{"id":13017,"date":"2009-11-11T17:51:00","date_gmt":"2009-11-11T19:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/11\/recordacoes-do-escuro-a-noite-no-bicho-da-seda\/"},"modified":"2009-11-11T17:51:00","modified_gmt":"2009-11-11T19:51:00","slug":"recordacoes-do-escuro-a-noite-no-bicho-da-seda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/11\/recordacoes-do-escuro-a-noite-no-bicho-da-seda\/","title":{"rendered":"RECORDA\u00c7\u00d5ES DO ESCURO &#8211; A NOITE NO BICHO DA SEDA"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><span><em>Eu no escuro, quando moleque, fechava os olhos. N\u00e3o abria os olhos dentro de trem fantasma, por exemplo &#8211; e por isso mesmo os monstros eram apavorantes.<\/em><\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span><em>Coisa curiosa, essa. Nunca deixei de entrar em trens fantasmas nos parques de divers\u00f5es, mas jamais olhei o que estava acontecendo enquanto o vag\u00e3o danado corria no escuro. A mesma coisa vale para o bicho da seda.<\/em><\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><span><em>O apag\u00e3o de ontem me fez recordar das escurid\u00f5es da minha inf\u00e2ncia e de um texto que escrevi sobre uma dessas aventuras no escuro. \u00c9 esse que vai abaixo:<\/em><\/span><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Meu av\u00f4 gostava de cacha\u00e7a, futebol e mulher pelada. Pernambucano, filho de italiano com portuguesa, o velho era chegado numa arenga das boas. <\/div>\n<div align=\"justify\">Tremendo tampinha, arrumava as maiores confus\u00f5es, falava alto e tinha um chicote de couro &#8211; presente dado, dizia ele, por um cangaceiro do bando de Lampi\u00e3o.<br \/>Certa feita, tornou p\u00fablica a inten\u00e7\u00e3o de matar o Toninho Cerezo, depois do Brasil e It\u00e1lia na Copa de 82. Antes jurou cobrar do Coutinho a barra\u00e7\u00e3o do Zico no certame de 1978. <\/div>\n<div align=\"justify\">Tirando esses pormenores, e o calibre vinte e dois que ele guardava no arm\u00e1rio, era uma flor de pessoa. Me criou desde que eu tinha tr\u00eas anos de idade.<br \/>Houve um dia, eu devia ter uns seis ou sete anos, em que o velho me levou a um parquinho de divers\u00f5es na Quinta da Boa Vista, cuja grande atra\u00e7\u00e3o era uma esp\u00e9cie de bolha de pl\u00e1stico com um colch\u00e3o imenso. A crian\u00e7ada pintava os cavacos dentro daquele treco, com saltos mortais e o cacete. Eu adorei.<br \/>Depois que pedi pra ir \u00e0 bolha pela quarta vez, meu av\u00f4 me olhou com uma express\u00e3o jagun\u00e7a e falou:<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o prefere ir ao bicho-da-seda? \u00c9 bem mais divertido. Voc\u00ea vai gostar mais. Vamos ao bicho da seda. Agora.<\/div>\n<div align=\"justify\">Pra quem n\u00e3o sabe, vale o esclarecimento. O bicho da seda era um neg\u00f3cio s\u00e9rio. Explico, com uma tremenda saudade, como funcionava a geringon\u00e7a.<br \/>O brinquedo era uma esp\u00e9cie de trenzinho, com bancos pra duas pessoas, que rodava em c\u00edrculos, em alta velocidade. De s\u00fabito, um cortinado cobria o trenzinho e ficava tudo no maior breu.<br \/>Parent\u00ease: Nessa hora, as meninas gritavam hist\u00e9ricas e n\u00f3s, os machos, fechavamos os olhos para n\u00e3o ver o escuro &#8211; a mais bonita e infantil das contradi\u00e7\u00f5es.<br \/>Pois bem, quando o cortinado subia, as coisas voltavam ao normal. At\u00e9 que as trevas desciam novamente sobre o mundo e o p\u00e2nico retornava.<br \/>Feita a observa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, voltemos ao parquinho da Quinta. Na hora em que fui entrar no brinquedo, louco pra fazer coc\u00f4 e xixi ao mesmo tempo, meu av\u00f4 falou, com a seriedade de quem revela o terceiro segredo de F\u00e1tima, o seguinte:<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Escolhe um banco e senta ao lado de uma menina. N\u00e3o esquece. S\u00f3 pode sentar ao lado de uma menina. Se n\u00e3o der, espera a pr\u00f3xima vez.<\/div>\n<div align=\"justify\">Cumpri a determina\u00e7\u00e3o do velho. Sentei ao lado de uma moreninha um pouco mais velha que eu e bonita pra ded\u00e9u. Devia ter seus nove anos, se tanto. Ao lado dela, preparei-me para a aventura, respirei fundo e l\u00e1 fomos n\u00f3s.<br \/>Rezei baixinho, pedi prote\u00e7\u00e3o e fechei os olhos. Foi dada a partida, bem devagarinho&#8230;e o bicho foi acelerando. Logo, logo a cortina cobriu tudo e ficou escuro pra burro. A petizada come\u00e7ou a fazer um esporro de dar raz\u00e3o ao rei Herodes.<\/div>\n<div align=\"justify\">Naqueles segundos de trevas completas , todos os medos, fantasmas, dem\u00f4nios e dentistas da minha inf\u00e2ncia apareceram, terr\u00edveis, imensos e assustadores.<br \/>Quando terminou a epop\u00e9ia, as meninas sa\u00edram colocando as m\u00e3os nos cora\u00e7\u00f5es e n\u00f3s, machos, n\u00e3o podiamos demonstrar um pingo de medo. <\/div>\n<div align=\"justify\">Eu, particularmente, sa\u00ed pisando forte, com cara de mau, segurando o xixi, pra meu av\u00f4 ficar orgulhoso. Com a moral de quem tinha superado um tremendo desafio, fui impositivo:<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Quero uma grapete. N\u00e3o senti medo nenhum. Nem um tiquinho, \u00f3.<\/div>\n<div align=\"justify\">-Vamos l\u00e1, disse ele.<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Antes quero fazer pipi.<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; T\u00e1. Mas, olha, homem n\u00e3o pede pra fazer pipi nem xixi. Fala que quer dar uma mijada. Fica melhor. Meninas fazem xixi e meninos mijam. Nunca esquece disso. Fala de novo, vai, pra treinar.<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; V\u00f4, eu quero mijar.<\/div>\n<div align=\"justify\">Aprendida a li\u00e7\u00e3o (que guardo at\u00e9 hoje) e acertadas as contas com a bexiga, paramos na barraquinha dos refrigerantes e o velho falou:<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; E a\u00ed, gostou?<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; H\u00e3 , h\u00e3.<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Mais nada? E a menina no escuro; voc\u00ea n\u00e3o fez nada no escuro, enquanto ela gritava?<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; N\u00e3o. U\u00e9, v\u00f4, fazer o que?<\/div>\n<div align=\"justify\">Fomos embora, o velho com cara de poucos amigos. Perto de casa, virou-se pra mim, passou as m\u00e3os nos meus cabelos &#8211; eu os tinha! &#8211; e sentenciou:<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; N\u00e3o tem problema. Tua v\u00f3, tua m\u00e3e e tuas tias t\u00e3o estragando voc\u00ea. Qualquer hora dessas te levam \u00e0 Socila. Mas, a partir de agora, eu vou cuidar da tua educa\u00e7\u00e3o mais de perto. Vamos sair mais sozinhos. Deixa comigo, que se tudo der certo, vai dar a maior merda.<\/div>\n<div align=\"justify\">Na hora, n\u00e3o entendi patavina. Mas hoje, como compreendo o velho. Tanto que, se no dia do ju\u00edzo final, Jesus Cristo me fizer uma pergunta definitiva, daquelas de decidir o futuro da alma :<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; Do que voc\u00ea se arrepende?<\/div>\n<div align=\"justify\">Eu mirarei o Filho do Homem, com o devido respeito, \u00e9 claro, e responderei convicto:<\/div>\n<div align=\"justify\">&#8211; De uma certa noite, mestre. No bicho-da-seda da Quinta da Boa-Vista. Quebra esse galho. D\u00e1 pra ter sete anos de novo e estar l\u00e1?<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Abra\u00e7os<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu no escuro, quando moleque, fechava os olhos. 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