{"id":12980,"date":"2010-01-18T07:45:00","date_gmt":"2010-01-18T09:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/malandragem-e-cultura-ou-a-legalidade-segundo-o-seu-joaquim\/"},"modified":"2010-01-18T07:45:00","modified_gmt":"2010-01-18T09:45:00","slug":"malandragem-e-cultura-ou-a-legalidade-segundo-o-seu-joaquim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/01\/malandragem-e-cultura-ou-a-legalidade-segundo-o-seu-joaquim\/","title":{"rendered":"MALANDRAGEM \u00c9 CULTURA OU A LEGALIDADE SEGUNDO O SEU JOAQUIM"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">O t\u00edtulo dessa postagem \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o. Explico. O jornalista Joaquim Ferreira dos Santos escreveu um texto, em <em>O Globo<\/em> de hoje, descendo a borduna na decis\u00e3o da prefeitura do Rio de Janeiro de voltar a permitir a venda do mate de lat\u00e3o nas praias cariocas.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">O argumento do texto \u00e9 prim\u00e1rio: A libera\u00e7\u00e3o do mate em lat\u00e3o \u00e9 a senha para a capitula\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico diante do vale tudo e do salve-se quem puder em que se transformou a cidade do Rio de Janeiro. <\/div>\n<div align=\"justify\">O jornalista, em certo momento do arrazoado, exercita uma ir\u00f4nia rasteira e lan\u00e7a duas p\u00e9rolas dignas de sambadinhas do Rubinho Barrichello no p\u00f3dium. A primeira: <em>Abaixo a depress\u00e3o dos falsos civilizados e consagre-se no poder o vi\u00e9s africano que nos vai na veia.<\/em> A segunda: <em>A malandragem, foi dito na reuni\u00e3o da secretaria, \u00e9 cultura. <\/em><\/div>\n<div align=\"justify\">A primeira senten\u00e7a \u00e9 um primor. A bandalheira \u00e9 ironizada como a supremacia criadora do vi\u00e9s africano que nos vai na veia e o sabich\u00e3o alfineta os que ressaltam a import\u00e2ncia das \u00e1fricas que forjaram boa parte da cidade. Joaquim exerce aqui duas li\u00e7\u00f5es que andam fazendo a cabe\u00e7a de muitos jornalistas &#8211; sabem um pouco de tudo e n\u00e3o entendem profundamente de nada e s\u00e3o incapazes de pensar o presente com uma perspectiva mais reflexiva sobre o passado que o gerou.<\/div>\n<div align=\"justify\">N\u00e3o custa repetir: A exclus\u00e3o social no Brasil foi um projeto de Estado. A Rep\u00fablica fechou as portas, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no final do Imp\u00e9rio, a qualquer projeto de integra\u00e7\u00e3o dos descendentes de escravos no mercado formal de trabalho e no exerc\u00edcio pleno da cidadania. A cultura da informalidade, portanto, \u00e9 decorrente em larga medida da falta de alternativa. Se \u00e9 boa ou ruim \u00e9 outro papo. O que interessa \u00e9 que ela existe e n\u00e3o \u00e9 fruto de vi\u00e9s que vai na veia &#8211; \u00e9 estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, fonte de crimes [in\u00fameros] e salva\u00e7\u00f5es [muitas]. O jornalista Joaquim acha bonito e muito inteligente fazer ironia com um povo que <em>foi escorra\u00e7ado nos navios negreiros<\/em> [a frase \u00e9 dele, tentando fazer gracinha reacion\u00e1ria com os quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o no Brasil].<\/div>\n<div align=\"justify\">Aproveito o mote do par\u00e1grafo acima para dizer com toda a convic\u00e7\u00e3o: Malandragem \u00e9 cultura. <\/div>\n<div align=\"justify\">Ou o jornalista ainda confunde cultura com evento? \u00c9 mesmo essa a vis\u00e3o de cultura de um homem que escreve no jornal de maior circula\u00e7\u00e3o da cidade? Cultura n\u00e3o \u00e9 coisa naturalmente boa ou ruim, caceta. Cultura \u00e9 a maneira como um grupo cria ou reelabora formas de [re]inven\u00e7\u00e3o da vida e estabelece significados sobre a realidade que o cerca. As maneiras de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dan\u00e7ar, n\u00e3o dan\u00e7ar, fazer m\u00fasica, silenciar, gritar&#8230; tudo isso \u00e9 componente da cultura de um grupo. <\/div>\n<div align=\"justify\">H\u00e1 no Rio de Janeiro uma cultura da informalidade [podem chamar de malandragem, jeitinho brasileiro&#8230;] absolutamente arraigada, <strong>para o bem e para o mal<\/strong>, ao cotidiano do carioca. Essa cultura se estabeleceu entre as frestas deixadas por um poder p\u00fablico que historicamente se preocupou mais em reprimir do que em incluir. E que pode ser modificada, \u00e9 claro, j\u00e1 que as elabora\u00e7\u00f5es de significados s\u00e3o din\u00e2micas, jamais est\u00e1ticas. <\/div>\n<div align=\"justify\">H\u00e1 os que acham que, por conta dessa reflex\u00e3o, defendo a bandalheira, o cada um por si, a barb\u00e1rie. Jamais. Sou plenamente favor\u00e1vel a um poder p\u00fablico atuante e garantidor de um espa\u00e7o urbano que possa ser usufruido de forma saud\u00e1vel pelo cidad\u00e3o. Fa\u00e7o, apenas, algumas considera\u00e7\u00f5es:<\/div>\n<div align=\"justify\">1- H\u00e1 que se fundamentar um sentido de civilidade urbana que n\u00e3o se contente com a ideia f\u00e1cil de que a repress\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caminho que leva \u00e0 ordem. <\/div>\n<div align=\"justify\">2- A tens\u00e3o criadora entre o que \u00e9 legal e o ilegal exige do poder p\u00fablico mais do que o controle de um forte aparato de seguran\u00e7a [que em geral s\u00f3 funciona contra o andar de baixo] &#8211; \u00e9 necess\u00e1rio o bom senso de se separar o joio do trigo e perceber que o mercador de flores da esquina, o livreiro de rua e o bebedor de ceveja no Maracan\u00e3 s\u00e3o muito diferentes do flanelinha que extorque o motorista ou do garot\u00e3o de condom\u00ednio que sai de noite para espancar putas e pobres. <\/div>\n<div align=\"justify\">3- N\u00e3o h\u00e1 ordem poss\u00edvel por aqui sem o vigoroso engajamento em projetos de inclus\u00e3o social. Exemplifico. Reprimir a m\u00e1fia das vans \u00e9 rigorosamente necess\u00e1rio, mas pensar em formas de transporte dignas e legais para a massa urbana \u00e9 de extrema urg\u00eancia e deve ser o primeiro passo nesse processo. Arrumem primeiro uma forma do trabalhador conseguir se deslocar dignamente e depois coloquem no xilindr\u00f3 essa malta que explora o transporte ilegal. Ou fa\u00e7am as duas coisas ao mesmo tempo [a melhor alternativa, \u00e9 claro]. Ou que tal adotar a solu\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil: Vamos prender todo mundo e acabar hoje com as vans. A empregada dom\u00e9stica carioca vai acabar dando um jeitinho [olha ele a\u00ed!] de chegar ao trabalho na casa da madame. Basta sair de casa duas horas antes, l\u00e1 pelas tr\u00eas da manh\u00e3, e descer a Avenida Brasil correndo. Podemos at\u00e9 dizer que \u00e9 um programa de sa\u00fade p\u00fablica, j\u00e1 que correr faz bem pro cora\u00e7\u00e3o. Colocar no mesmo liquidificador o dono da van, o motorista da van, o trocador da van e o passageiro da van \u00e9 sacanagem das grossas. \u00c9 coisa de quem cresceu soltando pipa no ventilador e tem a sorte de trabalhar em casa.<\/div>\n<div align=\"justify\">4- O samba urbano surgiu no Rio de Janeiro e foi tremendamente perseguido, como at\u00e9 o Cristo Redentor sabe. Desde a Era Vargas o processo de legitima\u00e7\u00e3o do samba se imp\u00f4s e quebrou as bordunas e cacetes da pol\u00edcia. Candeia, entretanto, sabia que n\u00e3o era suficiente legitimar o samba como manifesta\u00e7\u00e3o maior da cultura carioca. O dia de gra\u00e7a s\u00f3 vir\u00e1 mesmo quando o sambista conseguir cantar o samba na universidade, na condi\u00e7\u00e3o de aluno ou professor.<\/div>\n<div align=\"justify\">5- O texto do jornalista Joaquim presta um p\u00e9ssimo servi\u00e7o ao debate fecundo que se trava hoje sobre o Rio de Janeiro que queremos. N\u00e3o tenho nenhuma procura\u00e7\u00e3o para defender a prefeitura, mas a disposi\u00e7\u00e3o de recuar, errar e acertar nesse processo \u00e9 importante. \u00c9 desonestidade intelectual colocar no mesmo vatap\u00e1 flanelinhas, assassinos de plant\u00e3o, motoristas que falam no celular, camel\u00f4s, grafiteiros, garotos de programa, policiais corruptos, jogadores de frescobol, torcedores do Flamengo, sofredores do Botafogo, madames, poodles na coleira, big brother Brasil, apontadores do bicho, vendedores de camar\u00e3o frito e o escambau. Denota, tamb\u00e9m, uma vis\u00e3o simplista e perigosamente moralista da cidade e de sua gente. <\/div>\n<div align=\"justify\">6- A Revolta da Chibata faz cem anos em 2010. Os marujos liderados por Jo\u00e3o Candido se rebelaram contra a legalidade. O que era legal na \u00e9poca? Punir a marujada com um c\u00f3digo disciplinar dos tempos da escravatura, com destaque para as chibatas com navalhas nas pontas que lanhavam os corpos dos marinheiros sem voz e sem patente. Na vis\u00e3o tosca dos legalistas de plant\u00e3o, os marujos n\u00e3o passavam de bandidos que se levantaram contra a lei estabelecida. Pau neles! Nunca a distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 legal e o que \u00e9 justo foi t\u00e3o aviltante na nossa hist\u00f3ria. Se vivo fosse naquele ano em que o Botafogo papou o campeonato carioca, e na toada do texto de hoje, o Seu Joaquim provavelmente escreveria um indignado artigo contra os baderneiros que fizeram o charivari na Ba\u00eda de Guanabara e demostraria toda a indigna\u00e7\u00e3o com o governo que concordou com o fim da chibata, esse fundamental objeto de controle p\u00fablico. A chibata t\u00e1 na lei; viva a chibata! <\/div>\n<div align=\"justify\">Termino reafirmando o que desde o in\u00edcio dessa prefeitura defendo com ve\u00eamencia. O tal choque de ordem [o nome \u00e9 p\u00e9ssimo, j\u00e1 que remete a batalh\u00e3o de choque, ordem do cheque, choque el\u00e9trico e os cacetes&#8230;] deve ser fundamentado no bom senso, que dispensa os arroubos e convida ao di\u00e1logo entre o poder p\u00fablico, a cidade, seus habitantes, seu passado e suas proje\u00e7\u00f5es de futuro. E que encare a informalidade, sim senhor, como um tra\u00e7o constituidor [dentre outros] da cultura do Rio de Janeiro, nosso inferno cotidiano e nossa possibilidade de reden\u00e7\u00e3o. Aqui prevaleceu a sabedoria da escassez &#8211; nada mais do que a forma de inventar, com um quase nada, a vida que foi negada. Deus e o diabo na Guanabara.<\/div>\n<div align=\"justify\">Essa nossa cidade, feito \u00e1rvore frondosa, deu e d\u00e1 muitos frutos bons e muita coisa podre. Reprimir, dialogar, incluir, escutar, ponderar, ordenar, ceder, marcar posi\u00e7\u00e3o, abrir m\u00e3o&#8230; tudo isso faz parte de um processo que n\u00e3o \u00e9 mole. Vale aqui o velho alerta da piada: O risco de se colocar tudo no mesmo saco, seu Joaquim, \u00e9 jogar fora, depois do banho necess\u00e1rio, a \u00e1gua suja da banheira com o beb\u00ea dentro. <\/div>\n<div align=\"justify\">Abra\u00e7os.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo dessa postagem \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o. Explico. 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