{"id":12962,"date":"2010-03-02T10:54:00","date_gmt":"2010-03-02T12:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/03\/o-bem-dotado-o-homem-de-itu\/"},"modified":"2010-03-02T10:54:00","modified_gmt":"2010-03-02T12:54:00","slug":"o-bem-dotado-o-homem-de-itu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/03\/o-bem-dotado-o-homem-de-itu\/","title":{"rendered":"O BEM DOTADO, O HOMEM DE ITU"},"content":{"rendered":"<div><\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/S40IUYp9KvI\/AAAAAAAAA4I\/bNu1ASl_2Uo\/s1600-h\/13-0616247127T.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" kt=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/13-0616247127T.jpg\"><\/a><\/div>\n<p>Temos, na tradi\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica mundial, alguns cl\u00e1ssicos de natureza intimista, em que a c\u00e2mera\u00a0estabelece um di\u00e1logo instigante com o espectador e parece propor um jogo de gato em rato\u00a0onde a arte\u00a0\u00e9 \u00a0a inst\u00e2ncia do confronto entre o que somos e o que pretendiamos ser.\u00a0A arte, nesse momento, desnuda o homem, retira suas m\u00e1scaras e corta a carne como navalha afiada de um amanh\u00e3 que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 e de um ontem que se perdeu em um lugar mais distante que Presidente Prudente.<\/p><\/div>\n<div>Esse intimismo, marca do cinema bergmaniano, de toda a tradi\u00e7\u00e3o do dogma escandinavo\u00a0e da escola existencialista francesa &#8211; que alguns preferem chamar de cinema-ang\u00fastia e eu prefiro de\u00a0 cinema-suic\u00eddio\u00a0&#8211; encontra seu maior momento no Brasil no filme<strong> <\/strong><span><strong>O bem dotado, o homem de Itu,<\/strong> cl\u00e1ssico da pornochanchada canarinho, dirigido com m\u00e3o segura e medida certa por Jos\u00e9 Miziara.<\/span><\/div>\n<div>O enredo \u00e9 simples, mas de alcance universal : L\u00edrio, um caipira ing\u00eanuo, sai de Itu para viver o choque cultural de 220 volts\u00a0na cidade grande. Em virtude de seu p\u00eanis de propor\u00e7\u00f5es garrinchais, se transforma em homem-objeto para mulheres da alta sociedade e se mete em toda sorte de confus\u00f5es e sacanagens, at\u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o definitiva atrav\u00e9s do amor verdadeiro, daqueles que Walt Disney inventou para vender figurinhas da Branca de Neve durante a Grande Depress\u00e3o dos anos 30.<\/div>\n<div>A atua\u00e7\u00e3o de Nuno Leal Maia como L\u00edrio\u00a0\u00e9\u00a0apenas correta. Nuno, ator da velha tradi\u00e7\u00e3o dos mach\u00f5es como Sir Laurence Olivier, Al Pacino, Capit\u00e3o Asa, Marcelo Mastroiani e Edir Macedo, tem alguns bons momentos, revelando aos poucos a tens\u00e3o que L\u00edrio vive entre a pureza do homem do campo e as\u00a0del\u00edcias da grande cidade. O personagem, no fundo,\u00a0\u00e9 uma mistura de Mazzaropi e Man\u00e9 Garrincha &#8211; uma esp\u00e9cie de \u00e1rcade tardio &#8211;\u00a0mas Nuno poderia encontrar\u00a0por vezes um tom um pouco mais sutil\u00a0entre o Jeca Tatu e o\u00a0g\u00eanio das pernas tortas.<\/div>\n<div>O elenco feminino, esse sim, \u00a0\u00e9 de grande categoria. Consuelo Leandro e Maria Lu\u00edza Castelli se saem bem como gr\u00e3-finas matando cachorro a grito. Destaco, por\u00e9m, \u00a0a sens\u00edvel atua\u00e7\u00e3o de Helena Ramos como Julinha e o agressivo contraponto proposto pelo desempenho da diva\u00a0Aldine Muller como Lurdinha. Espet\u00e1cular !\u00a0\u00e9 a defini\u00e7\u00e3o correta para\u00a0 a\u00a0dupla din\u00e2mica Helena e Aldine, uma esp\u00e9cie de Pel\u00e9 e Coutinho da cinematografia nacional.\u00a0<\/div>\n<div>A Volga, de Ana Maria Nascimento e Silva, nos remete aos tempos de Sodoma e Gomorra e de Cle\u00f3patra, a rainha do Egito, \u00a0numa evidente e\u00a0erudita remiss\u00e3o \u00e0s sagradas escrituras e aos balacobacos da filha de Ptolomeu XII e amante de Julio Cesar e Marco Ant\u00f4nio. Magn\u00edfica tamb\u00e9m \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o de Esmeralda Barros como Pedra, dialogando com a c\u00e2mera em insinuante desempenho e revelando um talento que depois se consolidou no filme Mulheres do Cais, outro cl\u00e1ssico da nossa produ\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>Em certa ocasi\u00e3o, e observem como me preparei para esse\u00a0texto, \u00a0um\u00a0cr\u00edtico alentado afirmou sobre um cl\u00e1ssico de Godart o seguinte:\u00a0&#8220;Toda arte, como met\u00e1fora da vida, \u00e9 o tabuleiro de xadrez onde Eros e T\u00e2natos se enfrentam na batalha intermin\u00e1vel entre o ser e o nada e\u00a0onde o horizonte que se descortina ao homem \u00e9 o inevit\u00e1vel encontro com seu ant\u00edpoda que \u00e9 ele mesmo, inexoravelmente fadado ao desmantelo da fragmentada fagulha que \u00e9 nossa exist\u00eancia&#8221;.<\/div>\n<div>Fiquei impressionad\u00edssimo com essa defini\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que na hora n\u00e3o entendi\u00a0necas de pitibiribas\u00a0da senten\u00e7a genial. S\u00f3 depois de assistir ao <strong>Bem dotado, o homem de Itu<\/strong>, um filme pr\u00e9-Trov\u00e3o Azul, \u00e9 que captei o que quis dizer o eminente homem de cinema e renomado intelectual: Se um dia o b\u00e1culo episcopal vai virar\u00a0bandeira a meio pau,\u00a0que me importa se a mula \u00e9 manca; eu quero \u00e9 rosetar!<\/div>\n<div>Abra\u00e7os.<\/div>\n<div>ps: Como a configura\u00e7\u00e3o do blog est\u00e1 meio doida, os\u00a0links com textos antigos e os liames\u00a0\u00a0dos amigos passaram para o final da p\u00e1gina. Est\u00e3o todos l\u00e1, intactos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Temos, na tradi\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica mundial, alguns cl\u00e1ssicos de natureza intimista, em que a c\u00e2mera\u00a0estabelece um di\u00e1logo instigante com o espectador e parece propor um jogoTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[334],"class_list":["post-12962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","tag-cinema-2"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12962\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}