{"id":12997,"date":"2009-12-21T12:17:00","date_gmt":"2009-12-21T14:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/12\/a-metafisica-do-estabaco\/"},"modified":"2009-12-21T12:17:00","modified_gmt":"2009-12-21T14:17:00","slug":"a-metafisica-do-estabaco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/12\/a-metafisica-do-estabaco\/","title":{"rendered":"A METAF\u00cdSICA DO ESTABACO"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><em><span>Acabo de assistir a um tombo verdadeiramente espetacular de um camarada na esquina da S\u00e3o Francisco Xavier com a Conde de Bonfim, no famoso e lend\u00e1rio Largo da Segunda Feira. A queda, digna de uma acrobacia do Cirque du Soleil, merece uma refer\u00eancia especial. Reproduzo abaixo, um pouco modificado, um texto que escrevi em agosto de 2007 com reflex\u00f5es de ordem filos\u00f3fica e existencial sobre a metaf\u00edsica do estabaco.  Divirtam-se.<\/span><\/em><\/div>\n<div align=\"justify\">Tinha eu oito anos de idade quando meu pai me chamou. N\u00e3o perguntou se eu queria estudar filosofia, medicina ou engenharia, como no samba do Paulinho; apenas me convidou para ir ao Maracan\u00e3, o melhor programa do mundo &#8211; pelo menos at\u00e9 que descobri, l\u00e1 pelos catorze anos, os encantos da rua Alice, puteiro da minha adolesc\u00eancia &#8211; de saudosa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que fomos ao maior do mundo assistir a um Brasil e Uruguai. (Recorro ao livro do mestre <span>Ivan Sotter<\/span> &#8211; <em>Enciclop\u00e9dia da Sele\u00e7\u00e3o<\/em> &#8211; , obra seminal sobre o escrete canarinho, para descobrir que o pr\u00e9lio valia pela Ta\u00e7a Atl\u00e2ntico e foi disputado no dia 28 de abril de 1976.) N\u00e3o me lembro de absolutamente nada da partida, mas tenho vivas recorda\u00e7\u00f5es de um arranca-rabo que come\u00e7ou ap\u00f3s o juiz encerrar a disputa. Em meio a uma profus\u00e3o de socos e pontap\u00e9s, o lateral uruguaio Ramirez partiu em dire\u00e7\u00e3o a Rivelino, com f\u00faria assassina poucas vezes vista nos gramados. Rivelino deu um pique de velocista para escapar de Ramirez, um neg\u00e3o de quase dois metros de altura. Ao tentar escapar do algoz, o bigode estatelou-se nas escadas que levavam ao vesti\u00e1rio.<\/p>\n<p>Falo do Rivelino para constatar que, desde ent\u00e3o, tenho profund\u00edssimo respeito e solidariedade pelos homens que se esborracham em situa\u00e7\u00f5es inusitadas. N\u00e3o sou versado nas escrituras, mas chego a acreditar que, no serm\u00e3o da montanha, o Nazareno tenha dito qualquer coisa como bem aventurados os que tomam um estabaco, porque deles ser\u00e1 o Reino dos C\u00e9us. <\/p><\/div>\n<div align=\"justify\">O tombo p\u00fablico &#8211; especialmente aquele que n\u00e3o machuca, apenas constrange &#8211; tem a dimens\u00e3o metaf\u00edsica do frango numa decis\u00e3o de copa. O homem que escorrega em p\u00fablico fica mais exposto do que se estivesse pelado seis horas da tarde na Rua do Ouvidor, com um abacaxi na cabe\u00e7a. \u00c9 isso. O homem em queda experimenta a mais completa nudez; o nu primordial, sem subterf\u00fagios. Ningu\u00e9m \u00e9 verdadeiramente humano antes do primeiro estabaco p\u00fablico.<\/p>\n<p>Meu amigo Chico Novello, por exemplo, nos tempos de faculdade ca\u00eda mais que a tarde feito um viaduto. Novello tomava, em m\u00e9dia, cerca de quatro tombos por dia; todos eles de propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. O problema \u00e9 que a frequ\u00eancia de quedas do cabra acabou desmoralizando o pr\u00f3prio ato de cair. O Chico em p\u00e9 \u00e9 que era a cena inusitada.<\/p>\n<p>Eu mesmo tomei pelo menos dois tombos para entrar nos anais. Um deles foi em pleno Centro da cidade, quando corria para pegar um \u00f4nibus. Ao partir em dire\u00e7\u00e3o ao coletivo, n\u00e3o atentei para um hidrante que estava na cal\u00e7ada; o choque resultou numa queda de cinema. Preferia estar pelado. O outro tombo aconteceu na Ilha do Fund\u00e3o, onde ca\u00ed dentro de um buraco e fui resgatado por valorosos e solid\u00e1rios camaradas que assistiram a cena.<\/p>\n<p>Lembro-me de um colega de col\u00e9gio, o Lambreta, que caiu durante uma manobra arriscada que fez no Museu Imperial, em Petr\u00f3polis, ao surfar em pantufas, durante um passeio da escola. O tombo colocou em risco o patrim\u00f4nio da institui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o biltre quase parou dentro do ber\u00e7o que pertenceu \u00e0 Duquesa de Goi\u00e1s, filha de D. Pedro I com a Marquesa de Santos. N\u00e3o bastasse a humilha\u00e7\u00e3o do tombo diante das meninas da turma, Lambreta tomou um esporro da tia Sueli e uma amea\u00e7a de advert\u00eancia na carteirinha.<\/p>\n<p>Dia desses testemunhei uma queda fabulosa do Eduardo Goldenberg. Edu estatelou-se na Rio Branco, num s\u00e1bado pela manh\u00e3, ao tentar atravessar a avenida deserta. Uma senhora queda, precisa, cl\u00e1ssica, com estilo. Assistir ao Edu, leve como uma pluma, esborrachar-se na Rio Branco como um Dumbo que experimenta o fracasso do v\u00f4o, despertou em mim a verdadeira indaga\u00e7\u00e3o desse arrazoado. Vejam se n\u00e3o \u00e9 pertinente a d\u00favida que passo a expor.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, confesso que n\u00e3o sei, se o tombo \u00e9 pior para quem cai ou para quem assiste. Serei mais claro. O sujeito que sofre a queda n\u00e3o tem o que fazer; basta erguer-se, desnudo, fragilizado, despido da m\u00e1scara, e prosseguir a jornada &#8211; com a certeza de que algo na vida n\u00e3o ser\u00e1 mais igual. ( Nunca mais ser\u00e1 igual. O primeiro tombo tem a mesma import\u00e2ncia para a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter que o primeiro porre, a primeira punheta, o primeiro gol, a primeira mamada num peitinho p\u00fabere e a primeira audi\u00e7\u00e3o de um choro do Pixinguinha, de um samba do Noel ou de um bai\u00e3o do Gonzaga. )<\/p>\n<p>Mas, digam-me l\u00e1, e a testemunha do esborracho; o que deve fazer? Socorrer a v\u00edtima, chorar, ter uma crise de riso, se jogar no ch\u00e3o em solidariedade, chamar a ambul\u00e2ncia ou fazer a mais cretina das perguntas &#8211; Machucou? . <\/p><\/div>\n<div align=\"justify\">Decidir o que fazer ao presenciar um tombo \u00e9 das d\u00favidas existenciais mais pertinentes da hist\u00f3ria humana. N\u00e3o \u00e9 o suic\u00eddio, como queria o Camus, mas o comportamento diante do tombo alheio que deve ser a quest\u00e3o filos\u00f3fica relevante da humanidade. O resto \u00e9 conversa pra boi dormir.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o \u00e9 simples. Acho que a postura correta nesses casos \u00e9 fingir que n\u00e3o viu a queda acontecer. O sonho de todo sujeito que se esborracha \u00e9 n\u00e3o ser visto. O comportamento mais humano nesses casos \u00e9 observar o camarada estatelado e continuar agindo como se nada tivesse acontecido. <\/p><\/div>\n<div align=\"justify\">O sujeito est\u00e1 l\u00e1, estirado, na horizontal, em situa\u00e7\u00e3o vexaminosa, e voc\u00ea age como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Conv\u00e9m at\u00e9 fazer alguns coment\u00e1rios sobre assuntos totalmente despropositados. O camarada cai e voc\u00ea diz : &#8211; Rapaz, estou preocupado com a quest\u00e3o do aquecimento global . Ou ent\u00e3o, para deixar evidente que n\u00e3o viu, voc\u00ea comenta: &#8211; Estava olhando pro c\u00e9u pra ver se a estrela v\u00e9sper est\u00e1 se aproximando da beta do centauro, na quadratura do cintur\u00e3o de Orfeu; aconteceu algo aqui na terra durante minhas observa\u00e7\u00f5es celestes? Desta forma a v\u00edtima fica inteiramente a vontade para relatar, ou n\u00e3o, o incidente.<\/p>\n<p>Enfim, a quest\u00e3o \u00e9 momentosa e exige indaga\u00e7\u00f5es mais aprofundadas que n\u00e3o se adequam a este espa\u00e7o modesto. Por hora, abro a primeira gelada do dia, \u00e0s margens do Rio Maracan\u00e3, a todos os homens e mulheres, an\u00f4nimos ou famosos, que experimentamos a sensa\u00e7\u00e3o da queda. Despidos, rid\u00edculos, quebrados, ralados e expostos, somos, afinal, os rivelinos que sabem que n\u00e3o adianta tergiversar &#8211; quando menos esperamos, um tombo redentor nos restitui ao leg\u00edtimo papel que nos cabe nesse drama.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3ximo estabaco.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de assistir a um tombo verdadeiramente espetacular de um camarada na esquina da S\u00e3o Francisco Xavier com a Conde de Bonfim, no famoso eTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[314],"class_list":["post-12997","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-confissoes"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12997","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12997"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12997\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}