{"id":16005,"date":"2013-01-12T09:59:21","date_gmt":"2013-01-12T11:59:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/?p=16005"},"modified":"2013-01-12T10:01:36","modified_gmt":"2013-01-12T12:01:36","slug":"buraco-da-fechadura-amor-sem-fim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2013\/01\/buraco-da-fechadura-amor-sem-fim\/","title":{"rendered":"Buraco da Fechadura &#8211; &#8220;Amor sem Fim&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jardim_da_Saudade_-_Paci\u00eancia_em_Santa_Cruz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-16006\" alt=\"Jardim_da_Saudade_-_Paci\u00eancia_em_Santa_Cruz\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jardim_da_Saudade_-_Paci\u00eancia_em_Santa_Cruz-1024x768.jpg\" width=\"394\" height=\"295\" srcset=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jardim_da_Saudade_-_Paci\u00eancia_em_Santa_Cruz-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jardim_da_Saudade_-_Paci\u00eancia_em_Santa_Cruz-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Jardim_da_Saudade_-_Paci\u00eancia_em_Santa_Cruz.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 394px) 100vw, 394px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da <strong>coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"text-decoration: underline;color: #000080\"><em><strong>Amor sem Fim<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Como eu j\u00e1 disse antes, todo mundo sonha em encontrar o amor, sua alma g\u00eamea. Aquela pessoa que faz nosso cora\u00e7\u00e3o acelerar, a boca ficar seca, que s\u00f3 de olhar a gente diz \u201c\u00e9 ela\u201d e sonha em ficar com essa pessoa para sempre. Casar, ter filhos, netos, ter com essa pessoa n\u00e3o s\u00f3 amor, mas companheirismo, amizade e ficar com ela at\u00e9 o fim de seus dias.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Dorival conseguiu isso: \u00e9 o que podemos chamar de um privilegiado. Mas o &#8216;pra sempre&#8217; n\u00e3o existe.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">A \u00fanica certeza que temos na vida, desde que nascemos \u00e9 que um dia iremos morrer. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 pra cravar o \u201ce foram felizes para sempre\u201d. Se o casal n\u00e3o morrer junto um vai ficar e com a vida ficar\u00e1 toda a dor da aus\u00eancia, da saudade.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">E isso tamb\u00e9m ocorreu com Dorival. Estava prestes a completar noventa anos de idade. Um orgulho para qualquer pessoa, noventa anos de uma vida intensa, de trabalho, suor, ajudando a construir esse pa\u00eds. Em qualquer pa\u00eds decente um homem chega a essa idade e \u00e9 tratado como um her\u00f3i, um s\u00e1bio; mas as coisas aqui s\u00e3o diferentes.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Trabalhou por mais de cinq\u00fcenta anos de Sol a Sol, sem faltar uma \u00fanica vez para receber do INSS dois sal\u00e1rios m\u00ednimos de aposentadoria, dinheiro que mal dava para seu rem\u00e9dio. Apesar da boa sa\u00fade e do racioc\u00ednio pleno, Dorival j\u00e1 era velho e n\u00e3o tinha mais como se manter sozinho. Vivia com Dori, seu filho mais velho e sua esposa. Um neto ainda vivia com ele, o Zeca que morava com sua esposa &#8211; eram rec\u00e9m casados.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Dorival tinha uma casa que comprou assim que se casou e ao longo do tempo deixou como queria. Mas n\u00e3o tinha mais como morar l\u00e1 sozinho, ent\u00e3o a mesma foi alugada.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Na parte material Dorival n\u00e3o podia reclamar de nada: ele recebia tudo que precisava, mas n\u00e3o recebia afeto. A impress\u00e3o que dava \u00e9 que era um estorvo, um peso que a fam\u00edlia tinha que carregar, mesmo criando e sustentando a todos por d\u00e9cadas e ajudando no or\u00e7amento da casa com o aluguel da sua. Por falar em casa os filhos queriam vender a de Dorival, que se negava por ser a \u00fanica lembran\u00e7a de sua vida.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">O velho era sempre o primeiro a acordar e ia para a varanda cuidar de seu passarinho na gaiola. Dava alpiste, perguntava se estava bem e ficava ali por horas. Parecia seu \u00fanico amigo. Algum tempo depois o restante das pessoas da casa acordava e antes mesmo de dar bom dia Dori reclamava que o pai urinara novamente na cama. Dorival, constrangido, n\u00e3o falava nada enquanto o filho esbravejava que ele tinha que usar frald\u00e3o. Baixinho, Dorival comentava com o passarinho que quem usava fralda era beb\u00ea.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Todos sentavam \u00e0 mesa para tomar caf\u00e9 e conversavam sobre tudo. Menos com Dorival, que comia devagarzinho seu p\u00e3o com caf\u00e9 e era totalmente ignorado pelo restante da fam\u00edlia. Quando tentava falar algo ningu\u00e9m lhe ouvia: era como se fosse um fantasma.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">S\u00f3 lembravam dele quando, sem querer, deixava derramar o caf\u00e9 na toalha de mesa. Dori gritava com o pai reclamando e sua esposa comentava que estava mais que na hora de lev\u00e1-lo para um asilo.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Humilhado Dorival levantava da mesa e se encaminhava para a sala. L\u00e1 sentava em uma cadeira de balan\u00e7o e passava o dia todo olhando para o rel\u00f3gio ou para o passarinho. N\u00e3o ligava tv, r\u00e1dio, nada: s\u00f3 ficava ali perdido em seus pensamentos at\u00e9 a hora de ir dormir.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\" align=\"right\"><span style=\"color: #000080\">Essa era sua rotina, parecia s\u00f3 esperar a morte chegar. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Mas antes chegou seu anivers\u00e1rio de noventa anos. Como todos os dias, Dorival acordou cedo e foi cuidar de seu passarinho. Enquanto dava o alpiste Dori se aproximou e em vez de dar as broncas de todas as manh\u00e3s deu um beijo r\u00e1pido no pai desejando feliz anivers\u00e1rio e saiu. Da porta pediu que o pai n\u00e3o fosse dormir cedo e colocasse uma roupa bonita, porque de noite a fam\u00edlia se reuniria para comemorar seu anivers\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Dorival fechou a porta da gaiola e dessa vez n\u00e3o sentou na sala, sentou na varanda e de l\u00e1 ficou olhando a vista que era muito bonita. Olhava o c\u00e9u, as \u00e1rvores, o mar e se lembrava de Teresa, o amor de sua vida. Ausente h\u00e1 cinco anos j\u00e1. Uma l\u00e1grima caiu de sua face, lembrando-se da esposa e de tudo que viveu com ela. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Seu cora\u00e7\u00e3o do\u00eda de saudades.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Setenta anos antes Dorival em nada lembrava aquele velho triste. Era um garot\u00e3o bonito, atl\u00e9tico e cheio de vida. Fazia parte da equipe de atletismo do col\u00e9gio e era o sonho das menininhas como um gal\u00e3 de cinema.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Al\u00e9m de ser amante dos esportes Dorival era bo\u00eamio. Gostava de ficar at\u00e9 tarde na rua bebendo com os amigos, jogando sinuca e carteado. Era amigo dos malandros e amante das prostitutas. Passava parte da noite com elas e depois corria para casa, a tempo da m\u00e3e n\u00e3o desconfiar que ficara tanto tempo fora.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">De manh\u00e3 ela batia no quarto e ele cheio de sono acordava praticamente dormindo sobre a mesa no caf\u00e9 da manh\u00e3. Sua m\u00e3e perguntava de onde ele arrumava tanto sono se dormia cedo e Dorival com um sorriso safado no canto da boca dizendo que estava em fase de crescimento.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\" align=\"right\"><span style=\"color: #000080\">Tinha uma vida dupla, era um rapaz cheio de vida e sa\u00fade &#8211; com muito pela frente. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Um dia dormiu cedo de verdade porque tinha uma corrida importante na manh\u00e3 seguinte. Acordou cedo cheio de disposi\u00e7\u00e3o, tomou uma vitamina de banana, deu um beijo na m\u00e3e e saiu correndo para o col\u00e9gio.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">As arquibancadas do col\u00e9gio estavam lotadas. Era uma corrida inter colegial e Dorival era o representante do seu. O professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica chegou no rapaz, fez uma massagem em seus ombros e desejou boa sorte, dizendo que era apenas pra ele repetir o que fazia nos treinos que venceria com facilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Era uma corrida de dez mil metros. Dorival era um grande fundista e estava tranq\u00fcilo e pronto para vencer. Tomou sua marca e o juiz atirou para o alto, dando in\u00edcio a prova.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Um grande frenesi tomou conta das arquibancadas. No come\u00e7o da corrida Dorival manteve-se no meio do pelot\u00e3o e na metade apertou o ritmo, tomando a dianteira para del\u00edrio da torcida. Dorival tomava conta da corrida, parecendo que venceria com facilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Na \u00faltima volta pela pista, perto da linha de chegada Dorival era t\u00e3o absoluto que se permitiu olhar a arquibancada e l\u00e1, pela primeira vez, viu aquela que mudaria sua vida. Uma mo\u00e7a bonita, branca de cabelos negros conversava com amigas na arquibancada nem ligando para a corrida. Ela tomara a concentra\u00e7\u00e3o de Dorival que n\u00e3o conseguia ver mais nada, s\u00f3 a ela.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Em determinado momento ela tamb\u00e9m olhou para a pista e notou o rapaz lhe olhando. Por alguns segundos os olhares de Teresa e Dorival se cruzaram pela primeira vez at\u00e9 que o atleta saiu do transe com o grito \u201cAcorda Dorival !!\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\" align=\"right\"><span style=\"color: #000080\">O grito era do professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Quando Dorival se deu conta do que ocorria foi ultrapassado por outro corredor. Tentou desesperadamente ultrapass\u00e1-lo novamente, mas em v\u00e3o. O outro atleta venceu, com Dorival ficando em segundo. <\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Dorival ficou frustrado com a derrota, mas o mais importante naquele instante era descobrir quem era aquela mo\u00e7a. Subiu o p\u00f3dio para receber a medalha de prata sob olhar de reprova\u00e7\u00e3o do professor, quando l\u00e1 do alto achou a menina. Ela estava indo embora com amigas.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Dorival deu um salto do p\u00f3dio e correu atr\u00e1s dela.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Alcan\u00e7ou e sorrindo disse a Teresa que ela o fizera perder a corrida. A mo\u00e7a abaixou a cabe\u00e7a e disse que n\u00e3o fizera nada, continuando a andar com as amigas que riam. Dorival n\u00e3o desistiu, alcan\u00e7ou novamente e disse que ela lhe devia uma. Teresa respondeu que n\u00e3o tinha dinheiro e ele de bate pronto falou que n\u00e3o queria dinheiro: e sim que ela tomasse um sorvete com ele.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Teresa respondeu que n\u00e3o podia e as amigas insistiram que ela aceitasse. Dorival ficou plantado \u00e0 sua frente implorando, at\u00e9 que ela aceitou.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Os dois foram \u00e0 sorveteria e pela primeira vez Dorival pegou em sua m\u00e3o. Teresa, nervosa, tirou rapidamente o bra\u00e7o da mesa e Dorival perguntou se ela n\u00e3o queria namorar com ele. A mo\u00e7a se assustou e respondeu que n\u00e3o lhe conhecia. Dorival emendou: \u201cteremos a vida toda para nos conhecermos\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Ela sorriu e contou que o rapaz teria que pedir a seus pais. Dorival n\u00e3o se fez de rogado: convocou pai, m\u00e3e e foi com a fam\u00edlia at\u00e9 a casa de Teresa falar com seu pai.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Nervoso, Dorival contou de suas inten\u00e7\u00f5es com a mo\u00e7a e como estava perdidamente apaixonado. O pai de Teresa, um major do ex\u00e9rcito olhava bravo para ele e perguntou o que queria com sua filha se ela &#8220;n\u00e3o sabia lavar, passar, nem cozinhar&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Dorival respondeu <em>\u201ccom todo respeito, meu senhor: eu n\u00e3o quero uma empregada, eu quero uma mulher para amar o resto da vida\u201d<\/em>. Pronto: ganhou o sogro e Teresa &#8211; para sempre.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Come\u00e7aram a namorar, indo a cinemas, lanchonetes e na maior parte do tempo no sof\u00e1 da sala sempre com o irm\u00e3o menor de Teresa no meio. Dorival largou as noitadas e as prostitutas em prol do amor.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Namoraram por tr\u00eas anos at\u00e9 que noivaram. Dorival come\u00e7ou a trabalhar e planejaram casamento. Alguns meses depois Dorival levava Teresa para o altar, para sempre em sua vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">No come\u00e7o, vida dif\u00edcil: mas Dorival conseguiu comprar um terreno e de l\u00e1, com seu suor e for\u00e7a de vontade, construir uma casa onde viveram por toda a vida. Os filhos vieram. Dori, o que lhe deu guarida no fim da vida o primog\u00eanito, depois mais tr\u00eas.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Teresa dando aulas e Dorival trabalhando no com\u00e9rcio conseguiram criar os filhos e colocar a todos em faculdade. Com o tempo vieram os casamentos e os netos. Fam\u00edlia grande, de bem &#8211; como os dois sempre sonharam.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">E como \u00e9 o normal da vida, envelheceram. Juntos como sempre sonharam. Felizes viam os netos crescerem e contavam nos almo\u00e7os de domingo como se conheceram e Dorival perdera a corrida. Todos j\u00e1 estavam cansados de ouvir aquelas hist\u00f3rias: mas eles n\u00e3o de contar.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Completaram cinq\u00fcenta anos de casados com uma grande festa para celebrar as bodas de ouro, aos sessenta anos outra, mas a\u00ed Teresa j\u00e1 apresentava sintomas de Alzheimer. Teresa foi aos poucos esquecendo de tudo com Dorival o tempo todo ao seu lado, mostrando seu amor, carinho, devo\u00e7\u00e3o por aquela mulher &#8211; at\u00e9 sua morte.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">E l\u00e1 estava ele no dia dos seus noventa anos de idade com uma saudade terr\u00edvel de sua Teresa, a mulher que lhe fez perder uma corrida e ganhar a vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">A festa come\u00e7ou, mas ningu\u00e9m dava aten\u00e7\u00e3o a Dorival. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o queria interagir, parecia distante, triste. Em determinado momento se despediu de todos dizendo que iria dormir e ningu\u00e9m lhe deu aten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Deitado ouvia os filhos discutindo na sala, o assunto era ele. Dori e seus irm\u00e3os debatiam sobre uma interven\u00e7\u00e3o de Dorival, alegando que ele n\u00e3o estava bem de sa\u00fade e sua coloca\u00e7\u00e3o em um asilo. A esposa de Dori dava for\u00e7a porque assim era poss\u00edvel que eles vendessem a casa, contando que v\u00e1rias construtoras estavam interessadas em demolir o local e fazer pr\u00e9dios.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Chovia muito forte e Dorival levantou da cama. Passou pela fam\u00edlia que discutia seu futuro sem que ningu\u00e9m percebesse e saiu de casa.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Andou debaixo de chuva at\u00e9 o cemit\u00e9rio, entrou e andou pelo local at\u00e9 encontrar o t\u00famulo de sua esposa. Olhando o retrato de Teresa na l\u00e1pide, fez carinho em seu rosto e encharcado pela chuva e pelas l\u00e1grimas que ca\u00edam de seus olhos perguntou porque a mulher lhe abandonara.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Chorando muito, uma chuva torrencial e Dorival deitou sobre o t\u00famulo da mulher parecendo que a abra\u00e7ava e ficou ali deitado no lugar que ele mais queria estar naquele momento, com a pessoa que lhe fez feliz.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">Tudo o que Dorival mais queria era virar o seu passarinho e voar para o c\u00e9u atr\u00e1s de sua amada. Alem do infinito atrav\u00e9s do amor.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;text-align: justify\"><span style=\"color: #000080\">De um amor sem fim.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste s\u00e1bado, mais uma edi\u00e7\u00e3o da coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a &#8220;Buraco da Fechadura&#8221;. Amor sem Fim Como eu j\u00e1 disse antes,Tour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[29,12],"class_list":["post-16005","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-buraco-da-fechadura","tag-contos","tag-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16005","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16005"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16005\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}