancos em partidas que come\u00e7am depois que o sol se p\u00f4s?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem busca por estat\u00edsticas e justi\u00e7a precisa urgentemente mudar de esporte e ir torcer no baseball, golfe ou xadrez. Futebol \u00e9 arrebatadoramente sedutor porque \u00e9 o \u00fanico esporte t\u00e3o injusto quanto a vida. Quem diz \u201co time A mereceu vencer\u201d n\u00e3o entende o jogo. O verbo \u201cmerecer\u201d n\u00e3o tem lugar na an\u00e1lise futebol\u00edstica. A bem da verdade, a an\u00e1lise n\u00e3o tem lugar na futebol\u00edstica. Futebol n\u00e3o \u00e9 n\u00famero. Futebol n\u00e3o \u00e9 matem\u00e1tica. Futebol n\u00e3o \u00e9 justo. Futebol, ali\u00e1s, \u00e9 uma merda \u2013 como \u00e9 a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, s\u00f3 o futebol pode provocar rea\u00e7\u00f5es que n\u00e3o encontram s\u00edmbolos, signos e letras para serem traduzidas. Na mesma noite em que a vontade do irracional que nos habita \u00e9 descobrir o endere\u00e7o do Amarilla e fazer ele confessar, sob a mira de uma bazuca, o roubo premeditado voc\u00ea se pega envolvido por uma passa de 40 mil pessoas que, depois do apito final, canta como se o time tivesse vencido. Na mesma noite em que a vontade de chorar pelo desespero que s\u00f3 a injusti\u00e7a provoca inunda todas as suas c\u00e9lulas, o pranto que voc\u00ea deixa sair \u00e9 o de amor porque, mesmo depois de ver seu time ser imperialmente tungado durante 90 minutos, tem a seu lado 40 mil malucos que resolvem cantar alucinada e apaixonadamente em homenagem \u00e0 camisa que amam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E aquele voz que \u00e9 formada pela jun\u00e7\u00e3o de 40 mil outras vozes provoca uma esp\u00e9cie de transe coletivo, um pequeno mas poderoso vest\u00edgio de Deus. Nessa hora o jogo entra em perspectiva at\u00e9 para o mais pragm\u00e1tico; danem-se os n\u00fameros, a posse de bola, os escanteios, os erros, os roubos, os equ\u00edvocos, os deslizes. O que importa \u00e9 sentir, \u00e9 deixar que aquela voz amalucada e cheia de paix\u00e3o ecoe pelo universo, cantando depois da derrota como se o time tivesse acabado de ser campe\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E da\u00ed que a torcida do Corinthians n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica no mundo capaz de ficar quase meia hora vibrando dentro do est\u00e1dio depois de ver seu time eliminado? O fato de talvez haver outras torcidas t\u00e3o loucas diminui a grandeza do que aconteceu na quarta feira \u00e0 noite no Pacaembu? Qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de amor, coletiva ou individual, deveria ser vista \u2013 e sentida \u2013 como um vest\u00edgio de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos n\u00f3s que amamos o jogo j\u00e1 tivemos, dentro de um est\u00e1dio, a sensa\u00e7\u00e3o de que deve haver algo maior a nos unir, a nos embalar, a justificar tanta dor e sofrimento. Um Amarilla nunca vencer\u00e1 o Corinthians. Dois gols equivocadamente anulados e dois penaltis n\u00e3o marcados nunca interromper\u00e3o o destino de um time. Somos infinitamente pequenos para enxergar a fotografia em toda a sua amplitude: a vida, o futebol, \u00e9 muito mais do que uma grande dor, ou duas, ou tr\u00eas, ou vinte ou cem. A vida \u00e9 o que acontece quando voc\u00ea se deixa pular e cantar de emo\u00e7\u00e3o e amor depois de uma derrota dolorida e injusta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizes aquelas tribos que enterram seus membros com festas, dan\u00e7as e c\u00e2nticos. Porque, como um torcedor apaixonado, eles entendem que n\u00e3o acabou. Nunca acaba. E \u00e9 para isso que vamos ao est\u00e1dio, e torcemos e gritamos e vibramos: para que tenhamos, ainda que por 90 minutos, a sensa\u00e7\u00e3o de que nunca acaba, e de que somos feitos de uma mesma subst\u00e2ncia, e de que somos parte de uma coisa s\u00f3, e de que, afinal, sabemos e podemos amar mesmo diante das piores e mais tr\u00e1gicas circunst\u00e2ncias. \u00c9 o que nos aproxima de Deus, se \u00e9 que ele existe. Porque \u00e9 Deus, se \u00e9 que ele existe, que sabe amar mesmo sob as mais tr\u00e1gicas e inexplic\u00e1veis circunst\u00e2ncias, n\u00e3o \u00e9? Como um torcedor de futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ganhar \u00e9 delicioso, mas perder \u00e9 fundamental porque mostra do que somos verdadeiramente feitos. Ent\u00e3o, em resumo, o que eu queria mesmo dizer \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chupa, Amarilla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>[N.do.E.: pessoalmente, teria anulado um dos gols, mas a colunista tem total raz\u00e3o em reclamar da arbitragem. E, como Flamengo que sou, entendo esta rela\u00e7\u00e3o visceral entre a torcida e o time&#8230;]<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em edi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, a coluna &#8220;Lacombianas&#8221;, da jornalista Milly Lacombe, nos conta uma noite de quarta feira com muitas emo\u00e7\u00f5es sob a \u00f3tica de umaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[45],"tags":[37,6],"class_list":["post-17702","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lacombianas","tag-futebol","tag-vida-cotidiana"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17702\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}