{"id":17697,"date":"2013-05-29T06:51:03","date_gmt":"2013-05-29T09:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17697"},"modified":"2013-05-27T22:53:13","modified_gmt":"2013-05-28T01:53:13","slug":"tou-melanje-anko-o-combinado-amarelo-da-cbf-e-o-fim-da-selecao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/05\/tou-melanje-anko-o-combinado-amarelo-da-cbf-e-o-fim-da-selecao-brasileira\/","title":{"rendered":"Tou melanje ank\u00f2 &#8211; &#8220;O Combinado Amarelo da CBF e o fim da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Nesta quarta feira a coluna<b> Tou melanje ank\u00f2<\/b>, do <strong>antrop\u00f3logo Jos\u00e9 Renato Baptista<\/strong>, a partir de epis\u00f3dio ocorrido em sua passagem no Haiti discorre sobre o amor dos locais pela Sele\u00e7\u00e3o Brasileira e compara com seu pr\u00f3prio desinteresse pela \u201cCanarinho\u201d<b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><b>O Combinado Amarelo da CBF e o fim da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira<\/b><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nelson Rodrigues afirmou, l\u00e1 pelos idos dos anos 50, que \u201ca sele\u00e7\u00e3o \u00e9 a p\u00e1tria de chuteiras\u201d. Talvez fosse naquela \u00e9poca. Talvez seja ainda, para quem acredita em p\u00e1tria. Como sugere Caetano, eu prefiro \u201cm\u00e1tria\u201d ou \u201cfr\u00e1tria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que j\u00e1 tem um tempo que venho verificando um crescente desinteresse com aquele combinado formado em sua maioria por jogadores nascidos no Brasil, formado pela CBF, que joga com o uniforme amarelo que parece um pouco com aquele da \u201cSele\u00e7\u00e3o Canarinho\u201d. \u00c9 claro que devem existir dezenas de explica\u00e7\u00f5es diferentes para tal desinteresse. Eu n\u00e3o pretendo list\u00e1-las ou investigar este assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, de fato, um desencanto, que vem desde a estranha final da Copa de 98, quando a melhor das teorias conspirat\u00f3rias foi elaborada: o Brasil entregaria aquela copa para a dona da casa, Fran\u00e7a, e teria ganhado o direito de vencer a Copa de 2002 e de sediar a Copa de 2014. Houve jogador dizendo que n\u00e3o podia contar o que aconteceu, CPI para investigar este fato. Um monte de bobagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas depois de 2002, especialmente quando na Copa de 2006, a sele\u00e7\u00e3o brasileira viveu seu momento de \u201cpop star\u201d, e foi derrotada de maneira acachapante pela mesma fran\u00e7a de 1998 \u2013 mesma porque foi o mesmo Zidane quem colocou nosso time fora de forma e desinteressado no bolso, no mais belo canto de cisne de um jogador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho maravilhosa a imagem de Zidane deixando o campo expulso na final daquela Copa. Tr\u00e1gica e agon\u00edstica, como a vida. \u00c9 for\u00e7oso dizer que, mesmo tendo Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho naquela mesma \u00e9poca, Zidane disputou palmo a palmo o lugar de grande g\u00eanio daquela gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que a \u00faltima vez em que torci pela sele\u00e7\u00e3o brasileira, com algum interesse, foi na copa de 2002. Em 2006, acusei o golpe da decep\u00e7\u00e3o. No entanto, quando cheguei ao Haiti no fim daquele ano, a sele\u00e7\u00e3o brasileira era a imagem mais conhecida do Brasil. Os haitianos n\u00e3o falavam do Brasil da miss\u00e3o da ONU, das tropas ocupando o pa\u00eds, especialmente a sua capital. A maioria deles falava de Ronald\u00f4, Ronaldinh\u00f4, Kak\u00e1, Rivald\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sele\u00e7\u00e3o havia ido ao pa\u00eds em 2005 e feito um jogo beneficente no Est\u00e1dio Silvio Cator, no centro de Porto Pr\u00edncipe (foto). Ali, naquele local, pr\u00f3ximo do grande cemit\u00e9rio da cidade e do Portail Leogane, a sa\u00edda da cidade para a regi\u00e3o sul do pa\u00eds, onde fica a esta\u00e7\u00e3o dos \u00f4nibus, vans e <i>tap taps<\/i> para Les Cayes, J\u00e9remie, Jacmel, Leogane, foi ali que a sele\u00e7\u00e3o brasileira com estes jogadores conquistou de modo definitivo o cora\u00e7\u00e3o do povo haitiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bem verdade que concorremos no cora\u00e7\u00e3o haitiano com os argentinos, nossos eternos rivais continentais. L\u00e1, no entanto, a rivalidade chega a tal paroxismo, que h\u00e1 conflitos violentos nos bairros populares de Cit\u00e9 Soleil, e da capital Porto Pr\u00edncipe, especialmente em Bel Air, onde <i>\u201cbrasileiros\u201d<\/i> e <i>\u201cargentinos\u201d<\/i> se enfrentam, em confrontos que podem, inclusive, causar mortes. Por\u00e9m, apesar da concorr\u00eancia, at\u00e9 2009 ainda \u00e9ramos os preferidos dos haitianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certo modo, naquele pa\u00eds as pessoas s\u00e3o apaixonadas por futebol. Os jogos da Champions League chegam a eles com bastante frequ\u00eancia, apesar dos poucos aparelhos de televis\u00e3o e do d\u00e9ficit de energia el\u00e9trica no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em m\u00e9dia, na capital do pa\u00eds, s\u00e3o de seis a oito horas de corrente el\u00e9trica por dia e boa parte das casas n\u00e3o disp\u00f5e de instala\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas. Nas casas mais ricas a eletricidade \u00e9 garantida pelos geradores ou pelos inversores. O inversor \u00e9 um conjunto de baterias automotivas que acumula energia nos per\u00edodos em que esta \u00e9 fornecida atrav\u00e9s da rede p\u00fablica, funcionando como uma esp\u00e9cie de \u201cpilha\u201d da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tive oportunidade de assistir um dos jogos da Copa Libertadores de 2008 no Haiti, o jogo entre Fluminense e Boca Juniors, no Maracan\u00e3, vencido pelo Fluminense \u2013 devo confessar que torci contra o Flu, claro. Fato, ali\u00e1s, que causou espanto entre os haitianos que estavam comigo, porque n\u00e3o compreendiam que eu, brasileiro, torcesse por um time argentino. Coisas de carioca. Rivalidades que \u00e0s vezes ficam dif\u00edceis de explicar para um estrangeiro. Afinal, no futebol n\u00e3o temos a \u201cp\u00e1tria de chuteiras\u201d em campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, escaldado pela derrota de 2006, n\u00e3o acompanhei com grande aten\u00e7\u00e3o a sele\u00e7\u00e3o brasileira em sua prepara\u00e7\u00e3o para a copa de 2010, vi jogar poucas vezes, particularmente porque n\u00e3o gostava de Dunga. Nunca gostei nem como jogador, tampouco como t\u00e9cnico de futebol. Mas de fato, a sele\u00e7\u00e3o ia bem sob seu comando. Ganhara a Copa Am\u00e9rica em 2007, tinha relativa tranquilidade nas eliminat\u00f3rias e ia para a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es numa posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel de franco atirador \u2013 a It\u00e1lia fora a campe\u00e3 em 2006 e come\u00e7ava a despontar a Espanha. Os demais advers\u00e1rios n\u00e3o chegavam a assustar. Acabei acompanhando pouco aos jogos. O Brasil chegava \u00e0 final para enfrentar os EUA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em junho de 2009, eu morava em P\u00e9tion Ville, no Centro Cultural Brasil Haiti. Um dos bons amigos que fizera no Haiti, desde a minha primeira viagem, foi o livreiro <i>Polo<\/i> Dubois, dono da Librairie Pleiade, a mais importante de Porto Pr\u00edncipe. Apaixonado pela m\u00fasica brasileira e pelo Brasil, que nunca conhecera de perto \u2013 conhecia bem o Caribe (Cuba, Jamaica, Martinica, Guadalupe), o M\u00e9xico, os EUA e a Fran\u00e7a, por\u00e9m, nunca tivera oportunidade de vir ao Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, de outro haitiano, o intelectual Laennec Hurbon, ouvira que a paix\u00e3o pelo Brasil e seu futebol era antiga, particularmente porque ele, durante seu doutorado em Paris, vira a sele\u00e7\u00e3o de 1970, e se encantara com o fato de um homem, negro, Pel\u00e9, ser tratado como o \u201cRei do Futebol\u201d. Para um pa\u00eds marcado historicamente pelos estigmas raciais como o Haiti, vivendo uma violenta ditadura, aquilo era um s\u00edmbolo de que os negros estavam vencendo e superando barreiras em outros lugares do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Polo me convidou para assistir a final da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es em sua casa, onde seria servido um almo\u00e7o e beber\u00edamos. A casa ainda tinha um piano, que infelizmente naquele dia n\u00e3o havia quem tocasse. O que me espantou, no entanto, foi a intensa movimenta\u00e7\u00e3o pelas ruas, antes do jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando estava indo para a sua casa, vi pessoas passando em carros com bandeiras do Brasil, motocicletas buzinando e pessoas com a camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira, num entusiasmo que s\u00f3 vira por aqui no Brasil em tempos de copa do mundo. E estava em Porto Pr\u00edncipe, capital do Haiti. E nem era uma competi\u00e7\u00e3o que n\u00f3s estiv\u00e9ssemos dando tanta import\u00e2ncia assim. Sim, eu estava no Haiti, e por conta de um simples jogo da sele\u00e7\u00e3o brasileira, ao qual n\u00e3o dar\u00edamos tanta import\u00e2ncia, a popula\u00e7\u00e3o daquela cidade estava em polvorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vit\u00f3ria brasileira deixou animadas as pessoas naquele dia. Foi surpreendente \u2013 e diria comovente, ver a paix\u00e3o daquelas pessoas pelo futebol brasileiro. Havia no time dos EUA um haitiano naturalizado, do qual n\u00e3o recordo o nome, mas nem isso fez com que houvesse maiores simpatias com o time americano. N\u00e3o havia um sentimento antiestadunidense forte, embora este pudesse ser verificado em alguns segmentos da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinto certa culpa, ao lembrar esta paix\u00e3o pelo futebol brasileiro. Nos dias de hoje o t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o, o ultrapassado Felip\u00e3o, faz a convoca\u00e7\u00e3o do time para a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, cuja final ser\u00e1 aqui, no Rio de Janeiro, onde moro. No Maracan\u00e3 \u2013 se \u00e9 que se pode chamar aquele neg\u00f3cio l\u00e1 da dupla Eike\/Cabral por este santo nome. Falei tantas vezes para os haitianos da emo\u00e7\u00e3o de ir ao Maraca. Falei tantas vezes da beleza da minha cidade querida e, no entanto, a pouco menos de um m\u00eas do come\u00e7o da Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tenho o menor desejo em torcer pela sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o as mazelas ou falcatruas que envolvem a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo de 2014 que me fizeram desgostar da sele\u00e7\u00e3o. Esta foi apenas a cereja de um bolo. N\u00e3o consigo mais sentir aquilo que senti em 1994, mesmo com aquele travo de coisa amarga que desce pela garganta. A vit\u00f3ria nos p\u00eanaltis foi meio anticl\u00edmax. N\u00e3o poderia jamais sentir o que sentia em 1982, com o maior time que j\u00e1 vi jogar \u2013 n\u00e3o conto as sele\u00e7\u00f5es de 58 e 70, porque numa n\u00e3o era nascido e na outra, pequeno demais para acompanhar os jogos. N\u00e3o \u00e9 apenas o desagrado com uma entidade que vem prejudicando os clubes e tratando a camisa canarinho como um produto \u2013 a casa do Brasil \u00e9 o est\u00e1dio do Arsenal, em Londres. Desde 2002 \u00e9 o local onde a sele\u00e7\u00e3o jogou mais vezes. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. \u00c9 tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez, meus amigos haitianos, quem sabe at\u00e9 2014, consigam fazer despertar de novo o gosto pela nossa sele\u00e7\u00e3o. N\u00e3o creio. Mas quem sabe o amor que eles tem pelo nosso futebol n\u00e3o ajude? Ou ser\u00e1 que at\u00e9 eles se bandearam para o futebol jogado pela Espanha, pela Alemanha ou, no pior dos mundos, virado a casaca para a Argentina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomara que n\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta quarta feira a coluna Tou melanje ank\u00f2, do antrop\u00f3logo Jos\u00e9 Renato Baptista, a partir de epis\u00f3dio ocorrido em sua passagem no Haiti discorre sobreTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[348],"tags":[37,210,51],"class_list":["post-17697","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-tou-melanje-anko","tag-futebol","tag-haiti","tag-politica-internacional"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17697"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17697\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}