{"id":12929,"date":"2010-06-03T21:02:00","date_gmt":"2010-06-03T23:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/06\/nascimento-grande-um-passarinho\/"},"modified":"2010-06-03T21:02:00","modified_gmt":"2010-06-03T23:02:00","slug":"nascimento-grande-um-passarinho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/2010\/06\/nascimento-grande-um-passarinho\/","title":{"rendered":"NASCIMENTO GRANDE, UM PASSARINHO&#8230;"},"content":{"rendered":"<div>At\u00e9 as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem\u00a0que o mundo anda da p\u00e1 virada. Um dos sinais inequ\u00edvocos do fim dos tempos\u00a0\u00e9 a morte do valente honrado, do porradeiro gentil-homem, do cavaleiro andante,\u00a0do peleador leal. N\u00e3o existem mais\u00a0sujeitos como\u00a0Nascimento Grande &#8211; homens que mereceram loas tecidas\u00a0nas chulas de capoeira e nos gemidos dos urucongos.<\/div>\n<div>Morreu\u00a0o valente rom\u00e2ntico; vivemos a era dos covardes, do anonimato de mach\u00f5es virtuais que ficam se escondendo e se\u00a0xingando pela internet, dos bund\u00f5es que armam as maiores pancadarias em portas de boates e est\u00e1dios de futebol com a f\u00faria insana dos falsos apaches de filmes de faroeste. Nenhum deles\u00a0merece limpar o coc\u00f4 de Nascimento Grande, o\u00a0cabra mais arretado\u00a0que passou por esse mundo velho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A descri\u00e7\u00e3o que Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo faz de Nascimento \u00e9 fenomenal. Acompanhem s\u00f3:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>De alta estatura, corpulento, chegando aos 130 quilos, moren\u00e3o, bigodes longos, muito cort\u00eas e maneiroso, usava invari\u00e1vel chapel\u00e3o desabado, capa de borracha dobrada no bra\u00e7o e a c\u00e9lebre bengala de quinze quilos, manejada como se pesasse quinze gramas e que ele chamava a volta. Uma bengalada derribava um homem, duas desacordavam e tr\u00eas matavam.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Me permitam\u00a0explicar melhor quem foi essa figura extraordin\u00e1ria. Chamava-se Jos\u00e9 Ant\u00f4nio do Nascimento e era o mais afamado valente do Recife na entrada do s\u00e9culo XX. Trabalhava na estiva e, segundo relatos,\u00a0levantava cargas absolutamente insanas, daquelas de matar com a t\u00edsica os maiores fort\u00f5es. Perto do peso que Nascimento Grande era capaz de carregar, os\u00a0doze trabalhos de H\u00e9rcules adquirem a dramaticidade de um piquenique na Pedra da Moreninha.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nunca implicou com ningu\u00e9m. Jamais provocou uma porrada. De conduta ilibada e honestidade comovente, versado nos segredos do jogo de angola, s\u00f3 sa\u00eda no cacete em leg\u00edtima defesa. Como era uma fortaleza, costumava ser desafiado por malandros de todos os tipos, proxenetas de quinta categoria, sibaritas de botequim e mestres de capoeira, que sabiam da fama reservada a algu\u00e9m que conseguisse meter-lhe a porrada. Nunca aconteceu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Meu av\u00f4, que era pernambucano de boa pipa, contava coisas absolutamente espantosas sobre Nascimento Grande e guardava como rel\u00edquia um cordel chamado <em>Vida de Nascimento Grande, o Homem do Pulso de<\/em> <em>Ferro<\/em>. N\u00f3s, os netos, ouv\u00edamos extasiados os feitos do cicl\u00f3pico personagem. Toda vez que escutava algum relato envolvendo cenas de for\u00e7a e valentia, o velho afirmava: <em>Valente mesmo s\u00f3 teve um, o\u00a0Nascimento Grande. E era educad\u00edssimo.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_OmnJuwB8hy0\/TAgzq-8d-cI\/AAAAAAAAA-U\/qUg2ciH2e1k\/s1600\/capoeira_art.jpg\" imageanchor=\"1\"><img decoding=\"async\" border=\"0\" gu=\"true\" src=\"http:\/\/www.pedromigao.com.br\/ourodetolo\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/capoeira_art.jpg\"><\/a><\/div>\n<p>Conhe\u00e7o in\u00fameras hist\u00f3rias desse gigante. A que\u00a0mais me impressiona se refere a um ataque que sofreu em Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, de um cabra perigoso, tremendo fac\u00ednora e homicida desde o ber\u00e7\u00e1rio. Corre-Hoje, essa era a alcunha do\u00a0ferrabr\u00e1s,\u00a0atacou Nascimento Grande auxiliado por sete comparsas. Pra que? Nascimento Grande bateu nos sete e mandou o Corre-Hoje comer o capim pela raiz, com o pijama de madeira abotoado nos trinques. <\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Diante do p\u00e2nico dos que assistiam \u00e0 cena, que incluiu os inevit\u00e1veis desmaios das mulheres, Nascimento Grande colocou o corpo do meliante em um banco, acendeu velas e velou, rezando contrito, a alma do morto at\u00e9 a chegada da pol\u00edcia. Exigiu que Corre-Hoje tivesse um vel\u00f3rio crist\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em certa feita foi, j\u00e1 bem coroa, provocado por um\u00a0safardana chamado Paj\u00e9u, metido a capoeirista e dado a bater em mulher \u2013 coisa que causava asco absoluto\u00a0em nosso personagem. Pois o tal do Paj\u00e9u apanhou mais do que boi ladr\u00e3o. N\u00e3o contente com a co\u00e7a, Nascimento Grande obrigou o cabra a colocar uma saia de mulher e desfilar pelas ruas do Recife Velho.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em viagem ao Rio de Janeiro, o gigante pernambucano mandou para a cidade do p\u00e9 junto o legend\u00e1rio capoeirista Camisa Preta, bambamb\u00e3 da velha Lapa e personagem at\u00e9 de samba de Wilson Batista, que o desafiara para um combate de morte com as provoca\u00e7\u00f5es mais descabidas. Nascimento Grande\u00a0mandou Camisa Preta\u00a0dar a volta ao mundo\u00a0no Orum.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todos os que conheceram Nascimento Grande\u00a0falam dele como um gentil-homem, alma de passarinho\u00a0naquele corpanzil todo. Chorava capibaribes de l\u00e1grimas quando ouvia alguma hist\u00f3ria de maus tratos a crian\u00e7as. <\/div>\n<div><\/div>\n<div>O\u00a0\u00faltimo dos valentes, sabedor dos mist\u00e9rios da ginga,\u00a0tinha o cora\u00e7\u00e3o do tamanho da praia da Boa Viagem.<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem\u00a0que o mundo anda da p\u00e1 virada. 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