{"id":12981,"date":"2010-01-15T09:33:00","date_gmt":"2010-01-15T11:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/blecaute-e-ogum-no-carnaval-os-generais-da-banda\/"},"modified":"2010-01-15T09:33:00","modified_gmt":"2010-01-15T11:33:00","slug":"blecaute-e-ogum-no-carnaval-os-generais-da-banda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/blecaute-e-ogum-no-carnaval-os-generais-da-banda\/","title":{"rendered":"BLECAUTE E OGUM NO CARNAVAL &#8211; OS GENERAIS DA BANDA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/S1BiEpKQLWI\/AAAAAAAAA1I\/wA_lTkl98Ig\/s1600-h\/20091117-blecaute1.jpg\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/20091117-blecaute1.jpg\"><\/a><\/p>\n<div align=\"justify\">Esse espa\u00e7o est\u00e1 homenageando, nesse per\u00edodo entre o Dia de Reis e a Quarta Feira de Cinzas, o Carnaval brasileiro e seus personagens. Ontem, por exemplo, o destaque foi a Favorita da Marinha, Emilinha Borba. Nosso foli\u00e3o de hoje \u00e9 outra lenda da festa: Ot\u00e1vio Henrique de Oliveira, o imortal Blecaute.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Nosso personagem nasceu em 1919, na pequena cidade paulista de Esp\u00edrito Santo do Pinhal. Orf\u00e3o de pai e m\u00e3e, chegou aos seis anos de idade \u00e0 capital e trabalhou como engraxate e entregador de jornais na Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o. Come\u00e7ou a participar de batucadas, virou cantor da R\u00e1dio Difusora de S\u00e3o Paulo e, em 1942, iniciou sua trajet\u00f3ria no Rio de Janeiro. Em pouco tempo tornou-se atra\u00e7\u00e3o da poderosa R\u00e1dio Nacional.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Grande \u00ednterprete de marchinhas e sambas, estourou definitivamente quando gravou no Carnaval de 1949 o ponto de macumba <em>General da Banda<\/em>, parceria entre o pai de santo Tancredo Silva, S\u00e1tiro de Melo Jos\u00e9 Alcides. O sucesso foi t\u00e3o grande que Blecaute passou, desde ent\u00e3o, a se apresentar como um leg\u00edtimo general da folia, com uma fantasia repleta de dragonas e alamares. Quem hoje se veste de forma parecida \u00e9 o ditador da L\u00edbia, o General Mohamed Kadafi.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Os desavisados talvez n\u00e3o saibam que <em>General da Banda<\/em> \u00e9 uma das formas do povo da curimba se referir ao guerreiro Ogum. A transforma\u00e7\u00e3o do ponto de macumba em samba de carnaval, diga-se, s\u00f3 poderia mesmo acontecer com o mais popular dos orix\u00e1s das macumbas cariocas, o santo guerreiro que gosta de cerveja e feijoada e \u00e9 irm\u00e3o dileto de Exu. <\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Blecaute morreu no dia 9 de fevereiro de 1983, pertinho do Carnaval. Sobre seu enterro eu escrevi, faz tempo, um relato que envolveu meu av\u00f4 e o Manoelzinho Mota, um cacha\u00e7a amigo da minha fam\u00edlia. O tro\u00e7o parece sacanagem mas \u00e9 a mais absoluta verdade. A confus\u00e3o que ocorreu no cemit\u00e9rio virou, inclusive, not\u00edcia de jornal. Reproduzo, em homenagem ao monumental Blecaute, o relato sobre o furdun\u00e7o f\u00fanebre do <strong>General da Banda:<\/strong><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\"><strong><\/strong><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\"><em>A not\u00edcia surpreendeu quem conhecia o caboclo e foi dada pelo Niltinho:<br \/>&#8211; Prenderam o Manoelzinho Mota!<br \/>As senhoras e senhores que n\u00e3o conheceram o Manoelzinho n\u00e3o fazem id\u00e9ia do car\u00e1ter inusitado do acontecimento. Manoelzinho era um cacha\u00e7a cl\u00e1ssico, morava em uma vila no Lins de Vasconcelos e enchia a caveira de forma industrial. Era, por\u00e9m, t\u00e3o agressivo quanto um ataque do Botafogo nos anos setenta<\/em> <em>formado por Tuca, Crem\u00edlson e Puruca, que fazia em m\u00e9dia quatro gols. Por ano.<br \/>Como ia dizendo, meteram o Manoelzinho no xilindr\u00f3. Formou-se, de imediato, uma comiss\u00e3o de not\u00e1veis, com decisiva participa\u00e7\u00e3o do meu av\u00f4, ata de funda\u00e7\u00e3o e o escambau, pra resgatar o bebum das garras da justa.<br \/>A causa da pris\u00e3o era um cl\u00e1ssico &#8211; perturba\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica. O local do delito, o cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Explico.<br \/>Tinha morrido, na v\u00e9spera, o Blecaute, grande cantor, famoso pela grava\u00e7\u00e3o do samba General da Banda. Necess\u00e1rio dizer que o Manoelzinho Mota adorava o crioulo. Conhecera o Blecaute na \u00e9poca em que o neg\u00e3o era patrono da Casa do Pequeno Jornaleiro e o Manoelzinho, um deles.<br \/>A not\u00edcia foi dada pelo Mineirinho:<br \/>&#8211; Mota, o Blecaute foi ol\u00f3.<br \/>&#8211; O Blecaute? N\u00e3o sacaneia, porra&#8230;<br \/>&#8211; Pois \u00e9.<br \/>Destru\u00eddo, envelhecido em barril de carvalho, l\u00e1 foi o Manoelzinho ao enterro do Blecaute. Deu-se, por\u00e9m, que o nosso cacha\u00e7a foi ao cemit\u00e9rio errado. Blecaute estava sendo velado no Caju e o Manoelzinho, sabe-se l\u00e1 por que diabos e aos prantos, parou no S\u00e3o Jo\u00e3o Batista.<br \/>No que entrou no cemit\u00e9rio e viu uma capela cheia, n\u00e3o teve a menor d\u00favida: era o vel\u00f3rio do Blecaute.<br \/>Leitores acreditem. O homem entrou no vel\u00f3rio de um certo General Ademir Mour\u00e3o de Matos, veterano da Revolu\u00e7\u00e3o Paulista de 1932. N\u00e3o haveria problemas se, comovid\u00edssimo, o Manoelzinho n\u00e3o resolvesse homenagear o saudoso Blecaute no vel\u00f3rio errado.<br \/>Nosso her\u00f3i j\u00e1 entrou na capela berrando:<br \/>&#8211; Nada de tristeza! Ele s\u00f3 nos deu alegrias. S\u00f3 nos deu alegrias! Viva o general da Banda!<br \/>E come\u00e7ou a cantar:<br \/><span>Chegou General da Banda, \u00ca, \u00ca,Chegou General da Banda, \u00ca, \u00c1&#8230;<\/span><br \/>O mais incr\u00edvel, o mais incr\u00edvel. Aos poucos, v\u00e1rios presentes ao vel\u00f3rio do \u00ednclito Mour\u00e3o de Matos, homem mais chegado aos dobrados militares, come\u00e7aram a acompanhar o Manoelzinho. De repente, o coro ganhou propor\u00e7\u00f5es fabulosas. At\u00e9 os defuntos do S\u00e3o Jo\u00e3o Batista levantaram das tumbas para cantar:<br \/><span>Mour\u00e3o, mour\u00e3o,vara madura que n\u00e3o cai.Mour\u00e3o, Mour\u00e3o,cutuca por baixo que ele vai<\/span>.<br \/>A capela virou um baile de carnaval, com gente com dedinho pro alto e outros balacobacos. A fam\u00edlia do General, entretanto, n\u00e3o gostou da homenagem. Um primo do falecido foi mandar o Manoelzinho parar e recebeu a resposta cortante:<br \/>&#8211; Parar? N\u00e3o fode, porra. Eu amava esse crioulo!<br \/>&#8211; Crioulo? Respeita o General, seu b\u00eabado de merda!<br \/>O pac\u00edfico Manoelzinho virou bicho. Pegou a primeira coroa de flores que viu pela frente e afundou no pesco\u00e7o do primo do General. O tempo fechou. Em cinco minutos ningu\u00e9m mais sabia quem estava batendo, quem estava apanhando e por que o furdun\u00e7o tinha come\u00e7ado. A esposa do general desmaiou na hora em que o coveiro recebeu Seu Tranca-Ruas e passou a dar porrada em todo mundo, defendendo o Manoelzinho, que Exu n\u00e3o ia deixar um cachaceiro na m\u00e3o. No auge do quiproc\u00f3, Seu Tranca-Ruas jogou o caix\u00e3o no ch\u00e3o e um milico amigo do General deu sete tiros pro alto.<br \/>No fim das contas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos e o Manoelzinho foi em cana. Queriam prender o coveiro, mas quando Seu Tranca-Ruas se identificou, a pol\u00edcia achou melhor n\u00e3o brincar com o homem e formou-se at\u00e9 fila pra consulta, com a esposa de um coronel recebendo a Cigana e o cacete.<br \/>Quando saiu da cadeia, acompanhado pela dileta comiss\u00e3o encabe\u00e7ada pelo meu av\u00f4, Manoelzinho encheu o pote e deu a primeira declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre o epis\u00f3dio, para os anais da hist\u00f3ria do Lins de Vasconcelos:<br \/>&#8211; Admito tudo, menos uma coisa; um puto qualquer no cemit\u00e9rio me acusou de desrespeitar o Blecaute. Tudo bem que eu desafinei enquanto cantava, mas foi bonito pra cacete. Todo mundo cantou junto. O Blecaute, que Deus o tenha, deve ter ficado feliz.<br \/><\/em><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<p>Evo\u00e9! E viva Blecaute, o eterno General da Banda. Patakuri, Ogum!<\/p>\n<div align=\"justify\"><em><\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse espa\u00e7o est\u00e1 homenageando, nesse per\u00edodo entre o Dia de Reis e a Quarta Feira de Cinzas, o Carnaval brasileiro e seus personagens. 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