{"id":17101,"date":"2013-04-05T05:45:29","date_gmt":"2013-04-05T08:45:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=17101"},"modified":"2013-03-31T19:53:24","modified_gmt":"2013-03-31T22:53:24","slug":"cinecasulofilia-amour","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/04\/cinecasulofilia-amour\/","title":{"rendered":"Cinecasulofilia &#8211; &#8220;Amour&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer - Amour, Michael Haneke\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vrshKIuQyLk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Nesta sexta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo professor, cineasta e cr\u00edtico Marcelo Ikeda<\/strong>. Como sempre, publicada <span style=\"color: #ff6600;\"><a href=\"http:\/\/cinecasulofilia.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #ff6600;\">em parceria com o blog de mesmo nome<\/span><\/a><\/span>.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong><span style=\"color: #000080; text-decoration: underline;\">Amour<\/span><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\"><em>(de Michael Haneke)<\/em><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Como filmar a morte? N\u00e3o sei se Haneke parece contribuir muito. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Como filmar um personagem que se deixa morrer? O corpo que apodrece e definha. Decerto que n\u00e3o h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria nem mesmo recurso de vitimiza\u00e7\u00e3o. Mas ao mesmo tempo h\u00e1 um pouco disso sim.<!--more--> <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Fala-se em corpo, mas AMOR n\u00e3o \u00e9 o filme mudo de Brakhage que dilacera corpos como epistemologia do olhar (THE ACT OF SEEING WITH ONE&#8217;S OWN EYES) nem O SANGUE DAS BESTAS, de Franju, que mostra que somos todos c\u00famplices dos torturadores de Auschwitz, nem mesmo RESSURREI\u00c7\u00c3O, de Arthur Omar, que, provocativo, mostra corpos dilacerados, assassinados, com uma m\u00fasica de \u00eaxtase que insere mil camadas ao discurso f\u00edlmico. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Se AMOR aborda os limites da viol\u00eancia como intr\u00ednseca \u00e0 natureza humana, tema de boa parte da filmografia de Haneke, seu tom s\u00f3brio, sua mise en scene discreta, pelo menos retira de sua filmografia um certo tom de espalhafato. Se esse rigor e essa concis\u00e3o c\u00eanica nos fazem remeter a A FITA BRANCA, aqui n\u00e3o cabe nem a genealogia pol\u00edtica do mal nem o uso dos exteriores: o claustrof\u00f3bico AMOR \u00e9 todo resolvido nos interiores, voltado para dentro de seus dois personagens. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Tampouco \u00e9 o cinema de Bergman, que se afoga nos rancores expressos nos di\u00e1logos e na psicologia, entrecortados por del\u00edrios metacinematogr\u00e1ficos. Se a concis\u00e3o e a simplicidade de AMOR podem ser vistas como um elogio, um passo dentro da filmografia desse realizador que sempre mexeu com temas fortes, ao mesmo tempo que AMOR \u00e9 um filme duro, ele se insere em todas as conven\u00e7\u00f5es que podemos esperar de um filme como esse, inclusive nos momentos em que ele usa nossa compaix\u00e3o \u2013 um tapa na cara, uma visita de um ex-aluno que possui todo um futuro pela frente, a filha que chora impotente na janela, um \u00e1lbum de fotografias, etc. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">AMOR pode ser at\u00e9 visto como bem-sucedido na cria\u00e7\u00e3o de climas, como um passo na maturidade de Haneke como artes\u00e3o, mas minha recusa ao filme n\u00e3o \u00e9 uma recusa pelos m\u00e9ritos de sua encena\u00e7\u00e3o, mas uma quest\u00e3o primeira, uma quest\u00e3o moral. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Como filmar a morte? Ainda que n\u00e3o espetacularize a trag\u00e9dia, AMOR \u00e9 bem comportado demais, desafia pouco o espectador, n\u00e3o o transforma, apenas aponta para o suposto acerto de suas decis\u00f5es; \u00e9 um filme trancafiado em torno de si mesmo, convicto demais de sua corre\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e9 um filme equivocado politicamente, \u00e9 um filme reacion\u00e1rio. (Ser\u00e1 que esse casal \u00e9 a Uni\u00e3o Europeia?) <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Ao fim da proje\u00e7\u00e3o de AMOR, fico pensando, por exemplo, em A GOELA ABERTA, de Pialat, que filma uma morte, mas que contamina a tudo com cheiro de enxofre, com uma enorme curiosidade, at\u00e9 com certo ressentimento, ressentimento esse que acaba deixando revelar \u2013 somente por suas bordas, ou seja, pelo que transborda \u2013 paradoxalmente o seu amor, seu desejo pelo mundo, em remexer essa caixa de ferramenta velha de que s\u00e3o feitas as coisas e que poucos se aventuram a abrir, pois n\u00e3o \u00e9 nada agrad\u00e1vel. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\">Mas AMOR me parece conformado demais com a precis\u00e3o, com a concis\u00e3o, com o acerto, com o comedimento, como essa languidez com que acompanha um tema n\u00e3o agrad\u00e1vel mas sem que cheire tudo a enxofre, de forma razoavelmente higi\u00eanica, de modo que Haneke faz um filme correto, coloca todas as notas no lugar, nos faz esperar pacientemente at\u00e9 a hora solene de apodrecermos e assistirmos, no ar condicionado, nossa vida (e o filme) acabar, como se f\u00f4ssemos testemunhas f\u00fanebres de n\u00f3s mesmos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta sexta feira, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna &#8220;Cinecasulofilia&#8221;, assinada pelo professor, cineasta e cr\u00edtico Marcelo Ikeda. 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