{"id":17461,"date":"2013-05-06T06:47:08","date_gmt":"2013-05-06T09:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17461"},"modified":"2013-05-15T11:01:52","modified_gmt":"2013-05-15T14:01:52","slug":"historias-brasileiras-almofadinha-a-origem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/05\/historias-brasileiras-almofadinha-a-origem\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias Brasileiras &#8211; &#8220;Almofadinha \u2013 a Origem&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Nesta segunda feira, mais um delicioso texto do <strong>historiador Luiz Antonio Simas e sua coluna &#8220;Hist\u00f3rias Brasileiras&#8221;<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong><span style=\"color: #000080; text-decoration: underline;\">Almofadinha \u2013 a Origem<\/span><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Vez por outra me ocorre uma ideia que quase imediatamente abandono: penso em escrever um dicion\u00e1rio de termos em desuso. O t\u00edtulo, para dar um car\u00e1ter mais sensacionalista ao projeto, seria algo como \u201cDicion\u00e1rio das Palavras Moribundas\u201d. Ningu\u00e9m mais xinga ningu\u00e9m, por exemplo, de mequetrefe, bilontra, safardanas, sicofanta, pasc\u00e1cio, poltr\u00e3o, onagro, toleir\u00e3o, charro, valdevino, bonifrate ou sibarita.<!--more--> <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Outra express\u00e3o, com certo tom entre o jocoso e ofensivo, que quase n\u00e3o se ouve mais \u00e9 <i>almofadinha<\/i>. \u00c9 sobre a origem dela que fa\u00e7o r\u00e1pidas observa\u00e7\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Corria o ano de 1919, meses ap\u00f3s o final da Grande Guerra. Um concurso esquisito mobilizou a cidade de Petr\u00f3polis, no Rio de Janeiro: &#8220;rapazes elegantes e efeminados&#8221; se reuniram para definir quem era o melhor na arte de bordar e pintar almofadas trazidas da Europa especialmente para a ocasi\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Antes que algu\u00e9m se ofenda com o <i>efeminados<\/i> do par\u00e1grafo acima, aviso logo que a express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 minha. Foi assim que o escritor Raimundo Magalh\u00e3es Jr., um tremendo conhecedor das coisas daquele tempo, bi\u00f3grafo de Jo\u00e3o do Rio e pai da carnavalesca Rosa Magalh\u00e3es, se referiu aos participantes do concurso. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Magalh\u00e3es Jr. explica que esse curioso certame deu origem \u00e0 express\u00e3o <i>almofadinha<\/i>, para designar os tipos afetados, cheios de salamaleques e n\u00e3o-me-toques, nos tempos da Rep\u00fablica Velha. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Outra vers\u00e3o diz que o termo deriva dos bancos de madeira dos bondes cariocas, que causavam transtornos aos bumbuns mais sens\u00edveis e obrigavam alguns passageiros a levar almofadas para se sentar com o m\u00ednimo de conforto. Os mach\u00f5es achavam que s\u00f3 os frescos precisavam das almofadinhas. Gosto das duas vers\u00f5es, a do concurso e a do bonde. Desconfio, todavia, que a primeira \u00e9 mais veross\u00edmil. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Voltemos ao campeonato de almofadinhas bordadas em Petr\u00f3polis. A disputa entre os mancebos foi acirrada. H\u00e1 relatos de que dois concorrentes deram chiliques, tiveram queda de press\u00e3o e desmaiaram depois do an\u00fancio do resultado. Meninas prendadas acompanhavam atentamente o desempenho dos var\u00f5es n\u00e3o t\u00e3o assinalados. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Quem n\u00e3o gostou coisa nenhuma da contenda, com direito a faniquitos e siricoticos dos rapazolas, foi o escritor Lima Barreto. O autor do <i>Triste Fim de Policarpo Quaresma<\/i> vociferou contra os participantes do concurso em uma de suas cr\u00f4nicas mais famosas. Cito o grande Lima: <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\"><i>&#8220;Foi \u00e0 custa deste esfor\u00e7o e desta abnega\u00e7\u00e3o dos pais que esses petroniozinhos de agora obtiveram \u00f3cio para bordar vagabundamente almofadinhas em Petr\u00f3polis, ao lado de meninas deliq\u00fcescentes. H\u00e9rcules caricatos ao lado de Onfales clor\u00f3ticas e<\/i> <i>bobinhas<\/i>.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Pausa para um esclarecimento das antigas. Posso imaginar alguns leitores pensando o seguinte: que diabos o Lima pretendeu dizer com H\u00e9rcules caricatos e Onfales clor\u00f3ticas? Explico rapidamente. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Diz a mitologia grega que H\u00e9rcules, em um momento dos menos afortunados de sua trajet\u00f3ria de semideus, foi exilado na \u00c1sia e condenado a viver tr\u00eas anos como escravo. Foi vendido \u00e0 Rainha Onfales, vi\u00fava do Rei da L\u00eddia, Tmolo. Rolou, evidentemente, um clima de novela do Manoel Carlos entre a Rainha e o filho de Zeus e Alcmena. Onfales resolveu libertar H\u00e9rcules. O fort\u00e3o, entretanto, estava apaixonado e preferiu continuar escravo da soberana.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Onfales, que n\u00e3o era mole, pintou e bordou com o semideus. Para mostrar o poder da sedu\u00e7\u00e3o feminina, se vestia de macho e ordenava que H\u00e9rcules se vestisse de mulherzinha e ficasse aos seus p\u00e9s fiando a l\u00e3 no fuso e na roca.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">\u00c9 isso mesmo &#8211; o sujeito que desceu o cacete no terr\u00edvel Le\u00e3o de Nem\u00e9ia deu uma de travesti apaixonado, bordando toalhinhas aos p\u00e9s da Rainha Onfales. Os gregos enxergam nesse mito uma met\u00e1fora poderosa do dom\u00ednio da beleza sobre a for\u00e7a bruta.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">O fato \u00e9 que o homem almofadinha, que tanto asco causou a Lima Barreto, ganhou fama e acabou, inclusive, consagrado como um t\u00edpico personagem carioca nas caricaturas de J. Carlos, o maior nome do cartum brasileiro na primeira metade do s\u00e9culo XX. O almofadinha, nos tra\u00e7os do grande desenhista, era o homem com trejeitos delicados, impecavelmente vestido, perfumado, vaidoso, que acabava dominado pela melindrosa, uma mulher avan\u00e7ada, de vestido curto, pernas grossas e disposta a fazer valer os seus direitos.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Como j\u00e1 digressiono em demasia e at\u00e9 H\u00e9rcules entrou no furdun\u00e7o, \u00e9 melhor ficar por aqui. A almofada do sof\u00e1, afinal, me espera para um descanso merecido. Quem sabe me animo e come\u00e7o o tal dicion\u00e1rio&#8230;<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Abra\u00e7os.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta segunda feira, mais um delicioso texto do historiador Luiz Antonio Simas e sua coluna &#8220;Hist\u00f3rias Brasileiras&#8221;. 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