{"id":13019,"date":"2009-11-03T20:35:00","date_gmt":"2009-11-03T22:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/11\/do-porto-ao-botequim-um-chamado-ao-bom-combate\/"},"modified":"2009-11-03T20:35:00","modified_gmt":"2009-11-03T22:35:00","slug":"do-porto-ao-botequim-um-chamado-ao-bom-combate","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/11\/do-porto-ao-botequim-um-chamado-ao-bom-combate\/","title":{"rendered":"DO PORTO AO BOTEQUIM &#8211; UM CHAMADO AO BOM COMBATE"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Ando cabreiro com algumas coisas que est\u00e3o acontecendo nas ruas cariocas. Aqui perto de casa, por exemplo, as not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o das melhores. Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no card\u00e1pio, visual moderninho, gar\u00e7om de gravata e, \u00e9 claro, aumento dos pre\u00e7os dos produtos. Botequim, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais. Periga virar um playground de b\u00eabados com rod\u00edzio de pizza depois das seis da tarde. <\/div>\n<p align=\"justify\">A reforma da Zona Portu\u00e1ria do Rio de Janeiro tamb\u00e9m est\u00e1 come\u00e7ando a cheirar mal [sinto um futum de bota-abaixo no ar, com o espectro do Pereira Passos circundando a Guanabara]. Os projetos que vi at\u00e9 agora parecem querer transformar a velha Pra\u00e7a Mau\u00e1 numa mistura entre dois monstrengos desalmados: Puerto Madero, na Argentina, e a falecida Lapa, aqui mesmo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Puerto Madero \u00e9 quase a Barra da Tijuca platina &#8211; uma \u00e1rea com ambientes contempor\u00e2neos [seja l\u00e1 o que for esse diabo], com uma concep\u00e7\u00e3o de assepsia urbana que abriga restaurantes caros, decorados de formas mequetrefes e cheios de novos ricos. Uma reforma sem car\u00e1ter, eis o que me pareceu. Duvido que o fantasma de Carlos Gardel caminhe naquelas plagas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Lapa, por sua vez, agoniza. Virou valhacouto de adultescentes, simulacro de ber\u00e7o do samba, com bares que vendem bebidas por pre\u00e7os proibitivos e que visualmente lembram a lanchonete da entrada do Memorial do Carmo, no cemit\u00e9rio vertical do Caju &#8211; um lugar mais digno para se beber, diga-se. <\/p>\n<p align=\"justify\">O Nova Capela [cada vez mais <em>Nova<\/em> e menos <em>Capela <\/em>] hoje \u00e9 atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica para uns basbaques que encaram uma ida ao velho bar como uma esp\u00e9cie de safari no Qu\u00eania e saem dizendo que foi uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel. O Bar Brasil resiste com bravura, mas at\u00e9 quando?<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu quero saber o seguinte: O poder p\u00fablico est\u00e1 escutando os moradores da Zona Portu\u00e1ria? A ideia \u00e9 fazer da Pra\u00e7a Mau\u00e1 um centro financeiro que mande pro lixo a hist\u00f3ria fabulosa da regi\u00e3o? Que venha a revitaliza\u00e7\u00e3o, mas revitalizar \u00e9 criar um um marco zero de gosto duvidoso, com mais de cinquenta andares, ou recuperar a grandeza da tradi\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria do cais e de sua gente? <\/p>\n<p align=\"justify\">Como estou encafifado com esses tro\u00e7os, reli dia desses um arrazoado que escrevi faz tempo sobre a agonia dos nossos botequins de f\u00e9 e a necessidade quase quixotesca de se lutar pela preserva\u00e7\u00e3o de um certo modo de vivenciar a cidade e o bar. S\u00e3o aquelas reflex\u00f5es que, em boa parte, retomo nesse texto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Fa\u00e7o isso porque esse combate me parece mais urgente do que nunca. As reformas na regi\u00e3o do porto, misturadas ao balacobaco das obras para preparar a cidade para as Olimp\u00edadas de 2016, me fazem ficar com um olho no cavalo, que \u00e9 bonito, e outro na bosta do bicho, que fede p\u00e1cas. <\/p>\n<p align=\"justify\">Vivemos, e isso n\u00e3o \u00e9 novidade alguma, tempos de uniformiza\u00e7\u00e3o dos costumes, fruto deste tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundar\u00e9u, ligado por redes transnacionais de telecomunica\u00e7\u00f5es, as pessoas assistem aos mesmos filmes, vestem as mesmas roupas, ouvem as mesmas m\u00fasicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos \u00eddolos e se comunicam em cento e quarenta toques virtuais.<\/p>\n<div align=\"justify\">Nessa esp\u00e9cie de culto profano, em que a vida cotidiana \u00e9 regida pelos rituais em louvor ao mercado que n\u00e3o \u00e9 o de Madureira, o bicho pega e as ideias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em ideia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel.<\/div>\n<div align=\"justify\">Eu, que trabalho com adolescentes e adultos jovens, percebo que as cren\u00e7as e proje\u00e7\u00f5es de futuro da rapaziada foram substitu\u00eddas pelo p\u00e2nico cotidiano &#8211; do assalto e das doen\u00e7as, no \u00e2mbito pessoal, \u00e0s catastrofes ambientais, na esfera coletiva. Cria-se uma l\u00f3gica perversa : Como posso morrer de bala perdida, pegar gripe su\u00edna ou sucumbir ao aquecimento global, preciso viver intensamente o dia de hoje.<\/div>\n<div align=\"justify\">Ocorre que essa valoriza\u00e7\u00e3o extremada do tempo presente \u00e9 acompanhada pela morte das utopias coletivas de proje\u00e7\u00e3o do futuro. N\u00e3o h\u00e1 mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e s\u00e3o moldadas as diferen\u00e7as. <\/div>\n<p align=\"justify\">Restam hoje, talvez, duas tristes utopias individuais, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos &#8211; a de que seremos capazes de consumir o produto tal, cheio de salamaleques, e a de que poderemos ter o corpo perfeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">Transformam-se , nesse tempos depressivos, os shoppings centers e as acad\u00eamias de gin\u00e1stica nos espa\u00e7os de exerc\u00edcio dessas utopias tortas, onde podemos comprar produtos e moldar o corpo aos padr\u00f5es da cultura contempor\u00e2nea &#8211; o corpo-m\u00e1quina dos atletas ou o corpo-esqu\u00e1lido das modelos. \u00c9 a procura da felicidade que n\u00e3o tem, como na esquecida e s\u00e1bia can\u00e7\u00e3o natalina. E tome de caixinhas de Prozac no sapatinho na janela.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 a\u00ed, e eu queria falar disso desde o in\u00edcio, que localizo na minha cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o o espa\u00e7o de resist\u00eancia a esses padr\u00f5es uniformes do mundo global &#8211; o botequim. Ele, o velho buteco, o p\u00e9-sujo, \u00e9 a \u00e1gora carioca. O botequim \u00e9 o pa\u00eds onde n\u00e3o h\u00e1 grifes, n\u00e3o h\u00e1 o corpo-m\u00e1quina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.<\/p>\n<p align=\"justify\">O buteco \u00e9 a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposi\u00e7\u00e3o das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemora\u00e7\u00e3o do gol, do exerc\u00edcio, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. \u00c9 a Rep\u00fablica de fato dos homens comuns &#8211; cen\u00e1rio n\u00e3o habitado pelos personagens de novelas do Manoel Carlos.<\/p>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00c9 nessa perspectiva que vejo a luta pela preserva\u00e7\u00e3o da cultura do buteco como algo com uma dimens\u00e3o muito mais ampla que o simples exerc\u00edcio de combate aos bares de grife que , como praga, pululam pela cidade e se espalham como met\u00e1stase urbana.<\/div>\n<div align=\"justify\">A luta pelo buteco \u00e9 a possibilidade de manter viva a cren\u00e7a na pra\u00e7a popular, espa\u00e7o de gera\u00e7\u00e3o de ideias e utopias &#8211; sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que t\u00eam pouco e precisam inventar a vida &#8211; que possam nos regenerar da fal\u00eancia de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com o t\u00eanis novo e o corpo moldado, n\u00e3o como conquista da sa\u00fade, mas como simples egolatria incrementada com bombas e anabolizantes cavalares. <\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">O botequim \u00e9, portanto, e n\u00e3o abro m\u00e3o do h\u00edfen, o anti-shopping center, a anti-globaliza\u00e7\u00e3o, a recusa mais veemente ao corpo-m\u00e1quina dos atletas ol\u00edmpicos ou ao corpo pau-de-virar tripa das anor\u00e9xicas &#8211; corpos que se confundem na doen\u00e7a comum desse mundo desencantado: Met\u00e1foras da morte.<\/div>\n<div align=\"justify\">Ali, no velho buteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde S\u00e3o Jorge \u00e9 o protetor e mercado \u00e9 s\u00f3 a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformiza\u00e7\u00e3o e o Homem \u00e9 restitu\u00eddo ao que h\u00e1 de mais valente e humano na sua trajet\u00f3ria &#8211; a capacidade de sonhar seus del\u00edrios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. \u00c9 onde a alma da cidade grita a resist\u00eancia : Laroi\u00ea ! <\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Esse combate, amigos, \u00e9 muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. <\/div>\n<div align=\"justify\">Botequim tem alma, \u00e9 entidade, feito os trapiches e sobrados do cais do porto em noite de lua cheia. <\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Abra\u00e7os<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ando cabreiro com algumas coisas que est\u00e3o acontecendo nas ruas cariocas. 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Um botequimTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[295],"class_list":["post-13019","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13019\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}