{"id":12973,"date":"2010-02-03T14:09:00","date_gmt":"2010-02-03T16:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/02\/o-carnaval-e-a-marcha-da-cueca\/"},"modified":"2010-02-03T14:09:00","modified_gmt":"2010-02-03T16:09:00","slug":"o-carnaval-e-a-marcha-da-cueca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/02\/o-carnaval-e-a-marcha-da-cueca\/","title":{"rendered":"O CARNAVAL E A MARCHA DA CUECA"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">\u00c9 impressionante como algumas marchinhas carnavalescas se incorporam ao imagin\u00e1rio do sujeito feito o Padre Nosso para crist\u00e3os. Inven\u00e7\u00e3o carioqu\u00edssima, a marchinha \u00e9 a cr\u00f4nica cantada, serelepe, \u00e1gil, sacana, vez por outra l\u00edrica, da nossa gente. Sou f\u00e3 absoluto do g\u00eanero.<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Sei de gente que se comove na \u00e9poca do Natal com o os Meninos Cantores de Petr\u00f3polis cantando <em>Noite Feliz<\/em>. Outros, mais caipiras, sentem o peito doer nas festas de S\u00e3o Jo\u00e3o, ao som de<em> O bal\u00e3o vai<\/em> <em>subindo<\/em>. Conhe\u00e7o at\u00e9 um sujeito meio fresco que chora na P\u00e1scoa quando escuta o <em>coelhinho<\/em> <em>se eu fosse como tu<\/em>. Eu, triste carnavalesco que sou, costumo chegar \u00e0s l\u00e1grimas com a imortal <em>Marcha da Cueca<\/em>, uma esp\u00e9cie de Marselhesa dos pa\u00edses baixos, composta por Carlos Meneses, Livardo Alves e Sardinho [obra dessa dimens\u00e3o n\u00e3o poderia mesmo ser fruto de uma \u00fanica pessoa] :<br \/><em><\/em><\/div>\n<p><em><\/p>\n<div align=\"justify\">Eu mato, eu mato<br \/>Quem roubou minha cueca<br \/>Pra fazer pano de prato.<br \/>Minha cueca<br \/>Tava lavada<br \/>Foi um presente<br \/>Que ganhei da namorada<\/p>\n<p>A<em> Marcha da Cueca<\/em> traz tremendas recorda\u00e7\u00f5es e a lembran\u00e7a, especial\u00edssima, de um epis\u00f3dio que moldou, em certo sentido, meu car\u00e1ter. At\u00e9 escrevi certa feita sobre o fato em algum canto do antigo blog. Rememoro o evento.<\/div>\n<div align=\"justify\">Tinha eu catorze anos de idade quando ganhei uma cueca espetacular &#8211; cor de laranja, com uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica no meio e a frase definitiva : Olha o passarinho. Foi presente da minha m\u00e3e. Ali\u00e1s, minto, n\u00e3o foi minha m\u00e3e. Ganhei a cueca da minha tia Lita.<\/div>\n<div align=\"justify\">Passou a ser minha cueca predileta, que usava com const\u00e2ncia pouco recomend\u00e1vel. Mais do que predileta, a cueca me dava era uma sorte violenta. N\u00e3o cheguei ao ponto de D. Jo\u00e3o VI, que usou uma \u00fanica pe\u00e7a de baixo por oito anos, mas \u00e9 meu dever confessar que as outras cuecas perderam a import\u00e2ncia diante daquela.<\/div>\n<div align=\"justify\">Eis que um dia, sintam meu drama, fui jogar futebol com a garotada na Casa do Minho, clube portugu\u00eas situado em Laranjeiras. \u00c9 evidente que estava usando a cueca, garantia absoluta de um desempenho brilhante nas quatro linhas.<\/div>\n<div align=\"justify\">Sempre fui, e a pausa \u00e9 necess\u00e1ria, homem-gol. Dotado de insuspeita habilidade com a crian\u00e7a nos p\u00e9s, era um dos primeiros escolhidos no par ou \u00edmpar. Balan\u00e7ar as redes advers\u00e1rias, para mim, era mato.<\/div>\n<div align=\"justify\">Pois bem , voltemos ao cen\u00e1rio do drama. Come\u00e7a o jogo. O beque advers\u00e1rio faz uma marca\u00e7\u00e3o firme para conter minhas arrancadas mort\u00edferas. Subitamente sou assaltado por uma necessidade vigorosa de ir ao banheiro. Estou entre amigos, pe\u00e7o r\u00e1pida substitui\u00e7\u00e3o e dirijo-me c\u00e9lere aos vesti\u00e1rios.<\/div>\n<div align=\"justify\">Chegando l\u00e1, em situa\u00e7\u00e3o emergencial, busco a privada com o fervor de um mu\u00e7ulmano peregrinando \u00e0 Meca. J\u00e1 no trono, sinto o al\u00edvio vital da evacua\u00e7\u00e3o, caudalosa como um Amazonas barroso.<\/div>\n<div align=\"justify\">Terminada a tarefa, busco agir com rapidez para voltar ao cen\u00e1rio do confronto. H\u00e1 , por\u00e9m, um grave problema. Onde est\u00e1 o papel higi\u00eanico? N\u00e3o est\u00e1. N\u00e3o h\u00e1. Toalha de rosto? N\u00e3o h\u00e1. N\u00e3o existe rigorosamente nada que possibilite a higiene p\u00f3s-apoteose fecal.<\/div>\n<div align=\"justify\">Volto ao jogo naquelas condi\u00e7\u00f5es? Nem pensar.<\/div>\n<div align=\"justify\">Me ocorreu ent\u00e3o a \u00fanica e dolorosa sa\u00edda &#8211; sacrificar a cueca.<\/div>\n<div align=\"justify\">Dotado de tristeza profunda, vivendo uma esp\u00e9cie de escolha de Sofia, sacrifiquei a bichinha em nome da manuten\u00e7\u00e3o da dignidade pessoal do artilheiro. Me limpei com minha pe\u00e7a de estima\u00e7\u00e3o, maculando para todo sempre o olha o passarinho.<\/div>\n<div align=\"justify\">Ap\u00f3s o ato cometi o il\u00edcito: Zuni a cueca pela janela do banheiro, que dava para o p\u00e1tio do pr\u00e9dio vizinho. Lavei as m\u00e3os &#8211; sempre fui educad\u00edssimo &#8211; e voltei ao jogo. Tive uma atua\u00e7\u00e3o discreta, apagada mesmo, naquele dia.<\/div>\n<div align=\"justify\">Acho que \u00e9 por isso que a <em>Marcha da Cueca<\/em> me deixa, com a licen\u00e7a do poeta, comovido feito o diabo. A cueca da marchinha, que virou pano de prato, passou a ser a dolorosa lembran\u00e7a da outra, que virou papel higi\u00eanico. Saudade, teu nome \u00e9 Carnaval !<\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Evo\u00e9<\/div>\n<p><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 impressionante como algumas marchinhas carnavalescas se incorporam ao imagin\u00e1rio do sujeito feito o Padre Nosso para crist\u00e3os. Inven\u00e7\u00e3o carioqu\u00edssima, a marchinha \u00e9 a cr\u00f4nicaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-12973","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12973"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12973\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}