{"id":12993,"date":"2009-12-29T05:56:00","date_gmt":"2009-12-29T07:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/12\/2010\/"},"modified":"2009-12-29T05:56:00","modified_gmt":"2009-12-29T07:56:00","slug":"2010","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2009\/12\/2010\/","title":{"rendered":"2010"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Final de ano \u00e9 tempo de todos os tipos de crendices e supersti\u00e7\u00f5es. Vale tudo: saltar sete ondas; vestir cuecas e calcinhas imaculadas; tomar banho de arruda; andar feito saci perer\u00ea repetindo a ora\u00e7\u00e3o da cabra preta do livro de S\u00e3o Cipriano; vestir a cor do orix\u00e1 regente; comer duzentas uvas fazendo pedidos; beber champanhe de cabe\u00e7a pra baixo; imitar \u00edndio do velho oeste; cantar o pirulito que bate-bate em chin\u00eas; tomar passe esp\u00edrita de caboclo mais fajuto que nota de tr\u00eas reais e outros babados.<\/div>\n<div align=\"justify\">Eu adotei nos \u00faltimos anos, e a coisa tem funcionado bem, a estrat\u00e9gia m\u00edstica de arrotar vigorosamente na hora da virada. Escrevi sobre isso logo no in\u00edcio do meu antigo blog e, desde ent\u00e3o, tenho me mantido fiel ao h\u00e1bito, fundamentado nas tradi\u00e7\u00f5es milenares da \u00cdndia e da velha P\u00e9rsia. Explico.<\/p>\n<p>Contam os indianos e os persas que <em>Daksa<\/em>, o criador, maravilhado com o ser humano, resolveu comemorar a cria\u00e7\u00e3o enchendo a caveira com o mais puro n\u00e9ctar embriagante. Coisa de 80% de teor alco\u00f3lico. Em suma, a divindade tomou uma porranca das boas.<\/p>\n<p>Eis que, no meio da carraspana, <em>Daksa<\/em> arrotou. Deste arroto nasceu a famosa <em>Vaca Sourabhi<\/em>, primeira m\u00e3e do mundo. Todas as 41 vacas m\u00e3es do mundo nasceram assim, da eructa\u00e7\u00e3o do deus.<\/p>\n<p>No Brasil, o arroto \u00e9 visto como um poderoso instrumento de defesa contra feiti\u00e7os e pragas. S\u00f3 ele, por exemplo , \u00e9 capaz de quebrar o encantamento produzido pela Cobra-Grande, essa assombra\u00e7\u00e3o pavorosa, quando quer atrair os incautos para seus dom\u00ednios no fundo das \u00e1guas.<\/p>\n<p>O arroto tamb\u00e9m foi visto na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, por muito tempo, como um elogio \u00e0 qualidade da refei\u00e7\u00e3o. Era uma honra para qualquer cozinheiro que, ao final do jantar, uma sinfonia de arrotos, alt\u00edssimos, se transformasse na m\u00fasica ambiente, prova cabal do bom sabor dos acepipes.<\/p>\n<p>Constatando isso, s\u00f3 me resta sugerir mais uma vez que os amigos n\u00e3o se avexem e arrotem em profus\u00e3o na virada do ano. S\u00f3 pode fazer bem.<\/p>\n<p>Com as bofadas, acreditem, v\u00e3o embora as pragas de 2009 e, quero crer, as mazelas futuras. Os que arrotam tamb\u00e9m estar\u00e3o reproduzindo o elegant\u00edssimo h\u00e1bito de elogiar as prendas de quem fez a ceia. Coisa fina, sinh\u00e1. Por fim, assim como <em>Daksa<\/em> fez , arrotar de porre \u00e9 um elemento gerador de novas possibilidades de vida. O arroto \u00e9 a for\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Encham o pote e arrotem em seguida, dezenas, centenas de vezes. H\u00e1, \u00e9 bom prevenir, o risco de surgir uma vaca no meio da ceia. Neste caso, \u00e9 pimba na gorduchinha e carne no espeto. Que o churrasco venha ao ponto, nos conformes, que sejam fartas todas as mesas e que a cerveja se mantenha permanentemente gelada.<\/p>\n<p>Feliz 2010!<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1. <\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Final de ano \u00e9 tempo de todos os tipos de crendices e supersti\u00e7\u00f5es. 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