{"id":12998,"date":"2009-12-20T08:58:00","date_gmt":"2009-12-20T10:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/12\/de-kichute-na-macumba\/"},"modified":"2009-12-20T08:58:00","modified_gmt":"2009-12-20T10:58:00","slug":"de-kichute-na-macumba","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/12\/de-kichute-na-macumba\/","title":{"rendered":"DE KICHUTE NA MACUMBA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/Sy4MTou-WLI\/AAAAAAAAAyg\/RpUNsl_ehgQ\/s1600-h\/Digitalizar0001.jpg\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" border=\"0\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/Digitalizar0001.jpg\"><\/a><\/p>\n<div align=\"justify\">Sim, meus caros, eu estou nessa foto. Sou o maiorzinho. Apare\u00e7o, cabeleira a Bufalo Bill, batendo palmas ao lado de Dona Mundica, do meu irm\u00e3o Alexandre, tocando tambor, e do meu irm\u00e3o Ant\u00f4nio Claudio, que acabara de fazer seu amaci de consagra\u00e7\u00e3o aos orix\u00e1s e encantados. <\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">O flagrante foi registrado no terreiro de Xamb\u00e1 que era comandado pela minha av\u00f3, no Jardim Nova Era, em Nova Igua\u00e7u.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Quando revi, recentemente, essa foto, pensei em escrever alguma coisa sobre a Dona Mundica e os encantados. Desisti por enquanto. Outro detalhe chamou mais a minha aten\u00e7\u00e3o e me levou de volta aos oito anos de idade: Cal\u00e7o em plena macumba o imortal Kichute, t\u00eanis utilizado por dez entre dez garotos da minha gera\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Era um tempo em que a pe\u00e7onha consumista n\u00e3o fazia com que a molecada sonhasse, como hoje, com marcas de grife desde o ber\u00e7o. N\u00e3o havia t\u00eanis capaz de ofuscar o Kichute velho de guerra &#8211; de prefer\u00eancia amarrado na canela, pra dar mais seguran\u00e7a. Era cal\u00e7ado de cabra macho, feito de lona, pret\u00edssimo e com travas de borracha. <\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Eu usava o Kichute pra tudo: Ir ao col\u00e9gio, jogar futebol, andar de velotrol, pular carni\u00e7a, consultar o pediatra, tentar soltar pipa [s\u00f3 tentar, porque n\u00e3o tinha talento pros papagaios voadores] e, como a foto comprova, botar minha roupa branca de pequeno Og\u00e3 e bater tambor no terreiro da Deda. Era, enfim, o meu Kichute, o popular pau pra toda obra.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Ele, o meu t\u00eanis querido, acompanhou a experi\u00eancia mais marcante da minha vida, daquelas que eu s\u00f3 pensava revelar ao m\u00e9dium de mesa branca depois de morto: Cal\u00e7ava Kichute quando assisti, impressionad\u00edssimo a transforma\u00e7\u00e3o de uma mo\u00e7a em Konga, a mulher gorila, no Tivoli Parque e fiquei de pau duro. <\/div>\n<div align=\"justify\">De Kichute , tamb\u00e9m, fui a primeira vez ao Maracan\u00e3, pra assistir a um Vasco e Fluminense com o meu pai. Descobri, naquela tarde de domingo, que o meu para\u00edso n\u00e3o precisava de anjos tocando harpa, bastavam as traves e a bola correndo.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">O Kichute era excelente tamb\u00e9m para andar de velotrol e subir rapidamente no trepa-trepa. S\u00f3 n\u00e3o funcionava, pelo menos pra mim, na hora de brincar de pique-bandeira, coisa que eu fazia invariavelmente descal\u00e7o.<\/div>\n<div align=\"justify\">Essas lembran\u00e7as todas me levam a uma reflex\u00e3o melanc\u00f3lica: De repente o Kichute desapareceu das sapatarias. Por que?<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Acho que o Kichute foi uma v\u00edtima da ditadura da moda e da entrada dos t\u00eanis de grife no Brasil, l\u00e1 pelo meio dos tenebrosos anos oitenta. A garotada com condi\u00e7\u00f5es razo\u00e1veis de vida nos dias de hoje n\u00e3o concebe botar um cal\u00e7ado dessa envergadura nos p\u00e9s, nem debaixo de pancada.<\/div>\n<div align=\"justify\">Desconfio mesmo que o pai que der ao filho um Kichute de Natal corre o risco de ter a vida transformada em um inferno &#8211; tarefa que crian\u00e7as, bandidos, grandes empres\u00e1rios e mulheres abandonadas sabem cumprir como ningu\u00e9m. O papo agora \u00e9 escolher entre adidas, nike, puma, rebook e quejandos. Cada t\u00eanis afrescalhado desses n\u00e3o sai por menos de cento e cinquenta merr\u00e9is. <\/div>\n<div align=\"justify\">Mas o pior vem agora. Ao tentar descobrir alguma coisa sobre o destino do Kichute, para fechar essas recorda\u00e7\u00f5es, soube, horrorizado, que o cal\u00e7ado continua sendo produzido. A internet me informa, e da\u00ed o meu horror, o seguinte: <\/div>\n<div align=\"justify\"><em><br \/>Com a entrada de modelos importados de t\u00eanis, suas vendas despencaram, mas o Kichute nunca deixou de ser produzido. Atualmente, devido ao revival dos anos 7o e 80 na moda, muitos estilistas famosos est\u00e3o utilizando o Kichute em suas cole\u00e7\u00f5es. O cal\u00e7ado agora \u00e9 usado por artistas, a gera\u00e7\u00e3o clubber, os descolados e alternativos.<\/em><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00c9 mole? O Kichute velho de guerra, que estava para minha gera\u00e7\u00e3o como as alpercatas de couro para os cangaceiros de Lampi\u00e3o, virou coisa de viados e fanchonas.<\/div>\n<div align=\"justify\">Estamos mesmo mais perdidos do que bala no Velho Oeste. Entre as marcas globalizadas e a tal de <em>gera\u00e7\u00e3o clubber<\/em>, precisavam matar o meu t\u00eanis preferido na inf\u00e2ncia duas vezes?<\/div>\n<div align=\"justify\">Abra\u00e7os<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, meus caros, eu estou nessa foto. Sou o maiorzinho. 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