{"id":12932,"date":"2010-05-27T21:52:00","date_gmt":"2010-05-27T23:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/05\/de-goleiros-e-frangos\/"},"modified":"2010-05-27T21:52:00","modified_gmt":"2010-05-27T23:52:00","slug":"de-goleiros-e-frangos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/05\/de-goleiros-e-frangos\/","title":{"rendered":"DE GOLEIROS E FRANGOS"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/S_8CtTQrO1I\/AAAAAAAAA9c\/XxTVHeJZZk8\/s1600\/Em-2008-o-mesmo-frangueiro-de-2007.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" gu=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/Em-2008-o-mesmo-frangueiro-de-2007.jpg\"><\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Albert Camus disse certa vez que nada o ensinou mais na vida do que a experi\u00eancia de ter sido goleiro. Arrematou a reflex\u00e3o com c\u00e9lebre senten\u00e7a: <em>o que eu finalmente mais sei sobre a moral e as obriga\u00e7\u00f5es do homem, devo ao futebol<\/em>.\u00a0Vladimir Nabokov, por sua vez, \u00a0definiu o arqueiro como\u00a0a \u00e1guia solit\u00e1ria, o homem misterioso, o \u00faltimo defensor.<\/p>\n<p>O grande Gilmar dos Santos Neves, goleiro do escrete canarinho campe\u00e3o das copas do mundo de 1958 e 1962, considerava que um dos\u00a0atributos para a forma\u00e7\u00e3o de um bom goleiro era tomar pelo menos um frango inacredit\u00e1vel, de deixar as penosas soltas no ar por um bom tempo. <\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Marcos Carneiro de Mendon\u00e7a, o fitinha roxa, que defendeu o Fluminense e foi o primeiro\u00a0arqueiro da sele\u00e7\u00e3o brasileira &#8211; campe\u00e3o da Copa Roca de 1914 e dos Sul-Americanos de 1919 e 1922 &#8211;\u00a0se gabou durante anos\u00a0de nunca ter falhado. Um dia, feito fil\u00f3sofo\u00a0cartesiano na grande \u00e1rea\u00a0do improv\u00e1vel,\u00a0experimentou o frango.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Marcos acreditava numa tal de teoria da cobertura dos \u00e2ngulos, receita infal\u00edvel para evitar gols. Com toda a teoria a lhe garantir a seguran\u00e7a debaixo da baliza, foi tra\u00eddo pela soberba em um jogo entre o Fluminense e o\u00a0\u00a0Vila Isabel. Em certa altura da peleja, que ia morna,\u00a0o zagueiro Chico Netto atrasou a bola; o\u00a0<em>keeper<\/em> se abaixou desatento e deixou a crian\u00e7a passar por entre seus dedos. Foi o gol que deu a vit\u00f3ria ao Vila e impediu o\u00a0tricolor de ganhar o t\u00edtulo de 1918 invicto. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>Waldir Peres tomou um frango de trag\u00e9dia grega\u00a0na Copa do Mundo de 1982, na vit\u00f3ria do Brasil contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Um\u00a0meia atacante\u00a0sovi\u00e9tico arriscou um chute da intermedi\u00e1ria. Peteleco inofensivo. Waldir preparou-se para a defesa com a confian\u00e7a de um\u00a0jovem operador do mercado financeiro. Se esqueceu apenas\u00a0da bola, que passou caprichosa, feito a mulher\u00a0faceira e inating\u00edvel,\u00a0ao lado do seu corpo. Mais do que um frango, uma granja inteira.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E o que dizer de Moacir Barbosa, o homem mais injusti\u00e7ado desse pa\u00eds? Barbosa, o\u00a0gigante,\u00a0est\u00e1 na\u00a0\u00a0hist\u00f3ria como o \u00a0frangueiro do frango que nem frango foi. Condenado \u00e0 pena de vida, viu o mundo\u00a0ignorar suas defesas milagrosas\u00a0e lembrar apenas do gol de duzentos mil sil\u00eancios.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pois eu digo que o frango \u00e9\u00a0\u00a0a reden\u00e7\u00e3o do futebol e a met\u00e1fora mais poderosa das coisas da vida. \u00c9 a ant\u00edtese do <em>eu sou foda<\/em>, que tantos boleiros\u00a0andam a\u00a0vociferar na comemora\u00e7\u00e3o de um gol. \u00c9 a mais acabada demonstra\u00e7\u00e3o de que o homem\u00a0pode falhar\u00a0sob o peso desgastante da batalha. <\/p>\n<p>O frango\u00a0\u00e9 \u00a0a prova de que debaixo das traves n\u00e3o est\u00e1 a m\u00e1quina, mas o homem humano, aquele da travessia, que n\u00e3o sabe bem se os deuses e os diabos ouviram seu chamado solit\u00e1rio na noite grande. O sert\u00e3o, lugar de todos os desafios, \u00e9 a \u00a0pequena \u00e1rea.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 ele &#8211; trag\u00e9dia do goleiro &#8211;\u00a0a mais bela demonstra\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da fraqueza humana. Certos franga\u00e7os deveriam estar expostos em fotos, v\u00eddeos e pinturas; nos museus, pra\u00e7as e ruas, a nos lembrar: somos fal\u00edveis, camaradas. Pedagogia de bola e gol.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Memento mori<\/em> &#8211; lembra-te que \u00e9s mortal. A sauda\u00e7\u00e3o entre os trapistas crist\u00e3os deveria ser o mote maior do grande goleiro. Cada Marcos Carneiro de Mendon\u00e7a, monumento ao homem infal\u00edvel, deveria ter ao seu lado um zagueiro que, a cada defesa, cochicharia:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; <em>Memento mori<\/em>. \u00c9s apenas um mortal. Vem a\u00ed o pr\u00f3ximo chute, e outro, e outro&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 por isso que,\u00a0dado a\u00a0engolir\u00a0uns\u00a0gols inacredit\u00e1veis de quando em vez, execro os que ficam gritando que s\u00e3o fodas e elevo essa prece pag\u00e3 a todos os goleiros da hist\u00f3ria do futebol que tenham, entre prod\u00edgios debaixo das traves,\u00a0tomado\u00a0seus frangos. <\/p>\n<p>\u00c9 redentor que cada homem, ao menos uma vez na vida, tenha a plena consci\u00eancia de sua humanidade e grite aos maracan\u00e3s lotados de paix\u00e3o e \u00a0mundo:<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Eu sou um fodido!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00e3o esses que entrar\u00e3o no reino dos c\u00e9us, onde certamente haver\u00e1 grama verde,\u00a0traves, chuteiras, luvas e bolas.<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Albert Camus disse certa vez que nada o ensinou mais na vida do que a experi\u00eancia de ter sido goleiro. 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