{"id":12947,"date":"2010-04-09T10:49:00","date_gmt":"2010-04-09T12:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/a-ocupacao-dos-morros-o-lado-b-do-disco\/"},"modified":"2010-04-09T10:49:00","modified_gmt":"2010-04-09T12:49:00","slug":"a-ocupacao-dos-morros-o-lado-b-do-disco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/04\/a-ocupacao-dos-morros-o-lado-b-do-disco\/","title":{"rendered":"A OCUPA\u00c7\u00c3O DOS MORROS &#8211; O LADO B DO DISCO"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/S78dprwe_3I\/AAAAAAAAA6w\/bkvyxAEjxPo\/s1600\/1115830759_f.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/1115830759_f.jpg\" wt=\"true\"><\/a><\/div>\n<div>Chego pisando manso, j\u00e1 que em geral uso esse\u00a0espa\u00e7o para falar do\u00a0cadinho que me forja, para\u00a0 meter o pitaco nas discuss\u00f5es que envolvem o problema da ocupa\u00e7\u00e3o dos morros cariocas. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0Sou, como quase todo historiador, de ousar diagn\u00f3sticos. Honrando ainda os historiadores, meros\u00a0profetas do que j\u00e1 aconteceu, sou\u00a0p\u00e9ssimo\u00a0na hora de sugerir a terap\u00eautica. Fa\u00e7o, portanto, essas reflex\u00f5es no horizonte do tempo e deconhe\u00e7o as solu\u00e7\u00f5es para os problemas apontados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A ocupa\u00e7\u00e3o inicial\u00a0dos morros do Rio de Janeiro remonta aos fins do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O contexto do per\u00edodo &#8211;\u00a0comecinho da Rep\u00fablica &#8211; \u00e9 marcado por duas ideias\u00a0que norteiam a atua\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0 cidade e seus habitantes: civilizar, interferindo no espa\u00e7o urbano e nos h\u00e1bitos cotidianos;\u00a0higienizar, atrav\u00e9s da assepsia proporcionada pela\u00a0vacina e pela saga apostolar do Doutor Oswaldo Cruz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O ato de civilizar era visto como uma tentativa de impor \u00e0 cidade padr\u00f5es urbanos e comportamentais similares \u00e0s capitais europ\u00e9ias, especialmente Paris. Foi essa a perspectiva da reforma urbana de 1904,\u00a0projetada pelo prefeito Pereira Passos e\u00a0seus asseclas\u00a0&#8211;\u00a0o alcaide\u00a0era um declarado devoto de Haussmann, o respons\u00e1vel pela reforma urbana da capital francesa nos tempos de Napole\u00e3o III.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0A reorganiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano teve, naquele contexto, \u00a0o objetivo de consolidar a inser\u00e7\u00e3o do Brasil no modelo capitalista internacional, facilitar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias [inviabilizada pelas caracter\u00edsticas coloniais da regi\u00e3o central, com\u00a0 ruas estreitas que dificultavam a liga\u00e7\u00e3o com a zona portu\u00e1ria] e construir espa\u00e7os simb\u00f3licos que afirmassem os valores de uma elite cosmopolita.\u00a0Era o sonho da\u00a0<em>Belle \u00c9poque<\/em> tropical. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0Havia, por\u00e9m, um obst\u00e1culo a ser removido para a concretiza\u00e7\u00e3o da Cidade Maravilhosa: os pobres que habitavam as ruas centrais da cidade e\u00a0moravam\u00a0em habita\u00e7\u00f5es coletivas, como corti\u00e7os e casas de c\u00f4modos &#8211; descendentes de escravos, mesti\u00e7os, imigrantes portugueses&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo poder p\u00fablico\u00a0foi simples e impactante\u00a0&#8211; come\u00e7ou o &#8220;bota-abaixo&#8221;, com o sugestivo\u00a0mote de propaganda\u00a0<em>O\u00a0Rio civiliza-se<\/em>. Resultado do furdun\u00e7o: mais de setecentas habita\u00e7\u00f5es coletivas\u00a0 demolidas em curto espa\u00e7o de tempo. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Foi aberta a\u00a0Avenida Central [atual Rio Branco] ; demolido o Largo de S\u00e3o Domingos [para a abertura da Avenida Passos]; demolidas as casas paralelas aos Arcos da Lapa e ao Morro do Senado [para abrir a passagem \u00e0 Avenida Mem de S\u00e1 ]; alargadas as ruas Sete de Setembro e da Carioca; abertas as avenidas Beira Mar e Atl\u00e2ntica e conclu\u00eddo o alargamento da Rua da Vala [atual Uruguaiana].\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A reforma resolvia uma s\u00e9rie de problemas e contradi\u00e7\u00f5es da cidade e gerava uma indaga\u00e7\u00e3o:\u00a0o que fazer com\u00a0os homens e mulheres que os\u00a0governos\u00a0definiam como \u00a0&#8220;elementos das classes perigosas&#8221;,\u00a0habitavam as regi\u00f5es\u00a0centrais e eram obst\u00e1culos \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o da Paris tropical?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A rela\u00e7\u00e3o das elites e do poder p\u00fablico com os pobres era paradoxal.\u00a0Os &#8220;perigosos&#8221;\u00a0maculavam, do ponto de vista da ocupa\u00e7\u00e3o e reordena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita. Ao mesmo tempo,\u00a0falamos\u00a0dos trabalhadores urbanos que sustentavam &#8211; ao realizar o trabalho bra\u00e7al\u00a0que as elites n\u00e3o cogitavam fazer &#8211;\u00a0a viabilidade \u00a0desse mesmo sonho: oper\u00e1rios, empregadas dom\u00e9sticas, seguran\u00e7as, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mec\u00e2nicos, coveiros, floristas, ca\u00e7adores de ratos, desentupidores de bueiros&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os habitantes dos corti\u00e7os eram necess\u00e1rios,\u00a0dentre outras coisas, \u00a0para realizar o\u00a0trabalho bra\u00e7al da demoli\u00e7\u00e3o dos corti\u00e7os.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa popula\u00e7\u00e3o pobre, ao mesmo tempo repelida e necess\u00e1ria, tinha duas op\u00e7\u00f5es &#8211; morar nos sub\u00farbios ou ocupar os morros centrais. A vantagem da ocupa\u00e7\u00e3o dos morros, evidente para os dois lados, era a maior proximidade dos locais de trabalho. Combinamos assim: n\u00e3o t\u00e3o\u00a0perto que possam macular a cidade restaurada e higienizada, n\u00e3o t\u00e3o longe que\u00a0obriguem a madame a realizar os servi\u00e7os dom\u00e9sticos que, poucas d\u00e9cadas antes, eram\u00a0tarefas das mucamas de Sinh\u00e1.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A ocupa\u00e7\u00e3o dos morros retrata, ent\u00e3o, as contradi\u00e7\u00f5es de uma cidade que se pretende moderna e cosmopolita e \u00e9, ao mesmo tempo, marcada pelo esteio ideol\u00f3gico de trezentos anos de trabalho escravo.\u00a0Os\u00a0s\u00e9culos de cativeiro e chibata geraram, pelas bandas de c\u00e1, \u00a0uma brutal desvaloriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os manuais e dos seus praticantes &#8211; os desprovidos de humanidade;\u00a0detentores, por\u00e9m,\u00a0da for\u00e7a de trabalho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desde ent\u00e3o, e ao longo das d\u00e9cadas, praticamente todos os debates sobre o problema das favelas resvala em duas posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas,\u00a0perigosas, inflex\u00edveis e inibidoras do debate sobre as contradi\u00e7\u00f5es apontadas:\u00a0a \u00a0romantiza\u00e7\u00e3o\u00a0permissiva da vida nos morros, como se tudo estivesse muito bem visto assim do alto, \u00a0ou &#8211; o que \u00e9 pior &#8211; \u00a0a criminaliza\u00e7\u00e3o brutal e preconceituosa\u00a0do conjunto de\u00a0seus\u00a0habitantes.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A verdade \u00e9 que pensamos, ao longo dos anos, os morros e as favelas como corpos separados da <em>urb<\/em>e civilizada. As propostas de remo\u00e7\u00e3o &#8211; termo, como bem lembrou o historiador e antrop\u00f3logo\u00a0Marcos Alvito, s\u00f3 utilizado quando se fala de\u00a0 favela, lixo e cad\u00e1ver\u00a0&#8211; esbarram no velho dilema do in\u00edcio do s\u00e9culo XX\u00a0 e nunca foram acompanhadas de uma interven\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e contundente do poder p\u00fablico\u00a0no transporte de massa, de resto o beab\u00e1 de qualquer urbanidade decente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tem muita gente\u00a0que deseja que o pobre more longe, muito longe &#8211; e reveste esse bolo, para conforto de sua boa consci\u00eancia crist\u00e3 conservadora, com\u00a0a confeitaria\u00a0de que temos que afastar os coitados de \u00e1reas de risco. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O outro lado, o discurso permissivo do vale tudo urbano, tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda e resvala na perigosa romantiza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 prec\u00e1rio &#8211; uma mistura de filosofia de esquerda de gr\u00eamio estudantil\u00a0e livros da s\u00e9rie Poliana, a mo\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A solu\u00e7\u00e3o? N\u00e3o sei. Reafirmo o que\u00a0escrevi no in\u00edcio desse arrazoado:\u00a0ouso o diagn\u00f3stico, desconhe\u00e7o a terapia.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Me assomba, por\u00e9m, a impress\u00e3o de que\u00a0\u00a0n\u00e3o conseguimos, ainda, responder\u00a0a velha quest\u00e3o dos tempos do Seu Pereira, marco do padr\u00e3o civilizat\u00f3rio da cidade cosmopolita e da vis\u00e3o de mundo de consider\u00e1vel parcela da popula\u00e7\u00e3o bem alimentada do Rio:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Quem, afinal, preparar\u00e1, na manh\u00e3 do\u00a0dia do ju\u00edzo,\u00a0na hora do pega pra capar, o caf\u00e9 da manh\u00e3 da madame?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span><em>ps: Toda vez que esse papo de remo\u00e7\u00e3o surge, para criar anticorpos contra a confeitaria dos bem pensantes, costumo escutar esse samba\u00e7o-a\u00e7o-a\u00e7o da Em Cima da Hora, de 1984<\/em>:<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/p>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div><\/p>\n<div><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chego pisando manso, j\u00e1 que em geral uso esse\u00a0espa\u00e7o para falar do\u00a0cadinho que me forja, para\u00a0 meter o pitaco nas discuss\u00f5es que envolvem o problemaTour Details<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[292],"tags":[],"class_list":["post-12947","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-brasileiras"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12947\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}